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O Banquete da Inocência e do Pecado
O som de pequenas pegadinhas correndo pelo piso de mármore da mansão era o novo metrônomo da vida de Emanuel. Dois anos haviam se passado desde que o equilíbrio frágil entre o caos vibrante de Sara e a serenidade doce de Eduarda se tornara a base de sua existência. O que muitos chamariam de escândalo, Emanuel chamava de império pessoal. Ele tinha tudo: o sucesso global de seus estúdios de tatuagem, a gestão implacável de Sara ao seu lado e o refúgio emocional nos braços de Eduarda.
As gêmeas, agora com dois anos, eram o reflexo perfeito dessa dualidade. Ágata era uma mini Sara: loira, expansiva e já dona de um "não" autoritário que fazia as babás tremerem. Ela chamava Sara de "Mamãe" e Eduarda de "Tia Duda", mantendo uma distância polida, mas afetuosa, da bailarina. Já Maya era a sombra de Eduarda. Com seus cabelos castanhos e olhos expressivos, ela era a personificação da doçura. Para Maya, Sara era a "Mãe", a figura de autoridade e brilho, mas Eduarda era a "Mamãe", o porto seguro, o colo e, acima de tudo, a fonte de seu sustento emocional e físico.
A conexão entre Eduarda e Maya havia desafiado até a biologia. Poucos meses após Eduarda se mudar definitivamente para a mansão, o corpo da jovem bailarina reagiu à proximidade intensa e ao desejo visceral de cuidar da bebê. O fenômeno da lactação induzida por proximidade emocional deixara Emanuel em choque e Sara em uma crise de riso irônico, mas o pediatra confirmara: era raro, mas real. Ágata, fiel à sua natureza independente e prática, rejeitara o peito, preferindo a mamadeira de grife oferecida por Sara. Mas Maya... Maya encontrara em Eduarda o que lhe faltava. E, aos dois anos, a pequena ainda não estava pronta para abrir mão de seu "tetê".
Naquela tarde de terça-feira, a mansão estava estranhamente silenciosa. Sara estava no escritório anexo, discutindo com fornecedores de Berlim via videoconferência, sua voz firme e autoritária ecoando ocasionalmente pelos corredores. Emanuel, exausto após uma convenção de tatuagem que durara três dias, buscava o único remédio que conhecia para o seu estresse.
Ele entrou no quarto de Eduarda — um ambiente que cheirava a baunilha e algodão, um contraste gritante com o couro e o perfume caro que dominavam o restante da casa. Eduarda estava sentada na poltrona de amamentação, lendo um livro de História da Arte, vestindo apenas um robe de seda branca que deslizava por seus ombros.
— Você parece que carregou o mundo nas costas — disse Eduarda, fechando o livro e oferecendo a ele um sorriso que desarmava qualquer defesa.
— Eu carreguei — respondeu Emanuel, aproximando-se e ajoelhando-se entre as pernas dela. Ele enterrou o rosto na curvatura do pescoço de Eduarda, aspirando a paz que ela emanava. — Aqueles caras em Vegas não têm metade da sua classe, Duda.
Eduarda acariciou o cabelo curto de Emanuel, sentindo a tensão nos ombros dele. Ela sabia que, para o mundo, ele era o titã das tatuagens, o homem rico e inalcançável. Para ela, ele era apenas o homem que precisava de cuidado.
— A Maya acabou de dormir no quartinho dela — sussurrou ela, inclinando a cabeça para trás quando sentiu os beijos de Emanuel descerem para seu colo. — A Ágata está com a Sara, tentando "ajudar" na administração.
— Ótimo — murmurou Emanuel, as mãos grandes e tatuadas subindo pela seda do robe. — Então eu não preciso dividir você com ninguém agora.
Ele abriu a frente do robe com uma urgência contida. A visão dos seios de Eduarda, fartos e macios devido à amamentação persistente, sempre exercia um fascínio quase hipnótico sobre ele. Emanuel não via apenas o aspecto funcional que Maya tanto amava; para ele, era o símbolo máximo da entrega de Eduarda àquela família, àquele arranjo peculiar que eles haviam construído.
Emanuel envolveu um dos seios com a mão, sentindo a textura aveludada da pele. Ele se inclinou, capturando o mamilo com a boca, buscando não apenas o prazer, mas o conforto de uma conexão que ia além do carnal. Eduarda soltou um suspiro baixo, arqueando o corpo, as mãos perdidas nos cabelos dele. Era um momento de intimidade pura, um segredo compartilhado entre o homem que queria tudo e a mulher que dava tudo.
No entanto, o silêncio da casa foi quebrado pelo som de passos rápidos e desajeitados no corredor. Antes que qualquer um dos dois pudesse reagir, a porta, que não estava trancada, foi empurrada com força.
Maya estava parada ali, segurando seu coelhinho de pelúcia encardido por uma orelha, os cabelos castanhos bagunçados pelo sono. Ela esfregava um dos olhos com a mãozinha livre, mas parou abruptamente quando processou a cena à sua frente.
Os olhos de Maya se arregalaram. Ela viu o pai, o homem grande e forte que ela adorava, "roubando" o seu lugar sagrado.
— Papai! — o grito de Maya foi agudo, carregado de uma indignação que faria inveja a Sara.
Emanuel se afastou de Eduarda imediatamente, tentando recompor o robe dela com uma rapidez desajeitada, mas o estrago já estava feito. Maya correu em direção à poltrona, as bochechas ficando vermelhas de raiva.
— Não, Papai! Meu tetê! — exclamou a menina, tentando empurrar a perna de Emanuel para longe de Eduarda. — É da Maya! Sai, Papai!
Eduarda, vermelha de vergonha mas incapaz de conter o instinto materno, pegou a filha no colo, tentando cobrir-se enquanto a pequena tentava, literalmente, lutar pelo território.
— Calma, meu amor... o Papai só estava... ele estava dando um beijo na Mamãe — explicou Eduarda com a voz trêmula, tentando acalmar a respiração.
— Beijo não! — rebateu Maya, choramingando agora, uma manha profunda tomando conta. — Papai morde! Tetê da Maya!
Emanuel sentou-se no chão, passando a mão pelo rosto, entre o constrangimento e uma vontade incontrolável de rir da audácia da própria filha.
— Maya, o Papai também gosta da Mamãe — tentou ele, usando seu tom mais diplomático, o mesmo que usava para fechar contratos de milhões.
— Gosta não! — Maya se aninhou no colo de Eduarda, olhando para Emanuel com um bico desafiador. — Papai tem a Mãe Sara. Mamãe Duda é da Maya.
A porta se abriu novamente, e desta vez foi Sara quem entrou, segurando Ágata pelo pulso para evitar que a menina saísse correndo. Sara estava impecável em um terno branco, mas seus olhos azuis brilharam com um divertimento predatório ao ver a cena.
— Mas o que é esse escândalo? Dá para ouvir os gritos da pequena ditadora lá do escritório — disse Sara, encostando-se no batente da porta e avaliando o estado desgrenhado de Eduarda e a cara de derrota de Emanuel.
— O Papai roubou o tetê, Mãe! — reclamou Maya, buscando apoio na outra mãe.
Sara soltou uma gargalhada sonora, jogando a cabeça para trás.
— Ah, Emanuel... eu sempre soube que você era um fominha, mas roubar a comida da própria filha? Isso é baixo, até para você.
— Sara, não ajude — resmungou Emanuel, levantando-se e tentando recuperar um pouco de sua dignidade.
Ágata, observando tudo com um ar de superioridade precoce, cruzou os braços pequenos.
— Tetê é chato, Maya. Eu como chocolate — declarou a loirinha, olhando para Eduarda como se ela fosse uma funcionária que cometera um erro crasso. — Tia Duda, dá um chocolate para ela e manda o Papai embora.
— Estão vendo só? — Sara caminhou até o grupo, pegando Ágata no colo. — Minha filha é prática. Emanuel, deixe de ser primitivo e venha me ajudar com os relatórios de Londres. Deixe a Eduarda e a bezerra em paz por um momento.
Eduarda finalmente conseguiu fechar o robe e prender o cinto, enquanto Maya ainda a abraçava possessivamente, lançando olhares de desconfiança para o pai.
— Desculpe, Duda — disse Emanuel, aproximando-se para dar um beijo na testa da bailarina, mas recuando quando Maya fez menção de morder seu braço. — Eu acho que fui banido.
— Você foi definitivamente substituído pelo coelhinho de pelúcia e por uma criança de dois anos — zombou Sara, dando um tapinha no ombro de Emanuel. — Vamos, "Don Juan" de meia-tigela. O dever chama.
Sara saiu do quarto, arrastando Emanuel consigo. Antes de fechar a porta, ela piscou para Eduarda, um gesto que misturava cumplicidade e um aviso silencioso de que, à noite, o território de Emanuel seria exclusivamente dela.
Eduarda ficou sozinha com Maya. A menina, sentindo que vencera a batalha, suspirou satisfeita e começou a se aninhar para o que ela considerava seu direito por nascimento.
— Mamãe... — sussurrou Maya, a voz agora doce e manhosa. — Tetê agora? Sem o Papai?
Eduarda sorriu, sentindo um calor no peito que nada tinha a ver com a lactação e tudo a ver com o amor caótico que preenchia aquela casa. Ela ajeitou a filha e permitiu que a pequena se alimentasse, observando o rosto sereno de Maya.
— Sim, meu anjo. Só nós duas.
Enquanto Maya mamava, Eduarda olhou para a porta fechada. Ela sabia que a vida ali nunca seria simples. Havia a vulgaridade brilhante de Sara, a possessividade silenciosa de Emanuel e a disputa constante entre as duas meninas que eram o sol e a lua de sua existência. Mas, naquele momento, no silêncio do quarto, Eduarda sentia que cada conflito, cada cena de ciúmes e cada olhar atravessado de Sara valiam a pena.
Lá embaixo, na sala de estar, ela podia ouvir a voz de Emanuel tentando explicar algo para uma Sara que claramente não parava de rir.
— Eu só acho que a Maya é muito possessiva, Sara! — dizia Emanuel.
— Ela é sua filha, Emanuel! O que você esperava? Que ela compartilhasse a única coisa que a mantém calma com o homem que ela vê como um rival pelo tempo da Eduarda? Você criou um monstro de fofura e agora tem que lidar com isso.
— E você não ajuda...
— Eu? Eu estou adorando. Finalmente alguém nesta casa coloca você no seu devido lugar. Agora, sente-se e olhe esses gráficos. Se a Maya não te quer no quarto, eu te quero aqui, trabalhando.
Eduarda riu baixinho, encostando a cabeça no encosto da poltrona. Ela era a calmaria no centro do furacão. Emanuel podia ser o dono dos estúdios, o homem rico e poderoso, e Sara podia ser a mente brilhante por trás da fortuna, mas ali, naquele quarto, quem detinha o verdadeiro poder era a doçura.
Maya soltou o peito, os lábios sujos de leite e um sorriso vitorioso no rosto antes de cair no sono novamente. Eduarda a ajeitou e ficou ali, em silêncio, sabendo que em poucas horas o jantar seria servido e o teatro da família perfeita — e perfeitamente fora dos padrões — recomeçaria.
Ela pensou em Emanuel e no jeito como ele a olhara antes de ser expulso por Maya. Havia uma promessa naquele olhar, uma promessa de que ele voltaria, de que ele sempre buscaria nela o equilíbrio para a intensidade de Sara. E Eduarda, em sua eterna paciência, estaria lá. Com seu tetê, seus livros de arte e seu coração escancarado para o homem que decidira que não precisava escolher entre o fogo e a seda, porque aprendera a viver com os dois.
A noite caiu sobre a mansão, trazendo consigo o som de taças de vinho e novas discussões administrativas. Mas no quarto de Eduarda, a paz permanecia, protegida pela pequena guerreira de cabelos castanhos que, naquele dia, provara que até os gigantes podem ser derrotados pela inocência de uma criança faminta por amor.