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O Sussurro do Véu na Vidraça
A noite em São Paulo havia se transformado em um cenário digno dos livros de história da arte que Eduarda tanto amava. A tempestade que começara à tarde não deu trégua; pelo contrário, evoluíra para uma cortina de chuva torrencial que isolava o arranha-céu de Emanuel do resto do mundo. Lá fora, os relâmpagos iluminavam os prédios vizinhos como flashes fotográficos gigantes, revelando por milésimos de segundo as gárgulas de concreto e as antenas metálicas da metrópole.
Dentro do apartamento, o clima era de uma calmaria enganosa. Emanuel havia finalmente conseguido convencer Eduarda a tomar um banho quente e trocar o vestido de linho molhado por um de seus moletons grandes e confortáveis. Sara, após três doses de gim, parecia ter relaxado, embora ainda lançasse olhares de soslaio para a bolsa de Eduarda, como se esperasse que uma mão esquelética saísse de lá a qualquer momento.
— Eu juro, Emanuel, se eu encontrar uma pétala de flor de defunto no meu tapete persa, eu vou ter um surto — reclamou Sara, ajeitando-se no sofá italiano com um tablet nas mãos, tentando focar nos relatórios de faturamento da unidade de Tóquio.
— Deixa ela em paz, Sara — murmurou Emanuel, exausto. Ele estava sentado em sua poltrona de couro, limpando o kit de agulhas que trouxera do estúdio. — Ela já entendeu que não pode sair por aí sem avisar. Não precisamos de mais drama por hoje.
Eduarda apareceu no corredor, esfregando os olhos, com os cabelos castanhos ainda úmidos e um aroma doce de baunilha substituindo o cheiro de terra. Ela caminhou até Emanuel e sentou-se no chão, apoiando a cabeça no joelho dele, agindo com aquela manha característica que sempre desarmava os instintos mais rígidos do tatuador.
— O barulho da chuva está tão forte... — sussurrou ela, buscando a mão de Emanuel para que ele fizesse carinho em seu cabelo. — Parece que o céu está tentando contar um segredo.
Sara revirou os olhos tão forte que quase sentiu uma pontada na nuca.
— O "segredo" chama-se frente fria e descaso da prefeitura com a drenagem urbana, Duda. Menos poesia e mais realidade, por favor.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som rítmico da chuva contra as enormes vidraças da sala, que iam do chão ao teto. Emanuel começou a relaxar, sentindo o peso de Eduarda contra sua perna e a presença vibrante de Sara ao fundo. Era o equilíbrio que ele buscava, mesmo que fosse um equilíbrio sustentado por fios de seda.
De repente, um relâmpago mais forte que os outros rasgou o céu, iluminando a sala com uma luz azulada e fria. Sara, que estava de frente para a janela, congelou. O tablet escorregou de suas mãos, caindo sobre o tapete com um baque surdo. Suas pupilas se dilataram e a cor sumiu de seu rosto, deixando a maquiagem impecável em um contraste bizarro com a palidez súbita.
— Meu Deus... — a voz de Sara saiu como um sopro, rouca e carregada de um terror que Emanuel nunca tinha visto nela.
— O que foi, Sara? — Emanuel perguntou, franzindo a testa e já se levantando, sentindo o alerta de perigo disparar em sua mente.
Sara não respondeu de imediato. Ela levantou um dedo trêmulo, apontando para a vidraça do quadragésimo andar. Seus lábios tremiam e ela começou a arfar, como se o ar tivesse se tornado sólido em seus pulmões.
— Ali... — ela engasgou, as lágrimas começando a inundar seus olhos. — Emanuel, tem uma mulher... lá fora. De branco. Com um véu... ela está olhando para mim!
Emanuel olhou para a janela. Tudo o que via eram os reflexos das luzes do apartamento e a água escorrendo violentamente pelo vidro.
— Sara, não tem ninguém lá fora. Estamos no quadragésimo andar, pelo amor de Deus! É o reflexo da luz ou o vento nas nuvens.
— NÃO! — Sara gritou, levantando-se de um salto e tropeçando nos próprios pés enquanto recuava para o canto oposto da sala. — Eu vi! Ela tinha o rosto cinza e o véu balançava mesmo com a chuva! Ela encostou a mão no vidro! Ela quer entrar, Emanuel! Ela veio com a Eduarda!
O pânico de Sara era genuíno. Ela começou a hiperventilar, as mãos agarrando o próprio cabelo loiro, as unhas perfeitas cravando-se no couro cabeludo. O choro explodiu de forma vulgar e desesperada, longe da elegância que ela costumava ostentar.
— Tira ela daqui! — soluçou Sara, caindo de joelhos. — Emanuel, faz ela ir embora! Eu não quero morrer, eu não quero que essa coisa me leve!
Emanuel correu até Sara, esquecendo-se de tudo o mais. Ele a envolveu em seus braços fortes, tentando conter os tremores violentos que sacudiam o corpo da namorada.
— Calma, Sara! Olha para mim, respira. Não tem nada lá. Eu estou aqui, ninguém vai te tocar. Foi uma ilusão de ótica por causa do raio, eu prometo.
Enquanto Emanuel tentava acalmar a crise histérica de Sara, Eduarda, que até então estava em silêncio, levantou-se lentamente. Seus olhos castanhos não mostravam medo; mostravam uma fascinação profunda, quase hipnótica. Ela caminhou em direção à janela, atraída pela possibilidade de que a lenda que ela tanto pesquisara tivesse decidido se manifestar ali, no santuário de Emanuel.
— Duda, saia de perto da janela! — ordenou Emanuel, a voz carregada de estresse enquanto tentava segurar Sara, que agora chorava convulsivamente em seu peito.
Eduarda não obedeceu imediatamente. Ela encostou a palma da mão no vidro frio, exatamente onde Sara indicara. Ela queria ver. Ela precisava ver. Em sua mente, a Noiva de Paranapiacaba ou qualquer outra entidade de luto não era um monstro, mas uma irmã de melancolia.
— Ela ainda está aí, Sara? — perguntou Eduarda em um sussurro, sua voz calma contrastando terrivelmente com os gritos da outra. — Como era o véu? Era de renda antiga?
— VOCÊ É DOENTE! — gritou Sara entre os soluços, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel. — Você trouxe essa maldição para cá! Emanuel, manda ela parar! Ela está chamando a coisa!
Emanuel sentiu a pressão aumentar. Ele amava a sensibilidade de Eduarda, mas naquele momento, a falta de noção da moça estava piorando a situação de Sara, que claramente estava tendo um colapso nervoso provocado pelo estresse acumulado e pelo susto.
— Eduarda, agora! — a voz de Emanuel ecoou como um trovão dentro da sala. — Saia da janela e vá para o quarto. Agora mesmo!
Eduarda se sobressaltou, a autoridade dele finalmente rompendo seu transe. Ela olhou para trás e viu a cena: Sara, a mulher que sempre parecia inabalável e superior, reduzida a uma massa de choro e terror nos braços do homem que ambas amavam. Pela primeira vez, Eduarda sentiu uma pontada de empatia genuína misturada à sua curiosidade mórbida. Ela viu que o medo de Sara era real, tão real quanto sua própria fascinação.
— Desculpa, Manu... desculpa, Sara — murmurou Eduarda, afastando-se da vidraça. Ela se aproximou dos dois, ajoelhando-se ao lado deles. — Eu não queria... eu só queria entender. Sara, não tem nada lá agora. A chuva limpou tudo.
Sara soltou um gemido abafado, recusando-se a olhar. Emanuel suspirou, sentindo o coração de Sara martelar contra suas costelas.
— Duda, pegue uma toalha e um copo de água com açúcar — pediu Emanuel, o tom agora mais brando, mas ainda firme. — Sara, meu amor, levanta. Vamos para o quarto. Você precisa deitar.
Com muito esforço, Emanuel levantou Sara. Ela estava mole, as pernas falhando, a máscara de confiança totalmente destruída. Ele a carregou para o quarto principal, deitando-a na cama de lençóis de fios egípcios que ela tanto gostava. Eduarda apareceu logo depois, trazendo a água e uma toalha macia.
— Eu posso ajudar a limpar o rosto dela? — perguntou Eduarda timidamente, estendendo a toalha.
Emanuel olhou para as duas. Sara estava com os olhos fechados, respirando com dificuldade, ainda soluçando baixinho. Eduarda estava ali, com aquela expressão doce e culpada, tentando ser útil após ter causado, indiretamente, o caos.
— Pode — permitiu Emanuel.
Eduarda aproximou-se da cama com movimentos leves. Ela molhou a ponta da toalha e começou a limpar os borrões de rímel e base do rosto de Sara. Era uma cena estranha: a namorada "vulgar" e poderosa sendo cuidada pela namorada "tímida" e estranha, sob o olhar atento e cansado do homem que era o eixo daquele triângulo.
— Ela tinha olhos tristes? — Sara perguntou de repente, a voz fraca, sem abrir os olhos.
Eduarda parou o movimento da mão por um segundo.
— Eu não consegui ver, Sara. Quando eu cheguei perto, só vi a chuva. Mas se você viu... talvez ela só estivesse curiosa. Você é muito bonita, as pessoas — vivas ou não — tendem a olhar para você.
Sara deu um risinho fraco, que logo se transformou em um novo soluço.
— Você é muito estranha, Eduarda. Muito estranha.
— Eu sei — respondeu a mais nova, com um sorriso triste. — Mas eu prometo que não vou deixar nada te machucar. O Manu não deixa.
Emanuel sentou-se na beira da cama, pegando a mão de Sara com uma das mãos e colocando a outra sobre o ombro de Eduarda.
— Eu vou ficar aqui com vocês — disse ele, a voz grave trazendo uma estabilidade que o ambiente precisava desesperadamente. — Ninguém vai a lugar nenhum. E amanhã, Eduarda, nós vamos doar esses livros e essas flores para uma biblioteca ou algo assim. Chega de pesquisa de campo por um tempo.
— Tudo bem, Manu — concordou Eduarda, aceitando a derrota. Ela se inclinou e beijou a testa de Sara, um gesto de paz que surpreendeu até a si mesma. — Durma, Sara. A noiva já foi embora. Ela só queria ver como era uma casa cheia de vida.
Sara finalmente abriu os olhos, olhando para Eduarda e depois para Emanuel. O terror ainda estava lá, no fundo das pupilas, mas a presença física dos dois começava a ancorá-la novamente na realidade.
— Emanuel... — Sara chamou, a voz manhosa, mas de um jeito diferente do de Eduarda; era uma manha de quem precisava de proteção real. — Não apaga a luz. Por favor.
— Não vou apagar — prometeu ele.
A noite continuou, longa e ruidosa lá fora. Dentro do quarto, o silêncio era preenchido apenas pela respiração das duas mulheres que, exaustas por motivos diferentes, acabaram pegando no sono. Sara dormia agarrada ao braço de Emanuel, enquanto Eduarda se encolhera do outro lado, com a mão tocando o pé dele, mantendo o contato físico que era sua âncora.
Emanuel permaneceu acordado por muito tempo, observando as sombras que a luz do abajur projetava nas paredes. Ele pensou na "noiva" que Sara vira. Teria sido um reflexo? Uma alucinação causada pelo cansaço? Ou será que o mundo de Eduarda estava realmente começando a transbordar para a realidade deles?
Ele olhou para a janela do quarto, onde as cortinas pesadas agora estavam fechadas. Por um breve momento, ele sentiu um calafrio percorrer sua espinha, uma sensação de que algo, ou alguém, ainda observava seu pequeno e complicado paraíso do lado de fora. Mas então, ele sentiu o calor de Sara e a leveza de Eduarda, e o medo foi substituído pelo peso da responsabilidade.
Ele era o protetor delas. O homem que lidava com a dor através das agulhas e que tentava curar as feridas invisíveis de duas almas tão opostas. Se houvesse fantasmas lá fora, eles teriam que passar por ele primeiro.
— Amanhã será melhor — sussurrou ele para o quarto vazio, embora soubesse que, em sua vida, a normalidade era um conceito que nunca chegaria a se concretizar.
E enquanto ele finalmente fechava os olhos, a chuva em São Paulo começava a diminuir, deixando para trás apenas o rastro úmido nas vidraças e a memória de um véu branco que, por um instante, uniu o terror e a beleza no mesmo plano de existência. Emanuel dormiu, segurando firme as mãos das duas mulheres, pronto para enfrentar qualquer assombração, fosse ela feita de névoa ou de sentimentos não resolvidos.