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O Berço da Inocência e o Grito da Vaidade
Dois anos haviam se passado desde que os corredores da mansão de Emanuel deixaram de ser apenas um santuário de minimalismo e silêncio para se tornarem o palco de uma sinfonia caótica de brinquedos, risadas e o aroma inconfundível de colônia infantil. A mudança de Eduarda, embora ocorrida sob intensas negociações e algumas lágrimas de despedida de seus pais, transformara a dinâmica da casa de forma irreversível.
Emanuel, agora com 27 anos, parecia ter encontrado um equilíbrio precário entre o magnata das tatuagens e o pai de coração. Ele observava, da porta da sala de jantar, a cena que se desenrolava todas as manhãs.
— Mamãe, olha! O desenho da Maya! — A pequena Maya, agora com quase três anos, corria em direção a Eduarda, balançando uma folha de papel cheia de traços coloridos que tentavam imitar o estilo renascentista que ela via a "mãe" estudar.
Eduarda, que florescera em uma beleza ainda mais madura e serena, pegou a menina no colo, cobrindo seu rosto de beijos.
— Que lindo, meu amor! Você usou as cores frias que a mamãe te mostrou? — perguntou Eduarda, com aquela voz manhosa que agora era usada para ninar e educar.
— Sim! É o anjinho do papai — respondeu a menina, aninhando-se no peito de Eduarda como se fosse seu único porto seguro.
No outro lado da mesa, Ágata, a loirinha de olhos astutos, terminava sua salada de frutas com uma postura impecável para sua idade. Ela olhou para a cena com um desdém infantil e se virou para Sara, que estava impecável em um robe de seda carmesim.
— Mamãe Sara, a Maya está sendo pegajosa de novo — comentou Ágata, limpando o canto da boca com um lenço.
Sara soltou uma risada sonora, ajeitando o laço gigante no cabelo da filha.
— Deixa ela, Ágata. Algumas pessoas nasceram para ser sombra, outras nasceram para ser o sol. Nós somos o sol, baby. Tia Duda que lute com esse grude todo.
— Tia Duda, você quer ver minha boneca nova? — Ágata perguntou, mudando o tom para uma polidez calculada que ela sabia que agradava a Eduarda.
— Depois, querida. Agora a tia Duda vai levar a Maya para um passeio — respondeu Eduarda, sorrindo para a menina loira. Ela amava Ágata, mas a conexão visceral que tinha com Maya era algo que nem Sara ousava mais desafiar abertamente.
Emanuel aproximou-se, beijando o topo da cabeça de cada uma das mulheres e das crianças.
— Onde as madames vão hoje? — perguntou ele, a voz rouca de quem já havia passado a manhã em reuniões internacionais por vídeo.
— Dia de beleza, baby — anunciou Sara, levantando-se e pegando sua bolsa de grife. — Vou levar a Ágata para o salão. Ela precisa hidratar esses cachos e eu tenho minha sessão de manutenção na estética.
— Eu também vou levar a Maya — disse Eduarda, um pouco tímida. — Minha esteticista abriu uma vaga e eu realmente preciso... bem, você sabe.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, um sorriso ladino surgindo em seu rosto.
— Entendi. Manutenção geral no império. Só não demorem, temos o jantar com os curadores de Madri hoje à noite.
O salão de estética "L’Éclat" era o ápice do luxo, um lugar onde o cheiro de lavanda e orquídeas tentava esconder o fato de que mulheres pagavam fortunas para serem torturadas em nome da vaidade. Sara entrou no local como se fosse a dona, com Ágata desfilando ao seu lado, segurando uma mini bolsa que combinava com o sapato. Eduarda veio logo atrás, segurando a mão de Maya, que olhava para as paredes de mármore com uma desconfiança silenciosa.
— Ah, boa tarde, Dona Sara! Dona Eduarda! — a recepcionista exclamou, já sabendo que aquele grupo garantia a meta do dia. — As salas de depilação já estão prontas. Conseguimos salas contíguas para que as crianças fiquem perto.
— Ótimo — disse Sara, tirando os óculos escuros. — Ágata, comporte-se. Mamãe vai ficar linda e você pode ficar brincando com o tablet no sofá da sala, ok?
— Sim, mamãe. Eu quero ver o canal de moda — respondeu a pequena loira, sentando-se com a elegância de uma miniatura de socialite.
Na sala ao lado, o clima era diferente. Eduarda colocou Maya em uma poltrona confortável, cercada por seus livros de colorir.
— Maya, a mamãe vai deitar ali naquela maca, tá bom? A moça vai passar um creminho na mamãe. Não precisa se assustar.
— Dói, mamãe? — Maya perguntou, os olhos grandes e expressivos cheios de preocupação.
— Só um pouquinho, meu anjo. É para a mamãe ficar com a pele lisinha.
A esteticista entrou, preparando o termostato com a cera quente. O vapor subia, e o cheiro doce da resina preenchia o ambiente. Eduarda se acomodou, tentando relaxar, enquanto Maya observava cada movimento com a atenção de quem presenciava um ritual sagrado.
Enquanto isso, na sala de Sara, o clima era de pura descontração.
— Pode puxar com vontade, querida — dizia Sara para sua depiladora. — Eu já fiz três plásticas e dez preenchimentos, essa cera de vocês é carinho perto do que eu já aguentei.
Ágata, do sofá, nem levantava os olhos do tablet.
— Mamãe, você está peluda? — perguntou a menina, sem filtro.
— Ágata! Que pergunta vulgar! — Sara riu, achando graça da petulância da filha. — Mamãe é uma deusa, e deusas precisam de manutenção. Aprenda: nunca deixe um homem ver você no processo, apenas o resultado final.
De volta à sala de Eduarda, o drama estava prestes a começar. Eduarda era sensível, e sua pele clara reagia a qualquer estímulo. Quando a esteticista aplicou a primeira camada de cera quente e colocou o papel, Maya se levantou, aproximando-se da maca.
— Mamãe, está quente?
— Só um pouquinho, querida... — Eduarda respirou fundo, fechando os olhos.
— Um... dois... três! — anunciou a esteticista.
*Vlap!*
— Ah! — soltou Eduarda, um gemido abafado, os dedos apertando o lençol da maca. Suas pernas tremeram levemente e seus olhos lacrimejaram de forma automática.
Maya paralisou. Para o coração sensível da menina, aquele som de rasgar e a expressão de dor no rosto de sua "mamãe" só podiam significar uma coisa: tortura.
— MAMÃE! — Maya gritou, as lágrimas jorrando instantaneamente. — Ela machucou você! Moça má! Solta a minha mamãe!
A menina avançou, tentando puxar a mão da esteticista, seus pequenos soluços ecoando pelas paredes acústicas do salão.
— Não, Maya! — Eduarda tentou se levantar, mas estava em uma posição comprometedora. — Meu amor, a mamãe está bem! É só um sustinho!
— Não está bem! Você chorou! — Maya soluçava alto, escondendo o rosto nas pernas de Eduarda, que agora tentava acalmá-la enquanto a esteticista segurava o riso e o papel sujo de cera.
O barulho foi tanto que Sara, na sala ao lado, abriu a porta de conexão, aparecendo apenas de roupão, com Ágata logo atrás.
— Mas que escândalo é esse? Alguém morreu? — perguntou Sara, cruzando os braços.
— A moça está matando a mamãe! — gritou Maya, apontando para a esteticista como se ela fosse uma vilã de desenho animado.
Ágata entrou na sala, olhou para a cera, olhou para o rosto vermelho de Eduarda e depois para a irmã postiça. Ela soltou um suspiro de tédio profundo, idêntico aos de Sara.
— Maya, você é muito bobinha — disse Ágata, caminhando até a maca com uma segurança invejável. — Ela não está morrendo. Ela está ficando bonita. Minha mamãe faz isso todo mês e nunca grita. Você é muito chorona, igual à tia Duda.
— Eu não sou chorona! — rebateu Maya, entre soluços. — A mamãe dói!
— Dói nada — continuou Ágata, voltando-se para a esteticista. — Pode continuar, moça. Mas puxa rápido, senão ela vai continuar fazendo esse drama todo.
Sara caiu na gargalhada, apoiando-se no batente da porta.
— Viu só, Eduarda? Eu te disse que o seu jeito manhoso ia acabar traumatizando a menina. Ela acha que você é feita de açúcar.
Eduarda, finalmente conseguindo se cobrir e pegar Maya no colo, limpou as lágrimas da pequena.
— Não é isso, Sara. Ela só tem empatia, algo que parece faltar em certas pessoas nesta sala.
— Empatia é para quem não tem conta no banco para pagar anestesia — brincou Sara, piscando para Emanuel, que acabara de aparecer na recepção do salão, estranhando a demora.
Emanuel entrou na área restrita, vendo a cena inusitada: Eduarda descabelada e vermelha abraçando uma Maya em prantos, e Sara rindo enquanto Ágata dava lições de moral sobre depilação.
— O que está acontecendo aqui? Eu ouvi os gritos lá da rua — disse Emanuel, a voz firme, mas com um toque de diversão oculta.
— Papai! — Maya pulou para os braços dele. — A moça tirou a pele da mamãe! Com um papel!
Emanuel olhou para Eduarda, que escondia o rosto de vergonha, e depois para a esteticista, que segurava a espátula de cera.
— Tirou a pele, é? — Emanuel sorriu, ninando Maya. — Não, pequena. A mamãe só estava tirando os espinhos para ficar macia como uma flor.
— Viu, Maya? Eu falei — disse Ágata, puxando a calça de Emanuel. — Papai, a mamãe Sara já terminou. Podemos ir comprar meu brinquedo agora? Eu fui muito corajosa e não chorei quando vi a tia Duda sofrendo.
Emanuel olhou para as quatro mulheres de sua vida. Ali estava o resumo de sua existência: a doçura vulnerável de Eduarda e Maya, que exigiam dele uma proteção quase feroz, e a força impiedosa e vaidosa de Sara e Ágata, que o desafiavam a manter o controle.
— Vamos todos embora — decretou Emanuel. — Vou pagar a conta e levar vocês para tomar sorvete. Acho que a Maya precisa de uma dose extra de açúcar para esquecer o "crime" que presenciou.
— Eu quero o sorvete mais caro! — anunciou Ágata, já caminhando para a saída.
— Eu quero um abraço... — sussurrou Maya, ainda soluçando baixo no ombro de Emanuel.
Eduarda aproximou-se dele, ajeitando o vestido, ainda sentindo o ardor da depilação.
— Desculpa pelo mico, Emanuel. Eu não imaginei que ela fosse reagir assim.
— Está tudo bem, Duda — ele sussurrou no ouvido dela, enquanto caminhavam para o carro. — Eu prefiro que ela tenha o seu coração do que a língua da Sara. Mas, da próxima vez... talvez seja melhor deixar a Maya com os seus pais.
— Concordo — disse Eduarda, rindo baixinho. — Acho que ela não está pronta para o mundo da estética.
— Ninguém está pronta para o mundo da Sara, querida — comentou Sara, passando por eles e entrando no banco da frente do SUV de luxo. — Mas não se preocupem, a Ágata e eu estamos aqui para garantir que este império não vire um mar de lágrimas e algodão doce.
Emanuel deu partida no carro. Enquanto as meninas discutiam sobre sabores de sorvete no banco de trás — Ágata exigindo pistache italiano e Maya pedindo morango porque "era a cor do amor" —, ele sentiu uma estranha satisfação. Sua vida era um campo de batalha entre a sensibilidade e a ostentação, entre o "mamãe" e o "tia", entre a cera quente e o sorvete gelado. Mas, no final do dia, todas as estradas levavam de volta para casa, onde o dono de estúdios de tatuagem mais temido do mundo era apenas o mediador de um universo governado por duas bebês e duas mulheres que, de formas opostas, possuíam cada centímetro de sua alma.