Voltar ao resumo

D

Incontrolável Possessividade

O ambiente no apartamento de Emanuel estava carregado de uma eletricidade estática que parecia prestes a explodir a qualquer momento. O prazo de trinta dias imposto pelo médico de Eduarda parecia, para ele, uma sentença de prisão perpétua. Emanuel era um homem de impulsos controlados pela lógica, mas sua libido e sua necessidade de posse sobre Eduarda eram as únicas coisas que desafiavam sua racionalidade.

Duas semanas haviam se passado. Quatorze dias de tortura.

Emanuel estava na sala de estar, o som metálico de uma música pesada ecoando baixo enquanto ele revisava alguns esboços de tatuagens para a convenção de Tóquio. No entanto, seus olhos não focavam nos traços negros no papel. Eles seguiam Sara, que desfilava pela sala usando apenas uma calcinha minúscula e uma camiseta curta que deixava a curvatura de seus seios siliconados à mostra a cada movimento.

— Nem adianta me olhar com essa cara de lobo faminto, Manu — Sara disse, servindo-se de uma dose de uísque puro. Ela caminhou até ele, sentando-se na beirada da mesa de desenho, empurrando as pastas para o lado. — Eu já te dei três vezes entre ontem à noite e hoje de manhã. Minhas pernas estão bambas e eu tenho uma reunião com os fornecedores de pigmento em uma hora. Eu sou feita de carne, não de aço.

Emanuel soltou o lápis com força sobre a mesa, a mandíbula tão travada que os músculos de seu rosto saltavam.

— Não é a mesma coisa, Sara. Você sabe que não é.

— Ah, eu sei — Sara deu um sorriso de lado, sarcástico e provocador, inclinando-se para frente para que o cheiro de seu perfume marcante invadisse o espaço dele. — Você sente falta daquela resistência apertada, daquele jeito de boneca que parece que vai quebrar. Você está frustrado porque não pode descarregar nela. Mas olha o lado bom: eu estou aqui, sendo uma santa e aguentando seu mau humor.

— Você nunca foi santa, Sara — Emanuel rosnou, levantando-se e caminhando até a janela que dava para a cidade. — Eu estou perdendo a cabeça. A Duda está lá naquela casa, rodeada pelos pais, e eu não posso nem tocá-la sem sentir que estou cometendo um crime.

— Pois se prepare para perder o que resta dela — Sara disse, tomando um gole da bebida e olhando para o celular que brilhava sobre a mesa. — A "pequena flor" ligou enquanto você estava no banho. Parece que as amiguinhas da faculdade decidiram que ela precisa de "espaço".

Emanuel virou-se bruscamente, os olhos escuros brilhando com uma intensidade perigosa.

— Que espaço? Do que você está falando?

— Uma viagem, Manu. Uma semana em uma casa de praia em Búzios. Só as meninas. Elas dizem que a Duda está muito "tensa" e que um pouco de sol e mar vai fazer bem para a pele dela.

O silêncio que se seguiu foi aterrador. Emanuel sentiu uma onda de calor subir pelo seu pescoço. A ideia de Eduarda, em sua fragilidade e doçura, longe de sua supervisão, em uma praia, cercada por estranhos e influenciada por amigas que ele considerava fúteis, era inadmissível.

— Ela não vai — ele disse, a voz baixa e absoluta.

— Boa sorte dizendo isso para ela — Sara deu de ombros, levantando-se. — Ela está vindo para cá agora. E pelo tom de voz no telefone, ela já sabe que você vai ter um ataque. Eu vou me arrumar. Não quero estar por perto quando você começar a quebrar as coisas.

Cerca de vinte minutos depois, a campainha tocou. Emanuel abriu a porta antes mesmo que o som terminasse de ecoar. Eduarda estava ali, usando um vestido de algodão azul claro, segurando as alças de sua mochila com força. Seus olhos castanhos estavam úmidos e seu lábio inferior tremia levemente — o sinal clássico de que ela estava em seu estado mais manhoso e vulnerável.

— Oi, Manu... — ela sussurrou, entrando no apartamento e tentando se aproximar para um beijo, mas Emanuel permaneceu estático, bloqueando o caminho.

— Que história é essa de viagem, Eduarda? — Ele não usou o apelido carinhoso. Sua voz era como um chicote.

Eduarda murchou visivelmente, as lágrimas começando a rolar por suas bochechas rosadas. Ela se aproximou dele, ignorando sua rigidez, e enterrou o rosto em seu peito, buscando o calor que era seu refúgio e sua prisão.

— As meninas... a Bia e a Carol... elas disseram que eu ando muito triste, Manu — ela soluçou, a voz abafada pelo tecido da camisa dele. — Elas disseram que eu preciso sair um pouco de casa, ver o mar. Eu nunca viajo com elas, nunca faço nada...

— Você faz o que eu digo que é seguro para você — Emanuel disse, segurando-a pelos ombros e afastando-a apenas o suficiente para olhar em seus olhos. — Você está machucada, Eduarda. Você está em tratamento. Como você acha que vai para uma casa de praia sem mim para cuidar de você? Quem vai passar a pomada? Quem vai garantir que você não faça esforço?

— Eu posso fazer isso sozinha, Manu! — Ela exclamou, com uma pontada de desespero. — É só uma semana. Eu sinto tanta falta de ar às vezes... eu amo você, eu amo estar aqui, mas eu sinto que se eu não for agora, eu nunca vou ter coragem de fazer nada sozinha.

Emanuel sentiu a irritação se transformar em uma possessividade cega. Ele a apertou mais forte, os dedos deixando marcas leves na pele delicada dos braços dela.

— Você não faz nada sozinha porque você não precisa — ele sibilou. — O mundo lá fora não é para você, Duda. Você é ingênua, você é doce demais. Você acha que as pessoas vão te respeitar? Você vai estar em um biquíni, em uma praia pública, e eu não vou estar lá para quebrar a cara de quem olhar para você.

— Você está sendo injusto! — Eduarda chorou, soltando-se dele e recuando para o meio da sala. — A Sara viaja a trabalho, a Sara sai, a Sara faz o que quer! Por que eu tenho que ficar trancada?

Sara apareceu no corredor, terminando de abotoar um blazer caríssimo sobre a roupa curta. Ela parou, observando a cena com um misto de diversão e tédio.

— Porque eu sei me cuidar, boneca — Sara interveio, a voz carregada de uma superioridade cruel. — Eu sei colocar um homem no lugar dele com um olhar. Você? Você chora se alguém falar um pouco mais alto. O Manu está certo, você ia ser devorada viva em cinco minutos.

— Cala a boca, Sara! — Eduarda gritou, surpreendendo a ambos. Ela olhou para Emanuel, o rosto banhado em lágrimas. — Eu quero ir. Eu já disse para os meus pais e eles deixaram. Eles disseram que é bom para mim.

— Seus pais são uns idiotas que não entendem o que você significa para mim — Emanuel deu um passo em direção a ela, sua estatura dominando o ambiente. — Eu sou o homem da sua vida, Eduarda. Eu sou quem te sustenta emocionalmente. Você não vai a lugar nenhum.

— Eu vou! A Bia passa para me buscar amanhã cedo — ela disse, tentando demonstrar uma firmeza que seu corpo trêmulo traía.

Emanuel sentiu o controle escapar por entre seus dedos, e isso era algo que ele não podia tolerar. Ele caminhou até ela, e o pavor nos olhos de Eduarda misturou-se com a adoração de sempre. Ele a pegou pela cintura e a jogou sobre o ombro como se ela não pesasse nada.

— Manu! Me solta! — Ela batia em suas costas com os punhos pequenos, as pernas balançando no ar.

— Você quer espaço, Eduarda? — Emanuel rosnou, caminhando em direção ao quarto principal. — Eu vou te dar todo o espaço que você precisa, aqui dentro. Comigo.

Ele a colocou sobre a cama de casal com firmeza, mas sem a brutalidade de antes, consciente de sua condição física. Ele se posicionou sobre ela, prendendo seus pulsos acima da cabeça com apenas uma das mãos. O rosto de Emanuel estava a centímetros do dela, a respiração pesada e quente.

— Você não vai para Búzios. Você não vai para praia nenhuma. Você vai ficar aqui, neste apartamento, comigo e com a Sara, até que essa sua ideia absurda saia da cabeça.

— Você está sendo malvado... — Eduarda soluçava alto, o corpo se arqueando sob o dele em uma mistura de medo e excitação involuntária. — Eu só queria uma semana... por favor, Manu... me deixa ir...

— Não — ele disse, a palavra final e absoluta. — Se você sair por aquela porta, eu vou atrás de você e te trago de volta pelos cabelos na frente de todas as suas amigas. Você quer passar por essa vergonha?

Eduarda fechou os olhos, derrotada pela força e pela vontade inquebrável dele. Ela se tornou submissa novamente, o choro transformando-se em pequenos soluços manhosos.

— Eu te odeio... — ela murmurou, embora suas mãos, agora soltas, subissem para se enroscar no pescoço dele.

— Você me ama porque eu sou o único que te mantém segura — Emanuel respondeu, enterrando o rosto na curva do pescoço dela, aspirando o cheiro de baunilha que o deixava insano. — Eu estou subindo pelas paredes por não poder te possuir, Duda. Minha cabeça dói de tanto desejo. E você quer ir embora? Quer me deixar aqui com esse fogo me consumindo?

Sara entrou no quarto, encostando-se na penteadeira. Ela observava os dois com um olhar clínico.

— Que cena dramática — ela comentou, embora houvesse uma centelha de ciúme escondida sob o sarcasmo. — Se ela ficar, Manu, você vai ter que dar um jeito de acalmar essa pirralha. Eu não vou aguentar ela choramingando pelos cantos a semana toda.

Emanuel levantou a cabeça, olhando para Sara e depois para Eduarda abaixo dele.

— Ela não vai choramingar. Ela vai entender que o lugar dela é aqui.

Emanuel saiu de cima de Eduarda, mas não a deixou levantar. Ele pegou o celular dela, que estava no bolso do vestido, e o guardou no próprio bolso.

— Você vai ligar para suas amigas e dizer que não está se sentindo bem. Que a inflamação piorou e que você precisa de repouso absoluto — ele ordenou. — E depois, você vai morar aqui. Definitivamente. Vou mandar buscar suas coisas na casa dos seus pais hoje à noite. Chega de idas e vindas.

Eduarda arregalou os olhos, sentando-se na cama.

— Manu, meus pais... eles não vão deixar que você simplesmente me leve assim!

— Eles não têm escolha, assim como você não tem — Emanuel disse, a frieza retornando ao seu tom. — Eu já esperei demais. Eu tentei ser paciente, tentei respeitar o tempo de todo mundo, mas você provou que não tem maturidade para tomar suas próprias decisões. Se o mundo te assusta, eu sou seu escudo. Se você quer liberdade, eu sou seu limite.

Sara soltou uma risada curta.

— Bem-vinda ao hospício, Duda. Pelo menos agora eu vou ter alguém para me ajudar a escolher o cardápio do jantar enquanto o "chefe" está no estúdio.

Eduarda olhou de um para o outro. Ela se sentia pequena, encurralada entre a dominância absoluta de Emanuel e a indiferença provocadora de Sara. No entanto, no fundo de seu coração sensível, havia uma parte dela que se sentia aliviada. A responsabilidade de crescer, de viajar, de enfrentar o mundo, era pesada demais. Nos braços de Emanuel, mesmo que fossem braços que a apertavam demais, ela não precisava ser nada além da "pequena Duda".

— Você promete que não vai ficar bravo comigo? — Ela perguntou, estendendo a mão para ele com os olhos brilhando.

Emanuel sentou-se ao lado dela, puxando-a para o seu colo. Ele a aninhou ali, sentindo a fragilidade de seus ossos sob a pele macia.

— Eu nunca fico bravo com você por muito tempo, pequena. Eu só fico louco com a ideia de te perder.

— Eu não vou a lugar nenhum... — ela sussurrou, rendendo-se totalmente. — Eu fico. Eu moro aqui com você.

Sara revirou os olhos e olhou para o relógio.

— Ótimo. Agora que a novela terminou, eu tenho uma empresa para gerir. Manu, não esquece que você tem três clientes de elite hoje à tarde. Tenta não descontar sua frustração sexual nas tatuagens deles, sim?

Ela saiu do quarto com um bater de saltos decidido, deixando o casal para trás. Emanuel segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos, os polegares limpando o rastro das lágrimas.

— Trinta dias, Duda — ele lembrou, a voz carregada de uma promessa sombria. — Faltam apenas duas semanas agora. E quando esse tempo acabar, eu vou te mostrar por que você nunca deve querer sair de perto de mim.

Eduarda arrepiou-se da cabeça aos pés. Ela sabia que Emanuel estava no limite. Ela via a tensão em seus ombros, a forma como ele a olhava como se quisesse devorá-la centímetro por centímetro. O medo de sua brutalidade estava lá, mas o desejo de ser marcada por ele, de ser preenchida por aquela intensidade, era ainda mais forte.

— Eu vou esperar, Manu... — ela disse, manhosa, roçando os lábios nos dele. — Eu vou ser uma boa menina.

Emanuel a beijou com uma fome que a deixou sem fôlego, um beijo que não tinha nada de terno, mas tudo de possessivo. Ele era o dono daquele pequeno reino, e com Eduarda finalmente sob seu teto de forma permanente, ele sentia que o controle que tanto prezava estava de volta às suas mãos.

A semana de "férias" de Eduarda transformou-se em uma semana de reclusão luxuosa. Emanuel a monitorava por câmeras quando estava no estúdio, ligando a cada hora para saber o que ela estava fazendo. Sara, por sua vez, alternava entre ignorar a presença da mais nova e usá-la como uma assistente pessoal para tarefas triviais, mantendo a hierarquia clara: ela era a parceira, Eduarda era a protegida.

E assim, entre choros manhosos, ordens ríspidas e o desejo latente que consumia a todos, a dinâmica do triângulo se estreitava. Emanuel estava subindo pelas paredes, mas agora, pelo menos, ele tinha suas duas obsessões exatamente onde queria: sob seus olhos, sob seu comando e, em breve, sob seu corpo.