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O Labirinto de Seda e Silêncio
A cobertura de Emanuel estava mergulhada em uma penumbra luxuosa, iluminada apenas pelo brilho âmbar das luzes da cidade que se filtravam pelas imensas janelas de vidro. O som de um jazz suave flutuava pelo ambiente, misturando-se ao tilintar do gelo no cristal. Emanuel estava sentado no sofá de couro italiano, observando Sara.
Ela estava deslumbrante. Usava um robe de seda preta que se abria estrategicamente a cada movimento, revelando a pele bronzeada e as curvas que Emanuel conhecia tão bem. Sara não era apenas sua namorada e administradora; ela era a personificação da eficiência e do desejo. Após o confronto tenso na sex shop com a tia de Eduarda, Sara decidira que Emanuel precisava de uma "recalibragem".
— Esqueça o drama daquela garotinha por uma noite, Manu — disse Sara, aproximando-se com duas taças de vinho. Ela se acomodou entre as pernas dele, encostando as costas em seu peito. — Você trabalhou demais, viajou demais e aguentou desaforos demais daquela família retrógrada.
Emanuel passou as mãos pelos ombros de Sara, sentindo a firmeza de seus músculos e a maciez da pele.
— Você sempre sabe o que dizer, Sara — murmurou ele, enterrando o rosto no pescoço dela, inalando o perfume caro e marcante que ela usava.
— Eu não apenas sei o que dizer, eu sei o que fazer — ela se virou, ficando de frente para ele, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade predatória. — Eu sou a mulher que está aqui, Emanuel. Sem joguinhos, sem proibições de pais, sem traumas de infância. Eu sou sua sócia, sua amante e sua igual.
O beijo que se seguiu foi faminto, uma afirmação de posse. Com Sara, não havia necessidade de delicadeza excessiva ou de medir palavras. Eles se entendiam no campo da ambição e da carne. Naquela noite, Emanuel se deixou levar pela tempestade que era Sara, tentando abafar o eco da voz de Eduarda que ainda insistia em ressoar em sua mente. Foi uma noite de luxúria e reafirmação, onde o controle que ele tanto prezava parecia, por fim, restaurado.
No entanto, o amanhecer trouxe consigo a realidade fria. Enquanto Sara dormia profundamente, a imagem de Eduarda na loja, sob a influência da tia Letícia, voltou a assombrá-lo. Emanuel sentia que estava perdendo o fio de seda que o ligava à sua namorada mais jovem.
***
Nos dias que se seguiram, Eduarda tornou-se um fantasma. Ela não atendia às ligações de Emanuel e respondia às mensagens com uma polidez gélida que o deixava à beira de um ataque de nervos. Ela voltara para a casa dos pais e, segundo as poucas informações que ele conseguia, estava mergulhada nos estudos e nas saídas com a tia.
Emanuel não aguentou mais. Na quinta-feira à tarde, ele estacionou seu SUV em frente à faculdade de História da Arte. Ele sabia exatamente a hora que ela saía. Quando a viu atravessar o portão, parecendo pequena e frágil com uma pasta de desenhos debaixo do braço, seu coração apertou. Ela usava um vestido azul claro e tinha os cabelos presos em um coque frouxo, alguns fios caindo sobre o rosto de forma adorável.
Ele saiu do carro e interceptou o caminho dela.
— Duda. Precisamos conversar.
Ela parou abruptamente, os olhos castanhos arregalados. Por um segundo, ele viu a alegria do reencontro brilhar ali, mas logo foi substituída por uma mágoa profunda. Ela desviou o olhar, abraçando a pasta de desenhos contra o peito.
— Eu tenho aula agora, Emanuel. Ou melhor, tenho que ir para a biblioteca.
— Não, você não tem. Eu olhei sua grade. Você está livre — ele deu um passo à frente, tentando tocar o braço dela, mas ela recuou. — Por que você está fugindo de mim?
— Eu não estou fugindo — disse ela, a voz trêmula, carregada daquela manha que sempre indicava que ela estava prestes a chorar. — Eu só estou dando o espaço que você pareceu querer tanto quando foi para Milão e me esqueceu aqui.
— Eu não te esqueci, Eduarda! Eu estava trabalhando, estava sob pressão...
— E estava com a Sara — ela o interrompeu, finalmente olhando em seus olhos. — Você sempre tem a Sara. Ela é perfeita, não é? Ela entende seus negócios, ela viaja com você, ela não tem um pai que a proíbe de nada. Eu sou só... a boneca que você quer guardar na caixa quando volta de viagem.
— Isso não é verdade — Emanuel suavizou o tom, percebendo que a agressividade só a afastaria mais. — Eu sinto sua falta, pequena. A casa não é a mesma sem você. Eu quero que você more comigo, eu já te disse isso.
Eduarda soltou um suspiro trêmulo, os ombros caindo. A resistência dela estava começando a ruir diante da presença física dele.
— Meu pai nunca vai deixar, Manu. E depois do que a tia Letícia disse... eu comecei a pensar que talvez ele tenha razão em querer me proteger. Você é muito forte, e às vezes eu sinto que vou sumir perto de você.
— Eu nunca deixaria você sumir — ele deu mais um passo, desta vez conseguindo segurar as mãos dela. Estavam geladas. — Vem comigo. Só por uma hora. Vamos tomar um café, conversar como gente normal. Por favor, Duda. Não aguento mais esse silêncio entre nós.
Ela hesitou, olhando para o carro e depois para ele. A necessidade de afeto e a dependência emocional que ela nutria por Emanuel falaram mais alto.
— Só uma hora — ela cedeu, a voz sumindo.
Emanuel a levou a uma cafeteria reservada, longe do burburinho da faculdade. Sentados em um canto discreto, o silêncio entre eles era denso. Eduarda mexia em seu chocolate quente com uma colherinha, sem coragem de tomar um gole.
— A sua tia... ela colocou ideias estranhas na sua cabeça — começou Emanuel, tentando sondar o terreno.
— Ela só me mostrou que eu posso ter vontade própria, Manu — Eduarda respondeu, sem levantar a cabeça. — Ela me levou para conhecer lugares que eu nunca imaginei. Ela diz que eu sou jovem e que não deveria estar presa a um homem que quer me controlar como se eu fosse uma das suas empresas.
Emanuel sentiu a mandíbula travar.
— Eu não te controlo, Eduarda. Eu cuido de você. Há uma diferença.
— Às vezes parece a mesma coisa — ela sussurrou. — Você ficou bravo porque eu fui ao cemitério com a faculdade. Você ficou bravo porque eu não pude ir para a Itália. Você está sempre bravo quando as coisas não são do seu jeito.
— Eu fico bravo porque eu te amo e quero você perto de mim! — ele exclamou, fazendo algumas pessoas nas mesas próximas olharem. Ele baixou a voz. — Eu sinto que você está escapando por entre os meus dedos, Duda. E eu não sei lidar com isso.
Eduarda finalmente levantou os olhos. Eles estavam marejados.
— Eu não quero escapar, Manu. Mas eu estou magoada. Você me deixou sozinha. Você foi embora com ela e nem sequer me mandou um "bom dia" por dias seguidos. Você sabe como eu sou sensível... eu me senti descartada.
Ela começou a chorar silenciosamente, as lágrimas escorrendo por suas bochechas pálidas. Ver Eduarda naquele estado de fragilidade e manha era o ponto fraco de Emanuel. Toda a sua fúria e desejo de controle evaporaram, dando lugar a um instinto protetor avassalador.
Ele se levantou, contornou a mesa e sentou-se ao lado dela, puxando-a para um abraço apertado. Eduarda resistiu por dois segundos antes de se entregar, escondendo o rosto no pescoço dele e soluçando baixinho.
— Shhh... me desculpa, pequena. Eu fui um idiota — ele beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de shampoo de flores. — Eu estava estressado, a Sara estava me pressionando com os contratos... eu descontei em você e foi errado.
— Você sempre coloca a culpa no trabalho — ela disse entre soluços, a voz abafada contra a camisa dele. — Mas a verdade é que você gosta da vida que tem com ela. Uma vida onde eu não caibo.
— Você cabe em todos os lugares da minha vida, Duda. Eu só preciso que você confie em mim.
Ele a afastou um pouco, segurando seu rosto com as duas mãos. Com os polegares, limpou as lágrimas dela.
— Eu vou falar com o seu pai de novo. De uma forma diferente. Eu vou mostrar para ele que você vai estar segura comigo. Mas você tem que parar de fugir de mim. Isso me mata.
Eduarda olhou para ele, a expressão manhosa e carente.
— Você promete que não vai mais me tratar mal? Mesmo se eu não puder fazer tudo o que você quer?
— Eu prometo que vou tentar ser mais paciente — ele sorriu de canto, um sorriso raro e sincero. — Mas você sabe que sou um homem difícil, pequena.
— Eu sei — ela deu um sorrisinho triste. — E eu sou uma boba por gostar tanto de você.
Emanuel a beijou. Foi um beijo suave, casto, o oposto da agressividade que tivera com Sara na noite anterior. Com Eduarda, ele sentia que precisava ser um santuário, um protetor. Ela despertava nele uma vulnerabilidade que ele detestava, mas da qual não conseguia abrir mão.
— Vamos, eu te levo para casa — disse ele, levantando-se e ajudando-a com a pasta.
— Meu pai vai estar lá — ela avisou, preocupada.
— Eu não me importo. Eu só quero garantir que você chegue bem.
O trajeto até a casa de Eduarda foi mais leve, embora a tensão ainda pairasse no ar. Quando pararam em frente ao portão, Eduarda hesitou antes de sair.
— Manu?
— Oi?
— A tia Letícia quer organizar um jantar. Ela disse que quer "conhecer melhor" você e a Sara em um ambiente neutro.
Emanuel sentiu um calafrio. Conhecer Letícia melhor parecia um convite para entrar em um campo minado.
— Eu não sei se isso é uma boa ideia, Duda. A Sara e ela não se bicaram nem um pouco.
— Por favor? — Eduarda fez um biquinho, usando toda a sua manha. — Ela disse que, se você for, ela ajuda a convencer o papai a me deixar passar os fins de semana na sua casa. Ela tem muita influência sobre ele, eles são irmãos muito ligados.
Emanuel ponderou. O prêmio — ter Eduarda em sua casa, mesmo que apenas nos fins de semana — era tentador demais para recusar.
— Tudo bem. Eu vou falar com a Sara. Mas não garanto que ela vá se comportar.
— Obrigada, Manu! — Eduarda se inclinou e deu um beijo rápido nos lábios dele antes de sair do carro e correr para dentro de casa.
Emanuel ficou observando-a entrar, um misto de satisfação e ansiedade o dominando. Ele conseguira trazer Eduarda de volta para sua órbita, mas o preço parecia ser aceitar o jogo de Letícia.
Ao chegar em casa, encontrou Sara na sala, revisando alguns documentos no notebook. Ela levantou os olhos e, com sua intuição afiada, percebeu imediatamente o que havia acontecido.
— Você a encontrou, não foi? — Sara perguntou, fechando o aparelho.
— Encontrei. Conversamos.
— E ela usou aquela carinha de choro e aqueles olhinhos de cachorrinho abandonado para te fazer esquecer que ela te ignorou por uma semana? — Sara se levantou, caminhando até ele com um sorriso irônico. — Você é tão previsível, Emanuel.
— Ela é minha namorada, Sara. Assim como você. Eu não vou desistir dela.
— Eu não pedi para você desistir. Só estou observando como ela te manipula através da fraqueza, enquanto eu te fortaleço através da realidade.
Emanuel suspirou, sentando-se e contando sobre o convite de Letícia. Sara soltou uma gargalhada alta e sarcástica.
— Um jantar com a "Tia Furacão"? Ah, isso eu não perco por nada no mundo. Vai ser um prazer mostrar para aquela mulher que não se brinca com o que é meu.
— Sara, eu quero que isso funcione. Quero a Eduarda morando aqui, nem que seja parte do tempo. Então, por favor, tente não incendiar o restaurante.
Sara aproximou-se dele, sentando-se em seu colo e passando os braços pelo seu pescoço, exatamente como Eduarda fizera horas antes, mas com uma energia completamente diferente.
— Eu não prometo nada, querido. Mas se o objetivo é trazer a bonequinha para morar conosco, eu farei o meu papel. Afinal, eu também sinto falta de ter alguém para organizar a biblioteca e trazer um pouco de... "doçura" para esta casa. Mesmo que eu tenha que ensinar a ela quem é que manda aqui de verdade.
Emanuel fechou os olhos, sentindo-se puxado em duas direções opostas. Ele tinha Sara, a força e a competência ao seu lado. Tinha Eduarda, a paz e a doçura que ele desejava proteger. Mas entre as duas, havia agora a sombra de Letícia e a crescente vontade de Eduarda de ser algo mais do que apenas uma protegida.
A noite caiu sobre a cidade, e Emanuel, deitado entre os lençóis com Sara, não conseguia deixar de pensar que o jantar que se aproximava seria o início de uma batalha que ele talvez não soubesse como vencer. Ele queria as duas. Queria o controle. Mas o coração de Eduarda estava começando a bater em um ritmo que ele não conseguia mais ditar sozinho.
— Durma, Manu — sussurrou Sara no escuro. — Amanhã o mundo ainda será seu.
Mas Emanuel, pela primeira vez, não tinha tanta certeza disso. O silêncio de Eduarda fora quebrado, mas a mágoa dela ainda flutuava como uma névoa, lembrando-o de que o afeto é a única coisa que o dinheiro e o poder não podem tatuar permanentemente na alma de ninguém.