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Sinfonia de Sangue e Sapatilhas
O som rítmico das sapatilhas de ponta batendo contra o assoalho de madeira do estúdio particular era o único ruído que preenchia a cobertura naquela manhã de outono. Eduarda movia-se com uma graça que parecia desafiar a gravidade, embora o volume sutil em seu ventre, agora com quatro meses de gestação, começasse a exigir um novo equilíbrio. Arthur estava agitado hoje; ela sentia os pequenos espasmos de energia do filho, como se ele estivesse tentando acompanhar o ritmo da música imaginária em sua cabeça.
— Mamãe, olha! Eu também sou bailarina! — A vozinha doce de Maya ecoou do canto da sala.
Eduarda interrompeu o movimento e sorriu, o coração transbordando. Maya, agora com quase três anos, usava um tutu rosa desproporcional e tentava, com uma seriedade adorável, imitar um *arabesque*. Os cabelos castanhos, idênticos aos de Eduarda, estavam presos em um coque torto que a própria pequena insistira em fazer.
— Você está linda, meu amor — disse Eduarda, caminhando até a menina e pegando-a no colo, ignorando a leve pontada de cansaço nas costas. — Um dia você vai ser muito melhor que a mamãe.
Maya abraçou o pescoço de Eduarda, escondendo o rosto ali. Ela continuava sendo o "grudinho", a extensão da alma de Eduarda. O vínculo entre as duas era tão profundo que, às vezes, Sara brincava dizendo que a genética havia cometido um erro e entregado a filha para a mãe errada. Mas não havia erro; havia apenas uma conexão de almas que transcendia o sangue.
— Onde está a Ágata? — perguntou Eduarda, ajeitando a franja de Maya.
— Está com a Mãe Sara — respondeu a pequena. — Elas estão pintando as unhas de dourado. Ágata disse que rosa é cor de bebê.
Eduarda riu baixinho. Ágata era a miniversão de Sara: audaciosa, vaidosa e com uma personalidade que dominava qualquer ambiente. Para Ágata, Eduarda era a "Tia Duda", a pessoa que contava histórias suaves e fazia carinho antes de dormir, mas Sara era sua rainha e modelo de vida.
A porta do estúdio se abriu e Sara entrou, exalando o perfume caro de sempre. Ela usava um conjunto de alfaiataria branco, justo o suficiente para mostrar que, mesmo após a maternidade, seu corpo continuava impecável. Atrás dela, Ágata desfilava com mini saltos, exibindo as unhas pintadas com um orgulho quase cômico.
— Eduarda, você ainda está forçando esse corpo? — Sara cruzou os braços, arqueando a sobrancelha. — O Emanuel vai ter um infarto se chegar e te encontrar fazendo piruetas grávida do herdeiro.
— O Arthur gosta, Sara — respondeu Eduarda, colocando Maya no chão. — Ele fica calmo quando eu danço. E o médico disse que não tem problema.
— O médico não conhece o Emanuel — retrucou Sara, aproximando-se para dar um beijo rápido na bochecha de Eduarda, um gesto de carinho que se tornara comum nos últimos dois anos. — Ele está em um estado de nervos que eu não via desde aquele caso do Marcus. Esse novo assassino está tirando o sono dele.
Eduarda sentiu um frio na espinha. Ela sabia que, nos últimos meses, Emanuel estava mergulhado em uma investigação sombria. Bailarinas de companhias renomadas estavam sendo encontradas mortas, posicionadas em poses clássicas de balé, com as sapatilhas costuradas diretamente na pele dos pés.
— Ele não me contou os detalhes — sussurrou Eduarda, olhando para as filhas que agora brincavam no canto da sala.
— E nem vai contar. Ele quer te proteger da realidade, como sempre — disse Sara, sentando-se em um banco de couro. — Mas a verdade é que o estúdio está uma loucura. Ele não consegue se concentrar nas tatuagens, a administração está toda no meu colo e ele passa as noites em claro examinando fotos de cenas de crime.
O som do elevador privativo anunciou a chegada do dono da casa. Emanuel entrou no apartamento com a aura pesada de quem carregava o mundo nos ombros. Ele vestia um terno escuro, a gravata frouxa e o cabelo curto levemente bagunçado. Seus olhos encontraram imediatamente as mulheres da sua vida.
— Papai! — Ágata correu para ele, sendo erguida em um braço só.
Maya foi logo atrás, abraçando as pernas do pai. Emanuel beijou o topo da cabeça de ambas, mas seu olhar buscou Eduarda. Ele caminhou até ela, ignorando a presença de Sara por um momento, e colocou a mão espalmada sobre a barriga da namorada.
— Como ele está? — perguntou Emanuel, a voz rouca de cansaço.
— Agitado — sorriu Eduarda, cobrindo a mão dele com a sua. — Acho que ele quer ser investigador também, não para quieto.
Emanuel soltou um suspiro longo, fechando os olhos por um segundo enquanto encostava a testa na de Eduarda. Aquele era o seu porto seguro. A doçura dela era o único antídoto para a escuridão que ele via todos os dias nas ruas.
— Você precisa comer e dormir, Emanuel — disse Sara, levantando-se e aproximando-se do casal. — Eu já pedi para a cozinheira preparar aquele rosbife que você gosta. E recebi os relatórios de Londres. Estamos com um problema de logística lá, mas eu resolvo amanhã.
Emanuel olhou para Sara e assentiu, puxando-a para um beijo rápido e possessivo.
— Obrigado, Sara. Eu não sei o que seria desse império sem você.
— Seria uma bagunça, nós dois sabemos disso — ela piscou, recuperando o tom irônico. — Agora, vá tirar esse terno. Você cheira a delegacia e café barato.
Mais tarde, após as meninas serem colocadas na cama — Maya agarrada ao seu urso de pelúcia e Ágata cercada por suas bonecas de porcelana —, o silêncio finalmente se instalou na cobertura. Emanuel estava no escritório, cercado por pastas e telas de computador. Eduarda entrou sem bater, carregando uma xícara de chá.
— Manu... — ela chamou baixinho.
Ele não respondeu de imediato. Estava fixo em uma imagem na tela: uma sapatilha de cetim rosa manchada de um vermelho profundo.
— Por que elas, Emanuel? — perguntou Eduarda, deixando o chá sobre a mesa. — Por que bailarinas?
Emanuel afastou a cadeira e olhou para ela. A dor nos olhos dele era evidente.
— Porque ele busca a perfeição, Duda. Ele acha que a morte é o único estado onde a beleza de um movimento pode ser eternizada. Ele as mata no ápice da performance.
Eduarda estremeceu, instintivamente abraçando o próprio corpo.
— Eu tenho medo.
Emanuel levantou-se e a envolveu em um abraço apertado.
— Você está segura aqui. Eu transformei este lugar em uma fortaleza. Ninguém chega perto de você, nem das meninas.
— Mas você está sofrendo — disse ela, olhando para o rosto dele. — Eu sinto sua tensão toda vez que você me toca. Arthur sente também.
— Eu vou pegar esse desgraçado, Duda. Eu juro. Ele deixou um rastro hoje. Uma assinatura em uma das sapatilhas. É um símbolo que eu conheço dos meus tempos de aprendiz em Marselha. É alguém do passado.
A porta do escritório se abriu e Sara entrou, segurando dois copos de uísque. Ela entregou um para Emanuel e ficou observando a cena.
— Se for alguém de Marselha, Manu, precisamos checar os registros dos estúdios europeus de dez anos atrás — disse Sara, prática como sempre. — Eu posso fazer isso hoje à noite.
— Não, Sara. Você já fez o suficiente hoje. Vá descansar.
— Eu não descanso quando você está assim — rebateu ela, encostando-se na mesa. — Nós somos um time, lembra? A Duda cuida da sua alma, eu cuido da sua retaguarda. É assim que funciona.
Emanuel olhou para as duas. A loira vibrante e a morena suave. A força e a doçura. Ele se sentia o homem mais sortudo e, ao mesmo tempo, o mais amaldiçoado do mundo. Sorte por tê-las; amaldiçoado por saber que o mal que ele caçava sempre tentaria encontrar uma brecha para atingi-lo através delas.
— Ele enviou uma mensagem hoje — disse Emanuel, a voz baixa. — Não foi para a delegacia. Foi para o meu estúdio principal.
Eduarda segurou a respiração.
— O que dizia?
Emanuel hesitou, mas sabia que não podia mais esconder. Ele pegou um envelope de papel pardo sobre a mesa e tirou uma foto. Não era de uma vítima. Era uma foto de Eduarda saindo da faculdade de História da Arte, há três dias.
— Ele está vigiando a faculdade — disse Emanuel, o ódio transbordando em suas palavras. — Ele sabe que você é a minha bailarina favorita.
Eduarda sentiu as pernas fraquejarem. Sara agiu rápido, segurando-a e ajudando-a a sentar na poltrona.
— Aquele filho da puta — sibilou Sara, os olhos brilhando com uma fúria gélida. — Emanuel, você vai colocar dez homens naquela faculdade. Ou melhor, a Eduarda não pisa mais lá até que esse monstro esteja morto.
— Eu concordo — disse Emanuel, a voz fria como o gelo. — Duda, a partir de amanhã, você vai fazer as aulas de forma remota. Eu já conversei com a reitoria. Ninguém vai questionar.
Eduarda queria protestar, queria dizer que faltavam poucos meses para se formar, mas o medo por Arthur e por Maya era maior do que sua vontade de independência. Ela apenas assentiu, as lágrimas escorrendo silenciosamente.
— Não chore, pequena — pediu Emanuel, ajoelhando-se à frente dela. — Eu não vou deixar nada acontecer. Eu sou o caçador aqui, lembra? Ele acha que está jogando comigo, mas ele não tem ideia de onde está se metendo.
Naquela noite, o quarto principal da cobertura estava carregado de uma atmosfera pesada. Emanuel estava deitado entre as duas, uma mão repousando sobre a barriga de Eduarda e a outra entrelaçada nos dedos de Sara. Era o seu equilíbrio precário, sua santíssima trindade de amor e proteção.
No quarto ao lado, Maya acordou com um pesadelo. Ela não chamou por Emanuel, nem por Sara.
— Mamãe Duda... — murmurou a pequena, sentando-se no berço.
Eduarda, cujo sono era leve como o de um pássaro, levantou-se imediatamente. Ela caminhou pelo corredor escuro e entrou no quarto das filhas. Ágata dormia profundamente, o rosto sereno, parecendo uma boneca de porcelana cara. Maya, porém, estava com os olhos arregalados de medo.
— O que foi, meu anjinho? — Eduarda a pegou no colo, sentindo o calor do corpinho da filha.
— O homem de sapatos pretos estava no meu sonho — disse Maya, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda. — Ele disse que queria ver você dançar para sempre.
Eduarda sentiu o sangue congelar. Crianças tinham uma sensibilidade que os adultos muitas vezes ignoravam. Ela apertou Maya contra o peito, sentindo o chute vigoroso de Arthur em seu ventre, como se o bebê também estivesse tentando protegê-las.
— Shh... foi só um sonho, meu amor. O papai está aqui. A mamãe está aqui. Ninguém vai chegar perto de nós.
Ela ficou ali, balançando a menina até que Maya adormecesse novamente. Mas Eduarda não voltou para o quarto. Ela sentou-se na poltrona entre os dois berços e ficou vigiando. Ela não era uma investigadora, não era uma empresária implacável, e não tinha a força física de Emanuel. Mas, naquele momento, enquanto olhava para as filhas e sentia o filho chutar, Eduarda descobriu uma força nova.
Se aquele homem queria uma dança, ele teria. Mas seria a dança de uma mãe protegendo sua prole, e esse era um ritmo que nenhum assassino seria capaz de acompanhar.
Pela manhã, Emanuel encontrou Eduarda adormecida na poltrona do quarto das crianças. Ele a pegou no colo com uma delicadeza extrema e a levou de volta para a cama grande, onde Sara já estava acordada, revisando documentos no tablet.
— Ela passou a noite lá — sussurrou Sara. — A Maya teve um pesadelo.
Emanuel olhou para Eduarda, o rosto pálido e as olheiras suaves.
— Eu vou terminar isso hoje, Sara — disse ele, a voz carregada de uma promessa mortal. — Eu descobri onde ele está escondido. É um antigo teatro desativado no centro. O pigmento que ele usou na última vítima... eu rastreei a compra.
— Vá — disse Sara, olhando-o nos olhos. — Mate-o. E volte para nós. A Ágata quer que você a leve para a escola hoje, e a Maya... bem, a Maya não vai soltar a Eduarda tão cedo.
Emanuel beijou Sara com uma intensidade que selava o compromisso. Depois, inclinou-se e beijou a testa de Eduarda, que murmurou algo entre sonhos.
Ele saiu do quarto e, ao passar pelo espelho do corredor, viu o homem que se tornara. Um tatuador rico, um investigador de elite, um pai, um amante de duas mulheres extraordinárias. Ele era muitas coisas, mas acima de tudo, ele era o muro que separava sua família do abismo.
E o muro não ia cair.
Enquanto o SUV blindado de Emanuel ganhava as ruas de São Paulo, na cobertura, Eduarda acordava. Ela olhou para o lado e viu Sara observando-a.
— Ele foi, não foi? — perguntou Eduarda.
— Foi — respondeu Sara, sentando-se na beira da cama e segurando a mão da outra. — Mas ele volta. Ele sempre volta para o ninho, Duda.
As duas ficaram ali, em silêncio, unidas pela espera e pelo amor. No quarto ao lado, as gêmeas começavam a despertar, alheias ao fato de que, naquele exato momento, o destino de sua família estava sendo decidido entre as sombras de um teatro abandonado e a luz de uma coragem que não conhecia limites.
Arthur deu um chute forte, e Eduarda sorriu em meio às lágrimas.
— Viu só, Sara? Ele sabe que o pai dele é um herói.
— Ele sabe que o pai dele é um louco — riu Sara, limpando uma lágrima do rosto de Eduarda. — Mas é o nosso louco. E ninguém mexe com o que é nosso.