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O Brilho da Galeria e o Gosto Amargo do Ciúme
A galeria de arte no Jardim Europa estava banhada por uma iluminação suave, projetada para destacar as nuances das telas impressionistas que Eduarda havia selecionado com tanto esmero. Como parte final de seu estágio e início de sua carreira como curadora, aquele evento era o ápice de meses de trabalho silencioso. Eduarda estava radiante, embora sua radiância fosse como a luz da lua: suave, contida e elegante. Ela usava um vestido de seda off-white que caía fluidamente pelo seu corpo esguio, e seus cabelos castanhos estavam presos em um coque frouxo que deixava algumas mechas emoldurarem seu rosto doce.
Ao seu lado, como uma extensão de sua própria alma, estava Maya. A pequena, agora com pouco mais de dois anos, parecia uma miniatura da mãe. Usava um vestidinho de veludo azul-marinho com gola de renda e sapatos de boneca vernizados. Maya segurava a mão de Eduarda com firmeza, os olhos grandes e curiosos observando as cores nas paredes, mas sempre voltando para o rosto da "mamãe" em busca de segurança.
— Você está indo muito bem, meu amor — sussurrou Eduarda, agachando-se para ficar na altura da filha. — Só mais um pouquinho e vamos para casa ver o papai, está bem?
— O papai vem? — Maya perguntou, a voz manhosa.
— O papai teve uma emergência no estúdio de Londres por telefone, lembra? Mas ele prometeu que nos esperaria para o jantar — explicou Eduarda, sentindo uma pontada de saudade. Emanuel queria estar lá, mas a vida de um magnata da tatuagem e dos negócios imobiliários era imprevisível.
— Eduarda, querida! Que trabalho primoroso.
A voz masculina e aveludada fez Eduarda se levantar rapidamente. Era Ricardo, o dono da galeria. Ele era um homem na casa dos trinta e cinco anos, herdeiro de uma fortuna tradicional, com um sorriso perfeitamente alinhado e um terno que custava mais do que o carro de muita gente. Ricardo sempre fora cordial, mas naquela noite, seus olhos brilhavam com uma intensidade que Eduarda, em sua timidez intrínseca, preferia rotular como "entusiasmo profissional".
— Obrigada, Ricardo. Fico feliz que tenha gostado da disposição das peças — respondeu ela, desviando o olhar para uma das telas.
— Gostado? Estou fascinado — Ricardo deu um passo à frente, invadindo levemente o espaço pessoal de Eduarda. — Você tem uma sensibilidade rara, Eduarda. Consegue ver alma onde outros só veem técnica. E, se me permite dizer, essa exposição não é a única coisa deslumbrante nesta sala hoje.
Eduarda sentiu o rosto esquentar. Ela não era ingênua, mas o conflito a assustava. Se ela o cortasse bruscamente, poderia prejudicar sua carreira; se aceitasse o elogio, sentiria que estava traindo a confiança de Emanuel. Então, ela fez o que melhor sabia fazer: refugiou-se na sua natureza esquiva e fingiu que o elogio era puramente sobre seu trabalho.
— A iluminação realmente ajudou muito, Ricardo. O mérito é da equipe técnica também — disse ela, com um sorriso tímido e forçado.
Ricardo soltou uma risada baixa, os olhos fixos nos lábios dela.
— Sempre tão modesta. É um charme irresistível, sabia? — Ele então baixou o olhar para Maya, que o encarava com uma expressão séria, quase protetora. — E quem é essa pequena princesa? É a sua cara, Eduarda.
— Esta é a Maya — Eduarda apresentou, sentindo a mão da filha apertar a sua.
Ricardo se inclinou.
— Olá, Maya. Você sabia que sua mamãe é a mulher mais linda e talentosa que já passou por esta galeria?
Maya não respondeu. Ela apenas se escondeu atrás das pernas de Eduarda, observando o homem com desconfiança. Ricardo voltou a se erguer, o olhar percorrendo o corpo de Eduarda com uma liberdade que a deixou desconfortável.
— Sabe, Eduarda, eu adoraria discutir sua contratação permanente em um jantar mais reservado. Sem o barulho de uma vernissage. O que acha?
— Eu... eu precisaria ver minha agenda da faculdade, Ricardo. E as meninas tomam muito do meu tempo — ela gaguejou, buscando desesperadamente uma saída.
— Uma mulher como você não deveria estar presa a agendas — Ricardo insistiu, tocando levemente o braço dela. — Você merece o mundo aos seus pés.
Felizmente, um grupo de colecionadores chamou por Ricardo, e ele se despediu com um beijo demorado na mão de Eduarda, deixando-a trêmula e ansiosa para ir embora.
O restante da noite passou como um borrão. Quando Eduarda e Maya finalmente chegaram à cobertura, a casa estava silenciosa. Sara já havia se recolhido com Ágata, e Emanuel estava sentado na poltrona de couro do escritório, com um copo de uísque na mão e o notebook iluminando seu rosto cansado.
— Como foi? — ele perguntou, levantando-se assim que as viu.
— Foi ótimo, Emanuel. A exposição foi um sucesso — Eduarda respondeu, aproximando-se para receber um beijo na testa. Ela decidiu não mencionar Ricardo. Afinal, ela não tinha dado corda, e Emanuel já andava estressado demais com os negócios.
No dia seguinte, o café da manhã começou como qualquer outro. A mesa estava farta, um contraste entre as escolhas saudáveis de Eduarda e os itens extravagantes que Sara exigia. Sara estava deslumbrante em um conjunto de academia de grife, tomando seu suco verde enquanto checava os lucros do dia anterior no tablet. Ágata tentava convencer o pai de que precisava de um pônei, enquanto Emanuel, com os cabelos levemente bagunçados e uma expressão séria, tentava ler as notícias.
Maya estava sentada ao lado de Emanuel, comendo silenciosamente um pedaço de mamão. Eduarda servia o café, sentindo-se relaxada por estar em seu ambiente seguro.
— O evento ontem foi bem frequentado, Duda? — Sara perguntou, sem tirar os olhos do tablet. — Vi umas fotos no Instagram da alta sociedade. Aquele dono da galeria, o Ricardo, estava em todas. Ele é um galinha de marca maior, mas tem contatos excelentes.
Eduarda sentiu um calafrio, mas manteve a voz estável.
— Sim, ele conhece muita gente. Foi bom para a visibilidade das obras.
Emanuel levantou os olhos do jornal, sua atenção agora capturada.
— Ele tratou você bem? — perguntou ele, o tom de voz baixando uma oitava, tornando-se aquela nota possessiva que Eduarda conhecia bem.
— Sim, claro. Foi muito profissional — Eduarda respondeu, focando em passar manteiga na torrada.
Foi então que Maya, com a maior inocência do mundo e a voz ainda carregada pelo sono, resolveu participar da conversa.
— O moço bonito chamou a mamãe de linda, papai.
O som do talher de Emanuel batendo no prato de porcelana ecoou como um tiro na sala de jantar. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Sara parou de digitar e levantou as sobrancelhas, um sorriso sarcástico começando a desenhar-se em seus lábios siliconados.
— É mesmo, Maya? — Sara perguntou, instigando o caos. — E o que mais o "moço bonito" disse?
— Ele deu um beijo na mão da mamãe — Maya continuou, balançando as perninhas na cadeira. — E disse que ela era... des-lum-brante. E que queria jantar com ela.
Emanuel se virou lentamente para Eduarda. Seus olhos, que antes estavam cansados, agora brilhavam com uma fúria fria e controlada. A mandíbula estava tão rígida que os músculos do seu pescoço saltavam.
— Jantar? — a voz de Emanuel saiu como um rosnado baixo. — Ele convidou você para jantar e chamou você de linda na frente da nossa filha, Eduarda?
— Emanuel, não foi nada disso... — Eduarda começou, sentindo a insegurança tomar conta. — Ele estava apenas sendo gentil, um pouco exagerado, talvez. Eu nem dei atenção.
— Gentil? — Emanuel levantou-se da mesa, a altura e a presença dele dominando o ambiente. — Chamar a mulher de outro homem de linda e convidá-la para jantar em um evento de trabalho não é gentileza, é uma declaração de intenções.
— Ih, o bicho vai pegar — murmurou Sara, bebendo um gole do suco verde com deleite. — Ágata, termine sua fruta, o clima vai esquentar.
Emanuel caminhou até Eduarda, que se encolheu levemente contra a bancada da cozinha. Ele colocou as mãos sobre o mármore, cercando-a. O cheiro de perfume amadeirado e café que emanava dele era inebriante, mas a tensão era quase física.
— Por que você não me contou? — ele perguntou, os olhos fixos nos dela.
— Porque eu sabia que você ia reagir assim! — Eduarda exclamou, a voz manhosa e embargada. — Você é muito ciumento, Emanuel. Ele é o dono da galeria, eu não podia simplesmente dar um tapa na cara dele. Eu ignorei, eu mudei de assunto. Eu juro.
— Você ignorou? — Emanuel aproximou o rosto do dela, a respiração quente tocando sua bochecha. — Eduarda, você é doce demais para o seu próprio bem. Homens como esse Ricardo veem essa sua timidez como um convite. Eles acham que podem te ganhar com palavras bonitas porque você não sabe ser rude.
— Eu sei me cuidar — ela sussurrou, os olhos começando a brilhar com lágrimas.
— Não, você não sabe. Por isso você tem a mim — ele disse, a voz agora carregada de uma possessividade sombria. — Eu vou ligar para aquele estúdio jurídico e cancelar o patrocínio que íamos dar para a próxima exposição dele. E depois, vou ter uma conversa pessoal com o senhor Ricardo sobre onde terminam os limites profissionais dele.
— Emanuel, não! Você vai arruinar minha carreira! — Eduarda protestou, segurando a camiseta dele com as mãos trêmulas. — Por favor, não faça um escândalo.
Sara, que observava tudo como se estivesse assistindo a uma novela de sucesso, resolveu intervir.
— Deixa de ser frouxa, Eduarda. Se um homem dá em cima de você assim, você usa isso a seu favor ou corta as pernas dele. Mas o Emanuel tem razão em uma coisa: esse Ricardo é um predador. Ele não quer sua curadoria, ele quer você no catálogo de conquistas dele.
— Viu? Até a Sara concorda — Emanuel disse, embora o fato de concordar com Sara não o deixasse menos irritado.
Ele olhou para Maya, que agora parecia um pouco assustada com a reação do pai. Emanuel respirou fundo, tentando controlar a explosão de testosterona e ciúme que corria em suas veias. Ele voltou sua atenção para Eduarda, pegando-a pela cintura e puxando-a para perto, sem se importar com a presença de Sara ou das crianças.
— Você é minha, Eduarda. Entendeu? — ele disse, a voz vibrando contra o peito dela. — Eu não passo o dia trabalhando e construindo esse império para que um engomadinho de galeria ache que pode desrespeitar o que é meu.
— Eu não sou um objeto, Emanuel — ela respondeu, embora o tom fosse mais manhoso do que firme. Ela adorava, no fundo, a forma como ele a protegia, mesmo que fosse excessiva.
— Você é a minha mulher. E ninguém, absolutamente ninguém, faz convites para você sem passar por mim — ele selou a frase com um beijo possessivo, profundo, que deixou Eduarda sem fôlego e com as pernas bambas.
Sara soltou um assobio irônico.
— Se forem fazer isso aqui na frente das crianças, avisem que eu levo as meninas para o parquinho.
Emanuel se afastou de Eduarda, mas manteve uma mão firme em sua cintura. Ele olhou para Sara.
— Sara, ligue para a administração. Quero o levantamento de todos os nossos contratos com a galeria do Ricardo. Vamos retirar tudo.
— Com prazer, querido — Sara sorriu, os olhos brilhando com a perspectiva de destruir alguém financeiramente. — Eu nunca gostei daquele cara mesmo. Ele me olhou de cima a baixo uma vez como se eu fosse "vulgar demais" para o gosto refinado dele. Vai ser um prazer ver o fluxo de caixa dele secar.
Eduarda enterrou o rosto no ombro de Emanuel.
— Você é impossível.
— Eu sou o homem que cuida do que ama — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela.
Maya, vendo que o papai não estava mais bravo com ela, mas sim com o "moço bonito", sorriu e voltou a comer seu mamão.
— O moço bonito não é mais bonito, papai? — perguntou a pequena.
Emanuel olhou para a filha, e um sorriso genuíno finalmente apareceu em seu rosto.
— Não, Maya. O moço bonito agora é só um homem pobre e muito arrependido.
O café da manhã continuou, mas a dinâmica havia mudado. Emanuel estava em alerta máximo, Sara estava em modo de ataque administrativo e Eduarda, apesar do susto, sentia-se envolvida por uma camada de proteção que só aquele arranjo familiar maluco poderia proporcionar. Ela sabia que teria que lidar com as consequências profissionais, mas ao sentir a mão de Emanuel apertar a sua por baixo da mesa, ela soube que, no mundo dele, ela nunca estaria sozinha para enfrentar os lobos. E para uma mulher sensível e tímida como ela, aquele ciúme bruto era a mais clara das declarações de amor.