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O Banquete das Máscaras e a Dança do Caos

O restaurante escolhido por Letícia era um daqueles lugares em São Paulo onde o endereço não está na fachada e a reserva exige meses de antecedência ou um sobrenome de peso. O ambiente era decorado com veludo carmesim, iluminação indireta e um aroma de trufas que parecia impregnar as paredes. Emanuel sentia-se estranhamente exposto. Ele, que costumava dominar qualquer ambiente com sua presença silenciosa e autoritária, sentia que o terreno ali era movediço.

Ao seu lado, Sara exibia uma quietude atípica. Ela usava um vestido dourado metálico, curto e justo, que em qualquer outro lugar seria o centro das atenções. No entanto, desde que se sentaram à mesa, Sara parecia ter encontrado seu par em termos de presença. Letícia, a tia de Eduarda, estava sentada à cabeceira, usando um terno de seda branca sem nada por baixo do paletó, exibindo um decote profundo e uma joia de esmeralda que parecia brilhar com luz própria. A aura de Letícia não era apenas de riqueza, mas de uma liberdade selvagem que fazia a vulgaridade calculada de Sara parecer, pela primeira vez, comum.

Eduarda estava sentada entre a tia e Emanuel. Ela usava um vestido de seda rosa pálido, o olhar baixo, mas havia um brilho diferente em seus olhos castanhos. Ela não parecia mais a vítima acuada; parecia uma espectadora interessada em um espetáculo de gladiadores.

— Emanuel, querido — Letícia começou, girando sua taça de vinho tinto com uma elegância quase felina —, eu confesso que estava ansiosa por este momento. Eduarda fala de você como se você fosse um deus grego que desceu do Olimpo para tatuar mortais. Mas, olhando de perto... você parece apenas um homem muito tenso.

Emanuel apertou o cabo do garfo, mantendo a voz nivelada.

— Eu levo minha vida e meus relacionamentos com seriedade, Letícia. Talvez a seriedade seja confundida com tensão por quem vive de forma... leve demais.

— Leve demais? — Ela soltou uma risada que fez alguns clientes das mesas próximas se virarem. — Ah, não se engane. Ser livre dá um trabalho danado. Exige coragem. Algo que, pelo que vejo, você tenta podar na minha sobrinha.

— Eu não podo a Eduarda — Emanuel retrucou, lançando um olhar possessivo para a namorada. — Eu a protejo de um mundo que não tem filtros.

— O mundo não tem filtros, Emanuel, mas a vida também não — Letícia inclinou-se para frente, ignorando Sara completamente, o que estava deixando a loira visivelmente irritada. — E proteção em excesso vira cárcere. Duda me contou que você ficou furioso por causa de uma aula no cemitério. Um cemitério! É arte, é história. Você lida com agulhas e sangue, mas tem medo de mármore e silêncio?

Eduarda deu um pequeno gole em sua água, escondendo um sorriso atrás do copo. Ela nunca vira ninguém enfrentar Emanuel daquela forma, com tanta propriedade e deboche.

— O problema não era o local, mas a segurança dela — Emanuel tentou se defender, sentindo o suor frio na nuca.

— Segurança — Letícia repetiu a palavra como se fosse um gosto amargo. — Você quer dizer controle. Mas hoje não vamos falar de túmulos. Vamos falar de vida.

Sara, que até então estava apenas observando, resolveu marcar seu território. Ela colocou a mão sobre a de Emanuel, os anéis de diamante brilhando sob a luz fraca.

— Letícia, entendo que você queira ser a tia moderna, mas o Emanuel construiu um império. Ele sabe o que é melhor para quem está sob a asa dele. A Eduarda é sensível, ela precisa de estrutura. Coisa que eu ajudo a administrar, tanto nos negócios quanto na vida pessoal dele.

Letícia finalmente olhou para Sara. Não foi um olhar de raiva, mas de uma curiosidade quase antropológica.

— Você é muito eficiente, Sara. Consigo ver isso. Mas você é a parceira de negócios. A Duda é o coração. E corações, ao contrário de planilhas, precisam de espaço para bater fora do ritmo que você e o Emanuel impõem.

— O jantar está excelente — Eduarda interrompeu, tentando suavizar o clima, embora seus olhos brilhassem com a provocação da tia. — Manu, você deveria provar o risoto.

— Eu não vim aqui para comer risoto, Eduarda — Emanuel disse, a voz ficando mais rouca. — Eu vim aqui porque me prometeram que isso ajudaria na nossa convivência e na sua mudança para a minha casa.

Letícia sorriu, um sorriso que Emanuel aprendeu a temer naquela última hora.

— E vai ajudar. Eu tenho uma influência enorme sobre o Ricardo. Ele me escuta porque eu sou a única que diz as verdades que ele não quer ouvir. Mas, para eu dar meu aval, preciso saber se você é capaz de lidar com a Eduarda de verdade, e não com a versão "boneca de porcelana" que você criou.

— O que isso significa? — perguntou Emanuel.

Letícia recostou-se na cadeira, cruzando as pernas com um movimento fluido.

— Significa que amanhã à noite, eu vou levar a Eduarda para sair. Só nós duas. E não vai ser para um museu.

Emanuel sentiu o sangue subir.

— Ela tem aulas e...

— Ela não tem aulas no sábado à noite — Letícia cortou-o. — Eu vou levá-la a um lugar especial. Um cabaré. Mas não um desses lugares vulgares que você deve imaginar, Emanuel. Um cabaré de verdade, à moda antiga. Shows burlescos, poesia, cultura underground, expressão corporal. É um lugar de libertação artística.

Emanuel quase engasgou com o vinho. Ele olhou para Eduarda, esperando que ela protestasse, mas ela apenas mordeu o lábio inferior, parecendo fascinada pela ideia.

— De jeito nenhum — Emanuel sentenciou, a autoridade voltando com força total. — A Eduarda não vai a um cabaré. Isso é fora de questão.

— Por que, Manu? — Eduarda perguntou, a voz manhosa, mas com um toque de desafio. — A tia disse que é lindo. Que as roupas são obras de arte e que as apresentações são sobre o empoderamento feminino.

— É um ambiente impróprio para você, Duda. Você é jovem, ingênua...

— Ela tem vinte anos, Emanuel! — Letícia exclamou, batendo levemente com a mão na mesa. — Se você a impedir de ir, eu vou ligar para o Ricardo agora mesmo e contar que você a está pressionando a morar com você em um ambiente pecaminoso com outra mulher. Vou dizer que você é um tirano que não respeita a individualidade dela. E você sabe que, se eu disser isso, o Ricardo tira a Duda de você antes do amanhecer.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara olhava de Letícia para Emanuel, surpresa por encontrar alguém que jogava tão sujo quanto ela, mas com muito mais classe. Emanuel sentia-se encurralado. Letícia tinha o poder de destruir seus planos com um único telefonema.

— Você está me chantageando? — Emanuel perguntou, os olhos faiscando.

— Estou testando você — Letícia respondeu calmamente. — Quero ver até onde você vai pela felicidade da Eduarda. Se você confia nela, ou se o seu amor é apenas uma forma de propriedade. Se você deixar ela ir, eu garanto que convenço o Ricardo a deixá-la passar os fins de semana na sua cobertura. É uma troca justa, não acha?

Emanuel olhou para Eduarda. Ela parecia uma criança esperando permissão para abrir um presente de Natal, mas havia algo mais profundo ali. Ela queria ir. Ela queria ver o mundo que Letícia estava lhe apresentando.

— Tudo bem — Emanuel disse, as palavras saindo como se fossem pedras. — Ela vai. Mas eu vou junto.

— Ah, não — Letícia riu. — De jeito nenhum. Homens como você estragam o clima desse tipo de lugar. Você ficaria vigiando cada respiração dela, pronto para cobri-la com o seu paletó ao primeiro sinal de pele à mostra. Amanhã é noite de garotas. Você e a Sara podem aproveitar a cobertura sozinhos.

Sara, sentindo que estava sendo ofuscada pela tia de Eduarda, tentou intervir uma última vez.

— Isso é ridículo. Emanuel, você não pode permitir que ela seja levada para um lugar desses por uma mulher que claramente não tem limites.

Letícia olhou para Sara com um desdém gelado.

— Limites são para pessoas que têm medo de se perder, Sara. Eu já me encontrei há muito tempo. E a Eduarda está apenas começando a busca. Você deveria se preocupar menos com o que eu faço e mais com o fato de que, em uma hora de jantar, você não conseguiu dizer nada que fosse mais interessante do que o preço das suas joias.

Sara abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram em sua garganta. A presença de Letícia era avassaladora, uma força da natureza que não deixava espaço para a arrogância comum de Sara.

— Então está decidido — Letícia levantou a taça. — Um brinde à liberdade da Duda. E à paciência do Emanuel, que terá que aprender que pássaros bonitos não foram feitos para gaiolas, mesmo que as gaiolas sejam coberturas de luxo com vista para a cidade.

Emanuel não brindou. Ele apenas observou Eduarda tocar a taça da tia, um sorriso tímido iluminando seu rosto. Ele sentia que estava perdendo o controle, que o labirinto de seda que ele construíra estava sendo rasgado por Letícia.

***

O resto do jantar foi uma tortura para Emanuel. Letícia falava sobre suas viagens, sobre artistas plásticos que Emanuel conhecia mas nunca entendia a fundo, e sobre como a vida era um banquete para quem tinha estômago para a verdade. Eduarda ouvia tudo hipnotizada, ocasionalmente lançando olhares de desculpa para Emanuel, mas sem recuar em sua empolgação.

Quando finalmente saíram do restaurante, o ar da noite paulistana parecia mais pesado. Emanuel caminhou até o carro de Letícia, um conversível vintage que combinava perfeitamente com ela.

— Amanhã, às oito — Letícia disse, entrando no carro. — Não se preocupe, Emanuel. Eu a trarei de volta inteira. Talvez um pouco menos "manhosa", mas inteira.

Eduarda aproximou-se de Emanuel e deu-lhe um beijo casto na bochecha.

— Não fica bravo, Manu. Eu te amo. Só quero ver como é.

— Eu também te amo, pequena — ele sussurrou, segurando-a pelos ombros. — Só tome cuidado. Por favor.

Ele observou o carro de Letícia arrancar, o som do motor ecoando pela rua deserta. Sara parou ao lado dele, os braços cruzados sobre o peito.

— Aquela mulher é um perigo, Emanuel — disse Sara, a voz destilando uma inveja que ela tentava disfarçar de preocupação. — Ela vai transformar a Eduarda em algo que você não vai conseguir controlar.

— Eu sei — Emanuel respondeu, a voz carregada de uma fadiga existencial. — Mas se eu não deixar, eu a perco para o pai dela. E se eu deixar... talvez eu a perca para o mundo.

— Você ainda tem a mim — Sara lembrou, encostando-se nele.

Emanuel olhou para Sara. Ela era constante, era segura, era sua parceira. Mas ele percebeu, com um aperto no peito, que o que ele sentia por Eduarda era uma doença para a qual ele não queria cura. E Letícia acabara de expor a ferida.

***

No dia seguinte, a tensão na cobertura era palpável. Emanuel não conseguia se concentrar em nada. Sara tentava distraí-lo com relatórios e propostas de novos estúdios em Miami, mas ele apenas olhava para o relógio.

Enquanto isso, na casa dos pais, Eduarda estava no auge de uma transformação silenciosa. Letícia chegara cedo com várias sacolas de compras.

— Nada de rosa pálido hoje, Duda — disse a tia, jogando um conjunto de lingerie de renda preta e um vestido de cetim cor de vinho sobre a cama. — Hoje você vai descobrir que a sua beleza não é apenas doce. Ela é poderosa.

— A tia... o Manu vai ter um ataque se me vir assim.

— O Emanuel vai ter que aprender a te ver como uma mulher, não como uma extensão do ego dele. Agora, coloque isso. Vamos fazer uma maquiagem que destaque esses seus olhos expressivos.

Horas depois, quando o sol já havia se posto, Emanuel recebeu uma foto no celular. Era Eduarda. Ela estava deslumbrante, com os lábios pintados de um vermelho escuro, os cabelos soltos em ondas selvagens e um olhar que ele nunca vira antes — um olhar de quem estava prestes a descobrir um segredo.

A legenda dizia apenas: "Indo para o Cabaré das Rosas. Não me espere acordado."

Emanuel jogou o celular contra o sofá.

— Ela está fazendo isso de propósito — rosnou ele.

Sara, que bebia um dry martini, deu de ombros.

— A tia dela é brilhante, tenho que admitir. Ela sabe exatamente onde te ferir, Emanuel. Ela está usando a Eduarda como uma arma contra o seu controle.

— Eu vou até lá — Emanuel decidiu, pegando as chaves do carro.

— Se você for, você perde a Eduarda para sempre — Sara disse, a voz fria e racional. — Você prometeu. E a Letícia vai cumprir a ameaça de falar com o Ricardo. Senta aí, Emanuel. Bebe comigo. Deixa ela ver o que tem que ver. No final da noite, ela vai voltar correndo para o seu colo porque o mundo lá fora é assustador demais para alguém como ela.

Emanuel parou no meio da sala. Sara tinha razão? Eduarda voltaria? Ou a "boneca de porcelana" descobriria que gostava de ser de ferro?

Enquanto isso, no Cabaré das Rosas, Eduarda entrava em um mundo de luzes vermelhas, fumaça de incenso e música de cabaré. Letícia a guiava pela mão, apresentando-a a artistas, poetas e mulheres que usavam seus corpos como manifestos políticos e artísticos.

— Veja, Duda — Letícia sussurrou em seu ouvido enquanto uma dançarina burlesca começava uma performance elegante no palco central. — Ela não está se despindo para os homens. Ela está se despindo da vergonha. É isso que eu quero que você entenda. Você pode ser doce e sensual ao mesmo tempo. Pode ser do Emanuel, mas tem que ser sua primeiro.

Eduarda sentia o coração bater no ritmo da música. Ela via a força daquelas mulheres e, pela primeira vez, sentiu que a proteção de Emanuel era, na verdade, uma venda em seus olhos. Ela se divertia, ria com os comentários ácidos da tia e, por um momento, esqueceu-se das regras do pai e do ciúme do namorado.

No entanto, no fundo de sua mente, a imagem de Emanuel ainda persistia. Ela o amava, mas agora esse amor vinha acompanhado de um novo questionamento.

De volta à cobertura, Emanuel estava diante da janela, observando o horizonte de São Paulo. Ele se sentia um rei cujo trono estava sendo ameaçado por um furacão chamado Letícia. Ao seu lado, Sara era a rainha consorte, fiel e implacável, mas ele sabia que o que o mantinha vivo era a busca pela doçura de Eduarda.

— Ela vai mudar, Sara — Emanuel disse, sem se virar.

— Todos mudam, Emanuel. A questão é se você vai conseguir mudar com ela, ou se vai tentar quebrá-la para que ela volte a caber na sua caixa.

Emanuel não respondeu. Ele apenas esperou. Esperou pela mensagem que diria que ela estava voltando. Esperou pelo momento em que teria que enfrentar Letícia novamente. E, acima de tudo, esperou para ver se a Eduarda que voltaria para seus braços ainda seria a sua "pequena boneca", ou se ele teria que aprender a amar uma mulher que agora conhecia o caminho para o cabaré e para a própria liberdade.

A noite estava apenas começando, e o caos semeado por Letícia no jantar estava florescendo em um jardim de incertezas que mudaria a dinâmica daquele trio para sempre. Emanuel queria as duas mulheres sob seu teto, mas percebeu que, para ter Eduarda, ele teria que abrir as portas que ele mesmo havia trancado. E o medo de que ela saísse por aquelas portas e nunca mais voltasse era a única coisa que o dinheiro e o poder não podiam tatuar como uma vitória.