D
Adrenalina e Algodão-Doce
O ronco do motor era agudo, um som metálico que cortava a tranquilidade da manhã de sábado nos jardins da mansão. Não era o som de um cortador de grama, nem o de um carro de luxo manobrando na garagem. Era algo mais visceral, algo que Emanuel reconheceria em qualquer lugar: o som da liberdade sobre duas rodas.
Emanuel estava de pé no centro do pátio pavimentado, com os braços cruzados sobre o peito, onde a tatuagem de uma fênix parecia ganhar vida sob o sol. Ao seu lado, Arthur, de apenas quatro anos, usava um capacete de motocross em miniatura, pintado com chamas pretas e vermelhas. O menino tremia de excitação, seus olhos escuros fixos na pequena máquina reluzente à sua frente.
Era uma mini moto motorizada, uma réplica perfeita de uma profissional, feita sob medida. Pintura fosca, pneus com cravos para terra e o logotipo de um dos estúdios de Emanuel estampado no tanque de combustível.
— É minha, papai? De verdade? — perguntou Arthur, a voz abafada pelo capacete, mas carregada de uma reverência quase religiosa.
— É sua, campeão — respondeu Emanuel, um sorriso de orgulho genuíno surgindo em seu rosto. — Um homem precisa aprender a controlar a própria força e a velocidade desde cedo. Mas lembre-se do que conversamos: equilíbrio e foco.
Eduarda apareceu na varanda, carregando uma bandeja com suco e biscoitos para as crianças. Ao ouvir o estalo do motor sendo ligado por Emanuel, ela parou bruscamente. A bandeja tremeu em suas mãos. Por um segundo, ela achou que seus olhos a estavam enganando. Mas não, lá estava seu filho pequeno, seu "furacão" que já era difícil de conter a pé, montado em uma máquina que parecia rápida demais, pesada demais e perigosa demais.
— Emanuel! — O grito de Eduarda cortou o ar, agudo e carregado de pânico. Ela deixou a bandeja sobre uma mesa de vime e correu em direção ao pátio. — O que é isso? O que você pensa que está fazendo?
Emanuel nem sequer se virou de imediato. Ele estava ajustando a posição das mãos de Arthur no guidão.
— Estou dando ao meu filho o primeiro gosto da vida real, Duda — disse ele, com a calma exasperante de quem já havia tomado uma decisão inquestionável.
— Isso não é vida real, Emanuel, isso é um convite para o hospital! — Eduarda chegou ao lado deles, tentando puxar Arthur da moto, mas o menino se segurou com força. — Ele tem quatro anos! Quatro! Ele mal aprendeu a andar de bicicleta com rodinhas e você coloca um motor entre as pernas dele?
— Rodinhas são para quem tem medo de cair — retrucou Emanuel, finalmente olhando para ela. — Arthur não tem medo. Ele é um líder, e líderes precisam de coragem. Ele vai aprender sob minha supervisão.
— Supervisão? Você mal consegue ficar parado cinco minutos sem atender o celular! — Eduarda sentia as lágrimas de frustração queimarem seus olhos. — Emanuel, por favor, tire ele daí. Meu coração não vai aguentar ver ele em cima dessa... dessa coisa.
Nesse momento, a porta de vidro da sala de estar deslizou e Sara saiu, usando um biquíni de grife e uma saída de praia transparente que deixava pouco para a imaginação. Ela segurava uma taça de espumante, seguida por Ágata, que usava óculos escuros e carregava uma bolsa de pelúcia, e Maya, que vinha logo atrás, segurando a barra do vestido de Sara como se buscasse proteção.
— Mas o que é esse barulho de cortador de grama estragado? — Sara perguntou, parando e avaliando a cena com um olhar de deboche. — Ah, vejo que o presente chegou. Emanuel, você não economiza no drama, não é?
— Você sabia disso? — Eduarda virou-se para Sara, buscando uma aliada, mesmo sabendo que era improvável. — Sara, olhe para essa moto! É perigoso!
Sara deu um gole longo em sua bebida e deu de ombros, as curvas de seu corpo se movendo com uma confiança vulgar.
— É claro que é perigoso, Eduarda. É por isso que é divertido. O Arthur é um demônio hiperativo, pelo menos agora ele vai gastar essa energia em algo que tenha motor. Melhor ele se ralar no asfalto do que quebrar mais um vaso da dinastia Ming na sala.
— Você é inacreditável! — Eduarda exclamou. — Maya, venha cá, não chegue perto disso.
Maya correu para os braços de Eduarda, escondendo o rosto em seu pescoço. A menina estava assustada com o barulho, mas Ágata se aproximou da moto com um olhar clínico.
— É brega, papai — sentenciou Ágata, tocando o metal com a ponta dos dedos perfeitamente manicurados. — Por que o Arthur ganha uma moto e eu não ganhei aquele pônei que pedi no mês passado?
— Porque pôneis cagam e precisam de pasto, Ágata — respondeu Sara, sem filtro. — E motos a gente desliga e guarda na garagem.
— Chega de conversa — interrompeu Emanuel, dando dois tapinhas no capacete de Arthur. — Vai devagar, filho. Só no acelerador de mão, aos poucos.
O menino girou o punho. A mini moto deu um solavanco para a frente, e o som do motor subiu de tom. Eduarda soltou um grito abafado, cobrindo a boca com a mão.
— Emanuel, pare com isso agora! — ela implorou, a voz trêmula. — Ele vai se machucar!
— Deixe o menino, Eduarda! — Sara gritou por cima do barulho. — Pare de ser tão sufocante! Ele precisa de testosterona, não de mais uma aula de pintura com dedos!
Arthur começou a circular o pátio. Ele ia devagar, mas para Eduarda, parecia que ele estava a cem quilômetros por hora. A cada pequena oscilação da moto, ela sentia que seu mundo ia desabar. Emanuel acompanhava o filho de perto, caminhando ao lado da moto com uma mão pronta para segurar o menino se necessário, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação feroz.
— Olha, mamãe! Eu sou rápido! — gritou Arthur, a voz vibrando de pura alegria.
Eduarda não conseguia sorrir. Ela via apenas o perigo. Ela via o asfalto duro, a fragilidade dos ossos do filho, a imprudência de um pai que queria transformar uma criança em um homem antes do tempo.
— Se ele cair, Emanuel... — Eduarda começou, aproximando-se dele quando Arthur fez uma curva mais larga. — Se ele tiver um arranhão sequer, eu nunca vou te perdoar. Eu juro por tudo o que é mais sagrado.
Emanuel parou por um momento, olhando para a seriedade no rosto de Eduarda. Ele via a dor dela, a insegurança que a tornava tão dependente dele, mas também a força de uma mãe leoa que ele às vezes subestimava.
— Ele vai cair, Duda — disse Emanuel, a voz baixa e firme. — Em algum momento, ele vai cair. E eu vou estar aqui para levantá-lo. Mas se eu não deixar ele subir, ele nunca vai saber que pode se levantar sozinho.
— Ele tem quatro anos! — ela repetiu, as lágrimas finalmente caindo. — Ele não precisa aprender a se levantar sozinho agora! Ele tem a mim! Ele tem você!
— Ele tem um império para herdar — Sara interveio, aproximando-se deles e colocando a mão livre no quadril, realçando o volume de seus seios. — E o mundo lá fora não vai ter a doçura da Eduarda quando ele tiver que enfrentar os tubarões do mercado. Emanuel está certo. Deixe o garoto ser homem.
— Homem? — Eduarda riu, uma risada amarga e carregada de sarcasmo. — Vocês dois se merecem. Dois obcecados por controle e poder, usando uma criança como se fosse um acessório de marketing.
— Cuidado com a língua, santinha — Sara sibilou, os olhos estreitados. — Eu administro os estúdios que pagam por essas saias de linho que você usa. Se o Emanuel quer que o filho dele seja um piloto, ele vai ser.
— Parem com isso! — Emanuel rugiu, fazendo as duas se calarem. — Arthur, pare a moto.
O menino obedeceu, parando com um pouco de dificuldade, mas sem cair. Ele tirou o capacete, revelando o rosto suado e o sorriso mais largo que Eduarda já tinha visto.
— Papai, eu quero ir mais rápido! Quero ir na grama!
— Por hoje chega — disse Emanuel, pegando o filho no colo. — Sua mãe está prestes a ter um colapso e eu não quero lidar com o estresse dela o dia todo.
Ele caminhou até Eduarda e entregou o menino a ela. Eduarda abraçou Arthur como se ele tivesse acabado de voltar de uma guerra, cheirando seus cabelos e verificando cada centímetro de sua pele em busca de ferimentos.
— Você está bem, meu amor? Dói algum lugar? — ela perguntava freneticamente.
— Eu estou ótimo, mamãe! Eu sou um motoqueiro! — Arthur exclamou, tentando se soltar para voltar para a moto.
Emanuel observava a cena, sentindo a tensão habitual entre suas duas vidas drenar sua energia. De um lado, o pragmatismo agressivo de Sara, que via o mundo como uma competição constante; do outro, a sensibilidade protetora de Eduarda, que queria manter todos em uma bolha de seda.
— Sara, leve a Ágata para dentro — ordenou Emanuel. — Vou levar a moto para a garagem.
— Com prazer — respondeu Sara, revirando os olhos. — Ágata, venha. Vamos ver se o catálogo da nova coleção de joias chegou. Algo que realmente combine com o nosso nível.
Sara saiu com sua postura de rainha, deixando um rastro de perfume caro e arrogância. Ágata a seguiu, imitando o andar da mãe.
Eduarda permaneceu no pátio com Arthur e Maya. Ela olhou para Emanuel, que estava empurrando a mini moto em direção à garagem.
— Você não me consultou — disse ela, a voz agora fria e distante. — Você simplesmente comprou, trouxe para casa e colocou ele em perigo.
Emanuel parou e soltou um suspiro pesado. Ele caminhou de volta até ela, ignorando Arthur que agora brincava com Maya no gramado.
— Eu não preciso de permissão para criar o meu filho, Eduarda — disse ele, a voz carregada de uma autoridade que beirava a crueldade.
— Nosso filho — ela corrigiu.
— Sim, nosso. Mas você o cria para ser dependente. Eu o crio para ser livre.
— Liberdade sem segurança é imprudência, Emanuel. Você faz isso em tudo. Nos estúdios, com a Sara, comigo... você empurra os limites até que algo quebre. E eu tenho medo de que, desta vez, o que quebre seja o Arthur.
Emanuel segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos. Ele a amava, mas a timidez e a insegurança dela às vezes o faziam perder a paciência. Ele sentia necessidade de endurecê-la, de fazê-la entender que o mundo não era feito de momentos simples e paz.
— Nada vai acontecer com ele enquanto eu estiver por perto — ele prometeu, aproximando o rosto do dela. — Confie em mim, Duda.
— Eu confio em você — ela sussurrou, fechando os olhos. — Mas eu não confio no motor. E eu não confio na influência que a Sara tem sobre você quando o assunto é "ser forte".
Emanuel a beijou, um beijo que começou como uma punição pela desobediência dela e terminou como um pedido de desculpas silencioso. Eduarda cedeu, como sempre fazia, sentindo a força dele envolvê-la.
Mais tarde, naquela noite, a mansão estava imersa em um silêncio tenso. Arthur dormia profundamente, sonhando com pistas de corrida. Maya estava aninhada no quarto de Eduarda, recusando-se a ir para o próprio quarto após o susto do barulho do motor.
Emanuel estava em seu escritório, revisando relatórios de faturamento que Sara havia deixado para ele. A porta se abriu e Sara entrou, vestindo uma camisola de seda vermelha que deixava seus seios quase totalmente à mostra. Ela sentou-se na borda da mesa dele, cruzando as pernas e exibindo as coxas trabalhadas.
— A santinha já dormiu? — perguntou Sara, com um sorriso provocador.
— Ela está com as crianças — respondeu Emanuel, sem levantar os olhos do papel.
— Você foi duro com ela hoje. Eu gostei — Sara inclinou-se para a frente, o cheiro de seu perfume invadindo o espaço de Emanuel. — Ela precisa entender que nesta casa, quem manda é você. E que a educação do Arthur não é um seminário de artes.
Emanuel finalmente levantou os olhos. Ele observou Sara, a mulher que era seu braço direito nos negócios, a mulher que não tinha medo de nada e que o desafiava a cada passo.
— Você incentiva o perigo, Sara. Às vezes acho que você quer ver o caos acontecer só para poder administrá-lo depois.
— O caos é lucrativo, Emanuel — ela respondeu, passando a mão pelo peitoral dele por cima da camisa. — E convenhamos, o Arthur é muito mais meu filho em espírito do que daquela menina chorona. Ele tem o nosso sangue. O sangue de quem vence.
Emanuel a puxou pela cintura, trazendo-a para mais perto.
— Não fale assim dela. A Eduarda é o que mantém este lugar em equilíbrio. Sem ela, nós dois já teríamos nos matado ou incendiado este império.
Sara deu uma risada vulgar e deliciosa, jogando a cabeça para trás.
— Talvez. Mas admita... você adora o fogo.
Ela o beijou com uma paixão agressiva, e Emanuel correspondeu, deixando que a energia de Sara dissipasse o estresse do dia. Com Sara, tudo era intenso, carnal e direto. Era o oposto do que ele tinha com Eduarda, e ele precisava de ambos para se sentir completo.
Enquanto isso, no quarto ao lado, Eduarda estava sentada na cama, observando Maya dormir. Ela ouviu os risos baixos vindos do escritório e sentiu uma pontada de tristeza. Ela sabia que Sara usava a moto e a educação de Arthur como ferramentas para se aproximar de Emanuel, para provar que ela era a parceira "ideal" para um homem como ele.
Eduarda acariciou o rosto de Maya. A menina era tão parecida com ela... doce, sensível, o "grudinho" que Sara tanto criticava.
— Eu não vou deixar eles mudarem você, meu amor — sussurrou Eduarda. — E não vou deixar eles transformarem o Arthur em alguém sem coração.
Ela se levantou e foi até a janela, olhando para a garagem onde a mini moto estava guardada. O luar refletia no metal da máquina, que para Eduarda parecia um monstro adormecido.
A dinâmica daquela família era como uma tatuagem complexa: cheia de detalhes, cores contrastantes e feita com uma dor que se tornava permanente. Emanuel era o artista, Sara era a tinta vibrante e agressiva, e Eduarda era a pele macia que recebia tudo, tentando não se rasgar sob a pressão da agulha.
No dia seguinte, Emanuel acordou cedo. Ele encontrou Arthur já de pé, sentado na varanda com o capacete no colo.
— Papai, podemos ir de novo? — perguntou o menino, os olhos brilhando.
Emanuel olhou para a porta do quarto de Eduarda, que ainda estava fechada, e depois para o corredor onde Sara provavelmente já estava se arrumando para um dia de reuniões.
Ele sentiu o peso de suas escolhas. Ele amava o brilho de aventura nos olhos do filho, mas também amava a paz nos olhos de Eduarda.
— Hoje não, Arthur — disse Emanuel, pegando o filho no colo. — Hoje vamos fazer algo diferente. Vamos levar a mamãe Eduarda e a Maya para um piquenique na beira do lago. Sem motores. Só nós.
Arthur fez um bico de decepção, mas Emanuel o apertou contra o peito.
— Um líder também precisa saber quando parar e cuidar do seu povo, campeão.
Quando Eduarda saiu do quarto, meia hora depois, e ouviu o plano, seu rosto se iluminou com um sorriso que fez Emanuel sentir que, por um momento, o equilíbrio estava restaurado. Sara, é claro, reclamou que o piquenique era "coisa de gente pobre e sem ambição", mas acabou indo, vestindo um conjunto de linho caríssimo e passando o tempo todo no celular, garantindo que o império continuasse crescendo enquanto eles fingiam ser uma família normal sob a sombra das árvores.
Ali, entre o ronco abafado do motor na garagem e o som das risadas das crianças no gramado, Emanuel percebeu que sua vida nunca seria simples. Ele teria sempre que mediar o fogo de Sara e a seda de Eduarda. Mas, enquanto olhava para Arthur tentando ensinar Maya a ser "corajosa" e para as duas mulheres que ocupavam seu coração de formas tão distintas, ele soube que não trocaria aquele caos por nada no mundo.
A mini moto continuaria lá, um símbolo da masculinidade e da liberdade que ele queria para o filho. Mas a mão de Eduarda em seu ombro, firme e suave, lembrava-o de que a maior força de um homem não estava na velocidade que ele podia atingir, mas na doçura que ele era capaz de proteger.