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Magia, Mickey e Medo sob o Sol da Flórida
O jato particular de Emanuel cruzava o céu em direção a Orlando, mas o clima dentro da cabine luxuosa era uma mistura de passarela de moda e creche de alta tensão. Sara ocupava a maior parte do espaço com suas três melhores amigas — mulheres tão loiras, siliconadas e ruidosas quanto ela —, todas brindando com champanhe logo nas primeiras horas da manhã. Emanuel, sentado em sua poltrona de couro, tentava se concentrar em um projeto de arquitetura para seu novo estúdio em Tóquio, mas seus olhos frequentemente se desviavam para o canto oposto da cabine.
Lá, Eduarda tentava entreter as gêmeas. Ágata estava eufórica, pulando entre as pernas das amigas de Sara, recebendo elogios sobre seu mini conjunto da Gucci e agindo como se já fosse a dona da Disney. Maya, por outro lado, estava encolhida no colo de Eduarda, segurando seu coelhinho de pelúcia com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. A pequena ainda olhava para Emanuel de soslaio. O episódio do "sangue no banheiro" havia sido explicado, mas na mente de uma criança de dois anos, o papai ainda era o homem que falava alto e que, de alguma forma, estava ligado ao susto que ela levara.
— Emanuel, olhe para a sua filha! — Sara exclamou, rindo alto enquanto apontava para Maya. — Ela parece que está indo para um funeral, não para a Disney. Amiga, você viu? Ela herdou todo o drama da Eduarda.
— Ela só está assustada com o barulho, Sara — Emanuel respondeu, a voz seca. Ele fechou o notebook e caminhou até Eduarda. — Ei, Maya. Olha para o papai.
Maya enterrou o rosto no pescoço de Eduarda.
— Deixa ela, Emanuel — Eduarda sussurrou, acariciando as costas da filha. — Ela está sensível. Muita gente nova, muita conversa alta.
Emanuel suspirou, sentindo aquela pontada de irritação e impotência. Ele queria que Maya o amasse com a mesma facilidade que Ágata, mas parecia que, com a pequena, ele sempre estava pisando em ovos.
Quando aterrissaram e chegaram ao resort de luxo dentro do complexo da Disney, a dinâmica se tornou ainda mais caótica. Sara e suas amigas transformaram o lobby do hotel em um desfile de moda. Elas usavam orelhas do Mickey cravejadas de cristais e roupas que pareciam mais apropriadas para uma festa em Ibiza do que para um parque temático.
— Vamos logo! — Sara comandava, ajustando os óculos escuros. — Eu quero fotos no castelo antes que a luz fique ruim. Ágata, venha com a mamãe. Eduarda, você leva o carrinho da Maya e as bolsas térmicas.
Eduarda assentiu, sem reclamar. Ela preferia mil vezes ficar na retaguarda, cuidando das necessidades básicas das meninas, do que estar no centro das atenções com o grupo barulhento de Sara. Emanuel, no entanto, não gostava daquela hierarquia implícita.
— A Eduarda não é sua assistente, Sara — Emanuel disse, pegando uma das bolsas pesadas. — Ela é minha namorada, assim como você.
Sara revirou os olhos, soltando uma risadinha vulgar que fez suas amigas rirem junto.
— Ai, Emanuel, não comece com o momento "família moderna". A Duda gosta de ser útil, não gosta, querida? Ela tem esse instinto de babá que eu simplesmente não possuo.
— Eu não me importo de levar as coisas, Emanuel — Eduarda disse baixinho, tentando evitar o conflito. — Só quero que a Maya fique bem.
A entrada no Magic Kingdom foi um choque para a pequena Maya. O barulho da fanfarra, a multidão de turistas e as cores vibrantes eram demais para ela. Enquanto Ágata corria em direção a cada personagem que via, gritando de alegria, Maya se recusava a sair do carrinho.
— Olhe, Maya! É o Pluto! — Eduarda apontava, tentando animar a filha.
Maya apenas balançava a cabeça negativamente, as lágrimas começando a inundar seus olhos castanhos.
— Cachorro grande... — ela soluçava. — Não quero, mamãe. Medo.
— Pelo amor de Deus, é uma pessoa fantasiada, Maya! — Sara se aproximou, exalando um perfume forte que fez a menina espirrar. — Deixe de ser boba. Olhe a sua irmã, ela está abraçando o Pateta. Seja corajosa como a Ágata.
— Sara, não pressione ela — Emanuel interveio, aproximando-se do carrinho. Ele se agachou na frente de Maya. — Maya, o papai está aqui. Ninguém vai encostar em você. Quer vir no meu colo?
Maya olhou para as mãos grandes de Emanuel. Ela ainda se lembrava do susto no banheiro, mas o medo do ambiente ao redor era maior. Relutante, ela esticou os bracinhos. Emanuel a pegou com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta. Ele sentiu o coração da filha batendo rápido contra seu peito.
— Viu? O papai protege — ele murmurou, sentindo uma satisfação profunda ao ver que ela o aceitara.
O grupo seguiu para as atrações. Sara e as amigas queriam as montanhas-russas mais radicais, enquanto Eduarda ficava com as meninas nas áreas infantis. O problema surgiu quando decidiram ir ao "It's a Small World". Parecia uma atração inofensiva, mas a escuridão inicial e os bonecos cantando em uníssono foram o gatilho final para Maya.
Assim que o barco entrou no túnel, a música começou a ecoar. Ágata batia palmas, encantada. Mas Maya começou a tremer.
— Boneco vivo, mamãe! Boneco vivo! — ela gritou, entrando em um estado de pânico que Eduarda não conseguia acalmar.
— Shhh, é só música, meu amor — Eduarda tentava abraçá-la, mas o barco estava apertado.
— Tira ela daqui, Emanuel! — Sara reclamou do banco da frente. — Ela vai estragar a experiência de todo mundo com esse berreiro. As minhas amigas estão tentando filmar para o Instagram!
— Ela é um bebê de dois anos, Sara! — Emanuel explodiu, sua voz ecoando mais alto que a música dos bonecos. — Se você está mais preocupada com o seu Instagram do que com o pânico da sua filha, talvez você não devesse estar aqui.
O barco finalmente saiu do túnel, e Emanuel saltou assim que foi possível, carregando Maya, que soluçava de forma convulsiva. Eduarda veio logo atrás, com o rosto vermelho de vergonha e tristeza.
Eles se afastaram da multidão, encontrando um banco mais calmo perto de uma área verde. Sara e as amigas continuaram o passeio, com Ágata agindo como se nada tivesse acontecido.
— Eu sou uma péssima mãe — Eduarda disse, sentando-se e cobrindo o rosto com as mãos. — Eu devia ter preparado ela melhor. Eu devia ser mais forte, como a Sara.
Emanuel colocou Maya no colo de Eduarda e sentou-se ao lado delas. Ele passou o braço pelos ombros de Eduarda, puxando-a para perto.
— Você não é uma péssima mãe, Duda. E você não tem que ser como a Sara. A Sara é... bom, você sabe como ela é. Ela tem o couro grosso, nada a atinge. Mas a Maya é como você. Ela sente o mundo com uma intensidade que a Sara nunca vai entender.
— Mas ela tem medo de tudo, Emanuel. Eu me sinto culpada por ela ser tão... medrosa.
— Ela não é medrosa, ela é cautelosa — Emanuel corrigiu, acariciando o rosto de Maya, que agora começava a se acalmar. — E sabe de uma coisa? Eu prefiro mil vezes que ela seja assim, que precise de nós, do que seja como a Ágata, que acha que o mundo é um playground sem perigos. A Ágata me assusta de um jeito diferente. Ela é tão confiante que um dia vai acabar se metendo em problemas sérios.
Eduarda olhou para ele, os olhos úmidos.
— Você realmente acha isso?
— Eu tenho certeza. E Maya... — Ele se inclinou para a filha. — O papai promete que não vai deixar nenhum boneco vivo chegar perto de você. E eu prometo que não vou mais gritar, nem mesmo quando a sua mãe Sara me deixar louco.
Maya olhou para ele por um longo tempo. Ela esticou a mãozinha e tocou uma das tatuagens no braço de Emanuel — um desenho de uma fênix.
— Papai tem passarinho no braço — ela murmurou, a voz ainda rouca do choro.
— Tenho. Ele voa para proteger a Maya — Emanuel sorriu, sentindo que finalmente estava recuperando o terreno perdido com a filha.
Mais tarde, no jantar, o grupo se reuniu novamente em um restaurante temático dentro do hotel. Sara estava radiante, mostrando as centenas de curtidas em suas fotos. Suas amigas fofocavam sobre outros turistas, rindo de forma estridente.
— Foi um dia produtivo — Sara declarou, pedindo uma garrafa de vinho caro. — Ágata foi a estrela do parque. Emanuel, você viu como ela posou com as princesas? Ela tem o dom.
— Vi, Sara. Ela foi ótima — Emanuel respondeu, mas seu foco estava em Eduarda, que ajudava Maya a comer um pouco de purê de batatas.
— E a "bebezinha"? Parou de chorar ou vai precisar de terapia por causa de um barquinho com bonecos? — Sara provocou, olhando para Maya com um desdém que não conseguia esconder totalmente.
— Ela está bem, Sara — Eduarda respondeu, com uma firmeza incomum. — Ela só precisa de tempo. Nem todo mundo quer ser o centro das atenções o tempo todo.
As amigas de Sara se entreolharam, surpresas com a resposta da "tímida" Eduarda. Sara soltou uma risada debochada.
— Ui, a gatinha pôs as unhas de fora. Cuidado, Emanuel, sua protegida está ficando rebelde.
Emanuel não respondeu. Ele apenas pegou a mão de Eduarda por baixo da mesa e a apertou. Ele sabia que a convivência entre as duas mulheres seria sempre um campo minado. Sara, com sua vulgaridade competente e sua energia dominante, era a mulher que mantinha seus negócios em ordem e sua cama quente com paixão e desafio. Eduarda, com sua doçura manhosa e sua sensibilidade intuitiva, era a mulher que mantinha sua alma em paz e sua casa com cheiro de lar.
Naquela noite, após as meninas dormirem — Ágata em um quarto com Sara, e Maya no quarto com Eduarda e Emanuel —, o silêncio finalmente caiu sobre a suíte.
Emanuel estava na varanda, olhando para os fogos de artifício que explodiam ao longe sobre o castelo da Cinderela. Eduarda aproximou-se, abraçando-o por trás.
— Obrigada por hoje — ela sussurrou. — Por defender a Maya. E por me defender.
Ele se virou, envolvendo-a em seus braços.
— Eu queria que as coisas fossem mais fáceis, Duda. Queria que a Sara não fosse tão... ela mesma. Mas eu não consigo abrir mão de nenhuma de vocês.
— Eu sei — Eduarda disse, encostando a cabeça no peito dele. — Eu aceitei isso quando vim morar com você. Eu só fico triste pela Maya. Ela se sente um peixe fora d'água perto da Sara e da Ágata.
— Ela tem você. E agora, ela sabe que tem a mim também — Emanuel disse, beijando o topo da cabeça dela. — Eu percebi hoje que não adianta eu tentar ser o "juiz" entre vocês duas. Eu só preciso ser o pai que a Maya precisa e o homem que você precisa.
— E a Sara? — Eduarda perguntou, olhando nos olhos dele.
— A Sara... ela se vira sozinha. Ela sempre se vira — Emanuel respondeu com uma ponta de amargura e admiração. — Ela é uma força da natureza, mas às vezes, forças da natureza destroem tudo ao redor. Eu só preciso garantir que você e a Maya fiquem em segurança quando o furacão passar.
No quarto ao lado, Sara estava deitada na cama, olhando para o teto enquanto Ágata dormia profundamente ao seu lado. Ela ouvira parte da conversa na varanda. Um sentimento estranho, algo parecido com uma pontada de solidão, atravessou seu peito siliconado. Ela sabia que Emanuel a amava, sabia que ela era a "namorada principal" em termos de poder e influência. Mas ela também via como ele olhava para Eduarda. Era um olhar de devoção que ela, com toda sua competência e beleza marcante, nunca conseguira despertar plenamente.
Sara pegou o celular e abriu o Instagram. Olhou para a foto de Ágata sorrindo para a câmera.
— Nós não precisamos desse sentimentalismo barato, não é, minha mini diva? — ela sussurrou para a filha adormecida. — Nós somos as rainhas disso aqui.
Mas, ao fechar os olhos, a imagem que veio à sua mente não foi o castelo iluminado ou os fogos de artifício. Foi a imagem de Emanuel ajoelhado no chão do banheiro, desesperado por Eduarda, e a imagem dele carregando Maya no meio da multidão, protegendo-a de bonecos de plástico.
A Disney era o lugar onde os sonhos se tornavam realidade, mas para aquela família, era o lugar onde as feridas ficavam expostas. Emanuel sabia que a viagem estava longe de terminar e que os próximos dias trariam mais desafios. Mas, enquanto sentia o corpo macio de Eduarda contra o seu e ouvia a respiração tranquila de Maya no berço ao lado, ele sentiu que, pela primeira vez, o controle que ele tanto buscava não vinha de ordens ou de dinheiro, mas da aceitação de que cada uma daquelas mulheres — a loira vulgar, a morena tímida, a mini diva e a pequena medrosa — era uma parte essencial do seu próprio mapa de tatuagens interno. E ele carregaria todas elas, com suas dores e brilhos, até o fim.