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O Lago das Almas Esquecidas
O silêncio no apartamento de Emanuel era uma mercadoria rara, mas naquela tarde de terça-feira, o ambiente estava carregado de um tipo diferente de quietude: uma melancolia rítmica. O som de música clássica — especificamente o ato das Wilis de *Giselle* — flutuava pelos corredores, misturando-se ao cheiro de incenso de jasmim que Eduarda insistia em acender.
Emanuel jogou as chaves sobre o aparador de mármore, sentindo cada um de seus vinte e cinco anos pesarem como um século. Ele acabara de voltar de uma sessão de dez horas tatuando um fechamento de costas complexo e tudo o que queria era um banho e o silêncio que a arquitetura moderna de seu prédio prometia. Em vez disso, encontrou a sala na penumbra.
No centro do tapete, Eduarda girava. Ela não usava sapatilhas de ponta, apenas meias brancas, um vestido de tule claro e um olhar que parecia estar focado em algo a quilômetros dali. Seus movimentos eram lentos, quase etéreos, imitando a fragilidade das bailarinas que morrem de amor antes do casamento e retornam como espíritos vingativos.
— Eduarda, por favor, me diga que você não trocou as noivas de cemitério por dançarinas fantasmas — murmurou Emanuel, massageando as têmporas enquanto deixava sua jaqueta de couro cair no sofá.
Eduarda parou o movimento no meio de um *arabesque* desajeitado, mas gracioso. Ela correu até ele com passos miúdos, jogando-se em seus braços com aquela manha que Emanuel conhecia tão bem. O corpo dela era leve, quase sem peso, contrastando com a solidez bruta dele.
— Manu, você chegou! — Ela escondeu o rosto no pescoço dele, aspirando o cheiro de tinta e sabão antisséptico. — Você não entende... as Wilis são fascinantes. Elas são a personificação do luto estético. Elas dançam até que os homens morram de exaustão. Não é a coisa mais triste e linda que você já ouviu?
— É a coisa mais mórbida e preocupante que eu já ouvi esta semana — Emanuel respondeu, tentando não ceder totalmente ao abraço, embora suas mãos já estivessem acariciando as costas dela por puro instinto protetor. — Onde está a Sara?
— No escritório, gritando com alguém de Londres sobre as taxas de importação de pigmentos — Eduarda sussurrou, fazendo um biquinho. — Ela disse que minha música parece trilha sonora de enterro de luxo. Ela não tem sensibilidade, Manu.
— Ela tem razão, Emanuel! — A voz de Sara ecoou antes mesmo de ela aparecer.
Sara surgiu no corredor como um furacão loiro. Usava um conjunto de alfaiataria rosa choque que realçava cada curva de seu corpo siliconado e uma maquiagem tão impecável que parecia blindada. Ela segurava um iPad em uma mão e um copo de café gelado na outra.
— Se eu ouvir esse piano mais uma vez, eu juro que vou jogar o sistema de som pela varanda! — Sara parou diante deles, bufando. — Emanuel, dê um jeito na sua namorada gótica. Ela passou o dia assistindo vídeos de bailarinas russas que morreram de tuberculose e tentando me convencer de que o "branco espectral" é a nova tendência para o verão.
— É pesquisa acadêmica, Sara! — Eduarda rebateu, soltando-se de Emanuel apenas para se encolher no sofá, abraçando os próprios joelhos. — Eu estou escrevendo sobre a representação da morte no balé romântico.
— Você está ficando obcecada, Duda — Emanuel disse, sua voz ganhando aquele tom rígido que ele usava quando o estresse começava a transbordar. — Primeiro foram as noivas de Paranapiacaba, agora são essas bailarinas fantasmas. Eu quero que você more comigo para a gente ter uma vida normal, não para transformar meu apartamento em um mausoléu com trilha sonora de Tchaikovsky.
Eduarda olhou para ele com os olhos castanhos marejados, a expressão de uma criança injustiçada.
— Você prometeu que ia me apoiar... — ela disse, a voz trêmula. — Eu sou sensível, Manu. Eu vejo beleza onde vocês só veem medo. Eu sinto que as Wilis estão tentando me dizer algo sobre a fragilidade da vida.
— A única coisa que elas estão te dizendo é que você precisa de um banho de sol e de menos História da Arte por uns dias — Sara interveio, sentando-se no braço do sofá e cruzando as pernas torneadas. — Emanuel, as meninas da administração estão perguntando se vamos àquela festa na marina no sábado. Eu já confirmei. E a Duda vai também, nem que eu tenha que arrastá-la e pintar aquele rosto pálido com um pouco de blush.
— Eu não vou para a marina — Eduarda murmurou, manhosa. — O reflexo da lua na água vai me lembrar do lago onde a rainha das Wilis convoca os mortos.
Emanuel soltou um suspiro pesado, um som que misturava exaustão e uma irritação crescente. Ele amava as duas com uma intensidade que muitas vezes o assustava, mas o equilíbrio era como caminhar sobre lâminas. De um lado, a vulgaridade vibrante e o pragmatismo de Sara, que o mantinha conectado ao mundo real e ao sucesso de seus estúdios; do outro, a delicadeza quase doentia de Eduarda, que o obrigava a ser o porto seguro, o protetor, o homem que impedia que ela se dissolvesse em suas próprias fantasias.
— Chega — Emanuel decretou, sua voz autoritária cortando o ambiente. — Eduarda, desligue essa música. Agora. Sara, pare de provocá-la. Eu vou tomar um banho. Quando eu sair, quero que este lugar pareça uma casa, não um set de filmagem de terror psicológico.
Ele caminhou em direção ao quarto, mas parou ao sentir a mão pequena de Eduarda segurando a barra de sua camiseta.
— Manu... você está bravo comigo? — Ela perguntou com a voz bem baixinha, olhando para cima com uma vulnerabilidade que sempre o desarmava.
Emanuel fechou os olhos por um segundo. Ele se virou, pegou o rosto dela entre as mãos e deu um beijo firme em sua testa.
— Eu não estou bravo, pequena. Eu estou cansado. Eu me preocupo com você. Esse seu mergulho nessas coisas... parece que você está tentando ir para um lugar onde eu não posso te buscar.
— Eu nunca vou para onde você não possa ir — ela prometeu, aninhando-se na palma da mão dele.
— Ótimo — disse Sara, levantando-se e ajeitando o decote. — Porque o lugar para onde você vai agora é para o banho. Emanuel, eu vou pedir comida japonesa. E nada de música de defunto durante o jantar, ou eu vou colocar funk no volume máximo para espantar os espíritos.
O jantar foi uma coreografia tensa. Sara falava sobre a nova máquina de tatuagem rotativa que estava chegando da Alemanha e sobre como a logística de Tóquio estava dando dor de cabeça. Emanuel ouvia, dando opiniões curtas e precisas, enquanto seus olhos não saíam de Eduarda. A morena mal tocava no seu *temaki*, desenhando círculos invisíveis na mesa com o dedo, perdida em pensamentos.
— O que foi agora, Duda? — Emanuel perguntou, deixando os *hashis* de lado.
— Eu li que as Wilis dançam com os homens até o coração deles parar — ela disse, os olhos brilhando com uma luz febril. — É o sacrifício máximo pelo amor traído. Manu... se eu morresse, você dançaria comigo na neblina?
Sara quase engasgou com o saquê.
— Pelo amor de Deus, Emanuel! Dá um calmante para essa menina ou interna! Que conversa é essa na hora do jantar?
— Eduarda, pare com isso — Emanuel disse, a irritação finalmente vencendo a paciência. — Você está passando dos limites. Isso não é romântico, é mórbido. Eu não quero dançar com seu fantasma, eu quero viver com você aqui, no mundo real. Eu quero que você traga suas roupas, seus livros de arte que não falem de gente morta, e more comigo de uma vez. Eu estou farto de você fugir para a casa dos seus pais ou para esses seus mundos imaginários toda vez que as coisas ficam intensas.
Eduarda encolheu-se, as lágrimas agora rolando livremente.
— Você não entende meu processo... você é tão racional, tão duro...
— Eu sou o homem que paga as contas e garante que você tenha um teto para pesquisar suas "bailarinas" — Emanuel rebateu, levantando-se da mesa. — Eu cansei por hoje. Sara, cuide dela. Se ela começar com esse papo de novo, apague as luzes e mande ela dormir.
Emanuel caminhou para a varanda, precisando do ar da noite para esfriar a cabeça. Ele olhou para as luzes de São Paulo, sentindo-se um gigante tentando segurar duas borboletas de espécies diferentes: uma de metal e outra de vidro.
Minutos depois, ele sentiu a presença de Sara ao seu lado. Ela se encostou no parapeito, o perfume caro e forte lutando contra o cheiro da poluição.
— Ela é um trabalho árduo, não é? — Sara perguntou, sem o tom de deboche de antes.
— Às vezes eu acho que não tenho forças para as duas, Sara — Emanuel admitiu, olhando para o horizonte. — Você me puxa para um lado, ela me puxa para o outro. Eu sinto que vou rachar ao meio.
Sara deu um sorriso de canto, passando a mão pelo braço tatuado dele.
— Você não vai rachar. Você gosta disso. Você precisa da minha competência e do meu corpo para se sentir poderoso, e precisa da fragilidade dela para se sentir necessário. Nós somos o seu equilíbrio, Emanuel. O problema é que a Duda está se perdendo na própria cabeça. Ela é sensível demais para esse mundo.
— Eu sei. E isso me assusta.
— Deixa comigo — Sara disse, dando um tapinha no ombro dele. — Eu vou dar um jeito de trazer ela de volta. Ela só precisa de um pouco de choque de realidade. E de um par de sapatos novos. Compras sempre ajudam a aterrar uma mulher.
Emanuel riu, uma risada seca e sem humor.
— Você acha que resolve tudo com compras e administração, Sara.
— E você acha que resolve tudo com proteção e controle. No final, estamos todos tentando a mesma coisa.
Sara voltou para dentro, e Emanuel ficou mais um tempo sozinho. Quando ele finalmente entrou, encontrou a sala em silêncio. A música parara. Ele foi até o quarto de hóspedes, onde Eduarda costumava se refugiar quando estava "magoada".
Ela estava deitada na cama, encolhida em posição fetal, segurando um pequeno livro de ilustrações de balé. Emanuel sentou-se na beira da cama e ela imediatamente se arrastou para perto dele, colocando a cabeça em seu colo.
— Desculpa, Manu... — ela soluçou, a voz abafada. — Eu não quero te irritar. Eu só... eu sinto as coisas com muita força. O mundo parece tão bruto às vezes. As Wilis... elas são tão leves. Eu queria ser leve assim.
— Você já é leve, pequena — Emanuel sussurrou, passando os dedos pelos cabelos dela. — Mas você é real. E eu preciso que você continue real. Promete para mim que vai parar com essa obsessão? Vamos focar em outra coisa. O Renascimento? Você gostava do Renascimento. É tudo sobre luz e vida.
— Eu vou tentar — ela prometeu, fechando os olhos sob o toque dele. — Mas você vai me levar para ver o balé no Municipal? Vai estrear *Giselle* no mês que vem.
Emanuel suspirou, derrotado pela doçura dela.
— Eu levo. Mas com uma condição: a Sara vai junto. E depois do balé, nós vamos jantar em um lugar barulhento, com muita gente viva e muita comida de verdade. Nada de neblina, nada de lagos fantasmas.
— Combinado — Eduarda sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso.
Emanuel a pegou no colo e a levou para o quarto principal. Sara já estava deitada, lendo algo no iPad, mas abriu espaço na cama king-size com um suspiro dramático.
— A bailarina fantasma vai dormir com a gente? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Vai — disse Emanuel, colocando Eduarda no meio da cama. — E ela prometeu que vai parar de tentar morrer de amor por uns tempos.
— Ótimo — Sara disse, fechando o iPad e apagando a luz do seu lado. — Porque se ela morrer, eu vou lá no inferno buscar ela de volta só para ela terminar de organizar as notas fiscais do estúdio de Berlim.
Eduarda riu baixinho, aninhando-se entre os dois. Emanuel sentiu o calor de Sara de um lado e a suavidade de Eduarda do outro. Ele estava exausto, irritado e sob um estresse constante que faria qualquer outro homem fugir. Mas ali, naquele casulo de luxo e contradições, ele sabia que não pertenceria a nenhum outro lugar.
— Boa noite, Manu — Eduarda sussurrou.
— Boa noite, Emanuel — disse Sara, já com a voz pesada de sono.
— Boa noite — ele respondeu, fechando os olhos.
Por um momento, antes de adormecer, ele imaginou uma bailarina de branco dançando na ponta dos pés sobre a linha fina que separava a sanidade do caos. Mas então, ele sentiu o aperto da mão de Sara na sua e o peso da cabeça de Eduarda em seu peito, e a bailarina desapareceu, deixando apenas a realidade de um homem que amava demais duas mulheres que jamais poderiam ser compreendidas pelo resto do mundo.
O silêncio finalmente era real. Pelo menos até a manhã seguinte, quando Sara acordaria com o rugido dos negócios e Eduarda com o sussurro de uma nova obsessão artística. Mas Emanuel estaria lá, como sempre, segurando as rédeas de seu próprio e peculiar destino.