D
O Peso do Mundo de Vidro
A atmosfera na cobertura de Emanuel estava carregada com o aroma de perfume caro e o som metálico de abotoaduras sendo ajustadas. O espelho do closet refletia um homem que exalava poder: o terno sob medida, em um tom de cinza grafite quase negro, abraçava os ombros largos de Emanuel, enquanto suas mãos, adornadas com anéis de prata e tatuagens que subiam pelos punhos, terminavam de dar o nó perfeito na gravata.
Era o aniversário de quarenta anos de Marco, um dos seus sócios mais antigos e influentes no mercado imobiliário europeu. O evento não era apenas uma festa; era uma vitrine. E Emanuel, como sempre, queria exibir sua melhor face. Ou, neste caso, suas duas melhores faces.
Sara já estava pronta. Ela circulava pela sala de estar como uma pantera em um vestido de lantejoulas douradas que desafiava as leis da gravidade e do decoro. O decote profundo e a fenda lateral revelavam a pele bronzeada e as curvas que ela ostentava com um orgulho quase agressivo. Ela bebia um martini, os lábios pintados de um vermelho tão vibrante que parecia brilhar no escuro.
— Emanuel, se aquela menina não sair daquele quarto nos próximos cinco minutos, eu vou lá e arrasto ela pelos cabelos castanhos — Sara disse, a voz tingida de uma impaciência cortante. — O motorista já está lá embaixo e eu não pretendo chegar no jantar de Marco parecendo que vim de um enterro por causa do desânimo da sua protegida.
Emanuel não respondeu. Ele saiu do closet e caminhou em direção ao quarto de hóspedes, onde Eduarda estava desde que chegara da faculdade. Ele sentia a irritação latejar em suas têmporas, uma pressão familiar que surgia sempre que o mundo prático e direto que ele construíra colidia com a sensibilidade etérea de Eduarda.
Ao abrir a porta, ele a encontrou sentada na beira da cama. Ela usava um vestido de seda azul-claro, delicado e romântico, que ele mesmo havia escolhido e enviado para a casa dela no dia anterior. O cabelo estava preso em um meio-preso suave, mas os olhos dela, grandes e úmidos, estavam fixos nos próprios pés.
— Duda? — Emanuel chamou, forçando a voz a manter um tom controlado. — O que está acontecendo? Já estamos atrasados.
Eduarda levantou o olhar, e Emanuel sentiu aquele aperto incômodo no peito que só ela conseguia provocar. Ela parecia tão pequena, tão deslocada entre as paredes modernas e frias da sua casa.
— Manu... eu não acho que eu deva ir — sussurrou ela, a voz carregada de uma manha que era, ao mesmo tempo, doce e frustrante. — Eu não me sinto bem. Minha cabeça está doendo um pouco e... eu não conheço ninguém lá.
Emanuel suspirou pesadamente, cruzando os braços sobre o peito.
— Você conhece a Sara. Você me conhece. É o aniversário do Marco, Eduarda. É importante para mim. Eu te disse isso a semana toda.
— Eu sei que é importante — disse ela, levantando-se devagar e caminhando até ele com passos miúdos. Ela envolveu a cintura dele com os braços, escondendo o rosto no tecido caro do seu terno. — Mas as pessoas nesses lugares... elas olham para mim de um jeito estranho. Elas falam sobre coisas que eu não entendo, sobre ações, sobre lucros, sobre festas em iates. Eu me sinto invisível, Manu. Ou pior, sinto que sou apenas um enfeite que não combina com a sala.
— Você não é um enfeite — ele rebateu, segurando o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhá-lo. — Você é minha namorada. Eu quero que você esteja lá porque você faz parte da minha vida. Por que é tão difícil para você aceitar o meu mundo?
— Porque o seu mundo é barulhento, Emanuel! — Eduarda exclamou, uma rara centelha de resistência brilhando em seus olhos, antes de murchar novamente para a timidez habitual. — É tudo sobre aparência, sobre quem tem mais, sobre quem fala mais alto. A Sara adora isso, ela brilha nisso. Eu só quero ficar em paz. Por que não podemos apenas ter um jantar nós dois amanhã?
Emanuel sentiu a irritação transbordar. Ele a afastou gentilmente, mas seus movimentos eram rígidos.
— Porque amanhã é amanhã, e o compromisso é hoje. Eu cansei desse seu jeito, Eduarda. Toda vez que eu tento te integrar, você se fecha. Você quer ser minha namorada, mas quer morar com seus pais. Você quer que eu tenha paciência, mas não faz o menor esforço para estar ao meu lado quando eu realmente preciso.
— Isso não é verdade... — As lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela, silenciosas e pesadas. — Eu te amo, Manu. Eu só... eu tenho medo de me perder nisso tudo.
— Medo de se perder ou preguiça de crescer? — A pergunta dele foi cruel, e ele soube disso no momento em que as palavras deixaram sua boca.
Eduarda recuou como se tivesse levado um tapa. Ela se sentou novamente na cama, abraçando os próprios joelhos, em um gesto de proteção que o irritou ainda mais.
— Emanuel! — A voz de Sara ecoou do corredor, seguida pelo som rítmico de seus saltos agulha no chão de madeira. Ela apareceu na porta, a imagem perfeita da confiança. — Chega de drama. O carro vai embora sem a gente. Garota, olha para mim.
Sara caminhou até Eduarda e, para surpresa de Emanuel, sentou-se ao lado dela, embora com uma postura muito mais imponente.
— Escuta aqui, pequena historiadora. Eu sei que você prefere ficar lendo sobre gente morta e quadros empoeirados, mas o homem que você diz que ama é um dos tatuadores mais bem-sucedidos do mundo. Ele vive de imagem. Ele vive de contatos. Se você quer ficar com ele, tem que aprender a segurar a taça de champanhe e sorrir, mesmo que queira estar na cama com um pijama de ursinho.
— Eu não sou como você, Sara — soluçou Eduarda. — Eu não consigo fingir que gosto dessas coisas.
— Então não finja! — Sara deu de ombros, ajeitando uma das joias de Eduarda. — Vá lá, fique no seu canto, seja a bonequinha misteriosa e silenciosa. Deixe que eu faço o barulho. Mas apareça. O Emanuel fica insuportável quando não tem o que quer, e eu não estou com paciência para aguentar o mau humor dele o resto da noite porque você decidiu ter um ataque de nervos.
Emanuel observava as duas. A dicotomia era fascinante e exaustiva. Sara, a administração prática da sua vida e dos seus desejos; Eduarda, o refúgio emocional que ele tanto ansiava, mas que parecia sempre escapar por entre seus dedos.
— Eu não vou te obrigar, Eduarda — disse Emanuel, sua voz agora fria e distante, o que era muito pior do que os gritos para ela. — Se você prefere ficar aqui, fique. Mas entenda que cada vez que você nega um convite desses, você está me dizendo que o seu conforto é mais importante do que o nosso relacionamento.
Ele se virou para sair, mas sentiu a mão pequena de Eduarda segurar a ponta da sua manga.
— Manu... espera.
Ele parou, mas não se virou.
— Eu vou — disse ela, a voz trêmula. — Eu vou, mas... por favor, não me deixe sozinha. Não me deixe perdida entre aquelas pessoas.
Emanuel finalmente se virou. Ele viu a fragilidade dela, a forma como ela se forçava a sair da sua zona de conforto apenas por ele. A raiva se dissipou um pouco, substituída por aquela proteção possessiva que ele sentia por ela.
— Eu nunca te deixaria sozinha — ele prometeu, voltando até ela e limpando as lágrimas do seu rosto com o polegar. — Eu só quero que você entenda que você pertence ao meu lado, Eduarda. Em qualquer lugar.
Sara revirou os olhos, mas havia um brilho de satisfação neles.
— Ótimo. Agora, vamos. Eu preciso de um drinque de verdade e o Marco prometeu caviar. Eduarda, retoque esse rímel. Você está parecendo um guaxinim triste.
***
A festa no salão nobre de um hotel de luxo era exatamente o que Eduarda temia. O som de violinos elétricos misturava-se ao burburinho de centenas de vozes em conversas superficiais. O cheiro de charutos caros e perfumes florais era sufocante.
Emanuel caminhava pelo salão com uma mão possessiva na cintura de Eduarda, enquanto Sara ia à frente, abrindo caminho como uma rainha, cumprimentando sócios e investidores com uma facilidade invejável.
— Emanuel! Que prazer ver você! — Marco, o aniversariante, aproximou-se com um sorriso largo. Ele apertou a mão de Emanuel e deu um beijo na mão de Sara. — E vejo que trouxe suas joias da coroa.
— Marco, parabéns — disse Emanuel, mantendo a postura firme. — Esta é a Eduarda.
— Encantado, minha jovem — disse Marco, analisando Eduarda com um olhar clínico. — Emanuel falou muito pouco sobre você. Uma beleza clássica, sem dúvida. Combina com o gosto refinado dele.
Eduarda deu um sorriso forçado, sentindo os dedos de Emanuel apertarem levemente sua cintura, um comando silencioso para que ela fosse sociável.
— Obrigada, senhor Marco. Parabéns pelo seu dia.
— Ah, uma voz doce! — Marco riu. — Emanuel, venha comigo um instante. Preciso te apresentar ao investidor de Singapura que te falei. Sara, querida, acompanhe-nos. Você sabe os números de cabeça melhor do que esse brutamontes aqui.
Emanuel hesitou, olhando para Eduarda. Ela sentiu o pânico subir pela garganta.
— Vá, Manu — disse Sara, surpreendendo a todos. — Eu fico com a Duda por cinco minutos perto do buffet. Depois a gente se encontra na mesa principal.
Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda, que parecia prestes a desmaiar.
— Cinco minutos, Sara. Não a deixe sozinha.
— Eu sei cuidar da bonequinha, Emanuel. Vá logo antes que o homem de Singapura mude de ideia.
Quando os homens se afastaram, Sara conduziu Eduarda para um canto mais calmo, perto de uma varanda. Ela pegou duas taças de champanhe de um garçom que passava e entregou uma para Eduarda.
— Beba. Vai ajudar com o tremor nas mãos.
— Eu odeio isso, Sara — confessou Eduarda, tomando um gole pequeno e sentindo as bolhas arderem em sua garganta. — Por que ele precisa disso tudo? Ele já é rico, já é famoso.
— Porque o topo é um lugar solitário e ventoso, garota — disse Sara, olhando para a multidão com um olhar cínico. — Se você não tiver pessoas ao seu redor para segurar as cordas, você cai. O Emanuel é um gênio com a agulha, mas ele é um desastre com diplomacia emocional. Ele precisa de mim para os negócios e precisa de você para... seja lá o que for que você faz com ele que o deixa calmo.
Eduarda olhou para Sara, notando pela primeira vez um cansaço genuíno por trás da maquiagem pesada da loira.
— Você também se sente cansada disso às vezes?
Sara soltou uma risada ríspida, mas não sem humor.
— O tempo todo. Mas eu gosto do poder. Eu gosto do que o dinheiro compra. E eu amo aquele homem, do meu jeito torto. Agora, pare de agir como se estivesse em um velório. Olhe para ele.
Eduarda seguiu o olhar de Sara. Emanuel estava no centro de um círculo de homens poderosos. Ele falava pouco, mas quando falava, todos ouviam. Ele tinha uma presença magnética, uma força que parecia ancorar o ambiente. No entanto, de tempos em tempos, os olhos dele vagavam pelo salão, procurando por elas. Quando ele finalmente as localizou na varanda, Eduarda viu a tensão em seus ombros relaxar visivelmente.
Ele deu um aceno discreto, um convite silencioso para que elas se aproximassem.
— Ele não consegue ficar longe por muito tempo — comentou Sara, ajeitando o vestido. — Vamos. Mostre para eles que a namorada do Emanuel não é apenas uma menina bonita, mas alguém que ele escolheu para estar lá.
Eduarda respirou fundo. Ela ainda se sentia deslocada, ainda preferia o silêncio dos seus livros, mas ao ver Emanuel ali, esperando por ela, ela entendeu algo que ainda não tinha processado totalmente. O mundo dele era caótico, mas ela era o ponto de equilíbrio de Emanuel. E se para manter esse equilíbrio ela precisasse enfrentar salões de mármore e conversas vazias, ela o faria.
Ela caminhou até ele, e quando Emanuel envolveu sua mão na dele, o calor da sua pele tatuada pareceu protegê-la de todos os olhares curiosos.
— Você está indo bem — sussurrou ele em seu ouvido, o hálito quente causando um arrepio nela.
— Eu estou tentando, Manu — ela respondeu baixinho.
— Eu sei. E eu vou te recompensar por isso.
A noite prosseguiu entre brindes e risadas. Eduarda permaneceu manhosa, buscando o contato físico constante com Emanuel, encostando a cabeça em seu ombro sempre que podia, uma forma silenciosa de dizer que ainda precisava dele como sua âncora. Sara, por outro lado, era o motor da noite, garantindo que Emanuel fizesse as conexões certas e que ninguém se sentisse ignorado.
Ao final da festa, enquanto caminhavam para o carro, o silêncio da noite era um alívio. No banco de trás da limusine, Emanuel estava entre as duas. Sara já havia tirado os sapatos e encostado a cabeça no vidro, fechando os olhos com um suspiro de exaustão vitoriosa. Eduarda estava aninhada no braço de Emanuel, o vestido azul agora um pouco amassado, mas o rosto mais sereno.
— Você foi ótima hoje, Duda — disse Emanuel, beijando o topo da cabeça dela.
— Eu ainda não quero me mudar, Manu — ela disse, a voz sonolenta, mas firme. — Só porque eu vim na festa, não significa que eu esteja pronta para morar nesse mundo o tempo todo.
Emanuel sentiu a velha irritação tentar voltar, mas ele a reprimiu. Ele olhou para Sara, que fingia dormir, e depois para Eduarda. Ele tinha as duas ali, sob sua proteção, em seu espaço privado.
— Um passo de cada vez — ele murmurou, embora em sua mente já estivesse planejando o próximo evento, a próxima tentativa de trazê-la definitivamente para o seu teto.
— Manu? — Eduarda chamou baixinho.
— Sim?
— Você tem paciência comigo?
Emanuel olhou para as luzes da cidade passando pela janela. Ele era um homem de decisões rápidas, de traços definitivos na pele, de negócios globais. Paciência não era uma de suas virtudes naturais.
— Eu estou tentando, Duda. Por você, eu estou tentando.
Eduarda sorriu e fechou os olhos, sentindo-se segura. Ela sabia que a batalha pelo seu espaço ainda não havia acabado, mas por aquela noite, o mundo de vidro de Emanuel não havia se quebrado. E, no fim das contas, isso era tudo o que ele realmente queria: manter seu universo intacto, com a força de Sara e a doçura de Eduarda, mesmo que fosse apenas por algumas horas, dentro de um carro luxuoso cortando a noite.