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O Único Objeto do Desejo
A tarde de sábado no Shopping Iguatemi era um desfile de vaidades sob luzes de LED e mármore polido. Emanuel caminhava pelo corredor central sentindo o peso de ser o epicentro daquele furacão doméstico. De um lado, Sara, usando um vestido justo de couro sintético e saltos que estalavam no chão como chicotadas, mantinha uma das mãos na cintura e a outra segurando o celular, conferindo notificações sem parar. Do outro, Eduarda, com um vestido de linho bege e sapatilhas, segurava a mão de Maya, que caminhava timidamente, olhando para os próprios pés.
Emanuel carregava Ágata no colo. A menina, uma cópia fiel de Sara em tons infantis, usava óculos escuros sobre a cabeça e apontava para as vitrines com uma autoridade nata.
— Papai, eu quero entrar naquela loja de brinquedos grande — sentenciou Ágata, a voz clara e exigente. — A Mãe Sara disse que eu mereço um prêmio porque fui bem na aula de ballet.
— Ela foi uma estrela, Emanuel — Sara comentou, sem tirar os olhos da tela. — O resto das crianças parecia um bando de batatas tontas, mas a Ágata tem o brilho. Ela merece o que quiser.
Eduarda apertou de leve a mão de Maya.
— A Maya também foi muito bem na escolinha hoje, não foi, meu anjo? — perguntou ela, buscando validar a filha que sempre ficava à sombra da exuberância da irmã.
Maya apenas assentiu, escondendo-se atrás da perna de Eduarda.
— Então vamos — Emanuel decidiu, sentindo o início de uma dor de cabeça tensional. — Mas uma boneca para cada uma. Sem exageros, Sara.
— Ah, não comece com esse papo de austeridade, Emanuel — Sara retrucou, guardando o celular no decote generoso. — Você é rico, elas são lindas. O comércio existe para isso.
Ao entrarem na loja de brinquedos importados, o cenário mudou. O ambiente era um labirinto de cores e sons. Ágata desceu do colo do pai como se estivesse tomando posse de um território conquistado. Correu pelos corredores, avaliando as estantes com um olhar crítico. Maya, por outro lado, caminhava devagar, maravilhada com as pelúcias, até que algo no final do corredor principal atraiu o olhar de ambas simultaneamente.
Em uma redoma de vidro, destacada por luzes neon, estava a "Estrela de Cristal". Era uma boneca de edição limitada, com cabelos que mudavam de cor e um vestido feito de pequenos prismas que refletiam o arco-íris. Era a única na prateleira.
As duas meninas pararam diante da redoma ao mesmo tempo.
— Minha! — gritou Ágata, esticando a mão para a caixa.
— Eu vi primeiro... — sussurrou Maya, os olhos brilhando com uma intensidade que raramente demonstrava.
Emanuel e as duas mulheres se aproximaram. O vendedor, percebendo o potencial de venda, aproximou-se com um sorriso profissional.
— É a última unidade da coleção de colecionador deste mês, senhores. Um item raríssimo.
— Ótimo — disse Sara, já abrindo a bolsa de grife. — Pode embrulhar para a Ágata.
— Espera aí — Eduarda interveio, a voz trêmula, mas firme. — A Maya também quer. E ela realmente se encantou por essa, Sara. Ela nunca pede nada.
— Problema dela, Eduarda — Sara respondeu, com um sorriso de canto que não chegava aos olhos. — A Ágata chegou primeiro. É a lei da selva, ou melhor, do shopping.
— Eu peguei primeiro! — Ágata reforçou, puxando a caixa da mão do vendedor.
— Não... — Maya começou a chorar, as lágrimas descendo silenciosas pelo rosto delicado. — Por favor, Ágata... eu queria tanto.
— Maya, meu amor, não chore — Eduarda se ajoelhou ao lado da filha, sentindo o coração apertar. — Emanuel, faça alguma coisa. Não tem outra?
Emanuel olhou para o vendedor, que balançou a cabeça negativamente.
— Só essa, senhor. A próxima remessa chega em três semanas.
— Três semanas é uma eternidade — Emanuel suspirou, sentindo a pressão subir. Ele olhou para as filhas. — Ágata, deixe a Maya ficar com essa. Nós compramos outra coisa para você hoje e eu encomendo a sua, pode ser?
Ágata arregalou os olhos loiros, ultrajada.
— Não! Eu quero agora! A Mãe Sara disse que eu sou a mini diva! Divas não esperam!
— Isso mesmo, Emanuel — Sara cruzou os braços, a postura defensiva. — Não ouse tirar o brinquedo da mão da minha filha para dar para a sua protegida só porque ela está fazendo esse teatrinho de choro. A Ágata tem personalidade, ela sabe o que quer.
— Teatrinho? — Eduarda levantou-se, a voz subindo de tom, algo raro para ela. — Ela é uma criança sensível, Sara! Ela está genuinamente triste. Você está ensinando a Ágata a ser egoísta!
— E você está ensinando a Maya a ser uma coitadinha que consegue as coisas pela pena! — Sara rebateu, dando um passo à frente, o perfume forte inundando o espaço entre as duas.
— Chega! — O grito de Emanuel ecoou pela loja, fazendo outros clientes pararem para olhar. — Vocês duas, parem agora!
Mas o estrago estava feito. Ágata, sentindo-se apoiada pela mãe, puxou a caixa com força. Maya, em um raro momento de resistência motivado pelo desejo profundo pela boneca, não soltou.
— É minha! — gritou Ágata.
— Solta! — chorou Maya.
Em um segundo de tensão física, Ágata empurrou Maya. A menina menor, mais frágil, caiu sentada no chão, soltando a caixa. Ágata tropeçou no próprio impulso e a caixa da boneca bateu com força na quina de uma prateleira de metal. O som de plástico quebrando foi nítido.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel pegou a caixa da mão de Ágata. Através do visor transparente, era possível ver que o pescoço da boneca de cristal havia se partido e o mecanismo de luzes estava solto, faiscando fracamente.
— Pronto — disse Emanuel, a voz gélida. — Agora ninguém tem boneca. Está quebrada.
Maya soluçou mais alto, escondendo o rosto no colo de Eduarda. Ágata, ao ver o brinquedo destruído, começou um escândalo de gritos e chutes no ar.
— Você quebrou! Você quebrou minha boneca! — Ágata apontava para Maya.
— Você que empurrou ela, Ágata! — Eduarda exclamou, abraçando Maya com força. — Olha o que você fez!
Sara bufou, ajeitando o cabelo com impaciência.
— Emanuel, pague essa porcaria quebrada e vamos embora. Eu não aguento mais esse clima de velório. Amanhã eu mando alguém conseguir outra em outra loja.
— Não, Sara — Emanuel disse, entregando a caixa quebrada ao vendedor atônito. — Eu vou pagar porque foi danificada, mas ninguém vai ganhar outra amanhã.
— Como é? — Sara se virou para ele, os olhos faiscando.
— Vocês duas estão agindo como crianças — Emanuel disse, olhando de Sara para Eduarda. — Sara, você incentiva a competição agressiva entre elas. Eduarda, você se recusa a impor limites à Maya porque acha que ela é de vidro. E o resultado é esse.
— Não me culpe pela má educação da sua filha, Emanuel — Sara sibilou, aproximando-se dele. — Eu sou a única que trabalha com você, que entende o peso de manter esse estilo de vida. A Ágata é o reflexo disso.
— O reflexo de uma pessoa vulgar e esnobe? — Eduarda disparou, as palavras saindo antes que pudesse filtrá-las.
Sara avançou um passo, a mão levantada como se fosse desferir um tapa, mas Emanuel segurou seu pulso no ar.
— Basta — Emanuel disse, a voz num tom que fez ambas recuarem. — Sara, leve a Ágata para o carro. Agora.
— Emanuel, você não manda em mim... — Sara começou, mas o olhar dele era de um controle absoluto e perigoso.
— Agora, Sara. Ou eu juro que cancelo todos os seus cartões de crédito antes de chegarmos ao estacionamento.
Sara bufou, pegou Ágata pelo braço — que ainda berrava — e saiu da loja batendo os saltos, deixando um rastro de tensão e perfume caro para trás.
Emanuel respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ele sentiu a mão pequena de Eduarda em seu braço.
— Emanuel... me desculpa. Eu não devia ter dito aquilo.
Ele abriu os olhos e olhou para ela. Eduarda parecia exausta, as olheiras suaves denunciando o estresse de viver naquela corda bamba. No chão, Maya ainda soluçava baixinho, segurando o coelhinho de pelúcia que era seu único conforto.
— Você disse a verdade, Eduarda — Emanuel admitiu, a voz cansada. — Mas a verdade dói. A Sara é competente, eu a amo, mas ela está transformando a Ágata em algo que eu não suporto. E eu não quero que a Maya cresça achando que o mundo é um lugar onde ela sempre vai perder.
Emanuel se agachou perto de Maya.
— Ei, meu grudinho. Olha para o papai.
Maya levantou os olhos úmidos.
— A boneca quebrou...
— Eu sei. Mas sabe de uma coisa? Aquela boneca era de cristal. Cristais quebram fácil — ele disse, limpando uma lágrima do rosto da filha. — Amanhã, o papai vai levar você e a mamãe Eduarda em um lugar especial. Uma loja de artes. Vamos comprar tintas e telas. Você vai criar sua própria boneca no papel, e essa ninguém vai poder quebrar.
Maya deu um sorriso minúsculo, o primeiro da tarde.
— De verdade?
— De verdade.
Eduarda olhou para Emanuel com uma gratidão imensa. Ela sabia que a briga em casa seria monumental. Sara não aceitaria ser "expulsa" da loja e não aceitaria que Maya ganhasse algo que Ágata não ganharia. O equilíbrio daquela cobertura de luxo estava por um fio.
— Vamos para casa? — perguntou Eduarda.
— Vamos — Emanuel levantou-se, pegando Maya no colo. — Mas antes, eu preciso de um café. Um café muito forte.
Enquanto caminhavam para a saída do shopping, Emanuel sentia os olhares das pessoas. Ele era o tatuador rico, o dono de estúdios pelo mundo, o homem que parecia ter tudo sob controle. Mas ali, entre a doçura de Eduarda e a fúria de Sara, entre a sensibilidade de Maya e a arrogância de Ágata, ele se sentia apenas um homem tentando manter o coração inteiro em um mundo feito de fragmentos.
Ao chegarem ao carro, Sara estava encostada na porta, fumando um cigarro eletrônico com uma expressão de puro desdém. Ágata estava sentada no banco de trás, emburrada.
— Demoraram — Sara disse, soltando uma nuvem de vapor com cheiro de baunilha. — Espero que tenha valido a pena o momento "pai do ano".
— Entre no carro, Sara — Emanuel disse, sem olhar para ela.
A viagem de volta foi feita em um silêncio cortante. Ao chegarem na cobertura, Sara entrou primeiro, marchando para o quarto principal. Ágata a seguiu. Eduarda levou Maya para o quarto das meninas, tentando criar uma bolha de paz antes da tempestade que certamente viria.
Emanuel ficou na sala, olhando para a vista da cidade. Ele sabia que a convivência civilizada que ele tanto forçara estava chegando ao fim. As filhas, com apenas dois anos, já eram o campo de batalha das frustrações e ambições das mães.
— Emanuel? — a voz de Sara veio da porta do quarto. Ela havia trocado o vestido de couro por um robe de seda. — Precisamos conversar. Do jeito que as coisas estão, não dá mais.
— Eu concordo, Sara — ele respondeu, virando-se para ela.
— Aquela garota... a Eduarda... ela está estragando a dinâmica. Ela faz você parecer fraco. Ela faz a Maya parecer uma vítima. Eu administro seus negócios, Emanuel. Eu sei o que é ser forte. Você precisa escolher.
Emanuel caminhou até ela, parando a poucos centímetros.
— Eu já escolhi, Sara. Eu escolhi as duas. E se você não consegue aceitar que a Maya tem o mesmo direito que a Ágata, e que a Eduarda tem o mesmo peso que você nesta casa, então talvez quem esteja no lugar errado seja você.
Sara recuou, o choque visível em seu rosto perfeitamente maquiado. Ela nunca esperou que ele a enfrentasse dessa forma.
— Você está me ameaçando? Depois de tudo o que eu fiz pelos seus estúdios?
— Eu estou estabelecendo limites — Emanuel disse, a voz firme. — Agora, vá dormir. Amanhã teremos um dia diferente.
Ele passou por ela e foi para o quarto de Maya. Lá, encontrou Eduarda sentada na beira da cama, lendo uma história em voz baixa para a menina que já dormia. O contraste era absoluto. De um lado, o poder e a vulgaridade de Sara; do outro, a paz e a fragilidade de Eduarda.
Emanuel sentou-se no chão, encostando a cabeça nos joelhos de Eduarda. Ela começou a acariciar seus cabelos.
— Vai ficar tudo bem? — ela perguntou.
— Vai — Emanuel mentiu, sentindo o peso da decisão. — Mas vai ser difícil.
Naquela noite, sob o teto de uma das coberturas mais caras da cidade, a riqueza não conseguiu esconder a pobreza emocional de um lar dividido. Entre bonecas quebradas e egos feridos, Emanuel percebeu que seu maior desafio não era gerir estúdios pelo mundo, mas sim costurar as feridas de uma família que ele mesmo ajudara a rasgar. E enquanto Maya dormia, sonhando com tintas e telas, Emanuel sabia que a verdadeira arte não estava na pele, mas na capacidade de amar as partes mais difíceis de quem dividia a vida com ele.