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Sombras de Farda e Fantasmas do Passado
O ar na cobertura estava tão denso que poderia ser cortado com uma das lâminas de precisão de Emanuel. O silêncio só era quebrado pelo som abafado do telejornal na sala de estar, onde Sara, com uma expressão de puro desdém, assistia às notícias sobre o cerco policial no centro da cidade. Eduarda, no entanto, não conseguia se sentar. Ela caminhava de um lado para o outro no corredor, as mãos acariciando a barriga de quatro meses, sentindo Arthur se revirar em resposta à sua angústia.
— Dá para você parar de marchar como se estivesse em um quartel? — disparou Sara, embora seus olhos revelassem uma preocupação que ela tentava esconder com agressividade. — O Emanuel sabe o que está fazendo. Ele é o melhor, lembra?
— Eu sei, Sara, mas você ouviu o que ele disse antes de sair — Eduarda parou, a voz embargada. — O pigmento, o teatro... tudo aponta para alguém que me conhece.
— E daí? Metade de São Paulo te conhece por causa dele — Sara levantou-se, caminhando até o bar para se servir de uma dose generosa de uísque. — O Manu vai esmagar quem quer que seja. Ele não é apenas um tatuador com complexo de herói, ele é a porra da elite da polícia.
O som do elevador privativo ecoou pelo hall. As duas mulheres congelaram. A porta se abriu e, por um momento, o tempo pareceu parar.
Emanuel entrou. Ele não estava com suas roupas casuais de couro ou as camisetas pretas que costumava usar no estúdio. Ele estava fardado. A farda operacional da unidade de elite, negra como o abismo, ajustava-se ao seu corpo de forma intimidadora. O colete balístico carregava o peso de carregadores e equipamentos táticos, e o coldre na perna exibia a arma que ele raramente precisava trazer para casa. O rosto dele estava manchado de fuligem e algo que parecia sangue seco, mas seus olhos... seus olhos brilhavam com uma satisfação sombria.
— Acabou — disse ele, a voz saindo como um trovão baixo.
Sara soltou um suspiro de alívio e virou o uísque de uma vez. Eduarda, porém, sentiu algo diferente. Ao ver Emanuel naquela farda, a imagem do homem protetor, autoritário e letal fundiu-se em sua mente. O medo que a consumia segundos atrás foi subitamente substituído por uma onda de calor avassaladora que subiu por suas pernas, concentrando-se em seu ventre.
— Você está bem? — perguntou Eduarda, a voz saindo mais rouca do que ela pretendia.
Emanuel caminhou até elas. O som das botas táticas no mármore era pesado, rítmico. Ele parou diante de Eduarda, ignorando por um segundo a presença de Sara, e tocou o rosto da bailarina com os dedos enluvados. O couro da luva tática era frio, mas o toque era possessivo.
— Eu estou bem, pequena. Ele não vai mais incomodar você. Nunca mais.
— Quem era, Emanuel? — Sara perguntou, aproximando-se e cruzando os braços, os olhos fixos na farda dele com uma admiração mal disfarçada. — Quem era o desgraçado?
Emanuel desviou o olhar para Sara, e depois voltou para Eduarda. A expressão dele endureceu.
— Marcus Vinícius. Mas não o Marcus que trabalhou na logística. O nome real dele é outro. Você se lembra do Lucas, Eduarda? Do conservatório de artes?
Eduarda sentiu o chão sumir sob seus pés. O nome ecoou como um fantasma. Lucas. O namorado que ela tivera aos dezoito anos, antes de Emanuel entrar em sua vida como um furacão. Foram oito meses de um relacionamento que ela acreditava ser doce, mas que, olhando para trás, percebia ter sido cercado de uma obsessão silenciosa.
— O Lucas? — ela sussurrou, sentindo um calafrio. — Mas ele... ele se mudou para a Europa quando terminamos.
— Ele nunca foi para a Europa, Duda — disse Emanuel, a voz carregada de um desprezo mortal. — Ele se infiltrou na minha organização. Ele mudou de nome, fez plásticas sutis, estudou minha técnica. Ele queria "recuperar" o que ele achava que eu tinha roubado dele. Ele achava que, ao matar aquelas bailarinas e deixar as marcas da minha arte, ele estava provando que era melhor do que eu. Que ele merecia você.
Eduarda tremeu, mas não foi apenas de horror. A proximidade de Emanuel, o cheiro de pólvora e suor que emanava da farda, e a forma como ele falava sobre tê-la defendido... tudo isso despertava nela um desejo primitivo. Ela olhou para o cinto tático, para a rigidez da farda sobre os músculos do peito dele, e sentiu sua intimidade pulsar, inchada e úmida sob a saia de seda.
— Onde ele está agora? — Sara perguntou, a voz afiada como uma navalha.
— Em um saco preto a caminho do IML — respondeu Emanuel de forma seca. — Ele tentou usar uma das sapatilhas de cena de crime contra mim. Foi um erro fatal.
Sara deu um sorriso de lado, um brilho de satisfação nos olhos.
— Bom. Menos um lixo no mundo. Agora, vá tirar essa roupa de guerra antes que você suje o tapete de sangue, Manu.
Emanuel assentiu e começou a se desarmar ali mesmo na sala, retirando o colete e o cinto tático. Eduarda observava cada movimento, hipnotizada. A autoridade que ele exalava fardado era algo que ela nunca tinha visto de tão perto. Era o homem que comandava exércitos, que decidia quem vivia e quem morria, e ele era dela.
— Eu vou ver as meninas — disse Sara, percebendo a eletricidade estática entre Emanuel e Eduarda. — Ágata provavelmente vai querer brincar com suas algemas amanhã, então guarde isso longe dela.
Assim que Sara saiu do ambiente, o silêncio se tornou insuportável. Emanuel terminou de retirar a farda superior, ficando apenas com a camiseta preta justa por baixo das calças táticas. Ele olhou para Eduarda e percebeu a respiração ofegante dela, os olhos dilatados.
— O que foi, pequena? Você ainda está com medo?
Eduarda deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ela esticou a mão e tocou o tecido grosso das calças da farda, subindo até encontrar o metal da fivela do cinto que ainda restava.
— Eu nunca te vi assim — ela confessou, a voz falhando. — Ver você... saber o que você fez para me proteger...
Emanuel soltou um rosnado baixo, segurando a cintura de Eduarda com força e colando o corpo dela ao seu. Ele sentiu o calor que emanava dela, o cheiro de baunilha lutando contra o cheiro de adrenalina dele.
— Eu mataria o mundo inteiro para manter você segura, Eduarda. Você e os nossos filhos.
— Eu sei — ela sussurrou, subindo as mãos para o pescoço dele, sentindo a aspereza da pele. — E isso me deixa... com tanto desejo que eu mal consigo ficar de pé.
Emanuel arqueou as sobrancelhas, um sorriso predatório surgindo em seus lábios. Ele a ergueu do chão com uma facilidade assustadora, as pernas dela enlaçando-se automaticamente na cintura dele, sentindo a textura áspera da calça tática contra a pele sensível de suas coxas.
— É a farda, não é? — ele murmurou contra o ouvido dela, sua barba por fazer roçando a pele delicada.
— É tudo — ela gemeu, enterrando o rosto no pescoço dele. — É você sendo o meu dono. O meu protetor.
Emanuel a levou para o quarto, mas não para a cama. Ele a prensou contra a porta fechada, as mãos descendo para erguer a saia dela. Quando ele encontrou a calcinha de renda, percebeu que Eduarda não estava mentindo. Ela estava completamente entregue, encharcada de um desejo que ele raramente via nela com tanta intensidade.
— Você está tão quente, Duda — ele disse, a voz vibrando contra o peito dela. — E tão inchada para mim.
— Por favor, Manu... eu preciso de você agora. Com essa roupa. Não tira nada.
Emanuel não precisou de um segundo convite. Ele abriu o zíper da calça tática, liberando-se, e no momento em que entrou nela, Eduarda soltou um grito abafado contra o ombro dele. Era uma possessão completa. O contraste entre a doçura de Eduarda e a brutalidade controlada de Emanuel fardado criava uma sinfonia de prazer que ecoava pelas paredes do quarto.
Cada estocada dele era um lembrete de que ele era o senhor daquela casa, daquelas mulheres e daquele destino. Eduarda se perdia no ritmo, sentindo Arthur chutar levemente em seu ventre, como se o bebê também sentisse a descarga de adrenalina e vida que corria pelo corpo da mãe.
— Você é minha — Emanuel rosnou entre dentes, os dedos cravados nos quadris dela. — De mais ninguém. Nunca mais deixe um fantasma do passado entrar na sua cabeça.
— Eu sou sua... só sua — ela respondia entre gemidos, a cabeça jogada para trás, os olhos fixos no teto enquanto o prazer a atingia em ondas avassaladoras.
Quando o ápice finalmente os alcançou, foi como uma explosão silenciosa. Emanuel a segurou com força, o corpo tremendo sob o esforço e a descarga de tensão acumulada durante dias de caçada. Ele a manteve ali, abraçada ao seu corpo, enquanto a respiração de ambos voltava ao normal.
Lentamente, ele a colocou no chão, mas não a soltou. Ele limpou as lágrimas de prazer do rosto dela com o polegar, o olhar agora mais suave, mas ainda carregado daquela autoridade natural.
— Vá tomar um banho — ele ordenou, mas com uma doçura que só ela conhecia. — Eu vou checar as meninas e falar com a Sara sobre os relatórios de amanhã. O mundo não para porque um psicopata morreu.
Eduarda assentiu, sentindo-se completa e, pela primeira vez em semanas, verdadeiramente segura. Ela caminhou para o banheiro, olhando para trás uma última vez para ver Emanuel recolhendo as peças da farda do chão.
Enquanto a água quente caía sobre seu corpo, Eduarda pensou em Lucas. O passado havia tentado retornar de forma sangrenta, mas ele havia subestimado o homem que ela escolhera. Emanuel não era apenas um tatuador ou um investigador; ele era a força da natureza que mantinha o caos à distância.
Na sala, Sara esperava por ele. Ela já havia trocado de roupa para um pijama de seda curta e estava sentada no sofá, com o tablet no colo.
— Pelo barulho que veio do quarto, imagino que a "bailarina" gostou da farda — comentou Sara, sem levantar os olhos da tela, mas com um sorriso malicioso no canto da boca.
Emanuel sentou-se ao lado dela, exausto mas em paz.
— Ela precisava descarregar a tensão, Sara. Todos nós precisávamos.
— É, eu imagino — Sara largou o tablet e olhou para ele. — Agora que o fantasma foi exorcizado, podemos voltar ao trabalho? O estúdio de Nova York está com problemas no licenciamento e eu preciso que você assine esses papéis antes que eu perca a paciência com os americanos.
Emanuel riu, puxando Sara para perto e beijando seu ombro.
— Você nunca perde a paciência, Sara. Você apenas a substitui por uma eficiência implacável.
— Alguém tem que manter este império de pé enquanto você brinca de soldado — ela retrucou, mas aninhou-se no peito dele.
Naquela noite, a cobertura de luxo finalmente encontrou o seu equilíbrio. O assassino estava morto, o passado estava enterrado e o futuro, na forma de um pequeno Arthur e das gêmeas que dormiam no quarto ao lado, parecia mais brilhante do que nunca. Emanuel, entre suas duas namoradas, sabia que a batalha lá fora nunca terminaria, mas dentro daquelas paredes de vidro e aço, ele era o rei absoluto de um reino construído sobre amor, tinta e, se necessário, sangue.
Eduarda saiu do banho e juntou-se a eles na sala, vestindo uma camisola leve. Ela sentou-se do outro lado de Emanuel, encostando a cabeça em seu ombro. Sara estendeu a mão e tocou o joelho de Eduarda, um reconhecimento silencioso de que, apesar de todas as diferenças, elas eram as guardiãs daquele homem.
— Maya acordou e perguntou se o papai já tinha guardado a "roupa de herói" — disse Sara baixo.
Emanuel sorriu, fechando os olhos.
— Digam a ela que o herói está de folga. Pelo menos até amanhã de manhã.
O silêncio agora era de paz. O labirinto de vidro e tinta estava protegido, e as sombras que antes os assombravam haviam sido finalmente dissipadas pela luz de uma farda negra e pelo fogo de um desejo que nada, nem ninguém, seria capaz de apagar.