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O Retorno do Passado sob as Sombras de Inverno
O convite havia chegado em um envelope de papel texturizado, com o brasão da família de Sara timbrado em relevo dourado. A irmã de Sara, Rebeca, e seu marido, um bem-sucedido empresário do agronegócio, haviam adquirido uma propriedade cinematográfica no interior de São Paulo e decidiram inaugurá-la com um jantar íntimo. Emanuel, embora preferisse o silêncio do seu estúdio ou a bagunça controlada do loft, não pôde recusar. Sara insistira que era uma questão de "branding familiar", e Eduarda, sempre pronta para agradar, apenas assentiu, embora o clima frio da serra a deixasse mais encolhida do que o habitual.
A viagem foi barulhenta. Arthur, no auge dos seus dois anos, tentava chutar o banco de Emanuel enquanto gritava que queria "pintar o cavalo". Maya, sentada ao lado de uma Ágata que reclamava do sinal de internet para seu tablet, segurava a mão de Eduarda. O SUV preto de Emanuel cortava a neblina da estrada, subindo a serra em direção ao luxo isolado.
— Vocês vão adorar o Otávio — dizia Sara, retocando o batom no espelho do quebra-sol. — Ele é um pouco rústico, sabe? Homem do campo, mas com dinheiro de gente grande. Ele e a Rebeca são o casal perfeito da alta sociedade do interior.
Emanuel apenas murmurou algo em concordância. Ele não gostava de "homens rústicos" com complexo de superioridade, mas faria o esforço por Sara. Eduarda, no banco do passageiro, sentia um aperto estranho no peito. Atribuiu ao frio e à altitude. Ela usava um vestido de lã batida cor de creme e uma echarpe de seda, parecendo uma pintura delicada contra o couro escuro do carro.
Quando os portões de ferro da fazenda se abriram, revelando uma mansão colonial reformada com paredes de vidro e iluminação monumental, até Emanuel ficou impressionado. Rebeca já os esperava na escadaria, usando um casaco de pele que faria inveja a Sara.
— Finalmente! — exclamou Rebeca, abraçando a irmã com a efusividade típica da família. — Emanuel, você está cada vez mais imponente com essas tatuagens. E essa deve ser a doce Eduarda, certo? Sara fala muito de você.
Eduarda deu um sorriso tímido, sentindo-se pequena sob o olhar examinador de Rebeca.
— Entrem, entrem! O Otávio está terminando de abrir um vinho que custa mais que o meu carro. Ele está ansioso para conhecer o "famoso tatuador" e sua família.
A sala de estar era imensa, com uma lareira que rugia chamas altas. O cheiro de madeira queimada e alecrim preenchia o ar. Emanuel soltou Arthur, que imediatamente correu para tapete de pele de urso, enquanto Maya se mantinha grudada na saia de Eduarda.
— Otávio! — gritou Rebeca. — Eles chegaram!
Passos pesados ecoaram pelo assoalho de madeira nobre. Um homem alto, de ombros largos e cabelos cortados rente, surgiu de uma porta lateral carregando um decanter de cristal. Ele usava uma camisa de linho impecável e botas de couro.
— Sejam bem-vindos à minha humilde residência — disse o homem, com uma voz barítona que preencheu o ambiente.
O mundo de Eduarda parou. O som das crianças, o estalar da lenha, a voz de Sara... tudo se transformou em um zumbido branco e ensurdecedor. O homem à sua frente não era apenas o cunhado de Sara. Era Otávio. O Otávio que, quatro anos atrás, antes de ela conhecer Emanuel, havia sido seu primeiro namorado sério. O Otávio que a chamava de "sua" com uma posse que beirava a loucura. O Otávio que, em uma noite de chuva, havia deixado marcas em seus braços que nem a maquiagem mais pesada conseguira esconder por semanas.
— Emanuel, prazer em conhecê-lo — disse Otávio, estendendo a mão com uma firmeza calculada. Seus olhos, porém, já haviam encontrado Eduarda. — E você deve ser a Eduarda. Rebeca mencionou que você é uma curadora de arte talentosa.
Eduarda sentiu o sangue fugir do rosto. Suas mãos ficaram geladas e ela sentiu uma vontade desesperada de vomitar. Ela nunca contara a Emanuel sobre o incidente. Tinha vergonha. Tinha medo de que Emanuel, com seu temperamento protetor e às vezes explosivo, fizesse algo que o levasse para a cadeia. Ela havia enterrado Otávio em uma cova rasa na memória, e agora ele estava ali, oferecendo-lhe um sorriso educado como se nunca tivessem compartilhado gritos e dores.
— Prazer — sussurrou Eduarda, a voz falhando. Ela mal tocou a ponta dos dedos dele antes de se recolher para trás de Emanuel.
— Você está bem, Duda? — Emanuel perguntou baixinho, sentindo a mudança drástica na energia dela. Ele colocou a mão protetora em sua cintura. — Está pálida. É o frio?
— Sim... a viagem foi cansativa — mentiu ela, o coração batendo tão forte que parecia que Otávio podia ouvi-lo do outro lado da sala.
— Ora, vamos beber! — Sara interveio, alheia ao drama silencioso. — Otávio, me sirva logo esse vinho. Preciso esquecer que passei duas horas ouvindo o Arthur cantar sobre dinossauros.
O jantar foi servido em uma mesa de carvalho maciço. Eduarda sentou-se o mais longe possível de Otávio, mas ele estava na cabeceira, em uma posição onde podia observá-la sem esforço. Durante toda a refeição, ela sentia o olhar dele queimando sua pele. Era um olhar de reconhecimento, de diversão e, acima de tudo, de controle.
— Então, Emanuel — começou Otávio, cortando um pedaço de carne sangrenta —, me diga: como é viver com duas mulheres tão... diferentes? Deve exigir um controle de pulso firme, não?
Emanuel arqueou uma sobrancelha, o garfo parado no ar.
— Não é sobre controle, Otávio. É sobre respeito e equilíbrio. Cada uma delas tem seu espaço.
— Entendo — Otávio deu um gole no vinho, os olhos fixos em Eduarda. — Mas algumas mulheres precisam de uma mão mais pesada para serem guiadas, você não acha? A Eduarda, por exemplo... ela sempre me pareceu o tipo que se perde facilmente se não tiver alguém para lhe dizer exatamente o que fazer.
O silêncio que se seguiu foi tenso. Sara parou de rir e olhou de Otávio para Eduarda. Emanuel estreitou os olhos cinzentos.
— Você fala como se a conhecesse, Otávio — disse Emanuel, a voz caindo para aquele tom perigosamente baixo que ele usava quando estava prestes a perder a paciência.
— Oh, eu conheço o tipo — Otávio sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos frios. — Mulheres sensíveis, melancólicas... elas tendem a atrair homens que querem protegê-las, ou quebrá-las. É uma linha tênue, não é, Eduarda?
Eduarda sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas ela a limpou rapidamente antes que alguém percebesse. Ela sentia que estava prestes a ter um ataque de pânico. Maya, sentada ao seu lado, puxou sua manga.
— Mamãe, eu quero ir no banheiro — sussurrou a menina, a voz doce e manhosa.
— Eu levo ela — disse Eduarda rapidamente, levantando-se da mesa como se estivesse fugindo de um incêndio. — Com licença.
Ela caminhou pelos corredores da casa, as pernas tremendo. Quando entrou no banheiro de luxo do andar térreo, trancou a porta e encostou-se nela, tentando respirar.
— Mamãe, você está chorando? — Maya perguntou, olhando para ela com aqueles olhos castanhos que viam tudo.
— Não, meu amor. É só o cansaço. Lave as mãos, querida.
Eduarda jogou água gelada no rosto. Ela precisava ser forte. Precisava aguentar mais algumas horas e depois implorar para Emanuel ir embora. Ela não podia contar agora. Não na casa da irmã de Sara. Seria um escândalo, destruiria a família.
Ao sair do banheiro, ela mandou Maya voltar para a sala de jantar sozinha, dizendo que precisava de um minuto para respirar o ar fresco da varanda interna. O corredor estava na penumbra. Quando ela fez menção de se virar, uma mão forte agarrou seu braço, exatamente no mesmo lugar de anos atrás.
Eduarda soltou um arquejo de susto. Otávio estava ali, bloqueando seu caminho.
— Você continua a mesma coisinha frágil, Duda — ele sussurrou, o hálito de vinho perto do ouvido dela. — Quem diria que você acabaria com um tatuador rico. Ele sabe o que aconteceu naquela noite em Florianópolis? Ele sabe por que você saiu correndo da minha casa com a cara inchada?
— Me solta, Otávio — Eduarda disse, a voz trêmula, mas carregada de um ódio que ela nem sabia que possuía. — Eu não sou mais aquela menina. Se você me tocar de novo, eu grito.
— Grita? E o que você vai dizer? Que o marido da irmã da namorada do seu homem é um monstro? Ninguém vai acreditar em você, Duda. Você sempre foi a "emocional", a "instável". Vão dizer que você está imaginando coisas.
Ele apertou o braço dela com mais força. Eduarda sentiu a dor familiar e o pânico começar a nublar sua visão.
— Ela disse para soltar.
A voz de Emanuel não foi um grito. Foi um trovão baixo, vindo do final do corredor. Ele estava parado na sombra, a postura rígida, Arthur dormindo em um dos braços enquanto a outra mão estava fechada em um punho.
Otávio soltou o braço de Eduarda imediatamente, assumindo uma postura relaxada e cínica.
— Ora, Emanuel. Estávamos apenas relembrando os velhos tempos. Eu não sabia que a sua namorada era tão... arisca hoje em dia.
Emanuel caminhou até eles. Ele entregou Arthur, que ainda dormia, para Eduarda.
— Leve ele para o carro, Duda. Agora. Pegue a Maya e a Ágata. Avise a Sara que estamos indo embora.
— Manu... — Eduarda tentou dizer, mas o olhar dele era de puro aço.
— Agora, Eduarda.
Ela obedeceu, correndo em direção à sala de jantar com o coração na boca. Emanuel ficou frente a frente com Otávio. O tatuador era um pouco mais baixo, mas sua presença parecia ocupar todo o corredor.
— Eu não sei quem você pensa que é — disse Emanuel, a voz vibrando de fúria contida —, mas eu vi como você a segurou. E eu ouvi o tom da sua voz. Se você chegar a um metro de distância da Eduarda novamente, eu não vou me importar com quem você é casado ou quanto dinheiro você tem no banco. Eu vou destruir você, Otávio. E eu não uso palavras para fazer isso.
Otávio soltou uma risada nervosa, tentando manter a fachada.
— Você é louco, tatuador. Ela é só uma mulher.
Emanuel deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Otávio.
— Ela é a minha mulher. E eu conheço cada marca, cada cicatriz e cada medo dela. Eu não sabia que você era o motivo de alguns desses medos, mas agora eu sei. E confie em mim, Otávio... eu sou muito melhor em causar dor do que você jamais sonhou ser.
Emanuel virou as costas e caminhou em direção à saída. Na sala de jantar, o caos havia se instalado. Sara estava de pé, discutindo com Rebeca, enquanto Eduarda tentava juntar as crianças.
— O que aconteceu? — Sara perguntou quando viu Emanuel entrar. — Rebeca está dizendo que você foi grosseiro com o Otávio.
— Estamos indo embora, Sara — disse Emanuel, pegando a bolsa de Eduarda e a chave do carro. — Você vem conosco ou pega um táxi?
Sara olhou para o rosto pálido de Eduarda e para a expressão sombria de Emanuel. Ela podia ser vulgar, esnobe e competitiva, mas não era burra. Ela viu a marca vermelha começando a aparecer no braço de Eduarda, onde a pele era clara e sensível.
Sara caminhou até a irmã, que tentava defender o marido.
— Rebeca — disse Sara, a voz fria como gelo —, diga ao seu marido que, se ele aparecer na minha frente nos próximos dez anos, eu vou garantir que a administração dos bens da nossa família passe bem longe das mãos dele. E se ele tocou na Duda...
Sara não terminou a frase. Ela apenas pegou sua bolsa de grife, chamou Ágata com um gesto autoritário e seguiu Emanuel.
O silêncio no carro durante a volta para a cidade era absoluto. As crianças, sentindo a tensão, acabaram dormindo rapidamente. Eduarda chorava silenciosamente no banco do passageiro, escondendo o rosto nas mãos.
Emanuel dirigia com uma mão no volante e a outra apertando a mão de Eduarda.
— Por que você não me contou, Duda? — ele perguntou, a voz agora suave, cheia de uma dor que não era dele, mas dela.
— Eu tive vergonha, Manu... — ela soluçou. — Ele me fazia sentir pequena. Ele dizia que ninguém ia me querer se soubesse como eu era "estragada".
Emanuel parou o carro no acostamento da estrada deserta. Ele se inclinou e puxou Eduarda para um abraço tão apertado que ela sentiu que todos os seus pedaços quebrados estavam sendo colados de volta.
— Você não é estragada, Eduarda. Você é a mulher mais forte que eu conheço. E aquele lixo nunca mais vai chegar perto de você. Eu prometo.
No banco de trás, Sara observava a cena pelo retrovisor. Ela tirou um lenço da bolsa e o estendeu para Eduarda por cima do banco.
— Limpe esse rosto, Dudinha — disse Sara, o tom de voz estranhamente desprovido de sarcasmo. — Da próxima vez que um ex-namorado tentar crescer para cima de você, não espere pelo Emanuel. Me conte. Eu conheço pessoas que fazem corpos desaparecerem por muito menos do que um hematoma no braço.
Eduarda soltou uma risada entre os soluços, aceitando o lenço.
— Obrigada, Sara.
— Não me agradeça. Eu só não suporto que alguém estrague o meu jantar de inauguração — Sara deu de ombros, voltando à sua pose de sempre. — Mas Emanuel... você realmente ameaçou ele?
— Eu não ameacei, Sara — disse Emanuel, voltando a ligar o carro e olhando para a estrada com uma determinação fria. — Eu apenas fiz uma promessa. E eu nunca quebro minhas promessas.
A viagem continuou sob a luz da lua. Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo o calor das tatuagens dele contra sua pele. O passado havia tentado voltar, mas ela não estava mais sozinha. Ela tinha um homem que a protegia com fúria, uma "companheira" de vida que, à sua maneira torta, zelava por ela, e três filhos que eram sua luz.
Otávio era apenas uma sombra mármore em um cemitério que ela finalmente havia decidido deixar para trás. A vida, com toda a sua bagunça e suas brigas, era muito mais bonita do que o silêncio do medo. E enquanto Emanuel apertava sua mão, Eduarda soube que, pela primeira vez em anos, ela estava verdadeiramente segura.