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O Sangue, o Grito e o Instinto de Proteção
A tensão na cobertura de Emanuel ainda vibrava como uma corda de violão prestes a arrebentar. A decisão de asfixiar financeiramente a galeria de Ricardo estava tomada na mente de Emanuel, mas a execução encontrou um obstáculo intransponível: o olhar suplicante de Eduarda. No escritório, entre o cheiro de couro e o brilho das telas de monitoramento dos estúdios, Emanuel andava de um lado para o outro, enquanto Sara, sentada na beirada da mesa com suas pernas cruzadas e saltos agulha balançando, o observava com um misto de tédio e diversão.
— Você vai mesmo deixar aquele engomadinho sair ileso depois de cantar a Duda na frente da nossa filha? — Sara perguntou, lixando uma unha perfeita. — Se fosse comigo, eu já teria feito ele pedir concordata antes do almoço.
— Eu não vou deixar ele ileso, Sara — Emanuel rosnou, parando diante da janela que dava para o skyline de São Paulo. — Mas a Eduarda tem razão. Se eu retiro o patrocínio agora, o nome dela fica manchado no meio artístico. Vão dizer que ela só conseguiu o espaço por causa do meu dinheiro e que eu controlo a carreira dela. Eu não quero que ela se sinta uma marionete.
— Ela é sensível demais, Emanuel. Às vezes, você precisa ser o lobo para que ela possa continuar sendo a ovelha — Sara retrucou, levantando-se e caminhando até ele. Ela colocou a mão no ombro dele, uma rara demonstração de apoio prático. — Mas tudo bem. Eu mantenho os contratos por enquanto. Mas se ele encostar um dedo nela de novo, eu mesma cuido disso. E não vai ser nada profissional.
Emanuel assentiu, sentindo o peso da responsabilidade. Ele odiava recuar, mas amava Eduarda o suficiente para entender que o sucesso dela precisava ser legítimo, mesmo que isso custasse seu orgulho.
Enquanto isso, no outro lado da cobertura, Eduarda lidava com um tipo diferente de desconforto. Era aquele período do mês em que seu corpo parecia pesar o dobro, as cólicas a deixavam mais lenta e sua sensibilidade, que já era alta, atingia níveis quase insuportáveis. Ela estava exausta. O estresse do evento na galeria, somado à explosão de ciúmes de Emanuel, a deixara emocionalmente drenada.
Maya, como se sentisse a fragilidade da mãe, não a largava por um segundo. A menina era a sombra de Eduarda. Se Eduarda ia para a cozinha, Maya ia atrás segurando a barra de seu vestido. Se Eduarda sentava no sofá, Maya escalava seu colo e ali ficava, em silêncio, apenas sentindo o batimento cardíaco da "mamãe".
— Mamãe está dodói? — Maya perguntou, os olhos castanhos fixos no rosto pálido de Eduarda.
— Só um pouquinho de dor na barriga, meu anjo — Eduarda respondeu, forçando um sorriso e acariciando os cabelos da filha. — A mamãe vai tomar um banho bem quentinho para melhorar, está bem? Fica aqui com a Ágata e a Mãe Sara.
— Não! — Maya protestou, agarrando-se à mão de Eduarda. — Eu vou com você.
Eduarda suspirou. Sabia que não adiantaria discutir. Maya era o seu "grudinho", e naquele dia, a menina parecia especialmente decidida a não deixá-la sozinha. Elas caminharam até a suíte. No quarto, Eduarda começou a se preparar para o banho. O cansaço era tanto que ela acabou sendo um pouco descuidada. Ao retirar a calcinha para entrar no box, ela a deixou cair sobre o tapete branco do banheiro por um breve segundo antes de pegá-la para colocar no cesto de roupa suja.
Foi o segundo suficiente para o desastre.
Maya, que estava sentada no chão do banheiro observando cada movimento da mãe com uma atenção quase científica, viu a mancha vermelha e viva no tecido claro. Os olhos da menina se arregalaram. Para uma criança de dois anos, sangue era sinônimo de ferimento grave, de dor, de perigo. E aquele sangue estava na sua "mamãe".
— Sangue... — Maya sussurrou, a voz começando a tremer. — Mamãe! Sangue!
Eduarda, percebendo o erro, tentou esconder a peça rapidamente.
— Não é nada, Maya! É só... é coisa de adulto, meu amor. A mamãe não está machucada.
Mas o pânico já havia se instalado no coração da pequena. Maya não ouviu as explicações. Ela viu a mancha e, em sua mente infantil e intuitiva, ligou os pontos com a cena que presenciara mais cedo na mesa de café. Ela vira o papai bravo. Vira o papai gritando e batendo o talher na mesa. Vira a mamãe chorando.
— PAPAI! — Maya soltou um grito dilacerante, um som que atravessou as paredes da suíte e ecoou por toda a cobertura. — PAPAI, NÃO! MAMÃE TÁ MORRENDO!
Eduarda entrou em pânico.
— Maya, silêncio! O papai não fez nada!
Mas a menina já havia disparado para fora do banheiro, correndo pelo corredor com as pequenas pernas gordinhas, chorando de uma forma que parecia que o mundo estava desabando.
No escritório, Emanuel e Sara congelaram ao ouvir o grito. Emanuel foi o primeiro a reagir, derrubando a cadeira ao se levantar. Ele nunca ouvira Maya gritar daquela forma — não era um choro de birra, era um grito de puro terror.
— Maya! — Emanuel gritou, saindo do escritório a tempo de interceptar a menina no corredor.
Maya se jogou nos braços do pai, mas não com carinho. Ela começou a bater no peito dele com as mãozinhas, soluçando desesperadamente.
— Papai mal! Papai mal! — ela berrava, as lágrimas lavando seu rosto. — Você quebrou a mamãe! Tem sangue! Tem muito sangue!
Emanuel sentiu o sangue fugir de seu próprio rosto. O mundo pareceu girar. Sangue? Eduarda?
— O que você está dizendo, Maya? — Emanuel perguntou, a voz falhando, enquanto a segurava pelos ombros.
— Na barriga da mamãe! No banheiro! — Maya soluçava, apontando para a suíte. — O papai brigou e a mamãe está sangrando! Ela vai morrer, papai!
Sara, que chegara logo atrás, ficou estática pela primeira vez na vida. Seus olhos loiros se voltaram para a porta do quarto com uma expressão de choque genuíno.
— Emanuel... o que você fez? — Sara perguntou, a voz num sussurro ríspido. Apesar de todas as brigas, ela nunca imaginara que o temperamento dele pudesse chegar a esse ponto.
— Eu não fiz nada! — Emanuel rugiu, mas a dúvida e o medo já o consumiam. Ele correu para o quarto, com Maya ainda gritando em seu encalço.
Ele invadiu o banheiro. Eduarda estava enrolada em uma toalha, sentada na beira da banheira, com o rosto escondido nas mãos, chorando de puro constrangimento e nervoso.
— Eduarda! — Emanuel caiu de joelhos na frente dela, as mãos trêmulas tateando seus braços e ombros. — Onde? Onde você está machucada? A Maya disse... ela disse que tem sangue. Pelo amor de Deus, me diz o que aconteceu!
Eduarda levantou o rosto, os olhos vermelhos, encontrando não apenas Emanuel em desespero, mas Sara parada na porta com Ágata no colo, ambas com expressões de horror.
— Emanuel, para... — Eduarda pediu, a voz sumindo. — Não é nada disso.
— Como não é nada? A menina está em choque! — Emanuel estava frenético, verificando o rosto dela, o pescoço. — Eu perdi o controle na mesa, eu sei, eu fui um idiota, mas eu nunca... eu nunca encostaria em você!
— Eu sei que não! — Eduarda gritou, conseguindo finalmente calar o ambiente. — Emanuel, eu estou menstruada!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Apenas os soluços residuais de Maya, que se escondera atrás de Sara, quebravam o vazio sonoro do banheiro.
Emanuel paralisou. Sua mente, que estava processando cenários de crime e tragédia, levou alguns segundos para recalibrar. Ele olhou para Eduarda, depois para o chão, onde a calcinha descartada ainda era visível perto do cesto.
— Menstruada? — ele repetiu, a voz saindo fraca, o alívio começando a substituir a adrenalina de uma forma que o deixou quase tonto.
Sara soltou um suspiro tão longo que pareceu esvaziar seus pulmões. Ela encostou a cabeça no batom da porta e começou a rir. Não era uma risada de deboche, era uma risada nervosa, de quem acabara de escapar de um desastre aéreo.
— Pelo amor de todos os deuses da estética... — Sara exclamou, passando a mão pela testa. — Maya, sua pequena terrorista! Você quase matou seu pai de um ataque cardíaco e quase me fez ligar para a polícia!
Maya, ainda desconfiada, saiu de trás de Sara e caminhou lentamente até Eduarda.
— Mamãe não vai morrer? — perguntou a menina, o lábio inferior ainda tremendo.
Eduarda pegou a filha no colo, ignorando a toalha que escorregava levemente. Ela apertou Maya contra si, beijando suas bochechas molhadas.
— Não, meu amor. A mamãe não vai morrer. O papai nunca bateria na mamãe. O papai ama a mamãe, lembra? Isso que você viu... é uma coisa que acontece com todas as mulheres. É como se a barriga estivesse se limpando.
Emanuel ainda estava de joelhos. Ele apoiou a testa no colo de Eduarda, fechando os olhos com força. Suas mãos ainda tremiam. O susto de ser acusado pela própria filha de algo tão terrível, somado ao medo de ter perdido a mulher que amava, fora demais para ele.
— Eu achei que... — Emanuel começou, mas a voz embargou. — Eu achei que eu tinha causado algum estresse tão grande que você tinha passado mal de verdade.
Eduarda colocou a mão na nuca dele, acariciando os cabelos curtos.
— Está tudo bem, Emanuel. Foi só um mal-entendido. A Maya é muito sensível, ela associa tudo.
— Sensível? Ela é uma dramática, isso sim! — Sara interveio, entrando no banheiro e pegando Ágata, que observava tudo com um ar de tédio superior. — Ágata, aprenda com sua irmã: se quiser causar um escândalo, certifique-se de que o cadáver existe. Se não, você só passa vergonha.
— Sara, agora não — Emanuel pediu, levantando-se e limpando o rosto. Ele pegou Maya do colo de Eduarda. — Vem aqui, pequena. Olha para o papai.
Maya olhou para ele, ainda com um pouco de reserva.
— O papai é bom? — ela perguntou.
— O papai é um bruto às vezes, e o papai precisa aprender a não gritar na mesa — Emanuel disse, olhando de relance para Eduarda com um pedido de desculpas silencioso. — Mas o papai nunca, jamais, vai machucar a mamãe ou você ou a Ágata. Eu estou aqui para proteger vocês, entendeu?
Maya finalmente relaxou, deitando a cabeça no ombro tatuado de Emanuel.
— Entendi. Mas o sangue é feio.
— É, eu concordo com você — Emanuel sorriu, sentindo o coração voltar ao ritmo normal.
Sara, percebendo que o perigo passara, retomou sua postura habitual de superioridade, mas havia uma suavidade incomum em seu olhar enquanto observava a cena.
— Bom, já que ninguém morreu e a Duda só está em seu estado "feminino", eu vou levar as meninas para a sala. Emanuel, você tem uma reunião em vinte minutos e está com cara de quem foi atropelado por um caminhão. Eduarda, tome seu banho. E por favor, da próxima vez, feche a porta ou dê uma aula de biologia básica para essa criança.
Sara saiu, levando as gêmeas. Ágata ainda comentou enquanto saía:
— A Maya é bobona, Mãe. Sangue de menina não dói.
— É isso aí, mini diva. É isso aí — Sara respondeu, sumindo pelo corredor.
No banheiro, o silêncio retornou, mas agora era um silêncio de cumplicidade. Emanuel ajudou Eduarda a se levantar.
— Me desculpa pelo ciúme hoje cedo — ele disse, mantendo as mãos na cintura dela. — Eu sei que eu exagero. Ver a Maya me acusando daquele jeito... foi o pior momento da minha vida. Eu percebi o monstro que ela poderia ver em mim se eu não me controlar.
Eduarda tocou o rosto dele, os dedos traçando as linhas de expressão marcadas pelo estresse.
— Você não é um monstro, Emanuel. Você é apenas intenso. Mas a Maya... ela sente tudo o que eu sinto. Se eu fico com medo da sua reação, ela sente esse medo como se fosse dela.
— Eu vou mudar isso — ele prometeu, beijando a testa dela. — Eu não vou tirar o patrocínio do tal Ricardo. Você vai fazer sua exposição e vai ser a melhor curadora de São Paulo. Eu vou apenas... colocar um segurança discreto na galeria. Para a minha paz de espírito.
Eduarda riu, uma risada leve que aqueceu o peito de Emanuel.
— Você não consegue evitar, não é?
— É o meu trabalho cuidar de você — ele respondeu, puxando-a para um abraço apertado. — Agora, tome seu banho. Eu vou lá fora garantir que a Sara não ensine a Maya a fazer um boletim de ocorrência contra mim só por diversão.
Eduarda ficou sozinha no banheiro, sentindo a água quente relaxar seus músculos. Ela pensou na confusão, no grito de Maya e na reação desesperada de Emanuel. Apesar do susto, havia algo de profundamente reconfortante em saber que, naquela casa de personalidades tão conflitantes e dinâmicas tão complexas, o instinto de proteção era a linguagem universal.
Lá fora, ela ouvia a voz de Sara comandando a entrega de um jantar especial, a risada de Ágata e o som de Emanuel tentando explicar para Maya, pela décima vez, que ele era um "cara legal". A cobertura de Emanuel podia ser um campo de batalha às vezes, mas era o único lugar no mundo onde Eduarda se sentia verdadeiramente segura, mesmo entre o sangue, as tintas e os gritos de uma infância que descobria o mundo.