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O Eclipse de Marfim e Tinta
— Arthur! Arthur, desça dessa poltrona agora, meu amor! — O grito de Eduarda era suave, mas carregado de uma exaustão carinhosa.
O pequeno Arthur, um furacão de dois anos com os cabelos castanhos bagunçados e os olhos escuros herdados do pai, ignorou solenemente o pedido da mãe. Ele estava ocupado demais tentando escalar o encosto da poltrona de couro legítimo no escritório de Emanuel, os pés gordinhos chutando o ar enquanto ele esticava a mãozinha para alcançar um dos troféus de convenções internacionais de tatuagem que adornavam a estante.
— Arthur, você vai cair — insistiu Eduarda, aproximando-se com a leveza de quem ainda vivia sob as regras do ballet. Ela o pegou pela cintura, sentindo a energia vibrante do menino que parecia ter sido forjado em puro movimento.
— Não! Papai! Desenho! — protestou o garotinho, apontando para o braço de Emanuel, que acabara de entrar na sala.
Emanuel soltou uma risada grave, o som reverberando pelo peito largo. Ele caminhou até o filho e o tirou dos braços de Eduarda, jogando-o para o alto e capturando-o com uma facilidade que sempre fazia o coração de Eduarda dar um salto. Arthur gargalhou, o som preenchendo o escritório de forma caótica.
— Ele é fascinado por isso, Duda. Não tem jeito — comentou Emanuel, sentando-se com o menino no colo. Arthur imediatamente começou a traçar com o dedo indicador as linhas pretas e sombreadas que subiam pelo antebraço do pai, os olhos brilhando com uma curiosidade quase científica. — Ele já sabe o que é bom.
— Ele é um pequeno selvagem — disse Eduarda, sentando-se no braço da cadeira de Emanuel e encostando a cabeça no ombro dele. — Ele só sossega quando... bem, você sabe.
— Quando ele decide que a mãe é o porto seguro dele — completou Emanuel, olhando para Eduarda com uma intensidade que dois anos de paternidade compartilhada e um filho homem não haviam diminuído. — Ele tem a minha teimosia, mas a sua necessidade de afeto.
Eduarda sorriu, sentindo a mão de Emanuel apertar sua coxa por cima do tecido leve do vestido. O nascimento de Arthur, dois anos atrás, trouxera uma nova dinâmica para a mansão. Se as gêmeas, Maya e Ágata, já haviam transformado o lugar em um campo de batalha entre a doçura e a vaidade, Arthur viera para ser o centro gravitacional de Emanuel. O "herdeiro do império da tinta", como Sara gostava de dizer com sua ironia habitual, era o xodó do pai, mas um desafio constante para a paciência de todos.
A porta do escritório se abriu com o barulho característico de saltos agulha. Sara entrou, vestindo um conjunto de alfaiataria rosa choque que gritava autoridade e estilo. Atrás dela, Ágata, agora com quase cinco anos, caminhava com uma postura impecável, segurando uma pequena bolsa de grife.
— Alguém pode tirar esse pequeno vândalo daqui? — perguntou Sara, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos azuis. — Ele tentou "tatuar" a parede do corredor com um batom da Chanel que custou mais do que a mensalidade da faculdade de muita gente.
— Papai! — Arthur gritou, ignorando a reclamação de Sara e continuando sua exploração tátil nos braços de Emanuel.
— Ele está apenas expressando sua veia artística, Sara — defendeu Emanuel, sem muita convicção.
— Expressando ou destruindo? — Sara revirou os olhos e se aproximou, depositando um beijo rápido e possessivo nos lábios de Emanuel antes de olhar para Eduarda. — E você, Duda? Ainda alimentando o monstro? Ele já tem dentes, sabia?
Eduarda sentiu o rosto esquentar.
— Ele ainda precisa do momento dele, Sara. O pediatra disse que não há problema em manter a amamentação enquanto ele se sentir seguro.
— O pediatra é outro romântico — bufou Sara, embora sem malícia real. — Mas enfim, onde está a minha outra miniatura? Aquela que não tenta destruir a casa?
— Maya está no estúdio de ballet — respondeu Eduarda, levantando-se. — Ela está me esperando para a aula extra. Hoje é o ensaio para a apresentação de primavera.
O amor de Eduarda por Maya não havia mudado um milímetro com a chegada de Arthur. Pelo contrário, parecia ter se solidificado. Maya, com seus quatro anos e meio, continuava sendo a "menina da Duda". A conexão entre as duas era algo que transcendia os laços de sangue, uma simbiose de almas sensíveis que encontravam na dança a linguagem que o resto da família não entendia.
— Eu vou com você — disse Emanuel, levantando-se com Arthur ainda grudado em seu pescoço. — Quero ver a minha pequena bailarina.
— E eu vou ficar aqui com a Ágata revisando os contratos de Berlim — declarou Sara, sentando-se na cadeira de Emanuel e assumindo o controle da mesa com a naturalidade de uma rainha. — Alguém tem que garantir que essa família continue rica enquanto vocês brincam de cisne.
No estúdio de ballet da mansão, o som suave de um piano preenchia o ar. Maya estava parada diante do espelho, vestindo um tutu rosa pálido, concentrada em manter a postura que Eduarda lhe ensinara. Quando a porta se abriu e ela viu a mãe e o pai, seus olhos se iluminaram.
— Mamãe! Papai! — exclamou a menina, correndo para os braços de Eduarda.
Arthur, vendo a irmã, começou a se debater no colo de Emanuel.
— Maya! Dança! — gritou o menino.
Eduarda pegou Maya no colo, sentindo o cheiro de talco e o suor leve da pequena.
— Você está linda, meu amor. Estava praticando o *plié*?
— Sim, Mamãe. Igualzinho ao que você faz — disse Maya, encostando a cabeça no ombro de Eduarda, o mesmo gesto manhoso que fazia desde bebê.
Emanuel observava as duas, sentindo uma onda de gratidão. Ele sabia que o mundo olhava para sua vida e via um emaranhado de contradições, mas para ele, aquela era a única ordem possível. Ele tinha a força de Sara para enfrentar o mercado, a doçura de Eduarda para curar sua alma, e seus filhos, cada um refletindo uma faceta desse amor complexo.
— Certo, pequeno furacão — disse Emanuel para Arthur, colocando-o no chão. — Vamos deixar as bailarinas trabalharem.
Mas Arthur tinha outros planos. Ao ver Eduarda se posicionar no centro da sala com Maya, ele correu até ela e agarrou-se à sua perna, escondendo o rosto no tecido do vestido. O menino, que segundos atrás era uma explosão de energia, subitamente tornou-se manhoso, seus olhos escuros buscando os de Eduarda com uma necessidade silenciosa.
— Tetê... — sussurrou o menino, a voz ficando pequena.
Eduarda olhou para Emanuel com um sorriso de desculpas.
— Eu disse que ele só sossega assim.
Emanuel suspirou, mas seus olhos transbordavam afeto.
— Vá em frente. Eu espero.
Eduarda sentou-se no banco de madeira lateral, ajeitando Arthur em seu colo. O menino se aninhou imediatamente, o silêncio finalmente caindo sobre ele enquanto buscava o conforto que só ela podia dar. Maya sentou-se ao lado deles, encostando a cabeça no braço de Eduarda, observando o irmão com uma paciência protetora.
Emanuel encostou-se na parede, observando a cena. Ele pegou o celular para tirar uma foto, mas desistiu. Algumas imagens eram preciosas demais para serem digitalizadas; pertenciam apenas à memória.
— Sabe — começou Eduarda, mantendo a voz baixa para não quebrar o transe de Arthur —, às vezes eu me pergunto como chegamos aqui.
— Com muita teimosia — respondeu Emanuel, aproximando-se e sentando-se do outro lado de Eduarda, envolvendo-a com o braço. — E com a certeza de que ninguém mais poderia nos dar o que encontramos uns nos outros.
— A Sara ainda me assusta às vezes — confessou ela, rindo baixinho. — O jeito que ela fala do Arthur como se ele fosse um projeto de expansão de negócios.
— É o jeito dela de amar, Duda. Ela protege o que é dela com unhas e dentes. E, acredite ou não, ela protege você também. À maneira dela, mas protege.
Eduarda olhou para Maya, que agora brincava com os dedos de Emanuel, traçando as tatuagens assim como o irmão fizera antes.
— Eu amo essa menina como se ela tivesse saído de mim, Emanuel. Às vezes eu esqueço que não fui eu quem a carregou.
— Ela sabe disso. O coração dela sabe — Emanuel beijou o topo da cabeça de Eduarda. — Você deu a ela a paz que a Sara nunca conseguiria dar. E a Sara deu a ela o exemplo de força que ela vai precisar no futuro. Elas se completam, assim como nós.
Arthur soltou o peito, os lábios sujos de leite e um sorriso sonolento no rosto. Ele olhou para o pai e esticou a mãozinha, tocando a tatuagem de uma fênix no pescoço de Emanuel.
— Papai... passarinho — murmurou o menino.
— É uma fênix, campeão. Ela renasce das cinzas. Igualzinho ao seu pai quando conheceu essas duas mulheres malucas.
A porta do estúdio se abriu novamente. Sara apareceu, segurando duas taças de cristal com um vinho tinto profundo.
— Chega de melação. Os contratos foram enviados, as crianças estão (quase) calmas e eu preciso de um drink antes que eu decida vender essa casa e me mudar para a Suíça — disse ela, entregando uma taça para Emanuel e outra para Eduarda.
— Você não sobreviveria um dia na Suíça sem alguém para provocar, Sara — rebateu Emanuel, aceitando o vinho.
— Provavelmente não. E o chocolate de lá não compensaria a falta desse seu mau humor matinal — ela se aproximou de Eduarda e tocou o rosto de Arthur com a ponta da unha perfeitamente lixada. — Ele dormiu? Milagre. Aproveite, Duda, porque quando ele acordar, ele vai querer derrubar o lustre da sala de jantar.
Eduarda riu, sentindo-se estranhamente completa. Ali, cercada pelas tatuagens de Emanuel, pela arrogância brilhante de Sara e pela inocência de seus filhos, ela percebeu que o amor não precisava de rótulos ou de caminhos tradicionais. Ele precisava apenas de espaço para respirar.
— Vamos jantar? — sugeriu Emanuel, levantando-se e ajudando Eduarda a se erguer com Arthur nos braços.
— Só se for comida de verdade — disse Ágata, aparecendo atrás de Sara. — Eu não quero salada. Quero massa.
— Massa será, pequena diva — concordou Emanuel.
Enquanto caminhavam pelo corredor em direção à sala de jantar, Maya segurava a mão de Eduarda de um lado e a de Sara do outro. Arthur, no colo do pai, apontava para cada quadro nas paredes, exigindo saber o que eram.
A vida na mansão era um eclipse constante. Havia momentos em que a luz de Sara ofuscava a todos com sua competência e vulgaridade cativante; momentos em que a suavidade de Eduarda trazia a sombra necessária para o descanso; e momentos em que Emanuel era a força gravitacional que mantinha todos em órbita.
Naquela noite, sob o brilho dos lustres de cristal e o som das risadas das crianças, o império de Emanuel parecia indestrutível. Não porque ele fosse rico ou poderoso, mas porque ele conseguira o impossível: unir o fogo e a seda sob o mesmo teto, criando um lar onde as tatuagens contavam histórias de dor e superação, e o ballet ensinava que, mesmo no caos, é possível encontrar o equilíbrio perfeito.
— Eu amo vocês — sussurrou Emanuel, quase para si mesmo, enquanto observava suas duas mulheres e seus três filhos ocuparem seus lugares à mesa.
— Nós sabemos, querido — respondeu Sara, piscando para ele enquanto servia o vinho. — Você não teria escolha, de qualquer forma.
Eduarda apenas sorriu, apertando a mão de Maya sob a mesa. Ela não precisava de palavras. Ela tinha a música, tinha a dança e, finalmente, tinha a família que o destino, em sua infinita ironia, decidira lhe dar.