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D

Lágrimas de Vidro e Vontades de Ferro

O silêncio no quarto de Emanuel era denso, quebrado apenas pelos soluços baixinhos e rítmicos de Eduarda. Ela estava encolhida no centro da cama king-size, parecendo um pequeno pássaro ferido em meio aos lençóis de fios egípcios cinza-chumbo. Emanuel estava de pé, de costas para ela, observando o movimento da cidade através da parede de vidro do apartamento. Seus ombros estavam tensos, a mandíbula tão cerrada que a lateral de seu rosto parecia esculpida em pedra.

— Duda, para com isso — a voz dele saiu rouca, uma mistura de exaustão e irritação. — Eu já disse que não. É para o seu bem.

— Você... você sempre diz que é para o meu bem — ela conseguiu articular entre um soluço e outro, a voz manhosa e embargada. — Mas você só pensa no que você quer, Manu. Você quer me guardar numa caixa.

Emanuel virou-se bruscamente. A visão de Eduarda com o rosto inchado, os olhos castanhos vermelhos e aquele aspecto de fragilidade absoluta sempre desarmava seus sistemas de defesa, mas a ideia dela em Búzios, sem sua proteção, disparava todos os seus alarmes de controle.

— Eu quero te manter segura! — Ele exclamou, dando dois passos largos até a cama. — Você tem noção de como o mundo é? Você tem noção de como as pessoas olham para você? Você é doce demais, Duda. É ingênua. Aquelas suas amigas não vão cuidar de você se algum idiota decidir se aproximar.

— Elas são minhas amigas, Manu! — Ela se sentou, os cabelos castanhos bagunçados caindo sobre os ombros esguios. — Eu tenho vinte anos. Eu estudo História da Arte, eu vejo o mundo através dos livros, mas eu nunca vejo o mundo de verdade porque você não deixa.

A porta do quarto se abriu com o estalo seco de saltos altos. Sara entrou, exalando o perfume caro e o cheiro de cigarro mentolado que sempre a acompanhava. Ela usava um vestido vermelho justo que gritava por atenção e carregava uma taça de vinho na mão.

— Meu Deus, ainda estamos nessa? — Sara perguntou, revirando os olhos e sentando-se na poltrona de couro no canto do quarto. — Manu, o barulho do choro dela está chegando lá no escritório. Eu não consigo terminar de revisar os contratos de Londres com esse drama todo.

— Não é drama, Sara! — Eduarda protestou, limpando as lágrimas com as costas das mãos, o que só a fazia parecer ainda mais infantil e carente.

— É drama sim, boneca — Sara deu um gole no vinho, observando a cena com uma frieza analítica. — Mas, Manu, olha para ela. Se você não deixar ela ir, ela vai definhar aqui dentro. E, honestamente? Eu prefiro uma semana de paz com você do que uma semana aguentando essa carinha de enterro circulando pela casa.

Emanuel lançou um olhar mortal para Sara.

— Você não está ajudando.

— Estou sim. Estou sendo prática — Sara levantou-se e caminhou até a cama, parando ao lado de Emanuel. Ela colocou a mão no peito dele, sentindo a batida acelerada do coração do namorado. — Deixa a menina ir. Ela vai ver que é chato, que tem areia em todo lugar e que ninguém vai tratar ela como a princesa que você trata. Ela volta correndo em três dias.

Eduarda olhou para os dois, a esperança brilhando em meio às lágrimas.

— Eu prometo que me cuido, Manu. Eu juro. Eu passo a pomada direitinho, eu não faço esforço... eu só quero ver o mar.

Emanuel olhou para Eduarda, depois para Sara. O conflito interno era visível em seus olhos cansados. Ele odiava perder o controle. Odiava a ideia de Eduarda longe de seu alcance visual. Mas o choro dela estava dilacerando a pouca paciência que lhe restava.

— Se acontecer qualquer coisa... — Emanuel começou, a voz baixa e perigosa.

— Não vai acontecer! — Eduarda pulou da cama e se jogou nos braços dele, enroscando as pernas em sua cintura e escondendo o rosto em seu pescoço. — Obrigada, Manu! Obrigada!

Emanuel a segurou por puro instinto, sentindo o corpo leve dela contra o seu. Ele suspirou, derrotado pela própria necessidade de vê-la feliz.

— Você vai me ligar três vezes por dia. Por vídeo. E se eu não atender na hora, você deixa mensagem dizendo exatamente onde está.

— Eu ligo! Eu ligo dez vezes se você quiser! — Ela distribuía beijos molhados pelo rosto dele, o humor mudando instantaneamente da tristeza profunda para a alegria eufórica, típica de sua personalidade manhosa.

Sara soltou um riso anasalado, observando a cena.

— Viu? Problema resolvido. Agora, pequena, vai arrumar suas malas antes que ele mude de ideia. E, Manu, temos trabalho. Os relatórios não vão se ler sozinhos.

Eduarda desceu do colo de Emanuel e, num ímpeto de gratidão, abraçou Sara também. A loira ficou rígida por um segundo, surpresa com o contato, antes de dar tapinhas condescendentes nas costas da mais nova.

— Tá, tá... menos melaço, Duda. Vai logo.

Quando Eduarda saiu do quarto, saltitando de alegria, Emanuel desabou na beira da cama, enterrando o rosto nas mãos.

— Eu vou me arrepender disso.

— Vai — Sara concordou, voltando para sua taça de vinho. — Mas pelo menos ela não se muda para cá agora. Vamos ser sinceros, Manu... você quer que ela more aqui, mas você não está pronto para o caos que seria ter nós duas no mesmo teto vinte e quatro horas por dia. Eu sou vulcão, ela é garoa. O clima ia ficar insuportável.

Emanuel levantou a cabeça, olhando para a namorada loira. Sara era competente, vulgar de um jeito que o excitava e tinha uma inteligência administrativa que mantinha seus estúdios de tatuagem funcionando como máquinas suíças. Ela era o seu pilar de sustentação no mundo real.

— Eu só queria que ela fosse mais como você em algumas coisas — Emanuel admitiu. — Mais decidida. Menos dependente.

— Se ela fosse como eu, você não estaria apaixonado por ela — Sara rebateu com uma honestidade brutal. — Você gosta da fragilidade dela porque isso faz você se sentir o rei da porra toda. Comigo você tem que disputar o trono. Com ela, você é o trono.

Emanuel não respondeu, pois sabia que Sara tinha razão.

Na manhã seguinte, o clima na frente da casa dos pais de Eduarda era de despedida de aeroporto internacional, embora a viagem fosse apenas de algumas horas de carro. Os pais de Duda, modernos e tranquilos, observavam a cena com sorrisos divertidos enquanto Emanuel conferia a pressão dos pneus do carro da amiga de Eduarda.

— Emanuel, querido, relaxa — disse a mãe de Eduarda, tocando o braço do tatuador. — Ela vai ficar bem. Nós também vamos para lá no fim de semana.

— É exatamente isso que me preocupa — Emanuel resmungou, entregando um kit de primeiros socorros para Eduarda. — Duda, aqui tem tudo. E não esquece o que eu te disse sobre estranhos.

— Eu sei, Manu! — Eduarda disse, já sentada no banco do passageiro do carro das amigas. Ela estava radiante, usando um chapéu de palha e óculos escuros grandes demais para seu rosto delicado. — Tchau, meu amor! Tchau, Sara!

Sara, que tinha ido apenas para garantir que a viagem realmente aconteceria, acenou com dois dedos, de forma desleixada.

— Juízo, pirralha!

O carro deu partida e Emanuel ficou parado na calçada até que o veículo sumisse de vista. A sensação de vazio em seu peito era desproporcional à situação.

— Vamos, Manu — Sara disse, puxando-o pela mão. — Temos uma reunião no estúdio da zona sul. E depois, quero que você me mostre aquele novo design de fênix... na minha pele.

Emanuel olhou para a casa dos pais de Eduarda e depois para Sara. O contraste era sua vida. A doçura que partia e a intensidade que ficava.

Os dias que se seguiram foram um teste de resistência para Emanuel. Ele cumpria sua agenda de tatuagens com uma precisão cirúrgica, mas sua mente estava em Búzios. Ele ligava para Eduarda constantemente.

— Oi, Manu! — Ela atendia, o som do vento e das ondas ao fundo. — Olha como o mar está lindo!

— Você passou a pomada? — Era a primeira pergunta dele, sempre.

— Passei... — ela respondia com aquele tom manhoso que indicava que estava sendo mimada pelas amigas. — A Bia está cuidando de mim. Não fica bravo, mas hoje eu comi um sorvete de pistache que me lembrou você.

Emanuel sentia um aperto no coração. Ele queria estar lá. Queria ser o sorvete, queria ser o sol, queria ser a areia sob os pés dela.

Enquanto isso, no escritório do estúdio principal, Sara trabalhava dobrado. Ela não era apenas a namorada loira e chamativa que todos viam; ela era o cérebro por trás da expansão internacional de Emanuel.

— Manu, olha esses números — Sara disse, entrando na sala de tatuagem dele entre um cliente e outro. — Se abrirmos a filial em Madri no próximo semestre, nosso faturamento dobra. Mas preciso que você assine esses termos de responsabilidade.

Emanuel olhou para os papéis, mas sua mão hesitou.

— A Duda não atendeu a última chamada de vídeo.

Sara suspirou, batendo a pasta na mesa com força.

— Emanuel, pelo amor de Deus! Ela deve estar no banho ou dormindo. Foca aqui! Eu estou tentando construir um império para nós e você está agindo como um adolescente ciumento.

— Não é ciúme, Sara. É cuidado.

— É controle, e você sabe disso — Sara se aproximou, sentando-se no colo dele de forma possessiva, ignorando o fato de que ele ainda usava as luvas pretas de procedimento. — Deixa ela respirar. Se você apertar demais, ela vai acabar fugindo de verdade. Aproveita que eu estou aqui. Eu sou a mulher que entende seus negócios, que divide a cama com você sem pedir permissão e que não precisa de pomada para aguentar o que você tem a oferecer.

Emanuel olhou para Sara. Ela era magnífica em sua vulgaridade confiante. Ele a puxou para um beijo agressivo, uma forma de descontar a frustração e a ansiedade. Sara correspondeu com a mesma intensidade, as mãos explorando o corpo tatuado dele com uma familiaridade que Eduarda ainda não possuía.

No entanto, mesmo no auge do prazer com Sara, uma parte de Emanuel permanecia em vigília.

Na quinta-feira, o telefone de Emanuel tocou às duas da manhã. Ele sentou-se na cama instantaneamente, o coração disparado. Sara resmungou ao seu lado, cobrindo o rosto com o travesseiro.

— Manu... — a voz de Eduarda estava trêmula do outro lado da linha.

— O que aconteceu? Onde você está? — Ele já estava de pé, procurando as calças no escuro.

— Eu... eu tive um pesadelo. E aqui está fazendo um barulho estranho, parece que tem alguém no jardim da casa... estou com medo.

— Tranca a porta do quarto, Duda. Agora. Eu estou indo para aí.

— O quê? — Sara sentou-se na cama, acendendo o abajur, os cabelos loiros bagunçados. — Emanuel, são três horas de viagem! Você tem três tatuagens grandes agendadas para amanhã cedo!

— Eu não ligo, Sara! — Ele gritou, vestindo a camisa com pressa. — Ela está com medo.

— Ela está tendo uma crise de carência! — Sara levantou-se, nua e imponente. — Manu, para e pensa. É uma casa de condomínio fechado. Tem segurança. Ela só quer que você vá buscar ela porque sentiu falta do seu colo.

Emanuel parou com a chave do carro na mão. Ele olhou para o celular, onde Eduarda ainda soluçava baixinho.

— Duda, coloca a Bia no telefone — ele ordenou.

Alguns segundos depois, a voz sonolenta da amiga de Eduarda surgiu.

— Emanuel? O que foi?

— Tem alguém no jardim?

— O quê? Não! É o vento nas palmeiras, Emanuel. A Duda está tendo um ataque de pânico porque assistimos um filme de suspense antes de dormir. Eu estou cuidando dela, relaxa.

Emanuel fechou os olhos, respirando fundo. A irritação começou a substituir o medo.

— Passa para ela.

— Duda — Emanuel disse, a voz agora rígida e controladora —, você vai tomar um copo de água, vai deitar e vai dormir. Eu não vou aí agora. Mas amanhã, ao meio-dia, eu quero você pronta. Eu vou te buscar. A viagem acabou.

— Mas Manu... — ela tentou protestar, o tom manhoso voltando com força.

— Sem "mas", Eduarda. Meio-dia.

Ele desligou o telefone e o jogou sobre a cama. Sara o observava com um sorriso vitorioso.

— Finalmente agindo como homem e não como babá.

— Cala a boca, Sara — ele disse, voltando para a cama, mas sem conseguir relaxar.

No dia seguinte, o reencontro em Búzios foi marcado por um silêncio tenso. Eduarda entrou no carro de Emanuel com os olhos baixos, parecendo uma criança que tinha sido castigada. As amigas se despediram com olhares de pena, o que deixou Emanuel ainda mais irritado.

Durante todo o trajeto de volta, Eduarda não disse uma palavra. Ela apenas se encolheu no banco do passageiro, abraçando os próprios joelhos.

— Você ia se mudar para a minha casa, Duda — Emanuel disse, quebrando o silêncio quando já estavam perto do Rio. — Mas eu percebi que você ainda não está pronta.

Eduarda olhou para ele, surpresa.

— O quê? Mas você disse que queria...

— Eu quero. Mas eu quero uma mulher ao meu lado, não alguém que me liga às duas da manhã por causa do barulho do vento. Você vai continuar na casa dos seus pais por enquanto.

Lágrimas voltaram a inundar os olhos de Eduarda.

— Você está me punindo porque eu tive medo?

— Eu estou te dando o que você pediu: espaço — ele disse, embora a palavra deixasse um gosto amargo em sua boca. — Se você quer ser independente para viajar com amigas, tem que ser independente para lidar com as consequências.

Quando ele a deixou na porta de casa, o adeus foi frio. Eduarda correu para dentro sem olhar para trás, sentindo-se rejeitada pelo homem que era seu mundo.

Emanuel dirigiu até seu apartamento, onde Sara o esperava com uma garrafa de champanhe aberta e uma nova estratégia de marketing para a Ásia.

— Ela está entregue? — Sara perguntou, servindo uma taça para ele.

— Está.

— E ela se muda quando?

— Ela não se muda — Emanuel disse, tomando um longo gole da bebida. — Ela precisa crescer, Sara.

Sara sorriu, aproximando-se dele e passando as mãos pelos seus ombros tensos.

— Ela nunca vai crescer do jeito que você quer, Manu. E é por isso que você tem a mim para os negócios e para as noites quentes, e ela para os domingos à tarde e para os poemas que você finge que não gosta.

Emanuel olhou para a loira à sua frente. Ele sentia falta da doçura de Eduarda, da pele macia e do jeito que ela se moldava a ele. Mas ali, com Sara, ele tinha a estabilidade que seu império exigia. O conflito entre o desejo de proteger e a necessidade de ser desafiado continuava a rasgar sua alma em duas.

Naquela noite, Emanuel recebeu uma mensagem de Eduarda. Era apenas uma foto de um desenho que ela tinha feito: uma fênix, mas com traços suaves, quase etéreos, muito diferentes dos traços agressivos de Emanuel. Abaixo, estava escrito: "Eu ainda sou sua, mesmo quando você me manda embora."

Emanuel não respondeu, mas guardou a imagem. Ele sabia que, em poucos dias, a saudade falaria mais alto e ele estaria novamente na porta dela, implorando pela doçura que só Eduarda podia dar. E Sara estaria lá, assistindo a tudo com seu sorriso irônico, sabendo que, no final das contas, ela era a única que realmente conhecia a escuridão que habitava o coração do tatuador.

O triângulo permanecia intacto, alimentado por lágrimas de vidro e vontades de ferro. E Emanuel, o mestre das marcações permanentes, percebia que as cicatrizes emocionais que ele causava e recebia eram muito mais profundas do que qualquer tinta que ele já tivesse injetado sob a pele.