D
O Labirinto de Espelhos e o Medo em Cores Primárias
O ar na galeria de arte alternativa, escondida em um porão reformado no centro de São Paulo, era denso, carregado com o cheiro de incenso de ópio e tinta fresca. Eduarda sentia-se em casa. Ela havia sido atraída até ali por um convite anônimo em um fórum de "Estética do Luto e Feminilidade Espectral". Enquanto Emanuel estava mergulhado em desenhos para sua nova convenção e Sara estava fora com seu esquadrão de amigas, Eduarda buscava algo que fizesse sua alma vibrar em uma frequência mais baixa.
Foi ali, diante de uma instalação composta por véus de noiva rasgados e pendurados no teto, que ela a encontrou. A mulher parecia ter saído de um dos quadros pré-rafaelitas que Eduarda tanto estudava. Tinha cabelos ruivos acobreados que chegavam à cintura, uma pele tão pálida que parecia translúcida e usava uma camisola vitoriana sob um casaco de veludo preto.
— Você também consegue ouvir o grito delas? — a mulher perguntou, sem tirar os olhos dos véus. A voz era um sussurro rouco, como se não fosse usada há anos.
Eduarda estremeceu, sentindo um fascínio imediato.
— Eu sinto a tristeza. A beleza da interrupção.
A mulher se virou. Seus olhos eram de um verde febril, quase sobrenatural.
— Meu nome é Beatriz. Eu estudo as assombrações hiperfemininas. As mulheres que foram tão intensas em vida que o mundo não conseguiu contê-las, então elas retornaram como névoa, como sangue, como flores que nunca murcham.
Eduarda sentiu que havia encontrado uma alma gêmea, mas uma que operava em um nível de obsessão que fazia a sua própria parecer amadora. Beatriz começou a falar sobre a "Dama de Branco da Augusta" e sobre espíritos de cortesãs que assombravam os antigos casarões, não para assustar, mas para exigir a adoração que lhes foi negada.
— Elas não são monstros, Eduarda — Beatriz disse, pegando a mão da jovem com dedos que estavam gelados como gelo. — Elas são a forma final da estética feminina. O sofrimento transformado em mito. Venha, eu tenho um acervo em casa... registros fotográficos de aparições em conventos desativados.
Eduarda, movida pela sua natureza curiosa e pela busca constante por algo que validasse sua própria melancolia, deixou-se levar. Ela desligou o celular, querendo silenciar o mundo racional de Emanuel e as críticas ácidas de Sara. Por algumas horas, ela queria apenas ser uma sombra entre sombras.
***
Enquanto isso, a quilômetros dali, em uma marina luxuosa no litoral, o cenário era o oposto absoluto. O som era o de batidas eletrônicas de alto nível, o cheiro era de perfume importado e maresia, e as luzes eram neon, não velas.
Sara estava em seu elemento. Ou deveria estar. Ela usava um biquíni de pedraria sob uma saída de praia transparente que deixava claro o porquê de ela ser a rainha de qualquer ambiente. Suas amigas, todas loiras, bronzeadas e com risadas altas, brindavam com champanhe caro no convés de um iate fretado.
— Amiga, você está muito tensa! — gritou Vanessa, uma das amigas de Sara, tentando ser ouvida acima da música. — Esquece o Emanuel e aquela esquisita por uma noite!
— Eu não estou tensa, estou entediada — mentiu Sara, tomando um gole generoso de sua bebida. A verdade era que, sem Emanuel por perto para ela provocar e sem Eduarda para ela criticar, Sara sentia-se estranhamente sem rumo.
A festa na marina era temática: "Carnaval Fora de Época e Mistério". No início, Sara achou a ideia de máscaras e fantasias sofisticada. Mas, conforme a noite avançava e a bebida fluía, o "mistério" começou a tomar um rumo que fez seu estômago revirar.
Um grupo de convidados chegou em um barco menor, todos vestidos com fantasias de palhaço. Mas não eram palhaços engraçados ou de circo tradicional; eram versões distorcidas, com rostos pintados de branco, sorrisos vermelhos exagerados que subiam até as orelhas e perucas coloridas desgrenhadas. Alguns carregavam balões que estouravam com sons que pareciam tiros.
Sara paralisou. O copo de cristal tremeu em sua mão. Poucas pessoas sabiam, mas a mulher que enfrentava burocratas internacionais e modelos arrogantes tinha um medo paralisante, quase infantil, de palhaços. Coulrofobia. Para ela, aquelas pinturas faciais escondiam intenções malignas e os sorrisos fixos eram máscaras de predadores.
— Sara? O que foi? — perguntou Vanessa, percebendo a palidez súbita da amiga.
— Tira eles daqui — sussurrou Sara, recuando para a cabine do iate. — Vanessa, manda eles saírem!
Mas ninguém ouvia. Os "palhaços" subiram no iate principal, saltando e rindo de forma estridente. Um deles, com uma peruca azul elétrica e um nariz vermelho brilhante, percebeu o desconforto de Sara e, em uma tentativa idiota de ser engraçado, começou a segui-la, fazendo barulhos de buzina e tentando entregar-lhe um balão em forma de animal.
— Sai de perto de mim! — Sara gritou, a voz falhando. Ela tropeçou nos próprios degraus da cabine, sentindo as lágrimas de puro pânico borrarem sua maquiagem cara.
Ela se trancou no banheiro de luxo do iate, o coração batendo tão forte que ela achou que ia desmaiar. O som das buzinas lá fora e as risadas distorcidas pareciam estar vindo de todos os lados. Tremendo, ela pegou o celular e discou o único número que representava segurança absoluta em seu mundo.
***
No estúdio, Emanuel estava terminando de limpar suas máquinas. O silêncio era profundo, apenas o som da chuva fina batendo nas janelas. Ele estava preocupado. Eduarda não atendia o celular há três horas e seus pais disseram que ela não havia voltado para casa. Ele estava prestes a sair para procurá-la quando o celular tocou.
Era Sara. Ele atendeu imediatamente, esperando alguma reclamação sobre o champanhe estar quente.
— Emanuel... — A voz dela veio em um soluço desesperado, algo que ele nunca tinha ouvido. — Emanuel, por favor... vem me buscar. Agora.
— Sara? O que aconteceu? Você foi assaltada? Alguém te tocou? — A voz dele subiu uma oitava, a fúria protetora já nublando sua visão.
— Palhaços... — ela soluçou, e ele pôde ouvir o som de algo batendo na porta do banheiro onde ela estava escondida. — Tem palhaços em todo lugar, Manu. Eu não consigo sair. Eu estou com medo, eu não consigo respirar... por favor, vem me buscar!
Emanuel fechou os olhos por um segundo, processando a informação. Ele sabia do trauma de Sara. Para qualquer outra pessoa, pareceria frescura, mas ele conhecia o pânico real por trás daquela fachada de silicone e arrogância.
— Onde você está? Na marina principal? — Ele já estava pegando a jaqueta e as chaves do carro.
— No iate "Golden Queen". Por favor, corre...
— Eu estou chegando, Sara. Fica no telefone comigo. Não desliga. Se algum desses idiotas chegar perto de você, eu juro que vou fazer eles engolirem essas buzinas.
Ele saiu do estúdio como um furacão. Enquanto dirigia em alta velocidade pela estrada que levava ao litoral, ele tentava ligar para Eduarda simultaneamente, sem sucesso. A irritação fervia em seu sangue. Uma estava desaparecida em algum porão místico e a outra estava tendo um colapso nervoso em um barco cercada de imbecis fantasiados.
— Eu vou trancar as duas em casa e jogar a chave no Tietê — rosnou ele para o volante.
***
Quando Emanuel chegou à marina, ele não parecia um empresário ou um namorado preocupado; ele parecia um carrasco. A jaqueta de couro aberta revelava as tatuagens no peito, e seu olhar era de puro gelo. Ele caminhou pelo píer, ignorando os seguranças que tentavam pedir seu convite.
— Onde está o iate "Golden Queen"? — ele perguntou a um funcionário, segurando-o pelo colarinho com uma mão só.
— Ali, senhor... no final do píer C.
Emanuel correu. Ao subir no iate, a música ainda estava alta. Ele viu o grupo de palhaços bebendo e brincando perto da entrada da cabine. Um deles, o da peruca azul, bloqueava a porta do banheiro, rindo com os amigos sobre "a loira gostosa que se trancou".
Emanuel não disse uma palavra. Ele simplesmente caminhou até o homem, agarrou-o pela nuca e o jogou contra a parede da cabine com uma força brutal.
— Acabou a palhaçada — disse Emanuel, a voz baixa e letal. — Sumam daqui. Agora. Antes que eu decida que o rosto de vocês precisa de uma pigmentação permanente de hematomas.
Os homens, percebendo que não estavam lidando com um convidado bêbado, mas com alguém que realmente sabia como causar dor, recuaram e saíram do barco rapidamente. Emanuel bateu na porta do banheiro.
— Sara. Sou eu. Abre a porta.
A porta se abriu instantaneamente e Sara se jogou nos braços dele, soluçando de forma vulgar e descontrolada, sujando a jaqueta de Emanuel de rímel e base. Ela tremia tanto que mal conseguia ficar de pé.
— Eles foram embora? — ela perguntou, escondendo o rosto no peito dele.
— Foram. Eu estou aqui — ele disse, envolvendo-a com os braços, sentindo a fragilidade dela sob a seda da saída de praia. — Vamos embora desse lugar.
Ele a carregou para fora do iate, ignorando os olhares das amigas de Sara. Ele a colocou no carro, ligou o aquecedor e deu a ela sua própria jaqueta.
— Bebe um pouco de água, Sara. Respira.
— Obrigada, Manu... — ela murmurou, tentando se recompor, mas ainda segurando a mão dele como se sua vida dependesse disso. — Eu me senti tão idiota... mas eu não conseguia me mexer.
— Você não é idiota. Só está cercada de gente estúpida — ele disse, mas seu tom mudou quando ele olhou para o visor do celular. — Agora, você vai ter que me ajudar. A Eduarda sumiu.
***
A "ajuda" de Sara veio na forma de contatos. Mesmo trêmula, ela usou sua rede de influenciadores e contatos de administração para rastrear o sinal do celular de Eduarda, que havia sido ligado por um breve momento.
— Ela está em um casarão antigo em Santa Cecília — disse Sara, limpando o rosto com um lenço umedecido. — Pertence a uma tal de Beatriz Vane. Emanuel, eu conheço esse nome. É uma herdeira maluca que gasta a fortuna em rituais góticos e exposições de arte macabra.
Emanuel não esperou. Ele dirigiu de volta para São Paulo, o silêncio no carro sendo quebrado apenas pelas instruções de GPS de Sara. Quando chegaram ao casarão, a fachada estava coberta de hera seca e as janelas eram altas e escuras.
Emanuel não bateu. Ele empurrou o portão de ferro e entrou. Sara o seguiu, segurando um spray de pimenta na mão, pronta para enfrentar qualquer "fantasma" que aparecesse.
No salão principal, iluminado apenas por velas negras, Eduarda estava sentada no chão, rodeada por fotos antigas de mulheres em leitos de morte. Beatriz estava atrás dela, escovando o cabelo de Eduarda com uma escova de prata, murmurando sobre como Eduarda tinha "a aura perfeita para uma aparição".
— Eduarda! — O grito de Emanuel ecoou pelo casarão, derrubando a atmosfera mística como um martelo quebra um vidro.
Eduarda despertou de seu transe. Ela olhou para Emanuel e depois para Sara, que estava parada atrás dele com uma expressão de puro asco.
— Manu? O que vocês estão fazendo aqui? — Eduarda perguntou, a voz sonhadora.
— Tirando você desse hospício — disse Emanuel, caminhando até elas.
Beatriz se levantou, os olhos verdes brilhando de irritação.
— Você não pode interromper a conexão dela. Ela está transcendendo a carne, buscando a estética da...
— Ela está indo para casa — Emanuel cortou, segurando o braço de Eduarda e puxando-a para cima. — E se você chegar perto dela de novo, eu vou garantir que sua "estética do luto" se torne algo muito pessoal.
— Que lugar horroroso! — exclamou Sara, olhando para as fotos no chão. — Duda, você tem algum problema sério! Eu quase morri por causa de palhaços e você está aqui brincando de boneca com essa maluca que nem lava o cabelo?
— Palhaços? — Eduarda perguntou, a preocupação finalmente superando o torpor. — Sara, você está bem?
— Não, eu não estou bem! — gritou Sara. — Eu estou um lixo! E você é uma irresponsável!
Emanuel arrastou as duas para fora. No carro, o clima era de guerra. Emanuel dirigia no limite da velocidade, o maxilar tão travado que parecia que ia quebrar.
— Eu estou farto — disse ele, a voz baixa e vibrante de raiva. — Farto das obsessões de uma e das futilidades da outra. Eu passo o dia trabalhando para dar a vocês a vida que vocês querem, e tudo o que recebo em troca é um colapso por causa de palhaços e uma fuga para um culto de noivas mortas.
— Manu, não foi um culto... — tentou Eduarda, manhosa, esticando a mão para tocar o ombro dele.
— Não me toque, Eduarda! — ele rugiu, e ela se encolheu no banco de trás. — E você, Sara, se quer ir para essas festas de gente imbecil, aprenda a se cuidar sozinha!
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara olhava pela janela, sentindo uma pontada de culpa por ter tirado Emanuel de seu trabalho. Eduarda chorava baixinho, percebendo que havia passado dos limites da paciência dele.
Ao chegarem ao apartamento, Emanuel não abriu a porta para elas. Ele simplesmente entrou e foi direto para o escritório, batendo a porta.
As duas ficaram paradas na sala de estar. Sara, com a maquiagem borrada e o biquíni de pedraria aparecendo sob a jaqueta de Emanuel; Eduarda, com o vestido de tule sujo de cera de vela e o cabelo despenteado.
— Parabéns, Duda — disse Sara, sentando-se no sofá e escondendo o rosto nas mãos. — Ele está furioso. E ele tem razão.
Eduarda aproximou-se lentamente e sentou-se ao lado de Sara. Ela hesitou, mas depois colocou a mão no ombro da loira.
— Desculpa, Sara. Eu não sabia que você tinha medo de palhaços. Eu... eu me perdi no que a Beatriz estava falando.
Sara olhou para ela, os olhos azuis ainda úmidos.
— Aquela mulher é doida, Eduarda. De verdade. Ela não gosta de arte, ela gosta de escuridão. Você é doce, você é... viva. Não deixa essas coisas te levarem.
Eduarda abraçou Sara. Foi um abraço estranho, desajeitado, mas genuíno.
— E você... não precisa fingir que é de ferro o tempo todo — sussurrou Eduarda. — Tudo bem ter medo.
— Se você contar para alguém que eu chorei por causa de um palhaço de peruca azul, eu te mato — resmungou Sara, mas retribuiu o abraço por um segundo.
Emanuel abriu a porta do escritório meia hora depois. Ele as viu ali, juntas no sofá, duas figuras desastrosas que ele amava mais do que a própria paz. Sua raiva começou a se dissipar, substituída por aquela exaustão protetora que era sua marca registrada.
— Vão tomar banho — disse ele, encostado no batente da porta. — As duas. Eu vou preparar algo para comermos. E amanhã... amanhã nós vamos ter uma conversa muito séria sobre limites.
— Manu? — chamou Eduarda, manhosa, levantando-se. — Você ainda nos ama?
Emanuel olhou para a morena frágil e para a loira exuberante. Ele suspirou, um sorriso amargo e cansado surgindo nos lábios.
— Esse é o meu maior problema, Eduarda. Eu amo. Agora andem, antes que eu mude de ideia e mande as duas para um convento ou para um circo.
As duas correram para o corredor, trocando empurrões leves sobre quem usaria o chuveiro principal primeiro. Emanuel ficou sozinho na sala, olhando para a noite lá fora. Ele sabia que a paz duraria pouco. Mas, por enquanto, sob o seu teto, suas duas mulheres estavam seguras, longe de palhaços e de fantasmas, protegidas pelo único homem que era capaz de suportar o caos que elas traziam consigo.