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O Preço da Liberdade e o Gosto do Pecado
A rotina no apartamento de Emanuel era um delicado jogo de sombras e luzes, onde cada peça se movia conforme a vontade soberana dele, mas sob a influência magnética de Sara. Naquela manhã, o ar estava carregado com o cheiro de café forte e o perfume caro de Sara, que já circulava pela sala usando apenas um camisetão de Emanuel e saltos agulha, revisando planilhas em seu tablet com uma eficiência que beirava o cruel.
Eduarda, por outro lado, parecia uma aparição etérea saindo do corredor. Usava um pijama de seda clara, os cabelos castanhos propositalmente bagunçados e os olhos ainda inchados de sono. Ela caminhou até Emanuel, que estava sentado à mesa da cozinha, e se aninhou entre as pernas dele, buscando o calor habitual.
— Bom dia, Manu... — murmurou ela, a voz carregada daquela manha que era seu refúgio e sua arma. — Você nem me acordou quando levantou.
Emanuel passou a mão grande pelos cabelos dela, sentindo a maciez familiar.
— Você estava dormindo tão profundamente, pequena. Achei que precisava de descanso depois de ontem — ele disse, a voz suavizando-se, embora seus olhos permanecessem fixos em alguns papéis do estúdio.
Sara soltou um riso curto e seco do outro lado da sala, sem desviar os olhos do tablet.
— Ela sempre precisa de descanso, Manu. Se dependesse da Duda, o mundo pararia para ela tirar uma soneca no seu colo. Mas o mundo real não espera, e o nosso negócio também não.
Eduarda encolheu-se levemente contra o peito de Emanuel, sentindo a alfinetada.
— Eu não atrapalho os negócios, Sara — rebateu Eduarda, baixinho, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel.
— Não atrapalha porque eu não deixo — Sara levantou-se, caminhando até eles com uma elegância predatória. Ela parou ao lado de Emanuel e colocou a mão sobre o ombro dele, a possessividade brilhando nos olhos loiros. — Aliás, Manu, estava pensando... a Jéssica volta de Milão hoje.
Emanuel travou o maxilar por um segundo. Ele conhecia aquele tom de voz de Sara. Era o tom que ela usava quando queria introduzir um novo elemento de caos e prazer na dinâmica deles.
— E o que isso tem a ver conosco? — perguntou ele, embora já soubesse a resposta.
— Ah, não seja cínico. Você sabe que a Jéssica sempre foi nossa favorita. Ela sente sua falta, Manu. E eu sinto falta da energia que nós três tínhamos antes da... — ela olhou para Eduarda com um desdém mal disfarçado — ...antes da pequena flor se tornar o centro das suas atenções exclusivas.
Eduarda levantou a cabeça, o rosto empalidecendo. Ela já ouvira histórias, fragmentos do passado de Emanuel e Sara, de uma época em que a liberdade deles não conhecia limites e outras pessoas eram convidadas para a cama deles como se fossem apenas acessórios de luxo.
— Manu? — a voz de Eduarda tremeu. — O que ela está dizendo?
Emanuel suspirou, sentindo a tensão crescer. Ele amava a exclusividade de Eduarda, a forma como ela era só sua, mas o lado sombrio de sua personalidade, aquele que Sara alimentava com maestria, sentia falta da adrenalina dos velhos tempos.
— É só uma amiga da Sara, Duda. Alguém que costumava sair com a gente — ele tentou simplificar, mas Sara não permitiu.
— Sair com a gente? — Sara gargalhou, sentando-se na mesa, de frente para eles. — Nós fazíamos coisas incríveis, Duda. A Jéssica sabe exatamente como lidar com o temperamento do Emanuel. Ela não se quebra, ela não chora, ela simplesmente aproveita. Estava pensando em convidá-la para jantar aqui amanhã. E depois do jantar... quem sabe?
— Não! — Eduarda exclamou, levantando-se do colo de Emanuel, as mãos pequenas tremendo. — Manu, você prometeu que agora era diferente. Você disse que eu era o que você precisava. Eu não quero outra pessoa aqui. Eu não quero ver você com outra mulher que não seja a Sara.
— A Sara é a minha namorada, Duda. Ela faz parte de mim — Emanuel disse, a voz tornando-se mais rígida, o lado controlador vindo à tona diante do desafio. — Mas você sabe como as coisas funcionam aqui. A Sara gerencia muitas partes da minha vida.
— Mas não o seu corpo! Não o nosso tempo juntos! — Eduarda começou a chorar, aquela manha transformando-se em um desespero genuíno. Ela se jogou novamente nos braços dele, mas desta vez de forma frenética. — Por favor, Manu... eu faço o que você quiser. Eu moro aqui de vez, eu saio da faculdade se você quiser, mas não traz essa mulher. Eu vou me sentir tão pequena... tão nada.
Sara revirou os olhos, impaciente.
— Lá vem o teatro. Manu, você não vai deixar que as inseguranças de uma menina de vinte anos ditem como nós nos divertimos, vai? A Jéssica é discreta, é profissional e ela adora o seu trabalho. Ela até quer fazer um fechamento de perna com você. Seria uma ótima publicidade para o estúdio novo.
Emanuel olhou para Eduarda, que soluçava contra seu peito, e depois para Sara, que o desafiava com o olhar, oferecendo-lhe um tipo de prazer que ele sabia ser viciante. Ele estava sendo puxado em duas direções opostas: a doçura protetora que sentia por Duda e a luxúria desenfreada que Sara evocava.
— Ela só vem para o jantar, Sara — Emanuel sentenciou, tentando encontrar um meio-termo. — Nada de promessas para depois.
— Veremos — Sara sorriu, sabendo que já tinha plantado a semente. Ela se inclinou e deu um beijo rápido e possessivo em Emanuel antes de sair para o quarto. — Vou confirmar com ela. Tente acalmar a sua boneca, Manu. Ela está molhando a sua camisa toda.
O dia seguiu pesado. Eduarda recusou-se a comer e passou a maior parte do tempo encolhida no quarto de hóspedes que Emanuel mantinha para ela, recusando-se a falar. Emanuel, por sua vez, tentou focar no trabalho, mas a imagem de Eduarda sofrendo o perseguia. Ao mesmo tempo, a ideia de Jéssica — alta, decidida e experiente — trazia uma expectativa carnal que ele tentava suprimir.
Ao cair da noite, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela.
— Duda? — ele chamou suavemente.
— Vai embora, Manu — a voz dela veio abafada debaixo das cobertas. — Vai ficar com a Sara e planejar como vocês vão me humilhar amanhã.
Emanuel sentou-se na beira da cama e puxou o edredom, revelando o rosto marcado pelas lágrimas.
— Ninguém vai te humilhar, pequena. Eu nunca deixaria isso acontecer.
— Mas você deixou ela convidar essa mulher! Você sabe que eu sou tímida, Manu... eu não sei agir perto de pessoas assim. Eu vou me sentir um estorvo.
Emanuel a puxou para o seu colo, sentindo como ela estava pequena e frágil.
— Você nunca é um estorvo. Você é a minha paz, Duda. Mas a Sara... ela precisa dessas coisas às vezes. E eu também, de certa forma. É como uma válvula de escape para todo o estresse dos estúdios.
— E eu não sou o suficiente para você escapar do estresse? — ela perguntou, olhando-o com uma intuitividade que o desarmou.
— Você é diferente. Com você é alma, é cuidado. Com a Sara e as coisas dela... é só corpo. É mecânico.
— Eu não entendo essa diferença — Eduarda sussurrou, abraçando-o com força. — Eu só entendo que eu te amo e que dói imaginar outra pessoa tocando em você enquanto eu estou na mesma sala.
— Eu não vou te obrigar a nada, Duda — ele disse, embora soubesse que a pressão de Sara seria difícil de ignorar. — Mas tente ser civilizada. Pelo menos durante o jantar. Faça isso por mim?
Eduarda hesitou, mas a necessidade de agradar Emanuel sempre vencia sua própria vontade.
— Eu tento. Mas se ela começar a... a fazer coisas... eu não vou aguentar, Manu.
Na noite seguinte, o apartamento estava impecável. Sara havia encomendado comida japonesa de um dos lugares mais caros da cidade e usava um vestido dourado que mais parecia uma segunda pele. Eduarda, por insistência de Emanuel, usava um vestido de seda azul marinho, discreto e elegante, mas sentia-se como se estivesse usando uma armadura que não a protegia de nada.
A campainha tocou e Jéssica entrou. Ela era exatamente como Eduarda temia: loira como Sara, mas com um ar mais atlético e uma confiança que transbordava.
— Emanuel! — Jéssica exclamou, indo direto abraçá-lo e dando-lhe dois beijos no rosto que demoraram um pouco mais do que o necessário. — Você está cada vez melhor. O sucesso te faz bem.
— Obrigado, Jéssica. Você também não mudou nada — Emanuel respondeu, mantendo a polidez, mas sentindo o olhar de Eduarda queimando em suas costas.
— E esta deve ser a famosa Eduarda — Jéssica disse, virando-se para a mais nova com um sorriso que não chegava aos olhos. — Sara me falou muito de você. Disse que você é uma doçura. Quase uma criança, não é?
Eduarda sentiu o sangue subir ao rosto.
— Eu tenho vinte anos — respondeu, tentando manter a voz firme, mas falhando miseravelmente.
— Claro que tem, querida. Que idade adorável — Jéssica piscou para Sara, e as duas trocaram um olhar de cumplicidade que fez o estômago de Eduarda revirar.
O jantar foi uma tortura para Eduarda. Sara e Jéssica dominavam a conversa, rindo de histórias antigas, de viagens que fizeram juntas e de festas onde Emanuel era o protagonista de excessos que Eduarda mal conseguia imaginar. Emanuel participava, mas seus olhos voltavam-se constantemente para Eduarda, que mal tocava na comida, mantendo a cabeça baixa.
— Sabe, Manu — Jéssica disse, após a terceira taça de vinho —, eu vi as fotos do seu novo estúdio em Berlim. A decoração está incrível. Mas ouvi dizer que você está precisando de inspiração para a nova coleção de flashes.
— Sempre estou em busca de algo novo — Emanuel respondeu, recostando-se na cadeira.
— Eu trouxe algumas ideias... e o "material" para você testar, se quiser — Jéssica inclinou-se para frente, o decote generoso tornando-se o foco da mesa. Ela passou a mão pela coxa, levantando levemente a saia. — Minha pele está pronta para você, como sempre.
Eduarda soltou os hashis, o som da madeira batendo na porcelana ecoando no silêncio que se seguiu.
— Eu acho que... eu vou me deitar — disse Eduarda, a voz embargada.
— Ah, não seja estraga-prazeres, Duda — Sara disse, a voz ficando mais ríspida. — O jantar mal começou. A Jéssica é de casa.
— Eu não me sinto em casa! — Eduarda explodiu, levantando-se. As lágrimas já rolavam livremente. — Vocês estão agindo como se eu não estivesse aqui. Manu, você disse que seria só um jantar!
Emanuel levantou-se também, a irritação crescendo. Ele odiava cenas, especialmente na frente de visitas.
— Eduarda, senta agora. Você está sendo infantil.
— Eu sou infantil porque eu tenho sentimentos? — ela soluçou, olhando para ele com uma mágoa profunda. — Você gosta disso, não é? Gosta de ver elas se oferecendo, gosta de saber que pode ter todas ao mesmo tempo. Mas eu não sou assim, Manu. Eu não consigo ser assim.
Jéssica soltou uma risadinha abafada, o que foi o estopim para Eduarda. Ela saiu correndo em direção ao quarto, batendo a porta com força.
O silêncio que ficou na sala era desconfortável. Emanuel olhou para a porta fechada e depois para as duas mulheres à mesa.
— Você pegou pesado, Sara — disse ele, a voz fria.
— Eu? Ela que é uma instável — Sara deu de ombros, servindo-se de mais vinho. — Mas agora que a criança foi dormir, podemos nos concentrar no que interessa. Não é, Jéssica?
Jéssica levantou-se e caminhou até Emanuel, passando os braços pelo pescoço dele. O cheiro dela era forte, invasivo.
— Deixa ela, Manu. Ela precisa crescer. Enquanto isso, por que você não relaxa com quem sabe o que você gosta?
Emanuel sentiu o conflito. O lado prático e carnal queria ceder. Jéssica representava facilidade, um prazer sem cobranças emocionais. Mas o rosto de Eduarda, banhado em lágrimas, não saía de sua mente.
— Hoje não, Jéssica — Emanuel disse, afastando as mãos dela com uma firmeza que surpreendeu até a Sara. — Eu avisei que seria só um jantar.
— Você está brincando? — Sara levantou-se, a voz subindo de tom. — Você vai estragar a noite por causa de um bico daquela menina? Emanuel, você está mudando. E não é para melhor.
— Eu não estou mudando, Sara. Eu estou respeitando os limites — ele rebateu, a autoridade de dono de um império emanando de cada poro. — Jéssica, foi um prazer te ver. Mas a noite acabou para você.
Jéssica olhou de Emanuel para Sara, percebendo que o clima tinha azedado de vez.
— Tudo bem. Eu sei quando não sou bem-vinda. Sara, a gente se fala. Emanuel... você sabe onde me encontrar quando cansar de brincar de casinha.
Após a saída de Jéssica, o apartamento tornou-se um campo de batalha silencioso. Sara limpava a mesa com movimentos bruscos, a raiva evidente em cada gesto.
— Você a humilhou — Sara sibilou. — A Jéssica é uma aliada importante. E você a mandou embora por causa de uma crise de choro de uma menina que não sabe nem o que quer da vida.
— Eu não a humilhei. Eu apenas coloquei limites — Emanuel respondeu, caminhando em direção ao quarto de Eduarda. — E se você não consegue entender a diferença entre uma aliada e alguém que você quer usar para me testar, talvez quem precise crescer seja você, Sara.
Ele entrou no quarto de Eduarda sem bater. Ela estava encolhida na cama, chorando baixinho. Emanuel sentou-se ao seu lado e, sem dizer nada, a puxou para o seu abraço.
— Ela foi embora, Duda.
Eduarda levantou os olhos, surpresa.
— Você mandou ela embora?
— Mandei. Porque você é mais importante. Mas você precisa entender uma coisa, pequena... — ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhar em seus olhos — ...o meu mundo é complicado. A Sara faz parte dele, e as pessoas que ela traz também. Eu escolhi você, mas eu não posso mudar quem eu sou da noite para o dia.
— Eu não quero que você mude — ela sussurrou, a manha voltando à medida que se sentia segura novamente. — Eu só quero que você me proteja. Até de você mesmo, se for preciso.
— Eu vou te proteger — ele prometeu, beijando-lhe a testa. — Mas amanhã, você vai pedir desculpas à Sara pela cena no jantar. Nós vivemos sob o mesmo teto agora, e eu não vou tolerar esse clima de guerra.
Eduarda assentiu, embora soubesse que a paz seria temporária. Ela sabia que Sara não desistiria facilmente e que Emanuel continuaria sendo o centro de uma disputa de poder que ela mal compreendia.
Naquela noite, Emanuel dormiu entre as duas. De um lado, Sara, rígida e fria, emanando uma fúria silenciosa que ele sabia que teria de compensar mais tarde com presentes ou concessões nos negócios. Do outro, Eduarda, que se agarrava ao seu braço como se ele fosse seu único oxigênio.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso de suas escolhas. Ele tinha o sucesso, o dinheiro e as mulheres que desejava, mas o preço daquela liberdade era uma vigilância constante. Ele era o tatuador que marcava peles permanentemente, mas eram aquelas duas mulheres que, de formas tão opostas, estavam deixando as marcas mais profundas em sua própria alma. E ele sabia, com a clareza de quem entende de dor, que aquele equilíbrio era tão delicado quanto a pele de Eduarda e tão explosivo quanto o temperamento de Sara. A próxima marca seria apenas uma questão de tempo.