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Noivas Espectrais e Noites em Claro

O loft de Emanuel, geralmente um monumento ao design moderno e ao minimalismo industrial, havia se transformado em algo saído de um conto de fadas gótico de Tim Burton. Por todos os lados, livros de história da arte estavam abertos em gravuras de mulheres pálidas, envoltas em rendas vitorianas e véus rasgados. Eduarda, em sua fase mais intensa de curadoria para o evento no cemitério, mergulhara de cabeça no tema das "Noivas Espectrais" — esculturas tumulares de jovens mulheres que morreram antes do casamento, eternizadas em mármore frio e melancolia.

— Veja esta, Manu — Eduarda murmurou, os olhos brilhando com uma intensidade febril enquanto apontava para uma fotografia em preto e branco de uma estátua famosa. — O detalhe do véu de pedra... parece que ele pode flutuar com o vento a qualquer momento. É a representação máxima da pureza interrompida.

Emanuel, que tentava terminar o desenho de uma fênix para uma convenção em Milão, mal levantou os olhos. Sua paciência com o tema "mórbido" de Eduarda estava se esgotando na mesma velocidade que sua tinta.

— É uma estátua, Duda. Uma estátua triste sobre um caixão — ele respondeu, a voz carregada de um cansaço ríspido. — Eu já disse que acho essa sua obsessão pouco saudável. Você passa o dia inteiro olhando para mortas e agora está começando a parecer uma delas. Olha essas olheiras.

Eduarda fez um biquinho, sentindo o peito apertar. Quando Emanuel ficava prático demais, ele tendia a ser insensível. Ela se encolheu no sofá, puxando as pernas para perto do corpo esguio.

— Não são apenas mortas. São histórias, Manu. É arte.

— É macabro — uma voz aguda e trêmula veio da direção da cozinha.

Sara apareceu, mas não era a Sara de sempre. Embora estivesse impecável em um robe de seda preta que custava o preço de um carro popular, suas mãos seguravam a xícara de café com uma força desnecessária. A loira, que normalmente enfrentava qualquer desafio com um sarcasmo cortante, parecia estranhamente pálida.

— Emanuel, eu não aguento mais — Sara disse, sentando-se o mais longe possível dos livros de Eduarda. — Ontem à noite, eu fui ao banheiro e vi um daqueles esboços da Eduarda em cima da mesa de jantar. Juro por Deus, eu achei que a coisa tinha se mexido.

— Você está com medo de papel, Sara? — Emanuel perguntou, arqueando uma sobrancelha, metade irritado, metade achando graça da vulnerabilidade rara da parceira.

— Eu não estou com medo! — Sara rebateu imediatamente, embora seus olhos tenham se desviado rapidamente de uma gravura de uma noiva sem rosto. — Eu apenas acho... desnecessário. A Ágata está começando a ter pesadelos. Ela disse que viu uma "mulher de branco" no corredor.

— A Ágata tem uma imaginação fértil, igual à sua — Emanuel suspirou.

— Não foi a Ágata, papai — uma vozinha doce e calma interrompeu.

Maya estava sentada no chão, cercada por papéis de desenho e giz de cera. Enquanto Arthur corria pelo corredor gritando e batendo um carrinho de metal nas paredes — sendo o pequeno furacão que sempre era —, Maya estava em seu próprio mundo. Ela levantou um desenho para o pai ver. Era uma figura feminina, com um longo vestido branco e flores pretas nas mãos.

— Eu que vi a Noiva Espectral — Maya disse, com a mesma serenidade manhosa da mãe. — Ela é bonita, papai. Ela estava chorando perto da janela da tia Sara.

O silêncio que se seguiu foi denso. Sara soltou um ganido abafado e quase derrubou o café.

— Eduarda, veja o que você está fazendo com a cabeça dessa criança! — Sara exclamou, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro, os saltos de seus chinelos de luxo batendo freneticamente. — Agora a Maya está vendo fantasmas por causa desses seus livros de defunto!

Eduarda sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ela se inclinou e pegou Maya no colo, abraçando a menina com força.

— Ela não está vendo fantasmas, Sara. Ela só está me vendo trabalhar. A Maya é sensível, ela entende a beleza da tristeza. Não é, meu amor?

— Sim, mamãe — Maya concordou, aninhando-se no pescoço de Eduarda. — Ela quer o noivo dela. A gente pode levar um bolo para ela no cemitério?

Emanuel jogou a caneta sobre a mesa, o som estalando como um tiro.

— Chega! Ninguém vai levar bolo para fantasma nenhum! — Ele se levantou, a figura imponente e tatuada dominando a sala. — Eduarda, guarde esses livros agora. Eu não quero mais ver uma noiva morta nesta casa até o dia do evento. Sara, pare de histeria, você é uma administradora de empresas, não uma criança de cinco anos.

— Eu não sou histérica, Emanuel! — Sara gritou, apontando para Maya. — Mas se essa menina continuar falando que tem mulher de branco na porta do meu quarto, eu me mudo para um hotel hoje mesmo!

— O hotel seria ótimo, tia Sara — Ágata apareceu, segurando sua boneca de porcelana com a ponta dos dedos, agindo como se fosse uma adulta pequena e entediada. — O serviço de quarto aqui está demorando muito e o Arthur sujou meu vestido novo com canetinha. Além disso, a Noiva Espectral da Maya usa um perfume de flores velhas. Eu não gostei.

Emanuel massageou as têmporas. Ele sentia que estava perdendo o juízo. Arthur agora tentava escalar suas pernas, puxando sua bermuda.

— Papai! Tatuagem de noiva! Faz uma noiva no meu braço! — o menino gritava, fascinado pelo caos ao redor.

— Não, Arthur! — Emanuel rugiu, pegando o filho no colo para evitar que ele derrubasse tudo. — Ninguém vai tatuar noiva nenhuma. Eduarda, pro quarto. Agora.

Eduarda se levantou, os olhos baixos, sentindo-se injustiçada e incompreendida. Ela caminhou em direção ao quarto, com Maya ainda em seus braços, mas parou na porta e olhou para trás com aquele jeito manhoso que sempre desarmava Emanuel, mesmo quando ele estava furioso.

— Você está sendo grosso, Manu. Eu estou apenas fazendo o meu trabalho. A galeria conta comigo.

— O seu trabalho está transformando a minha casa em um necrotério, Duda! — ele rebateu, mas o tom de voz já estava cedendo à doçura dela.

— Venha me ajudar a guardar as coisas, então — ela pediu, a voz baixa e suplicante. — Eu não consigo carregar os livros pesados sozinha.

Emanuel soltou um suspiro pesado, olhando para Sara, que ainda parecia pronta para chamar um exorcista, e para Ágata, que retocava o próprio brilho labial com um desdém supremo.

— Eu já volto — Emanuel disse para Sara. — Tente não ser abduzida por nenhum espírito vitoriano enquanto eu estiver fora.

— Não tem graça, Emanuel! — Sara gritou enquanto ele se afastava.

No quarto, o ambiente era mais calmo. Emanuel ajudou Eduarda a fechar os grandes volumes de capa dura. Maya já havia se deitado na cama grande, abraçada ao seu cobertor, observando os pais.

— Você realmente acha que ela está vendo coisas? — Emanuel perguntou em voz baixa, sentando-se ao lado de Eduarda.

— Eu acho que ela sente a minha energia, Manu — Eduarda respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Eu ando tão imersa nesse tema que acabo transmitindo isso para ela. Mas não é nada ruim. É só... melancolia.

— A Sara está apavorada, Duda. Você sabe que ela é toda pose, mas morre de medo de qualquer coisa que não possa ser resolvida com uma planilha ou um cartão de crédito.

Eduarda soltou uma risadinha suave.

— Eu sei. Ela é engraçada quando está com medo.

— Engraçada até ela decidir que a casa está assombrada e exigir que a gente mude de cobertura — Emanuel murmurou, puxando Eduarda para um abraço apertado. — Eu só quero que esse evento passe logo. Quero você de volta, sem véus rasgados e sem falar de cemitérios.

— Falta pouco — ela prometeu, subindo o rosto para beijar o queixo dele. — Mas você prometeu que ia comigo. E que ia levar as crianças.

— Eu vou. Mas o Arthur vai usar uma coleira de segurança se for preciso. Eu não quero ele correndo entre os túmulos e derrubando estátuas de valor inestimável.

Eduarda riu, sentindo o calor de Emanuel acalmá-la. Mas, no canto do quarto, Maya continuava olhando fixamente para a poltrona vazia perto da janela.

— Mamãe? — a menina chamou.

— Sim, meu amor?

— A noiva disse que o vestido dela é mais bonito que o da tia Sara.

Emanuel sentiu um calafrio percorrer sua espinha, apesar de toda a sua racionalidade. Ele apertou Eduarda com mais força.

— Dorme, Maya — Emanuel disse, a voz firme. — A noiva foi embora. Agora é hora de crianças e curadoras de arte descansarem.

Eduarda fechou os olhos, sentindo-se protegida. Ela sabia que Emanuel não acreditava em nada que não pudesse tocar, mas gostava da forma como ele a defendia até mesmo dos seus próprios fantasmas.

Enquanto isso, na sala, Sara estava sentada no sofá, com todas as luzes acesas e a televisão no volume máximo. Ágata estava ao seu lado, as duas dividindo um pote de sorvete caro.

— Mamãe, você está com medo? — Ágata perguntou, olhando para a mãe com curiosidade.

— Medo? Eu? Não seja ridícula, Ágata. Eu sou uma mulher de negócios — Sara respondeu, embora tenha dado um pulo quando o ar-condicionado deu um estalo mais alto. — Eu só acho que o branco não é a cor da estação. Se essa noiva aparecer de novo, diga a ela que rendas vitorianas estão completamente fora de moda.

— Pode deixar, mamãe — Ágata disse, limpando o canto da boca. — Mas se ela tentar levar minha boneca, eu conto para o papai e ele faz uma tatuagem bem feia nela.

Sara sorriu, recuperando um pouco da sua confiança. No final das contas, naquele loft cheio de tensões e personalidades conflitantes, o medo era apenas mais um convidado. E enquanto Emanuel estivesse lá para segurar a mão de Eduarda e conter os impulsos de Sara, as noivas espectrais teriam que esperar sua vez na fila.

A noite caiu sobre a cidade, e no loft luxuoso, o silêncio finalmente se instalou. Emanuel dormia entre as duas mulheres — Eduarda, que cheirava a flores e livros antigos, e Sara, que cheirava a perfume importado e loção corporal cara. Entre eles, o equilíbrio era frágil, mas real.

No entanto, no quarto das crianças, Maya abriu os olhos por um momento e sorriu para a sombra perto da janela.

— Boa noite, noiva — ela sussurrou, antes de voltar a dormir.

Longe dali, no Cemitério da Consolação, as estátuas de mármore aguardavam a chegada da sua curadora, sob a luz da lua que banhava os túmulos com um brilho prateado e eterno. O evento prometia ser inesquecível, para os vivos e, talvez, para os que ainda vagavam entre as sombras.