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O Labirinto de Sombras no Quilômetro 42
A escuridão na Rodovia Transbrasiliana não era apenas a ausência de luz; era uma presença física, densa e pegajosa, que parecia engolir o feixe de luz dos faróis do SUV de Emanuel. O relógio no painel marcava pouco mais de duas da manhã. O plano original de Emanuel era dirigir direto até a casa de praia para o feriado, aproveitando o sono das crianças, mas o destino — ou o motor do carro — tinha outros planos.
Um estalo metálico seco, seguido por uma fumaça branca que subiu pelo capô, selou o destino daquela noite. Emanuel manobrou o veículo para o acostamento de terra com um xingamento abafado, sentindo o volante endurecer em suas mãos.
— O que foi isso? — A voz de Sara, geralmente carregada de confiança, soou afiada e alerta. Ela estava no banco do carona, com o tablet de trabalho ainda iluminando seu rosto loiro e expressivo.
— O motor abriu o bico, Sara. Droga... — Emanuel bateu no volante, a frustração pulsando em suas têmporas.
No banco de trás, o silêncio durou pouco. Maya e Ágata acordaram com o solavanco, e logo o pequeno Arthur começou a resmungar, esfregando os olhos castanhos. Eduarda, sentada entre as cadeirinhas, imediatamente passou os braços pelos ombros de Maya e Arthur, puxando-os para perto.
— Está tudo bem, meus amores. O papai só parou um pouquinho — sussurrou Eduarda, a voz doce tremendo levemente. Ela sempre fora sensível a ambientes carregados, e aquela estrada deserta, cercada por uma mata fechada que parecia se inclinar sobre o carro, fazia seus pelos do braço se arrepiarem.
Emanuel desceu do carro, tentando sinalizar, mas o sinal de celular era inexistente. A única luz visível, a cerca de duzentos metros à frente, era um letreiro de neon capenga que piscava em um tom de amarelo doentio: "Pensão e Descanso - Família Vergueiro".
— Vamos ter que ir até lá — disse Emanuel, voltando para o carro. Sua expressão estava rígida, o modo de proteção ativado. — Não dá para ficar parado aqui no escuro com três crianças.
A caminhada até a pensão foi feita sob um silêncio opressor, quebrado apenas pelo choro baixo de Arthur e pelo som das botas de Emanuel na brita. A construção era um casarão de madeira antiga, com a tinta descascada e janelas que pareciam olhos vazios observando a chegada deles.
Ao baterem na porta pesada, quem atendeu foi um homem alto, de pele excessivamente pálida e olhos que pareciam não piscar. Atrás dele, uma mulher de avental manchado e uma expressão de deleite perturbador observava os recém-chegados.
— Viajantes... — a voz do homem era como o arrastar de correntes. — Entrem. A noite é perigosa para quem tem sangue tão... jovem.
Sara arqueou uma sobrancelha, sua vulgaridade defensiva vindo à tona.
— Olha aqui, meu senhor, a gente só quer um quarto, café e um telefone. O carro quebrou e eu não estou com humor para misticismo de beira de estrada.
A mulher ignorou Sara. Seus olhos pequenos e brilhantes fixaram-se em Eduarda, que se encolheu atrás de Emanuel, segurando a mão de Maya com força.
— Tão delicada... — murmurou a mulher da pensão, dando um passo à frente. — Parece uma boneca de cera. Faz tempo que não vemos uma pele tão clara por aqui.
Emanuel deu um passo lateral, bloqueando a visão da mulher sobre Eduarda. Sua postura era de um predador protegendo o bando.
— O quarto. Agora.
Eles foram conduzidos por um corredor estreito que cheirava a mofo e algo doce demais, como flores apodrecidas. O quarto era vasto, mas mobiliado apenas com uma cama de casal imensa, de madeira escura, e um berço antigo no canto que parecia uma gaiola.
— É o que temos. A família gosta de ficar junta — disse o homem, fechando a porta por fora com um som de tranca que não deveria existir em uma pensão comum.
Lá dentro, o clima era de puro terror psicológico. Maya e Arthur não queriam soltar Eduarda, e até mesmo a pequena Ágata, sempre tão altiva como Sara, estava agarrada à saia da mãe, em silêncio absoluto.
— Eu não gosto daqui, Duda — sussurrou Maya, as lágrimas molhando o vestido de Eduarda. — Tem gente no teto.
— Não tem nada no teto, meu anjo — mentiu Eduarda, sentindo o próprio coração martelar contra as costelas.
Emanuel verificou a porta e as janelas. Tudo estava trancado por fora ou pregado. Ele se virou para as duas mulheres, o rosto sombrio sob a luz fraca de uma única lâmpada amarelada que pendia do teto.
— Vamos ficar todos na cama. Ninguém se separa.
Eles se acomodaram de forma apertada. Emanuel ficou na borda, de frente para a porta, com um canivete pesado que sempre carregava no bolso agora aberto e escondido sob o travesseiro. Ao seu lado, Eduarda se encolheu, com Maya e Arthur praticamente fundidos ao seu corpo. Sara ficou do outro lado, com Ágata entre ela e Emanuel, sua expressão de deboche agora substituída por uma tensão gélida.
A noite avançou como um pesadelo em câmera lenta.
— Ouviu isso? — sussurrou Eduarda, seu corpo tremendo tanto que a cama rangia.
Emanuel apurou os ouvidos. Do lado de fora do quarto, no corredor de madeira, vinha um som rítmico. *Arrastar. Bater. Arrastar. Bater.* Como se algo estivesse sendo puxado pelo chão.
— É apenas o vento, Duda — disse Emanuel, embora soubesse que não havia vento algum naquela noite abafada. Ele passou o braço por cima dela e das crianças, puxando-os para o seu calor, tentando ser o escudo que eles precisavam.
De repente, um risinho infantil ecoou, mas não vinha de nenhum dos seus filhos. Vinha debaixo da cama.
Arthur deu um grito abafado, escondendo o rosto no seio de Eduarda.
— Mamãe! O bicho!
— Shhh... — Eduarda começou a cantarolar uma canção de ninar, a voz falhando, as lágrimas descendo silenciosas. Ela sentia que se parasse de cantar, algo terrível preencheria o silêncio.
Sara, que até então estava em silêncio, sentiu algo tocar seu pé por baixo do cobertor. Ela deu um chute violento e sentiu resistência, como se tivesse atingido algo sólido e frio.
— Tem alguém aqui dentro com a gente — Sara sibilou, os olhos arregalados. — Emanuel, tem alguém embaixo da cama!
Emanuel não hesitou. Ele saltou da cama com o canivete em punho, chutando o estrado de madeira, mas não havia nada além de poeira e sombras que pareciam se mover por conta própria.
— Não tem ninguém, Sara. Mas o cheiro... — Emanuel franziu o nariz. O cheiro de flores podres agora era sufocante.
Ele voltou para a cama, e Eduarda o agarrou com uma força desesperada, enterrando o rosto em seu pescoço tatuado.
— Não me deixa, Emanuel... por favor, não deixa eles me levarem.
— Ninguém vai levar você, Duda. Eu mato qualquer um que encostar um dedo em você ou nas crianças — prometeu ele, a voz vibrando com uma fúria protetora.
Os barulhos no corredor pararam, sendo substituídos por algo pior: o som de unhas arranhando a madeira da porta. Longas, lentas e precisas. *Arranhão. Silêncio. Arranhão.*
— Eduarda... — uma voz feminina, que lembrava a dona da pensão, chamou do outro lado, mas soava distorcida, como se houvesse mais de uma pessoa falando ao mesmo tempo. — Deixe-nos ver a bailarina. Queremos ver como ela se dobra... queremos ver o que tem dentro da boneca...
Maya começou a soluçar, e Ágata se escondeu debaixo do braço de Sara. Emanuel sentia o suor frio escorrer pelas suas costas. Ele era um homem de lógica, de negócios, de força física, mas aquilo... aquilo fugia de qualquer controle.
— Saiam daqui! — gritou Emanuel para a porta. — Eu estou armado! Se entrarem, ninguém sai vivo!
Uma risada coletiva e estridente respondeu do corredor, seguida por um silêncio súbito e absoluto.
As horas seguintes foram um teste de sanidade. Eduarda não fechou os olhos por um segundo sequer, mantendo Arthur e Maya protegidos sob seu corpo, como se pudesse ocultá-los do mundo. Emanuel permaneceu sentado, encostado na cabeceira, segurando a mão de Eduarda com uma mão e o canivete com a outra. Sara, do outro lado, mantinha a vigília sobre Ágata, seus olhos loiros fixos na fresta da porta, pronta para atacar qualquer coisa que ousasse entrar.
— Emanuel — sussurrou Eduarda, perto do amanhecer, a voz quase sumindo. — Eu vi um rosto na janela.
Emanuel olhou para a janela pregada. Por uma pequena fresta entre as tábuas, um olho amarelo e dilatado observava o interior do quarto. Ao perceber que fora visto, o olho desapareceu, seguido pelo som de algo pesado pulando do parapeito para o chão de terra lá fora.
O terror era palpável. A sensação de serem presas em um curral, aguardando o momento do abate. Eduarda sentia que a cada minuto que passava naquela pensão, uma parte de sua luz era sugada pelas sombras. Ela se apertou mais contra Emanuel, buscando o batimento cardíaco dele como uma âncora na realidade.
— O sol vai nascer — disse Emanuel, mais para si mesmo do que para elas. — Assim que a luz aparecer, nós saímos daqui. Não importa se o carro funciona ou não. Nós vamos correr até o asfalto.
— Eu nunca mais viajo de carro com você — murmurou Sara, a voz trêmula, tentando recuperar um pingo de sua personalidade habitual, mas falhando miseravelmente quando um novo estrondo veio do sótão acima deles.
Eduarda fechou os olhos e começou a rezar, uma prece silenciosa que se misturava ao som da respiração pesada de Arthur em seu colo. Ela sentia as mãos de Emanuel em seu cabelo, um toque firme que era a única coisa que a impedia de desmoronar em um grito histérico.
A pensão Vergueiro não era um lugar de descanso. Era um estômago, e eles estavam sendo digeridos lentamente pelo medo.
— Fiquem prontos — ordenou Emanuel quando um tom cinzento começou a vazar pelas frestas das janelas. — No meu sinal, nós não olhamos para trás.
Eduarda olhou para Maya e Arthur, as pequenas vidas que dependiam dela, e depois para Emanuel, o homem que amava com uma intensidade que a assustava. Ela sabia que a noite deixaria marcas neles que tatuagem nenhuma conseguiria cobrir.
O silêncio lá fora agora era total, um vácuo que precedia a tempestade ou a fuga. Emanuel apertou a mão de Eduarda uma última vez antes de se preparar para chutar a porta. O pesadelo da noite estava chegando ao fim, mas o horror de quem — ou o que — os observava das sombras daquela pensão estava apenas começando a se revelar.