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O Preço do Capricho e a Doçura do Caos
A mansão de Emanuel, que outrora fora um monumento ao minimalismo industrial e ao luxo silencioso, agora assemelhava-se a um campo de batalha decorado com blocos de montar, giz de cera e o eco constante de risadas e gritos infantis. Quatro anos haviam se passado desde o nascimento dos gêmeos, e a dinâmica da casa havia se transformado em um ecossistema complexo onde Emanuel tentava, muitas vezes sem sucesso, manter o papel de soberano absoluto.
Arthur, um pequeno furacão de cabelos escuros e olhos intensos como os do pai, corria pelo corredor de mármore com uma capa de super-herói improvisada. Ele era a personificação da energia de Emanuel, mas com a teimosia herdada de ambos os lados. Nada o detinha, exceto uma pessoa.
— Arthur! Pare agora ou vai acabar batendo na mesinha de vidro! — exclamou Sara, saindo do escritório com um telefone celular em uma mão e uma taça de espumante na outra. Ela continuava impecável, embora agora preferisse conjuntos de seda que permitiam uma mobilidade maior para perseguir crianças travessas. — Emanuel, controle seu filho! Ele quase derrubou o vaso da dinastia Ming que custou uma fortuna em Paris!
Emanuel saiu da biblioteca, massageando as têmporas. O estresse dos estúdios de tatuagem, que agora operavam em dez países, não era nada comparado ao gerenciamento de sua prole.
— Arthur, venha cá — ordenou Emanuel, a voz firme.
O menino nem sequer olhou para trás. Continuou sua corrida frenética até avistar Eduarda saindo da cozinha com um prato de biscoitos caseiros. No mesmo instante, o furacão perdeu a força. Arthur freou bruscamente e se jogou nas pernas de Eduarda, escondendo o rosto em seu vestido de algodão claro.
— Mamãe, a tia Sara está gritando de novo — murmurou o menino, com uma voz subitamente doce e carente que só existia para ela.
Eduarda sorriu, acariciando os cabelos do filho. Ela havia florescido nos últimos anos; a timidez ainda estava lá, mas havia uma segurança maternal que a tornava o porto seguro de todos naquela casa.
— Ela só está preocupada com o vaso, meu amor — disse Eduarda, baixando-se para pegá-lo no colo. — Por que você não vai brincar lá fora com a Valentina?
Valentina, agora com quase seis anos, passava pela sala com a postura de uma pequena rainha, ignorando o irmão mais novo com um desdém que era a cópia fiel de Sara. Ela segurava um iPad, revisando o que pareciam ser catálogos de moda infantil.
— Arthur é muito imaturo, mamãe — comentou Valentina, sem tirar os olhos da tela. — Ele não entende o conceito de decoração de interiores.
Emanuel cruzou os braços, observando a cena. Ele amava aquela confusão, mas sua paciência tinha limites. Foi quando percebeu a ausência da segunda metade dos gêmeos.
— Onde está a Maya? — perguntou ele, olhando ao redor.
— Ela estava no jardim com a vovó — respondeu Eduarda, referindo-se à sua mãe, que passava tardes inteiras na fazenda urbana que Emanuel criara nos fundos da mansão para agradar a namorada.
Nesse momento, a porta de vidro que dava para o jardim se abriu. Maya entrou lentamente. Se Arthur era o fogo, Maya era a brisa. Ela era a cópia em miniatura de Eduarda: sensível, de olhos grandes e expressivos que pareciam carregar toda a doçura do mundo. Ela caminhava com as mãos em concha junto ao peito, e seu rosto estava manchado de lágrimas.
— Papai... — soluçou Maya, caminhando em direção a Emanuel.
O coração de Emanuel, que ele gostava de fingir ser feito de pedra, derreteu-se instantaneamente. Ele se abaixou e abriu os braços.
— O que foi, minha pequena? Você se machucou?
Maya parou diante dele e abriu as mãos. Dentro delas, tremendo e emitindo um miado quase inaudível, estava um gatinho de rua. Era um animalzinho magro, de pelos acinzentados e sujos, com uma orelha levemente rasgada.
— Eu achei ele no portão — disse Maya, as lágrimas escorrendo livremente. — Ele está com frio, papai. E com fome. A gente pode ficar com ele? Por favor?
Emanuel sentiu uma onda de irritação subir pelo seu pescoço. Ele odiava a ideia de animais dentro de sua casa impecável. Pelos nos sofás de couro, cheiro de ração, a possibilidade de doenças... e, acima de tudo, ele detestava imprevistos que não podia controlar.
— Não, Maya. De jeito nenhum — disse ele, levantando-se e recuperando sua postura rígida. — Esse bicho está sujo, pode ter doenças. Vamos dar comida para ele lá fora e depois ligamos para um abrigo.
O choro de Maya intensificou-se, transformando-se em um lamento agudo que parecia rasgar o silêncio da sala. Ela se encolheu, protegendo o gatinho contra o peito.
— Não! O abrigo é triste! Ele vai morrer lá! — gritava a menina, soluçando tanto que chegava a perder o fôlego. — Por favor, papai! Eu cuido dele! Eu dou meu lanche para ele!
Eduarda aproximou-se, colocando a mão no ombro de Maya para acalmá-la, mas seus olhos encontraram os de Emanuel com uma súplica silenciosa.
— Emanuel, olhe para ele. É só um filhote — disse Eduarda, a voz suave tentando apaziguar a tempestade.
— Nem comece, Eduarda! — cortou Emanuel, apontando para o gato. — Já temos três crianças que parecem uma manada de elefantes. Eu não vou ter um animal de rua estragando meus tapetes persas. Sara, diga a ela que é uma ideia terrível.
Sara aproximou-se, analisando o gatinho com um olhar de nojo profundo.
— Realmente, Maya, esse bicho é pavoroso. Parece que saiu de um filme de terror. E as pulgas? Eu não vou gastar milhares de reais em tratamentos de pele porque um gato sarnento entrou aqui.
Maya caiu de joelhos no chão, ainda segurando o animal, o choro agora transformado em um desespero silencioso que era muito mais doloroso de assistir. Arthur, vendo a irmã sofrer, desceu do colo de Eduarda e sentou-se ao lado de Maya, abraçando-a.
— Deixa, papai! Eu luto com as pulgas! — exclamou o menino, tentando ser valente.
— A resposta é não — finalizou Emanuel, virando as costas para ir em direção ao escritório. — Eduarda, tire esse bicho daqui e acalme sua filha.
Eduarda sentiu uma pontada de determinação. Ela conhecia Emanuel melhor do que ninguém. Sabia que, por trás daquela fachada de controle e autoridade, havia um homem que era escravo de seus próprios desejos e pulsões. Ela entregou Arthur para Sara — que o segurou com uma careta, mas não o soltou — e seguiu Emanuel até o escritório, fechando a porta atrás de si.
Emanuel estava de pé junto à janela, olhando para o jardim, as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria. Ele estava tenso.
— Eu já disse que não, Eduarda. Não tente me convencer com esse seu jeito manhoso.
Eduarda caminhou lentamente até ele. Ela não gritou, não chorou. Em vez disso, deslizou as mãos pelas costas dele, sentindo os músculos retesados sob a camisa fina. Ela encostou o rosto em suas escápulas, respirando o perfume amadeirado que ele usava.
— Ela está com o coração partido, Emanuel — sussurrou ela. — Maya é como eu. Ela sente as coisas de um jeito muito profundo. Se você tirar aquele gatinho dela, ela vai se lembrar disso para sempre como a primeira vez que o pai dela foi cruel.
— Eu não estou sendo cruel, estou sendo prático! — ele rebateu, embora sua voz tivesse perdido um pouco da força.
Eduarda contornou o corpo dele, ficando de frente. Ela olhou para cima, encontrando os olhos escuros e cansados do homem que governava um império, mas que era dominado por ela entre quatro paredes. Ela começou a desabotoar os primeiros botões da camisa dele, os dedos ágeis e provocantes.
— Eu sei o quanto você gosta de ordem — disse ela, a voz tornando-se mais rouca, carregada de uma promessa que fez o sangue de Emanuel acelerar. — E eu sei o quanto você gosta de... exclusividade. De ter minha atenção total.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, o interesse despertado.
— Onde você quer chegar, Duda?
Eduarda se inclinou e mordiscou levemente o lóbulo da orelha dele, um gesto que ela sabia que o deixava louco.
— Se você deixar a Maya ficar com o gatinho... se você permitir que ela tenha essa pequena alegria... eu prometo algo em troca.
— O quê? — ele perguntou, as mãos descendo para a cintura dela, puxando-a para mais perto.
— Eu serei sua. Totalmente sua. Todas as noites, durante um mês inteiro — sussurrou ela, o hálito quente contra a pele dele. — Sem desculpas de cansaço, sem as crianças dormindo no meio de nós, sem restrições. Eu vou me entregar a você do jeito que você mais gosta, todos os dias, por trinta dias. Vou ser a sua boneca, o seu brinquedo... vou deixar você fazer o que quiser com o meu corpo.
Emanuel sentiu um solavanco no baixo ventre. A proposta era tentadora demais. Eduarda era geralmente tímida e reservada, e embora a vida sexual deles fosse intensa, ela raramente se oferecia de forma tão explícita e por um período tão longo. A ideia de ter a submissão e o desejo de Eduarda garantidos por um mês inteiro era o tipo de controle que ele mais apreciava.
— Um mês? — perguntou ele, a voz agora carregada de luxúria. — Sem falhas? Mesmo se eu chegar tarde do estúdio? Mesmo se eu quiser... experimentar coisas novas?
Eduarda sentiu um calafrio, mas olhou-o com determinação. Pela felicidade de Maya, ela faria qualquer coisa.
— Um mês inteiro. O meu corpo será o seu playground particular todos os dias. Você tem a minha palavra.
Emanuel permaneceu em silêncio por alguns segundos, processando a oferta. Ele olhou para a porta do escritório, imaginando a filha chorando lá fora, e depois olhou para a mulher em seus braços, que lhe oferecia um paraíso de prazer em troca de um animal sarnento.
— Trinta dias — ele repetiu, selando o acordo com um beijo possessivo que quase tirou o fôlego de Eduarda. — Se você falhar um único dia, o gato vai embora no minuto seguinte.
— Eu não vou falhar — prometeu ela, sorrindo contra os lábios dele.
Emanuel abriu a porta do escritório com um estrondo, recuperando sua aura de autoridade. Ele caminhou até a sala, onde o drama ainda se desenrolava. Maya estava sentada no chão, soluçando baixinho, enquanto Sara tentava convencê-la de que um pônei seria um substituto melhor.
— Maya — chamou Emanuel.
A menina levantou os olhos vermelhos e inchados para o pai.
— O gato fica — declarou ele, a voz seca.
Houve um segundo de silêncio absoluto antes de Maya soltar um grito de alegria pura. Ela se levantou e correu para o pai, abraçando suas pernas com tanta força que quase o desequilibrou.
— Obrigada, papai! Obrigada! Você é o melhor papai do mundo!
Arthur começou a pular ao redor, comemorando a vitória da irmã, enquanto Valentina apenas revirava os olhos, embora um pequeno sorriso de satisfação surgisse em seus lábios.
— Mas — interrompeu Emanuel, apontando para o gatinho — ele vai direto para o veterinário agora. Sara, ligue para a clínica e marque uma limpeza completa e todos os exames. E ele vai dormir na lavanderia, não nos quartos.
— Sim, papai! O que você quiser! — exclamou Maya, pegando o gatinho com um cuidado infinito.
Sara olhou para Emanuel, depois para Eduarda, que exibia um sorriso vitorioso e levemente corado. Sara, que não era boba e conhecia as táticas de negociação de alcova, soltou uma risada ruidosa.
— Ora, ora... parece que a Duda usou as armas pesadas — comentou Sara, bebendo o resto de seu espumante. — Bem, Emanuel, espero que valha a pena. Porque se esse gato arranhar um dos meus sapatos da Gucci, quem vai dormir na lavanderia é você.
Emanuel não respondeu. Ele apenas olhou para Eduarda, um olhar que prometia que a cobrança da dívida começaria naquela mesma noite.
As horas seguintes foram de uma agitação produtiva. O gatinho, batizado de "Cinza" por Maya, foi levado ao veterinário, tomou banho, foi desparasitado e voltou para casa parecendo um animal completamente diferente — ainda magro, mas com pelos macios e olhos brilhantes de gratidão. Maya não saiu do lado dele por um segundo, ensinando-o onde ficava sua caminha e sua tigela de leite.
À noite, a mansão finalmente mergulhou no silêncio. As crianças estavam devidamente adormecidas em seus quartos luxuosos. Sara havia se retirado para sua suíte, provavelmente para fazer uma máscara facial e planejar a próxima campanha de marketing.
Emanuel estava em seu quarto, sentado na beira da cama king-size, vestindo apenas uma calça de pijama de seda preta. Ele ouviu a porta se abrir e Eduarda entrou. Ela usava um robe de seda branca que deslizava pelo seu corpo como água. Seus cabelos estavam soltos, caindo em ondas sobre os ombros.
— Maya dormiu com um sorriso no rosto — disse ela, caminhando lentamente em direção a ele.
— Fico feliz por ela — respondeu Emanuel, levantando-se. Ele caminhou até Eduarda e desamarrou o laço do robe dela com uma lentidão deliberada. — Mas agora, o tempo da Maya acabou. O tempo do gatinho acabou.
O robe caiu no chão, revelando a pele alva e delicada de Eduarda sob a luz suave dos abajures. Ela estremeceu levemente quando as mãos grandes e tatuadas de Emanuel envolveram seu rosto.
— Você se lembra do nosso acordo? — perguntou ele, a voz baixa e vibrante.
— Cada detalhe — respondeu ela, envolvendo o pescoço dele com os braços, puxando-o para baixo. — Eu sou sua, Emanuel. Pelos próximos trinta dias e por toda a eternidade.
Emanuel a beijou com uma fome que havia sido acumulada durante todo o dia de caos. Ele a pegou no colo e a deitou na cama, cobrindo seu corpo com o dele. Naquele momento, ele percebeu que o gatinho fora o melhor investimento que já fizera. O controle que ele tanto amava não vinha de ditar regras ou gerir estúdios; vinha da entrega absoluta daquela mulher que, com sua doçura e manha, conseguia dobrar o homem mais poderoso que ela já conhecera.
Lá embaixo, na lavanderia, Cinza dormia profundamente em sua cesta macia, alheio ao fato de que sua presença naquela casa fora comprada com a promessa de um mês de paixão desenfreada. E no andar de cima, entre gemidos e sussurros, Emanuel e Eduarda iniciavam a primeira das trinta noites que mudariam para sempre a temperatura daquela mansão. O caos das crianças e a vulgaridade de Sara ainda estariam lá na manhã seguinte, mas naquela noite, o império de Emanuel era composto apenas por duas pessoas e um desejo que nenhuma regra poderia conter.