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O Eco do Marfim e o Silêncio da Carne
O primeiro raio de sol que atravessou as frestas das tábuas pregadas na janela não trouxe o calor habitual, mas uma claridade fria e reveladora. Emanuel não esperou. No momento em que a penumbra amarelada da lâmpada foi vencida pela luz do dia, ele se levantou, o corpo rígido pelo estado de alerta que durara horas.
— Levantem. Agora — ordenou ele, a voz rouca e sem espaço para questionamentos.
Eduarda despertou de um transe de terror, puxando Maya e Arthur para junto de si. As crianças estavam pálidas, com olheiras profundas que não deveriam pertencer a rostos tão jovens. Sara, com o cabelo loiro despenteado e os olhos injetados, pegou Ágata no colo com uma força que quase fez a menina reclamar.
Emanuel caminhou até a porta. Ele não tentou a maçaneta com delicadeza; ele desferiu um chute violento contra a madeira. Para a surpresa de todos, a porta, que parecera indestrutível durante a madrugada, cedeu com um rangido seco, revelando o corredor vazio. O cheiro de flores podres havia sumido, substituído pelo odor acre de madeira velha e poeira.
Eles atravessaram a pensão como sombras em fuga. Não havia sinal do homem pálido ou da mulher de avental. O casarão parecia morto, uma carcaça de madeira abandonada ao sol da manhã. Quando ganharam o ar livre, Emanuel não parou para olhar o SUV quebrado. Ele guiou o grupo pelo acostamento da rodovia, caminhando com pressa, o canivete ainda firme em sua mão direita.
Cerca de dois quilômetros à frente, onde a mata começava a dar lugar a pastos abertos, uma pequena construção de alvenaria com um telhado de zinco exibia uma placa desbotada de "Borracharia e Café". Uma mulher idosa, de pele curtida pelo sol e cabelos brancos presos em um coque apertado, varria a calçada. Ela parou o movimento assim que viu o grupo se aproximar.
— Vocês vieram do Quilômetro 42, não foi? — perguntou a mulher, antes mesmo que Emanuel pudesse abrir a boca.
Emanuel parou, ofegante, colocando-se à frente de Eduarda e das crianças.
— O carro quebrou. Passamos a noite naquela... pensão. Preciso de um telefone.
A mulher soltou a vassoura, que caiu no chão com um baque surdo. Ela olhou para Eduarda, que tremia visivelmente, segurando as crianças com os nós dos dedos brancos. O olhar da idosa era de uma piedade profunda e aterrorizada.
— Entrem. Rápido. O sol está alto, mas as sombras daquela casa têm braços longos.
Lá dentro, o ambiente era simples, cheirando a café fresco e querosene. A mulher serviu copos de água para todos, mas seus olhos não saíam de Eduarda.
— Como você se chama, menina? — perguntou a idosa, a voz suave.
— Eduarda — respondeu ela, a voz quase inaudível.
— Eduarda... — a mulher repetiu, suspirando. — Você é o tipo que eles procuram. O tipo que a "família" Vergueiro coleciona.
Sara, recuperando um pouco de sua agressividade defensiva, bateu com o copo na mesa de metal.
— Que história é essa? Aquela gente é louca? Eles trancaram a gente, ouvimos coisas... tentaram entrar no quarto!
— Eles não são gente, minha filha — disse a mulher, sentando-se diante deles. — Pelo menos não mais. Aquela pensão foi cenário de uma tragédia há cinquenta anos. Uma bailarina, tão linda e jovem quanto você, Eduarda, fugiu com um homem que a família não aceitava. Eles se esconderam ali. Mas os Vergueiro os encontraram.
Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha, o mesmo que sentira quando ouvira as unhas arranhando a porta.
— O que eles fizeram? — perguntou Emanuel, a mão instintivamente buscando a de Eduarda sobre a mesa.
— Eles queriam a pureza dela. Queriam o talento, a beleza, a mansidão. Dizem que a mantiveram viva por meses, trancada naquele quarto onde vocês ficaram. Eles queriam "ver como ela se dobrava", como diziam os antigos. Quando ela finalmente morreu de exaustão e desgosto, a casa nunca mais ficou vazia.
A mulher fez o sinal da cruz, os olhos fixos na estrada lá fora.
— A cada poucos anos, quando a névoa desce no KM 42 e um carro quebra, a pensão reaparece. Eles procuram mulheres como você, Eduarda. Sensíveis, doces, que carregam a luz que aquela bailarina tinha. Eles tentam puxar vocês para dentro da madeira, para que a casa continue tendo o que comer.
— Isso é ridículo — disparou Sara, embora sua voz estivesse falhando. — É uma lenda urbana. Nós vimos pessoas reais! O homem pálido, a mulher...
— Vocês viram o que a fome daquela casa queria que vissem — retrucou a idosa. — Se tivessem ficado mais uma hora após o nascer do sol, talvez nunca mais saíssem. Onde está o carro de vocês?
— No acostamento, perto da entrada da pensão — respondeu Emanuel.
— Esqueça o carro. Chame um guincho de longe, de outra cidade. Não voltem lá. Aquela casa não quer o metal, ela quer a carne e o espírito. Especialmente o espírito dessa menina.
Eduarda sentiu as lágrimas transbordarem. A sensação de ter sido "cobiçada" por algo inumano era pior do que qualquer ameaça física que já enfrentara. Ela olhou para Maya e Arthur, sentindo uma culpa avassaladora por tê-los exposto àquilo.
— Emanuel, eu quero ir embora — soluçou Eduarda, escondendo o rosto no peito dele. — Por favor, me tira daqui.
— Nós vamos, Duda. Agora mesmo — Emanuel levantou-se, pegando Arthur no colo. Ele olhou para a idosa. — Obrigado pelo aviso. Quanto lhe devo?
— Não me deve nada, rapaz. Só cuide dela. Mulheres como a Eduarda são raras. Elas são o equilíbrio de homens fortes e mulheres de ferro como essa loira aí. E é por isso que as sombras as desejam tanto. Porque elas são a única coisa que brilha no escuro.
Eles saíram da borracharia e, por sorte, um ônibus intermunicipal parou no ponto logo à frente. Emanuel não pensou duas vezes; subiu com todos, deixando o SUV de luxo e tudo o que havia dentro dele para trás.
Durante a viagem de volta para a cidade, o silêncio no ônibus era absoluto. Maya dormia com a cabeça no colo de Eduarda, enquanto Ágata se aninhava em Sara. Emanuel mantinha o braço ao redor de Eduarda, sentindo-a tremer ocasionalmente.
— Emanuel? — sussurrou ela, horas depois, quando as luzes da cidade começaram a surgir no horizonte.
— Diga, meu amor.
— O que aquela mulher disse... sobre eu ser o equilíbrio. Você acha que é por isso que você me quer? Por que eu sou... fácil de quebrar?
Emanuel olhou para ela, os olhos escuros cheios de uma verdade crua.
— Eu quero você porque você é a única parte da minha vida que não é uma guerra, Eduarda. A Sara é meu exército, mas você é meu lar. E se aquelas sombras tentaram te levar, foi porque elas sabem que, sem você, eu e a Sara nos destruiríamos em uma semana.
Sara, que parecia dormir, abriu um dos olhos e olhou para Eduarda. O sarcasmo habitual não estava lá.
— Ela tem razão, Duda. Você é irritantemente doce. Mas aquela casa... aquela casa sentiu o cheiro da sua alma. E, honestamente? Até eu senti inveja da paz que você emana, mesmo quando está morrendo de medo.
Eduarda fechou os olhos, sentindo o calor dos dois ao seu lado. O terror do Quilômetro 42 começava a se transformar em uma memória turva, mas a revelação da idosa permanecia. Ela não era apenas a namorada secundária, a bailarina frágil ou a mãe cuidadosa. Ela era o eixo.
Dias depois, já na segurança da mansão, Emanuel mandou buscar o carro. O guincho trouxe o SUV, mas Emanuel nunca mais entrou nele. Ele o vendeu na mesma semana. Quando os mecânicos abriram o porta-malas para retirar os pertences da família, encontraram algo que não pertencia a eles.
No fundo do compartimento, escondida sob o tapete, havia uma sapatilha de ballet de cetim branco, tão antiga que o tecido se desfazia ao toque. E, amarrada à sapatilha, uma mecha de cabelo castanho, exatamente do mesmo tom do de Eduarda.
Emanuel queimou o objeto no incinerador do jardim, sem contar a ninguém. Ele observou as chamas consumirem o cetim e o cabelo, jurando a si mesmo que nenhuma sombra, viva ou morta, jamais tocaria na doçura que mantinha sua vida no lugar.
Naquela noite, ele entrou no quarto de Eduarda. Ela estava ensinando Maya a fazer um coque perfeito, as duas rindo baixinho diante do espelho. No corredor, Sara passava com Ágata, discutindo sobre qual vestido a menina usaria no dia seguinte.
Emanuel encostou-se no batente da porta, sentindo o peso do mundo diminuir. O Quilômetro 42 fora um lembrete cruel de que a beleza atrai predadores, mas também fora a confirmação de que ele faria qualquer coisa para manter seu eclipse particular brilhando.
— Papai! — gritou Maya, correndo para ele. — A Mamãe Duda disse que eu vou ser uma fada na apresentação!
— Você já é uma fada, Maya — disse Emanuel, pegando a filha no colo e olhando para Eduarda através do espelho. — E a sua mãe é a rainha delas.
Eduarda sorriu, um sorriso que ainda carregava uma sombra de melancolia, mas que era, acima de tudo, resiliente. Ela sabia que a mansão era sua fortaleza, e que Emanuel e Sara eram seus guardiões. O medo passaria, mas a certeza de sua importância naquele labirinto de afetos era agora a sua maior força.
— Emanuel — chamou Sara do corredor, a voz vibrante novamente. — Deixe de ser sentimental e venha ver esses gráficos de exportação. E traga a Eduarda. Preciso que ela escolha a paleta de cores para a nova campanha. O gosto dela é a única coisa que impede essa empresa de parecer uma boate de luxo.
Emanuel riu, estendendo a mão para Eduarda.
— Você ouviu a patroa. Vamos?
Eduarda segurou a mão dele, sentindo a pele tatuada e quente.
— Vamos. Mas hoje, eu escolho as cores. E nada de dourado metalizado, Sara!
— Veremos, bailarina! Veremos! — a voz de Sara sumiu pelo corredor, seguida por sua risada característica.
O equilíbrio fora restaurado. E nas sombras da memória, a pensão Vergueiro ficara para trás, uma página rasgada de um livro de horrores que eles nunca mais abririam. Porque ali, na luz da realidade que construíram, eles eram invencíveis.