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O Ritual da Seda e o Grito de Horror

O escritório de Emanuel exalava o cheiro metálico de tinta fresca e o aroma adocicado do café gourmet que Sara insistia em manter na recepção de seus estúdios. Naquela manhã, no entanto, o clima não era de negócios, mas de uma disputa territorial silenciosa. Emanuel estava sentado atrás de sua mesa de carvalho negro, os olhos fixos em um convite de papel texturizado que Eduarda havia deixado ali.

— "A Luz no Abstrato: Curadoria por Eduarda Vasconcelos" — Emanuel leu em voz alta, sua voz saindo mais como um rosnado do que como um elogio. — Esse Veríssimo realmente não desiste, não é?

Eduarda, que estava terminando de organizar sua pasta de estudos, deu um suspiro suave. Ela usava um vestido de algodão claro que a deixava com um ar ainda mais angelical, algo que Emanuel adorava, mas que também alimentava sua paranoia de que o mundo queria roubá-la dele.

— É uma oportunidade profissional, Emanuel. Nós conversamos sobre isso. Eu vou apenas organizar a disposição das obras e receber os convidados na noite de abertura. É o meu trabalho.

— Receber os convidados... — Emanuel se levantou, caminhando até ela com aquela postura predatória que exalava controle. — Você quer dizer sorrir para colecionadores de arte que vão passar a noite tentando descobrir se você é tão macia quanto parece?

— Emanuel! — Eduarda corou, a timidez lutando com uma pontinha de irritação. — Você prometeu que não ia interferir. Eu já recusei o contrato fixo na galeria para trabalhar nos seus estúdios. Deixe-me ter esse evento.

A porta se abriu com um estrondo característico. Sara entrou, saltos agulha estalando no chão, usando um vestido justo cor de vinho que gritava "poder". Ela carregava Maya no colo, que parecia um pequeno botão de rosa assustado em meio à tempestade de energia da mãe.

— Se vocês vão brigar por causa de quadros borrados, façam isso em casa — disparou Sara, colocando Maya no chão. — Emanuel, o pessoal de Tóquio está na linha dois. Eles querem saber por que você mudou o design das máquinas de tatuagem sem consultar o financeiro.

Emanuel lançou um olhar final para Eduarda, um olhar que misturava desejo e uma possessividade latente, antes de se voltar para Sara.

— Eu mudei porque as antigas eram lentas. O financeiro serve para pagar as contas, não para dar palpite na minha arte.

— O financeiro serve para manter você rico, querido — Sara rebateu, piscando para ele com uma vulgaridade charmosa que sempre desarmava parte da tensão dele. — Agora vá. Eu cuido da "curadora" aqui.

Emanuel saiu, bufando, mas não sem antes dar um beijo possessivo na testa de Eduarda, marcando seu território diante de Sara.

Sara olhou para Eduarda e soltou uma risadinha irônica.

— Ele está possesso, Duda. Se eu fosse você, usava um vestido de gola alta nesse evento, ou ele vai acabar tatuando "Propriedade de Emanuel" na sua testa na frente de todo mundo.

— Ele só está preocupado — Eduarda murmurou, pegando a mão de Maya, que imediatamente se grudou nela.

— Ele está com ciúmes, o que é diferente. Mas enfim, se você vai se expor naquela galeria cheia de gente esnobe, precisa estar impecável. Já marcou sua manutenção?

Eduarda piscou, confusa.

— Manutenção?

— Depilação, querida. A estética não é só o que as pessoas veem, é como você se sente sob o tecido. E conhecendo o Emanuel, ele vai querer celebrar o sucesso do seu evento de um jeito bem específico quando chegarem em casa.

Eduarda sentiu o rosto queimar. Sara tinha um jeito de falar sobre intimidade que a deixava sem chão.

— Eu... eu ia marcar para amanhã.

— Não deixe para amanhã o que você pode arrancar hoje — disse Sara, pegando o celular. — Vou ligar para a minha esteticista. Ela é uma carniceira maravilhosa, deixa a pele como seda. E você vai levar a Maya.

— Levar a Maya para uma depilação? — Eduarda arregalou os olhos.

— Por que não? Ela precisa começar a entender que a beleza dói. Ágata já vai comigo desde os três anos e acha o máximo. Maya precisa deixar de ser tão... borboleta.

— Eu não acho que seja uma boa ideia — Eduarda tentou protestar, mas Maya apertou sua mão.

— Eu quero ir com a mamãe Duda! — pediu a menina, a voz doce e manhosa. — Eu quero ver a seda!

Eduarda olhou para a carinha de anjo de Maya e suspirou. Ela nunca conseguia dizer não para aquela criança, especialmente quando Maya a chamava de "mamãe".

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O salão de estética era um ambiente minimalista, cheirando a óleos essenciais e algo levemente químico. Eduarda sentia-se fora de lugar, enquanto Maya olhava tudo com uma curiosidade cautelosa.

— Vai ser rápido, meu amor — disse Eduarda, sentando-se na maca revestida de papel descartável. — A moça só vai passar um creminho e tirar alguns pelinhos.

A esteticista, uma mulher de braços fortes e olhar clínico, sorriu para Maya.

— Olá, pequena. Quer ver como a mamãe fica bonita?

Maya assentiu, sentando-se em um banquinho de veludo bem ao lado da maca, os olhos castanhos bem abertos.

Eduarda deitou-se, sentindo-se vulnerável. Ela estava acostumada com a privacidade, com o toque de Emanuel, e a ideia de passar por aquilo com a filha observando começava a parecer um erro catastrófico. Mas Sara já havia pago por antecipação e Eduarda não queria parecer "fraca", como a loira sempre sugeria.

— Vou começar com a cera quente, querida — anunciou a esteticista, mexendo em um pote que exalava um vapor denso.

Maya inclinou-se para a frente. Para a menina, aquilo parecia um experimento de culinária mágica. O líquido dourado e viscoso brilhava sob as luzes do teto.

— É mel, mamãe? — perguntou Maya, esticando o dedinho.

— Não toque, meu bem! É quente — avisou Eduarda, tentando relaxar os músculos.

A esteticista aplicou a primeira camada generosa de cera. Eduarda fechou os olhos, respirando fundo. Maya observava a espátula deslizar com uma expressão de puro fascínio. O líquido dourado rapidamente se transformou em uma placa opaca sobre a pele clara de Eduarda.

— Agora, respire fundo — disse a mulher.

O que se seguiu foi um movimento tão rápido quanto um bote de cobra.

*VRAU!*

— Ahhh! — O grito de Eduarda não foi alto, mas foi carregado de uma dor aguda e genuína. Suas mãos agarraram as bordas da maca e seus dedos dos pés se encolheram.

Maya deu um pulo para trás, quase caindo do banquinho. Seus olhos, antes curiosos, agora estavam arregalados de puro horror. Ela olhou para a tira de cera na mão da esteticista — agora cheia de resíduos — e depois para o rosto de Eduarda, que estava vermelho e com pequenas lágrimas nos cantos dos olhos.

— Mamãe? — a voz de Maya saiu em um fiozinho de pavor. — Ela... ela arrancou sua pele?

— Não, pequena, é só o pelo — explicou a esteticista, rindo com naturalidade enquanto preparava a próxima remessa.

— Foi um susto, Maya... — arquejou Eduarda, tentando recuperar a compostura. — Dói só um pouquinho, como um beliscão.

Mas Maya não estava convencida. Ela via o ritual como algo saído de um filme de terror. A cada nova aplicação, a menina se encolhia mais. Quando a esteticista começou a trabalhar nas áreas mais sensíveis, os sons que Eduarda emitia — pequenos gemidos de dor e suspiros pesados — faziam Maya tremer.

— Pare! — gritou Maya subitamente, correndo para o lado de Eduarda e tentando empurrar a mão da esteticista. — Você está machucando a minha mamãe! Ela está chorando!

— Maya, não! — Eduarda tentou segurar a menina. — Está tudo bem, meu amor. É para ficar bonita para o evento do papai.

— Eu não quero que você seja bonita se a moça te rasga! — Maya choramingava, o rosto escondido na cintura de Eduarda. — O papai não vai gostar disso! O papai briga com quem machuca você!

A esteticista parou, segurando a tira de cera no ar, parecendo dividida entre o riso e o constrangimento.

— Eduarda, talvez seja melhor ela esperar lá fora com a recepção — sugeriu a mulher.

— Não! — Maya gritou, agarrando-se à perna da maca. — Eu vou salvar a mamãe!

Levou dez minutos para Eduarda acalmar a menina, prometendo que aquela era a última parte. Maya concordou em ficar, mas sua expressão mudou. Ela não estava mais curiosa; estava horrorizada e julgadora. A cada puxão de cera, Maya fazia uma careta de dor, como se ela mesma estivesse sentindo o arrancão. Seus lábios se contorciam e ela emitia um som de "vixe" audível a cada impacto.

Quando o processo finalmente terminou e a esteticista passou um óleo calmante, Eduarda sentiu um alívio imenso.

— Viu? Acabou — disse Eduarda, sentando-se e tentando ajeitar o vestido. — Agora a mamãe está pronta.

Maya aproximou-se cautelosamente, olhando para as pernas e a área depilada de Eduarda como se esperasse ver feridas de guerra.

— Você está bem mesmo? — perguntou a menina, tocando a pele de Eduarda com a ponta do dedo.

— Estou ótima, meu bem.

— A tia Sara é doida — sentenciou Maya, cruzando os braços pequenos. — Eu nunca vou deixar ninguém passar mel quente em mim. Nunca.

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Ao chegarem em casa, o caos familiar estava em seu auge. Arthur estava correndo pelo jardim com uma capa de super-herói, enquanto Ágata tentava convencê-lo de que heróis não usavam sandálias de plástico. Emanuel estava na varanda, conversando ao telefone, mas seus olhos se iluminaram ao ver Eduarda e Maya atravessarem o portão.

Ele desligou o telefone e desceu os degraus, sua presença dominando o espaço.

— Como foi o "dia de beleza"? — perguntou ele, envolvendo a cintura de Eduarda e puxando-a para um beijo rápido.

Eduarda sorriu, ainda sentindo a pele sensível.

— Foi... instrutivo.

— Papai! — Maya gritou, correndo até Emanuel e agarrando sua perna. — A mamãe Duda foi torturada!

Emanuel congelou. Seu olhar mudou instantaneamente de afetuoso para mortal. Ele olhou para Eduarda, buscando qualquer sinal de ferimento, e depois voltou-se para a filha.

— O que você disse, Maya? Quem torturou a Eduarda?

— Uma mulher malvada com mel quente! — Maya explicou, fazendo gestos dramáticos com as mãos. — Ela passava o mel e depois... ZÁS! Ela arrancava tudo! A mamãe gritou, papai! Ela chorou!

Emanuel arqueou uma sobrancelha, começando a entender a situação. Ele olhou para Eduarda, que estava escondendo o rosto nas mãos, morrendo de vergonha.

— Foi a depilação, Emanuel — murmurou Eduarda por entre os dedos. — A Sara insistiu e a Maya viu tudo.

Emanuel soltou uma gargalhada profunda, o som vibrando em seu peito largo. Ele pegou Maya no colo, beijando a bochecha da menina.

— É um ritual das mulheres, pequena. Elas fazem isso para ficarem mais... suaves.

— Mas dói, papai! Por que você deixa elas fazerem isso? Você é o chefe! — Maya protestou, indignada.

Emanuel lançou um olhar sombrio e carregado de segundas intenções para Eduarda.

— Às vezes, a dor vale a pena pelo resultado, Maya. Mas não se preocupe, eu vou cuidar muito bem da sua mamãe hoje à noite para compensar o sofrimento.

Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha, sabendo exatamente o que Emanuel queria dizer.

Sara apareceu na porta da cozinha, segurando uma taça de vinho, como sempre.

— E então? Sobreviveu, borboleta? — perguntou Sara para Eduarda. — Ou a Maya teve que chamar o resgate?

— Ela quase chamou a polícia, Sara — respondeu Eduarda, tentando manter a dignidade.

— Eu disse que ela era sensível demais — Sara comentou, dando um gole no vinho e olhando para a filha. — Maya, venha cá. Pare de drama. É apenas um pouco de cera.

— É horroroso, mãe! — Maya rebateu, ainda no colo de Emanuel. — Eu prefiro ser peluda como um urso do que fazer aquilo!

Ágata, que estava por perto, soltou um risinho esnobe.

— Ursos não usam vestidos de seda, Maya. Você é muito cafona.

— Ágata, chega — Emanuel ordenou, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos.

Ele colocou Maya no chão e aproximou-se de Eduarda novamente, sussurrando perto de seu ouvido para que apenas ela ouvisse:

— Então você está toda... macia para mim?

— Emanuel, as crianças... — ela protestou, embora seu corpo respondesse ao toque dele.

— As crianças vão jantar e dormir cedo hoje — ele sentenciou. — Eu aceitei essa sua galeria de arte, Eduarda. Aceitei o Veríssimo babando por você. Mas hoje à noite, eu quero o meu prêmio por ser tão paciente.

Eduarda baixou a cabeça, o coração acelerado. Ela sabia que, apesar das brigas e da convivência forçada com Sara, Emanuel era o sol em torno do qual todos orbitavam.

O jantar foi uma mistura de relatos de Arthur sobre suas "tatuagens de canetinha" e Maya descrevendo detalhadamente para um Arthur impressionado como a cera quente parecia "lava de vulcão". Sara tentava manter a ordem, mas acabava rindo das descrições gráficas da filha, enquanto Ágata revirava os olhos a cada cinco minutos.

— Amanhã é o grande dia — disse Sara, olhando para Eduarda. — O evento na galeria. Emanuel, eu já organizei a segurança. Ninguém chega a menos de dois metros da Eduarda sem passar por um scanner de retina.

— Ótimo — Emanuel aprovou, sério. — E eu vou estar lá. Pessoalmente.

— Você vai? — Eduarda perguntou, surpresa. — Achei que tivesse reuniões.

— Eu cancelei — mentiu ele descaradamente. Na verdade, ele apenas delegou tudo para seus gerentes em Londres. — Não vou deixar você sozinha naquele ninho de cobras.

Eduarda sentiu uma mistura de alívio e sufocamento. O ciúme de Emanuel era sua maior prova de amor e seu maior fardo.

Mais tarde, quando a casa finalmente silenciou e as crianças estavam em seus quartos, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ela estava sentada na frente da penteadeira, passando um creme hidratante.

Ele se aproximou por trás, as mãos grandes repousando nos ombros dela. Seus olhos se encontraram no espelho.

— Maya ficou realmente impressionada hoje — comentou ele, começando a beijar a curva do pescoço dela.

— Ela é sensível, Emanuel. Ela sente a minha dor.

— Eu também sinto — ele murmurou, as mãos descendo para a barra do robe de seda dela. — Mas eu prefiro sentir o seu prazer.

Emanuel a levantou e a levou para a cama com uma urgência que sempre a deixava sem fôlego. Naquela noite, entre carícias e sussurros, o mundo lá fora — a galeria, o Veríssimo, a vulgaridade de Sara e as responsabilidades do império — desapareceu. Havia apenas a pele de seda de Eduarda e a marca indelével que Emanuel deixava em sua alma, muito mais profunda do que qualquer agulha de tatuagem.

No dia seguinte, durante o evento na galeria, Eduarda brilhava. Ela estava impecável em um vestido que revelava apenas o suficiente para deixar Emanuel em estado de alerta constante. Sara estava lá, administrando os contatos e garantindo que a imprensa desse o destaque devido à "nova face da curadoria de arte".

Maya, vestida como uma miniatura de Eduarda, não saía do lado da mãe. Quando o senhor Veríssimo se aproximou para parabenizar Eduarda e tentou segurar sua mão para um beijo galante, Maya interveio rapidamente.

— Não toque nela! — disse a menina, com a autoridade de quem já tinha visto o pior. — A pele dela é muito cara e dói para ficar assim!

O Veríssimo recuou, confuso, enquanto Emanuel, a poucos metros de distância, soltava uma risada vitoriosa por trás de sua taça de champanhe.

— O que ela quis dizer com isso? — perguntou o curador, sem graça.

— Coisas de mulher, Veríssimo — respondeu Emanuel, aproximando-se e colocando o braço possessivamente sobre os ombros de Eduarda. — Coisas que só quem pertence a esta família entende.

Eduarda sorriu para os dois, sentindo-se, pela primeira vez, totalmente no comando de seu próprio destino, mesmo que esse destino estivesse cercado por um tatuador ciumento, uma administradora audaz e uma filha que via tortura em potes de cera. Naquele labirinto de emoções, ela era a seda que unia todos os pontos, a obra de arte mais valiosa da galeria particular de Emanuel.