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Entre o Delírio e a Cicatriz

A redoma de vidro em que Emanuel tentava manter Eduarda havia trincado durante aquela semana em Búzios, mas não quebrado. O afastamento de poucos dias servira apenas para tornar a fome dele algo incontrolável, uma fera que rugia sob a pele tatuada, exigindo a única coisa que podia acalmá-la: a submissão absoluta e o corpo macio daquela que ele protegia desde a infância.

Naquela sexta-feira à noite, o apartamento de Emanuel exalava uma tensão silenciosa. Sara estava no escritório, o som abafado de suas unhas batendo no teclado e o tilintar de gelo em um copo de uísque servindo de trilha sonora para a produtividade fria que ela representava. Eduarda, por outro lado, estava no quarto principal, sentada no tapete felpudo, cercada por livros de História da Arte, mas seus olhos não liam as análises sobre o Renascimento. Ela esperava.

Emanuel entrou no quarto, a jaqueta de couro ainda trazendo o frio da rua. Ele a observou por um longo momento. A luz do abajur criava sombras suaves no rosto dela, destacando o biquinho manhoso que ela fazia sempre que se sentia ignorada.

— Você ainda está acordada — disse ele, a voz grossa e carregada de uma vibração que fez Eduarda estremecer.

— Eu não consegui dormir — sussurrou ela, fechando o livro e engatinhando até ele com a graça de um felino pequeno. — Você demorou hoje, Manu. Eu senti sua falta o dia todo... dói aqui dentro quando você fica longe.

Ela abraçou as pernas dele, encostando o rosto em sua coxa, buscando o calor e a segurança que só ele provia. Emanuel sentiu o sangue latejar em suas têmporas. A doçura de Eduarda era seu maior vício e sua maior tortura. Ele passou a mão pelos cabelos castanhos dela, puxando-os levemente para trás para forçá-la a olhar para ele.

— O mês de castigo acabou, Duda — ele sentenciou, os olhos escuros fixos nos dela. — Você foi ao médico?

— Fui... — ela murmurou, a voz ficando ainda mais baixa e manhosa. — Ela disse que está tudo cicatrizado. Que eu posso... que eu posso ser sua de novo. Mas ela disse para você ter cuidado, Manu. Ela disse que eu sou muito sensível.

Emanuel soltou um riso curto, desprovido de humor, e a levantou do chão com uma facilidade que sempre a deixava tonta. Ele a colocou sobre a cama, desfazendo-se da jaqueta e da camisa com movimentos rápidos e impacientes.

— Eu tentei ter cuidado a vida inteira, pequena — disse ele, ajoelhando-se entre as pernas dela. — Mas você me deixa louco. Ver você chorando por causa do vento, ver você querendo fugir para longe de mim... isso exige um preço.

Eduarda estremeceu quando as mãos grandes e calejadas de Emanuel subiram pelas suas coxas, levantando o tecido fino do seu pijama de seda. Ela não usava calcinha; sabia que ele odiaria qualquer barreira naquela noite.

— Manu, por favor... — ela pediu, mas não era um pedido para parar. Era um convite para o abismo.

Emanuel não esperou. Ele a despiu por completo, expondo a pele alva que parecia brilhar sob a luz âmbar. Ele a explorou com a boca, beijos que eram marcações de território, mordidas leves que arrancavam gemidos agudos de seus lábios. Quando ele chegou ao centro de sua feminilidade, parou por um segundo, observando a cor rosada e a delicadeza daquela região que ele já havia ferido tantas vezes.

— Tão apertada — ele rosnou, passando o polegar com força sobre o clitóris dela. — Tão pequena que parece que vai rasgar só de eu olhar.

— Dói um pouquinho quando você faz assim — ela reclamou, arqueando o corpo, as mãos pequenas agarrando os lençóis. — Seja bonzinho comigo, Manu... seja carinhoso...

— Eu vou te dar exatamente o que você precisa, Duda — ele respondeu, posicionando-se sobre ela.

O contraste era brutal. O corpo de Emanuel, denso, coberto de tinta escura e cicatrizes, sobre o corpo esguio e imaculado de Eduarda. Ele não usou preliminares longas; a necessidade dele era uma emergência. Ele se encaixou na entrada dela, sentindo a resistência imediata da musculatura estreita.

— Manu... está muito grande... — ela choramingou, os olhos começando a marejar. — Devagar, por favor...

Emanuel ignorou o apelo. Ele empurrou com força, sentindo a carne dela ceder e se moldar a ele. Eduarda soltou um grito abafado contra o ombro dele, as unhas cravando-se em suas costas. A sensação de preenchimento era quase insuportável para ela; era como se ele estivesse ocupando cada espaço vago de sua existência.

— Você me sente? — Emanuel perguntou, a voz vibrando de uma possessividade selvagem. — Você sente quem é o seu dono?

— Sinto... Manu, dói... mas é bom... — ela dizia, a voz entrecortada por soluços de prazer e dor. — Mais... eu quero mais...

Ele começou a se mover. No início, tentou manter um ritmo constante, mas a forma como Eduarda o apertava, o jeito como ela gemia o nome dele como se fosse uma oração, destruiu o resto de sua sanidade. Emanuel começou a estocá-la com uma violência rítmica, o som dos corpos se chocando ecoando pelo quarto.

A cada investida, ele ia mais fundo, atingindo o colo do útero dela, ignorando o fato de que a pele delicada de Eduarda já começava a sofrer sob o atrito constante. Ele a queria marcada. Queria que, amanhã, ela sentisse dificuldade ao caminhar e lembrasse que cada passo era um tributo a ele.

— Você é minha bonequinha de vidro — ele sibilou, segurando os braços dela acima da cabeça. — E eu vou te quebrar e te consertar quantas vezes eu quiser.

Eduarda estava em transe. A dor era um pano de fundo para a conexão espiritual que ela sentia. Ela amava a forma como Emanuel perdia o controle com ela; era a única vez que o homem racional e frio deixava a máscara cair. Ela se entregava àquela brutalidade com uma devoção quase doentia, oferecendo sua fragilidade como sacrifício ao altar da força dele.

— Me quebra, Manu... me marca... — ela suplicava, o rosto banhado em suor e lágrimas.

No auge do ato, Emanuel a virou de costas, puxando-a pelos quadris. Ele a penetrou por trás com uma fúria renovada, observando como a pele das coxas dela ficava vermelha sob seus dedos. Ele não tinha misericórdia. Ele a fodia com a intenção de deixar uma lembrança permanente, um selo de posse que nem o tempo nem a distância poderiam apagar.

A porta do quarto se abriu silenciosamente. Sara estava parada ali, encostada no batente, segurando seu copo de uísque. Ela observava a cena com um olhar de predadora, um sorriso cínico nos lábios perfeitamente pintados. Ela não sentia ciúme; sentia poder. Ela sabia que Emanuel precisava daquela pureza de Eduarda para não se perder na própria escuridão, e sabia que, depois que ele terminasse de destruir a pequena, seria nos braços dela, Sara, que ele buscaria o repouso do guerreiro.

— Você vai acabar mandando ela para o hospital de novo, Manu — disse Sara, a voz arrastada e vulgar, cortando o ar carregado de sexo.

Emanuel não parou. Ele apenas olhou para Sara por cima do ombro, os olhos injetados de desejo.

— Ela aguenta — ele respondeu, dando uma estocada final e profunda que fez Eduarda soltar um grito agudo que terminou em um gemido longo e desesperado.

Emanuel desabou sobre as costas de Eduarda, o coração martelando contra as costelas. Ele sentia o tremor nas pernas dela, a forma como ela soluçava baixinho, exausta. Ele se retirou lentamente, sentindo o calor e a umidade que os uniam. Quando olhou para baixo, viu os vestígios de sangue misturados ao sêmen e ao lubrificante natural dela. Ele a havia machucado de novo.

— Manu... — ela chamou, a voz quase inaudível, estendendo a mão para trás.

Ele a puxou para seus braços, cobrindo-a com o lençol, ignorando o olhar de Sara que ainda permanecia na porta.

— Eu estou aqui, pequena. Eu cuido de você — ele murmurou, beijando a nuca dela com uma ternura que parecia impossível após a violência de instantes atrás.

Sara deu um último gole em seu uísque e deu as costas, caminhando em direção ao próprio quarto.

— Não esquece de passar a pomada, Emanuel — ela gritou do corredor, a risada ecoando pelo apartamento. — Amanhã ela tem aula e eu não quero que ela falte por não conseguir sentar na cadeira da faculdade.

Emanuel suspirou, fechando os olhos e apertando Eduarda contra si. Ele sentia a ardência na pele dela, o inchaço que começava a se formar, e uma satisfação sombria preenchia seu peito. Ele a possuía. De todas as formas, em todos os sentidos.

— Dói muito? — ele perguntou, a mão descendo para acariciar o ventre dela.

— Dói... — ela admitiu, aninhando-se nele, o rosto escondido em seu pescoço. — Mas é uma dor que me faz sentir que eu sou sua. Não para de me tocar, Manu. Nunca para.

— Eu nunca vou parar, Duda. Você é minha cicatriz mais profunda.

Ali, no silêncio que se seguiu à tempestade, Emanuel percebeu que seu império de estúdios, suas riquezas e seu renome não valiam nada perto daquele momento. Ele tinha o fogo de Sara para desafiá-lo e a fragilidade de Eduarda para mantê-lo humano. Ele era o mestre de duas mulheres opostas, o centro de um universo de excessos e carências.

E enquanto Eduarda adormecia em seus braços, marcada e ferida pela sua paixão desmedida, Emanuel sabia que o ciclo se repetiria. Ele a machucaria, a curaria e a possuiria novamente, em um ritual eterno de amor e destruição. Porque, para Emanuel, amar não era proteger do mundo; era ser o único mundo onde Eduarda tinha permissão para existir, mesmo que esse mundo fosse feito de dor, prazer e uma incontrolável, absoluta e eterna possessividade.