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O Labirinto de Lealdades
O escritório de Emanuel, no topo de um de seus estúdios mais prestigiados em São Paulo, era um monumento ao minimalismo industrial. Paredes de concreto aparente, móveis de couro preto e uma iluminação cirúrgica que destacava as obras de arte originais espalhadas pelo ambiente. No entanto, naquela manhã, a serenidade do local foi estilhaçada pelo som de um tablet sendo arremessado sobre a mesa de carvalho.
— Você só pode estar brincando comigo, Sara! — Emanuel rugiu, a voz grave ecoando pelas paredes de vidro.
Sara, que estava sentada casualmente em uma das poltronas de design, cruzando suas pernas impecáveis e balançando um sapato de salto agulha, nem sequer piscou. Ela estava acostumada às explosões de Emanuel. Como sua administradora, ela lidava com o caos financeiro e emocional dele diariamente.
— Eu não brinco com negócios, Manu. Você sabe disso — ela respondeu, a voz carregada de uma ironia pragmática. — A Galeria Vanguarda, dos pais da sua bonequinha, fechou o contrato de exclusividade para o evento "Pele e Tela". E o parceiro técnico deles não é você. É o Rodrigo.
Emanuel sentiu o sangue latejar em suas têmporas. Rodrigo não era apenas um concorrente; era um fantasma do seu passado, um tatuador que tentava copiar seu estilo e roubar seus clientes há anos, usando táticas de marketing agressivas e preços abaixo do mercado para minar o império que Emanuel construíra com suor e talento bruto.
— O Rodrigo? — Emanuel repetiu, a palavra saindo como um veneno. — Eles escolheram aquele charlatão? O Eduardo sabe que eu e aquele cara temos uma história. Ele sabe o que o Rodrigo tentou fazer com a minha filial em Londres!
— O Eduardo é um homem de negócios, Emanuel. E, aparentemente, a Eduarda também está aprendendo a ser — Sara disparou, observando as unhas perfeitas. — Ela é a coordenadora de eventos da galeria agora, não sabia? Ela quem está cuidando de toda a logística entre a galeria e o estúdio do Rodrigo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel sentiu uma pontada de traição que não vinha da lógica empresarial, mas do coração. Eduarda, sua doce e sensível Duda, estava trabalhando lado a lado com seu maior rival.
***
No final da tarde, Eduarda chegou à cobertura de Emanuel. Ela trazia consigo uma pasta de couro e um sorriso cansado, mas iluminado. Estava orgulhosa. Era seu primeiro grande projeto na galeria dos pais após meses de estágio, e ela sentia que estava finalmente unindo sua paixão pela História da Arte com a prática administrativa.
Ao entrar na sala, ela encontrou Emanuel parado diante da janela, observando o pôr do sol. A postura dele era rígida, os ombros tensos como se carregassem o peso do edifício inteiro.
— Manu? — ela chamou baixinho, deixando a pasta sobre o aparador e caminhando até ele com seu jeito manhoso. Ela abraçou a cintura dele por trás, encostando o rosto em suas costas largas. — Você não imagina o dia que eu tive. O evento vai ser incrível, conseguimos fechar os últimos detalhes da curadoria...
Emanuel se virou bruscamente, desvencilhando-se do abraço dela. O olhar dele estava frio, as pupilas dilatadas pela raiva contida.
— É mesmo, Eduarda? E quem é o seu "parceiro de curadoria"? O Rodrigo?
Eduarda recuou um passo, piscando, confusa com a agressividade súbita.
— Sim... o estúdio do Rodrigo. A parceria entre a galeria e o estúdio dele existe há mais de três anos, Manu. Por que você está falando assim?
— Por que? — Emanuel deu um passo à frente, a altura dele intimidando-a, embora ele nunca fosse machucá-la fisicamente. — Porque aquele homem é um lixo. Ele tentou destruir meus negócios. Ele é um plagiador que usa o nome da arte para vender lixo. E você, minha namorada, está organizando coquetéis e sorrindo para ele?
— Emanuel, eu não entendo! — Eduarda sentiu as lágrimas começarem a arder em seus olhos, sua voz ficando trêmula. — Eu sou apenas a coordenadora. Meus pais têm esse contrato muito antes de eu e você começarmos a sair. Eu não escolhi o Rodrigo, ele já estava lá! É um compromisso profissional.
— Profissional? — ele zombou, passando a mão pelo cabelo de forma errática. — Você mora com seus pais, você trabalha para eles. Se você tivesse o mínimo de lealdade a mim, teria dito que não trabalharia com esse cara. Ou melhor, teria convencido seu pai a mudar de parceiro.
— Eu tenho vinte anos, Emanuel! — Eduarda exclamou, a voz subindo uma oitava, embora ainda soasse frágil. — Eu não mando na galeria! Meus pais são modernos, eles separam as coisas. Eles gostam de você, mas os negócios deles não giram em torno das suas brigas de ego com outros tatuadores!
— Brigas de ego? — Emanuel soltou uma risada amarga. — Você não tem noção do que está dizendo. Você é ingênua demais, Eduarda. Tão sensível, tão "manhosa", mas na hora de fechar com o meu inimigo, você não pensou duas vezes, não é?
— Você está sendo injusto! — Ela soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu só queria que você ficasse orgulhoso de mim. Eu organizei tudo... eu pensei que você ficaria feliz em ver que eu estou crescendo.
Emanuel não cedeu. A sua necessidade de controle, de ter suas mulheres totalmente sob sua órbita e proteção, estava sendo ferida pela independência dela — e, pior, por uma independência que beneficiava seu rival.
— Orgulhoso? Eu sinto é vergonha de ver você sendo usada como fachada para aquele cara ganhar prestígio em cima do nome da sua família.
Nesse momento, Sara entrou na sala, usando um robe de seda preta e segurando uma taça de vinho. Ela observou a cena com uma sobrancelha arqueada.
— Já chega, Emanuel. Você está assustando a menina e, honestamente, está sendo um idiota.
— Não se meta, Sara! — Emanuel rosnou.
— Eu me meto porque o barulho está atrapalhando meu descanso — Sara retrucou, aproximando-se de Eduarda e colocando a mão em seu ombro, um gesto que era metade proteção e metade condescendência. — Duda, o Emanuel é um homem das cavernas quando o assunto é competição. Ele acha que o mundo gira em torno das tatuagens dele.
— Ela está trabalhando com o Rodrigo, Sara! — Emanuel apontou para Eduarda como se ela estivesse cometendo um crime.
— Eu sei, eu li o contrato — Sara disse, tomando um gole de vinho calmamente. — E, sinceramente, Manu? O evento vai ser um sucesso. A Galeria Vanguarda tem um alcance que nós ainda não atingimos no setor de elite tradicional. Em vez de gritar com ela, você deveria estar pensando em como fazer um evento dez vezes maior no mês que vem para ofuscar o do Rodrigo.
Eduarda olhou para Sara, buscando algum apoio real, mas a loira apenas lhe deu um tapinha no rosto.
— Mas ele tem razão em uma coisa, pequena: o Rodrigo é um cretino. Só não deixe ele encostar em você, ou o Emanuel vai acabar na cadeia por homicídio.
Eduarda não aguentou mais. Ela pegou sua pasta e caminhou em direção à porta, as lágrimas escorrendo livremente agora.
— Eu vou para a casa dos meus pais — ela disse, a voz abafada pelo choro. — Eu não consigo conversar com você quando você me trata como se eu fosse sua propriedade, Emanuel.
— Eduarda, volta aqui! — ele ordenou, mas ela já havia saído.
Emanuel chutou o pé do sofá, a frustração queimando em seu peito. Sara apenas suspirou, sentando-se e ligando a TV.
— Parabéns, garanhão. Agora ela vai passar a semana toda chorando no colo do papai e trabalhando dobrado para o Rodrigo só para te provar que é independente. Você realmente não entende nada de mulheres, não é?
***
O dia do evento "Pele e Tela" chegou com uma pompa que apenas a elite artística de São Paulo poderia proporcionar. A galeria estava impecável, decorada com orquídeas brancas e luzes âmbar que criavam uma atmosfera de sofisticação absoluta.
Eduarda estava deslumbrante em um vestido de seda champanhe, longo e fluido, que acentuava sua delicadeza. Ela corria de um lado para o outro, ajustando os fones de ouvido da equipe de som e garantindo que os garçons estivessem servindo o espumante na temperatura certa. Ela estava exausta, mas havia uma determinação em seus olhos que Emanuel nunca vira antes.
Emanuel apareceu tarde. Ele não queria ir, mas a pressão social e a necessidade de vigiar Eduarda o forçaram a comparecer. Ele estava impecável em um terno sob medida, exalando uma aura de perigo e sofisticação que fazia as pessoas abrirem caminho para ele. Sara o acompanhava, usando um vestido vermelho ultrajusto e decotado, atraindo todos os olhares masculinos (e muitos femininos) do recinto.
— Sorria, Manu — Sara sussurrou ao lado dele. — Estamos em território inimigo, mas somos os reis aqui.
Emanuel avistou Eduarda perto de uma das telas principais. Ela estava conversando com Rodrigo, que mantinha uma mão excessivamente próxima à cintura dela enquanto explicava algo para um grupo de jornalistas. O sangue de Emanuel ferveu.
Ele caminhou em direção a eles, ignorando os cumprimentos de conhecidos.
— Boa noite — a voz de Emanuel cortou a conversa como uma lâmina fria.
Eduarda empalideceu ao vê-lo, mas manteve a postura. Rodrigo, um homem de aparência calculada e um sorriso que não chegava aos olhos, estendeu a mão.
— Emanuel! Que surpresa agradável. Não achei que viria prestigiar um evento da... concorrência.
Emanuel ignorou a mão estendida de Rodrigo e fixou os olhos em Eduarda.
— Vim ver a minha namorada. E o trabalho que ela tanto defendeu.
— O trabalho está sendo um sucesso — Rodrigo interveio, com um tom de superioridade. — A Eduarda é um talento nato para a organização. Temos planos para futuras colaborações, não é, Duda?
Eduarda sentiu a tensão irradiando de Emanuel e, por instinto, tentou suavizar a situação. Ela se aproximou de Emanuel, buscando sua mão, mas ele a manteve fechada em um punho ao lado do corpo.
— Manu, o evento está sendo elogiado por todos os críticos — ela disse, tentando usar seu tom mais doce e manhoso para acalmá-lo. — Por favor, aproveite a noite. Veja as obras...
— Eu já vi o que precisava ver — Emanuel disse, a voz baixa e perigosa. — Sara, vamos para o bar.
Ele se afastou sem dizer mais nada, deixando Eduarda com o coração na mão. Rodrigo soltou uma risadinha.
— Ele é sempre tão temperamental, não é? Você merece alguém que valorize seu esforço, Eduarda.
— Com licença, Rodrigo — ela disse, a voz firme apesar da dor. — Eu tenho trabalho a fazer.
***
O evento foi, de fato, um sucesso retumbante. As vendas foram recordes e a crítica aclamou a fusão entre a tatuagem contemporânea e a arte clássica. Mas para Eduarda, a vitória tinha um gosto amargo.
No final da noite, quando os convidados começaram a se dispersar, Emanuel a encontrou em uma sala reservada nos fundos da galeria. Ela estava sentada em uma poltrona, com os sapatos de lado, massageando os pés cansados.
Ele entrou e fechou a porta. O silêncio entre eles era denso.
— Você ganhou — ele disse, finalmente. — O evento foi impecável.
Eduarda levantou os olhos, esperando ver um elogio sincero, mas viu apenas uma aceitação amarga.
— Eu não queria "ganhar" nada de você, Manu — ela disse, a voz embargada. — Eu só queria fazer o meu trabalho. Por que você tem que transformar tudo em uma guerra?
Emanuel caminhou até ela e se ajoelhou à sua frente, um gesto raro de vulnerabilidade que a pegou de surpresa. Ele segurou os pés dela, começando a massageá-los com suas mãos grandes e fortes, as mesmas mãos que criavam arte na pele.
— Porque eu odeio ver você perto dele — ele confessou, a voz rouca. — Eu odeio que ele possa tocar em você, ou que ele possa pensar que tem algum direito sobre o seu talento. Eu quero você só para mim, Eduarda. No meu estúdio, na minha casa, na minha vida.
Eduarda sentiu seu coração amolecer, como sempre acontecia quando ele demonstrava aquele lado protetor e quase desesperado. Ela se inclinou para frente, passando os dedos pelos cabelos dele.
— Mas eu sou sua, Manu. O trabalho não muda isso. Meus pais não mudam isso. Mas eu preciso que você confie em mim. Eu não sou uma criança que precisa ser escondida do mundo.
— Eu sei — ele suspirou, encostando a testa no joelho dela. — Mas ver você lá, com ele... foi a pior tortura da minha vida.
Sara abriu a porta da sala, interrompendo o momento. Ela estava com o batom levemente borrado e um olhar de quem já tinha bebido champanhe o suficiente para uma vida inteira.
— O carro está esperando. E antes que vocês comecem a se pegar aqui mesmo, o Rodrigo está lá fora perguntando se a "coordenadora" quer ir para o after-party com a equipe dele.
Emanuel levantou-se num salto, a fúria voltando instantaneamente aos seus olhos.
— Diga a ele que se ele chegar a dez metros de distância dela, eu vou tatuar a palavra "fracassado" na testa dele com uma agulha enferrujada.
Eduarda soltou uma risadinha, apesar de tudo. Ela se levantou, calçou os sapatos e se abraçou a Emanuel, manhosamente escondendo o rosto em seu pescoço.
— Eu não vou a lugar nenhum com ele, Manu. Eu vou para casa.
Emanuel relaxou, envolvendo-a em um abraço esmagador.
— Para a minha casa? — ele perguntou, com uma esperança renovada.
Eduarda hesitou por um segundo, olhando para Sara, que apenas deu de ombros e saiu para o corredor.
— Hoje... sim. Só por hoje, eu vou para a sua casa. Mas amanhã, você vai ter que me pedir desculpas formalmente por ter sido um ogro durante toda a exposição.
Emanuel sorriu pela primeira vez naquela noite, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto severo.
— Eu peço desculpas agora, se você quiser.
— Não — ela disse, puxando-o pela gravata para um beijo doce e prolongado. — Eu prefiro que você me mostre o quanto está arrependido quando chegarmos lá.
Emanuel a pegou no colo, fazendo-a soltar um gritinho de surpresa e alegria. Ele caminhou pelo salão da galeria, passando por Rodrigo sem sequer olhar para o lado, carregando seu prêmio mais valioso nos braços. Sara os seguia, balançando a chave do carro e sorrindo para si mesma. A paz havia sido restaurada, pelo menos até o próximo conflito entre a lógica possessiva de Emanuel e a doce independência de Eduarda. Mas, por enquanto, o império de Emanuel estava completo novamente.