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Mármore, Medo e Decotes
O Cemitério da Consolação não parecia um lugar de descanso eterno naquela noite; parecia o palco de uma ópera gótica. Refletores estrategicamente posicionados lançavam luzes âmbar e azuladas sobre os mausoléus de granito, transformando as estátuas de anjos e noivas em figuras que pareciam respirar sob o sereno de São Paulo.
Emanuel estacionou o SUV preto e suspirou, apertando o volante com força antes de desligar o motor. Ele estava exausto. A semana de preparativos fora um teste para seus nervos. De um lado, Eduarda mergulhada em catálogos de arte tumular; do outro, Sara reclamando que o evento era "mórbido demais para uma terça-feira".
— Chegamos — anunciou Emanuel, olhando pelo retrovisor. — Regra número um: ninguém sai de perto de mim ou dos seguranças. Regra número dois: Arthur, se você tentar tatuar uma lápide com suas canetinhas, nós vamos embora na mesma hora.
— Papai, olha os anjos! — Maya exclamou, colando o rosto no vidro. Ela usava um vestido de veludo azul-marinho, com uma gola de renda que a fazia parecer uma boneca de porcelana antiga. — Eles estão acordados, mamãe?
Eduarda, sentada no banco do passageiro, sorriu de forma doce e um pouco nervosa. Quando ela se virou para trás para acalmar a filha, Emanuel sentiu o ar escapar de seus pulmões por um segundo. Ele já a vira com pouca roupa, já a vira de pijama e de gala, mas naquela noite, Eduarda estava... perigosa.
Ela escolhera um vestido de seda preta, fluido e longo, com um decote em "V" profundo que desafiava a gravidade e a sua habitual timidez. O corte evidenciava seus seios fartos e macios, que pareciam brilhar sob a luz do painel do carro. Era um contraste hipnotizante: o rosto angelical, os olhos castanhos expressivos e aquela aura de vulnerabilidade envolta em uma sensualidade que ela parecia não saber que possuía.
— Você está tentando me matar antes de entrarmos no cemitério, Duda? — Emanuel murmurou, a voz grave, enquanto sua mão deslizava pela nuca dela, os dedos roçando a pele exposta do decote.
— Manu... — ela corou instantaneamente, o que só a tornava mais atraente. — É um evento de gala. Eu sou a curadora. Preciso estar... adequada.
— Adequada é uma palavra. Provocativa é outra — ele retrucou, aproximando-se para um beijo rápido que cheirava a batom de cereja e desejo contido.
— Parem com isso! — A voz estridente de Sara veio do banco de trás, onde ela terminava de retocar o batom vermelho opaco. — Estamos em um cemitério, não em um motel. E, sinceramente, Eduarda, esse decote vai distrair os críticos de arte mais do que as suas estátuas. Mas parabéns, finalmente aprendeu a usar o que tem.
Sara saiu do carro como se estivesse pisando no tapete vermelho do Oscar. Usava um vestido justo de couro sintético bordô e saltos agulha que faziam um som seco e autoritário no asfalto. Ágata desceu logo atrás, uma mini versão da mãe, com um casaco de pele sintética branca e uma expressão de quem estava prestes a julgar a qualidade do mármore alheio.
— Vamos, Ágata. Mantenha a postura. Não queremos que pensem que somos turistas — instruiu Sara, pegando a mão da filha.
Emanuel desceu e deu a volta para tirar Arthur da cadeirinha. O menino de dois anos era um feixe de energia pura. Assim que seus pés tocaram o chão, ele tentou correr em direção a um anjo de bronze próximo.
— Dragão! Papai, olha o dragão de pedra! — gritou Arthur, apontando para uma gárgula.
— É uma gárgula, campeão. E você vai ficar no meu colo até eu decidir que é seguro — disse Emanuel, içando o filho e sentindo o pequeno puxar as tatuagens em seu pescoço.
O grupo caminhou em direção à entrada principal, onde uma pequena multidão de intelectuais, jornalistas e socialites se aglomerava. Eduarda foi imediatamente cercada por dois assistentes da galeria.
— Duda, graças a Deus você chegou! O embaixador quer saber sobre a escultura da 'Interrogação' e a iluminação do setor C está piscando — disse um rapaz frenético.
Eduarda respirou fundo e olhou para Emanuel. Ele assentiu, encorajando-a.
— Eu cuido das crianças. Vá brilhar, Duda.
Ela se afastou, o vestido deslizando pelo corpo como água escura. Emanuel a observou caminhar, notando como os olhares masculinos — e alguns femininos — seguiam o movimento do seu decote e a elegância discreta de seus passos. Ele sentiu uma pontada de ciúme possessivo, mas também um orgulho imenso.
— Emanuel, pare de babar — Sara disse, aproximando-se e segurando o braço dele. — Eu vou para a área VIP verificar se os nomes dos nossos patrocinadores estão nos programas. Ágata, venha comigo.
— Eu não quero ir na área VIP, mamãe. Quero ver se as joias daquelas estátuas são de verdade — disse Ágata, ajustando a bolsa no ombro.
— Elas são de pedra, querida. Vamos logo.
Emanuel ficou sozinho com Maya e Arthur. Maya segurava sua mão com força, os olhos arregalados de admiração.
— Papai, podemos andar? A mamãe disse que tem uma moça de pedra que segura um segredo.
— Vamos procurar, Maya. Mas Arthur, sem gritos.
Eles começaram a percorrer as alamedas. O silêncio do cemitério era quebrado apenas pelo som distante da música clássica que vinha do coquetel e pelo burburinho das conversas. Arthur, no entanto, não estava interessado em silêncio.
— Papai! Tatuagem! — O menino apontou para um monumento coberto de baixos-relevos. — Faz igual?
— Aquilo são inscrições em latim, Arthur. Acho que não ficaria bem no seu braço — Emanuel riu, sentindo a ligação especial que tinha com o filho. O menino era sua imagem e semelhança: inquieto, determinado e fascinado por marcas e formas.
De repente, Maya parou diante de um túmulo adornado com uma escultura de uma jovem deitada, coberta por um véu de mármore tão fino que parecia transparente.
— É ela, papai. A noiva que eu vi no desenho da mamãe.
Emanuel sentiu um arrepio. A iluminação azulada dava à estátua um aspecto quase humano.
— É bonita, não é? — perguntou ele.
— Ela está esperando alguém? — Maya perguntou, a voz manhosa e baixa. — Ela parece sozinha.
— Todos nós estamos esperando por algo, Maya — Emanuel respondeu, tornando-se filosófico por um momento, antes de Arthur tentar pular de seu colo para perseguir um gato que cruzava a alameda.
— Gato! Papai, gato! — Arthur se contorcia.
— Arthur, sossega!
Eles voltaram para a área central, onde o evento estava em pleno vapor. Eduarda estava no centro de um grupo, explicando com paixão a transição do neoclássico para o romântico nas necrópoles paulistas. Ela falava com uma confiança que Emanuel raramente via em casa. No entanto, quando ela o viu, sua expressão suavizou e ela pediu licença, caminhando até eles.
— Como eles estão? — perguntou ela, um pouco ofegante. O decote subia e descia com sua respiração, e Emanuel teve que fazer um esforço hercúleo para manter os olhos no rosto dela.
— Maya está encantada e Arthur está tentando caçar a fauna local — Emanuel respondeu, sorrindo. — Você está incrível, Duda. Todo mundo está comentando.
— Estão comentando sobre a arte ou sobre o fato de eu estar usando três números a menos de sutiã? — ela sussurou, escondendo o rosto no ombro dele por um segundo, buscando aquele refúgio emocional que só ele proporcionava.
— Um pouco dos dois. Mas a arte é secundária quando você está na sala.
— Que cena patética — Sara apareceu, segurando uma taça de champanhe. — Eduarda, o diretor do museu está te procurando. E Emanuel, a Ágata decidiu que quer uma estátua igual àquela ali para o quarto dela. Resolva isso.
— Eu não vou comprar um monumento funerário para o quarto da nossa filha, Sara! — Emanuel exclamou, irritado.
— Por que não? Seria um ótimo cabide para as bolsas dela — Sara deu de ombros, virando o champanhe. — Além disso, este lugar é deprimente. Eu já administrei três crises de ego de patrocinadores nos últimos dez minutos. Você me deve um jantar no Fasano por isso.
— Eu te devo um descanso, Sara. Você faz um trabalho impecável, mas às vezes esquece que nem tudo é sobre negócios — Emanuel disse, suavizando o tom. Ele sabia que, apesar da vulgaridade e do jeito esnobe, Sara era o pilar que mantinha a parte burocrática de sua vida em ordem.
O evento prosseguiu. Eduarda guiava os convidados pelas alamedas, sua voz doce ecoando entre os túmulos. Em um determinado momento, Arthur começou a ficar inquieto. O cansaço e o excesso de estímulos estavam cobrando o preço.
— Mamãe... — Arthur choramingou, esticando os braços para Eduarda no meio de uma explicação sobre o túmulo da família Matarazzo.
Eduarda não hesitou. Ela pegou o filho no colo, ignorando os olhares surpresos de alguns convidados mais conservadores. Arthur imediatamente se aconchegou no seu peito, buscando o conforto que só ela provia.
— Desculpem — disse Eduarda para o grupo, com um sorriso sereno. — A arte é eterna, mas o sono de uma criança de dois anos não espera.
Emanuel se aproximou e colocou a mão na cintura dela, protegendo-os. Sara, observando de longe, revirou os olhos, mas havia um brilho de respeito em seu olhar. Ela sabia que nunca teria aquela paciência, aquela ligação quase mística que Eduarda tinha com os filhos.
— Vamos para a área de descanso — sugeriu Emanuel. — Você já fez o seu papel.
A área de descanso era uma tenda luxuosa montada nos jardins laterais, com sofás de couro, climatização e luzes suaves. Assim que entraram, Maya se aninhou em um dos sofás com seu cobertor. Ágata sentou-se ao lado, fingindo ler um catálogo de arte, mas na verdade observando a irmã com curiosidade.
Eduarda sentou-se em uma poltrona profunda e, com um movimento natural e desprovido de qualquer malícia, afastou a alça do vestido para amamentar Arthur, que não sossegava de outra forma.
Emanuel sentou-se à frente dela, observando a cena. A luz da lua filtrava-se através do tecido da tenda, iluminando Eduarda de uma forma que a fazia parecer uma das divindades que ela tanto estudava. O contraste entre o ambiente fúnebre lá fora e a vida pulsante ali dentro, no ato de nutrir o filho, era a coisa mais bonita que ele já vira.
— Você é incrível, sabia? — Emanuel disse, a voz baixa para não acordar Maya.
Eduarda olhou para ele, o rosto iluminado por um sorriso cansado, mas feliz.
— Eu só sou eu, Manu. Com decotes ousados e fraldas de pano.
— E é por isso que eu amo você — ele confessou.
— E eu? Não ganho uma declaração? — Sara entrou na tenda, jogando os sapatos caros em um canto e sentando-se no tapete, exausta. — Eu salvei o contrato com o fornecedor de tintas de Tóquio enquanto você olhava para as estátuas, Emanuel.
Emanuel riu e esticou a mão para Sara, puxando-a para perto.
— Eu amo você também, Sara. Pela sua competência, pela sua força e até por esse seu jeito impossível.
— "Até"? — Sara arqueou a sobrancelha. — Você tem sorte de eu ser siliconada e vulgar demais para me importar com a sua falta de tato, Emanuel. Agora, me dê um pouco desse vinho que está ali, antes que eu decida que a Noiva Espectral da Maya tem razão e eu comece a assombrar este lugar.
Eles ficaram ali, os cinco, protegidos pelo silêncio da tenda enquanto o mundo lá fora celebrava a morte transformada em arte. Emanuel olhou para suas duas mulheres — a doçura de Eduarda e a chama de Sara — e para seus três filhos. Ele era um homem rico, um tatuador de renome mundial, mas ali, cercado por túmulos e memórias, ele percebeu que sua maior obra de arte não era feita de tinta ou mármore. Era feita de carne, osso, conflitos e um amor que desafiava qualquer lógica.
— Manu? — Eduarda chamou baixinho, Arthur já dormindo profundamente em seu seio.
— Sim?
— Da próxima vez... podemos fazer um evento em um jardim botânico? Cemitérios são lindos, mas acho que o Arthur quer tatuar um anjo de verdade agora.
Emanuel riu, um som baixo e vibrante que preencheu a tenda.
— Prometido, Duda. Prometido.
A noite terminou com o sereno cobrindo as estátuas da Consolação. O evento fora um sucesso absoluto, mas para Emanuel, o sucesso real estava no peso de Arthur em seus braços enquanto caminhavam de volta para o carro, na mão de Maya entrelaçada na sua, e na visão das duas mulheres que, apesar de todas as diferenças, caminhavam lado a lado, unidas pelo caos maravilhoso que haviam construído juntas. No silêncio do cemitério, a vida nunca parecera tão vibrante.