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D

A Jaula de Seda e a Marca do Dono

O almoço foi um exercício de tortura silenciosa. A comida de Helena, sempre um bálsamo para a alma, hoje parecia cinzas na boca de Eduarda. Ela comia mecanicamente, os olhos baixos, sentindo cada movimento, cada respiração de Emanuel, que estava sentado do outro lado da mesa. Ele conversava com Marcos sobre negócios e a instabilidade do mercado, sua voz um barítono calmo e racional que desmentia a fúria selvagem que Eduarda testemunhara no galpão.

Sara, por sua vez, estava no auge de sua performance. Ela pendia do braço de Emanuel, ria das piadas do avô de Eduarda e contava histórias sobre suas viagens a Tóquio e Milão, pintando um quadro de um mundo glamoroso e inatingível que fazia a casa de campo parecer ainda mais rústica e insignificante. Ela era a rainha em seu trono, e tratava Eduarda com a condescendência divertida que se reserva a um animal de estimação exótico.

— A Duda é tão quietinha, não é? — comentou Sara, em um momento de pausa, olhando diretamente para Eduarda com seus olhos azuis calculistas. — Fico imaginando o que se passa nessa cabecinha. Deve ser um mundo de contos de fadas e príncipes encantados.

Emanuel, que estava bebendo um copo de água, parou com o copo a meio caminho dos lábios. Seus olhos encontraram os de Eduarda por cima da borda do vidro, e um brilho sombrio passou por eles. Era uma mensagem, um aviso. *O príncipe sou eu. E esta não é uma história de encantar.*

Eduarda sentiu o rosto queimar e murmurou algo ininteligível, voltando a atenção para o seu prato. Ela odiava a forma como Sara a diminuía, mas odiava ainda mais a forma como seu corpo reagia à posse silenciosa de Emanuel. Ela se sentia como um segredo sujo, um brinquedo que ele tirava da caixa para se divertir na calada da noite e guardava de volta pela manhã.

Após o almoço, o grupo se dispersou. Os mais velhos foram tirar uma soneca, as primas se trancaram no quarto com seus celulares e Sara anunciou que precisava de uma chamada de vídeo urgente com a equipe de Berlim, arrastando um Emanuel relutante para o escritório improvisado.

Eduarda, buscando refúgio, foi para a cozinha ajudar a mãe a lavar a louça. Era uma tarefa mundana, repetitiva, e o som da água correndo e dos pratos se chocando era reconfortante.

— Você está tão pálida, minha filha — disse Helena, secando as mãos em um pano de prato. — Acho que esse tempo fechado não te faz bem.

— É só cansaço, mãe.

De repente, a porta do escritório se abriu com força. Emanuel saiu de lá, o rosto uma máscara de fúria contida.

— Sara, eu preciso de um minuto! — ele gritou para dentro da sala. — Eu não consigo respirar aqui!

Ele passou pela cozinha como um furacão, indo em direção à porta dos fundos que dava para a varanda. Ao passar, ele bateu com a mão na lateral de um armário de madeira rústica, um gesto de pura frustração. Ele parou na porta, respirando fundo o ar frio e úmido, as costas largas e tensas viradas para elas.

— Emanuel, volte aqui! Estamos no meio de uma negociação! — a voz de Sara soou irritada de dentro do escritório.

— Dê-me cinco minutos! — ele rosnou, sem se virar.

Helena e Eduarda trocaram um olhar preocupado. Emanuel se virou, e foi então que Eduarda viu. A mão direita dele, a que ele usara para socar o armário, estava sangrando. Não era um corte grande, mas um filete de sangue escorria de um ponto em sua palma. Ele olhou para a própria mão com uma expressão de desprezo, como se a dor fosse uma inconveniência patética.

— Meu Deus, você se machucou — disse Helena, aproximando-se com seu instinto maternal.

— Não foi nada. Apenas uma farpa — ele disse, a voz ríspida, tentando dispensar a preocupação dela. Ele tentou puxar a farpa com os dedos da outra mão, mas ela estava funda demais.

— Deixe-me ver isso — disse Helena. — Duda, pegue a caixa de primeiros socorros no banheiro de cima. Rápido.

Eduarda sentiu o pânico subir. A última coisa que ela queria era ficar perto dele, tocar nele. Mas o comando da mãe era inquestionável. Ela subiu as escadas correndo, o coração martelando, e voltou com a caixa de metal branco.

Quando chegou, Helena já havia convencido Emanuel a se sentar em uma das cadeiras da cozinha. A luz que entrava pela janela iluminava a cena, destacando a tensão nos músculos do braço dele e o contraste do sangue vermelho contra a pele bronzeada e coberta de tinta.

— Minhas vistas não são mais as mesmas para essas coisas miúdas — disse Helena, apertando os olhos. — Duda, você tem os olhos bons e a mão firme. Tire essa farpa para ele. Eu vou buscar uma água com açúcar para acalmar os nervos de todo mundo.

E, com isso, Helena os deixou sozinhos. A armadilha estava montada.

Eduarda aproximou-se hesitantemente, colocando a caixa de primeiros socorros na mesa. Ela abriu, pegando uma pinça e um algodão com antisséptico. O cheiro de álcool preencheu o ar.

— Dê-me a sua mão — disse ela, a voz um sussurro.

Emanuel estendeu a mão, a palma virada para cima. Era uma mão grande, forte, com calos nos lugares certos. As tatuagens em seus dedos e no pulso pareciam serpentes escuras e adormecidas. O ferimento era pequeno, mas a farpa de madeira era longa e estava cravada profundamente.

Com as mãos tremendo, Eduarda segurou a mão dele. A pele dele era quente, quase febril, e a textura áspera contrastava com a maciez da sua. Ela sentiu uma corrente elétrica percorrer seu braço, a mesma sensação do galpão, mas agora amplificada pela intimidade do momento.

— Fique parado — murmurou ela, mais para si mesma do que para ele.

Ela se inclinou sobre a mão dele, a ponta de seus cabelos roçando o braço dele. Ela podia sentir o cheiro dele, uma mistura de colônia cara, suor e algo puramente masculino que a deixava tonta. Com a ponta da pinça, ela começou a trabalhar delicadamente para expor a ponta da farpa.

Emanuel não se moveu. Ele não disse uma palavra. Apenas observava-a com uma intensidade que a queimava por dentro. Ele observava a concentração em seu rosto, o jeito como ela mordia o lábio inferior, a delicadeza de seus dedos.

— Você gosta disso, não gosta? — ele perguntou de repente, a voz baixa e rouca.

Eduarda levantou a cabeça, surpresa.

— Gosto do quê? De tirar farpas?

— Não. — Ele apertou levemente a mão dela, um gesto de posse. — De cuidar de mim. De ser útil. De ter um propósito que eu te dou.

O coração de Eduarda falhou uma batida. Ele via através dela com uma clareza assustadora.

— Eu só estou ajudando porque minha mãe pediu — mentiu ela, voltando a se concentrar no ferimento.

— Sua mãe te deu a ordem. Mas é para mim que você está obedecendo. — Ele fez uma pausa, deixando as palavras pairarem no ar. — Você obedece bem, Eduarda. É uma das coisas que eu mais gosto em você.

Ela conseguiu agarrar a ponta da farpa com a pinça. Com um puxão rápido e firme, ela a removeu. Emanuel nem sequer estremeceu. Um pouco mais de sangue brotou do pequeno buraco.

— Pronto — disse ela, a voz trêmula.

Ela pegou o algodão com antisséptico e pressionou contra o ferimento. Ele sibilou de dor, o primeiro sinal de desconforto que ele demonstrou.

— Arde — ele disse, os olhos fixos nos dela.

— É para limpar. Para não infeccionar.

— Eu gosto quando arde — ele sussurrou, e o duplo sentido da frase a fez estremecer. — Me lembra que eu ainda estou vivo. Que eu ainda sinto alguma coisa além do controle.

Ela limpou o sangue e colocou um pequeno curativo sobre o ferimento. Seu trabalho estava feito. Ela tentou puxar a mão, mas ele não a soltou. Pelo contrário, ele usou a mão dela para se levantar, puxando-a para perto até que seus corpos estivessem a centímetros de distância.

— Você é boa nisso — ele disse, sua outra mão subindo para acariciar o rosto dela. — Tão delicada. Tão precisa. Você seria uma boa tatuadora.

— Eu não gosto de agulhas — ela sussurrou, hipnotizada pelo toque dele.

— Não? — Ele sorriu, um sorriso lento e predatório. — Mas você gosta da marca que elas deixam. Gosta de saber que algo é permanente. Que pertence a um lugar.

Ele a estava encurralando com palavras, tecendo uma lógica perversa que fazia sentido em seu mundo confuso. Sim, ela gostava de estabilidade. De segurança. De pertencer. Era por isso que ela amava a casa de seus avós, suas rotinas, seus livros. E ele estava se oferecendo para ser sua nova rotina, sua nova segurança. Sua nova jaula de seda.

— Ontem à noite, no seu quarto... — ele começou, a voz caindo para um sussurro íntimo. — Você se entregou. Você se apoiou em mim. Você gostou da minha proteção.

— Eu estava com medo — ela tentou argumentar, mas a voz saiu manhosa, fraca.

— Você estava com medo e excitada. E você gostou de ser submissa à minha vontade. Gostou de não ter que tomar decisões. De apenas sentir. Admita, Eduarda.

As lágrimas brotaram nos olhos dela. Era verdade. No meio do terror e da vergonha, ela se sentiu segura nos braços dele, no controle dele. Ele a protegia até mesmo de si mesma, de suas próprias escolhas.

— Sim — ela admitiu, a voz quebrada. O choro era de alívio e desespero.

A confissão pareceu satisfazê-lo. Ele a puxou para um abraço, um abraço que não era gentil nem carinhoso, mas possessivo e dominador. Ele enterrou o rosto em seus cabelos, inalando o cheiro dela.

— Boa menina — ele murmurou contra sua orelha. — É tudo o que eu precisava ouvir.

Ele a afastou, mas manteve as mãos em seus ombros. Seus olhos percorreram a cozinha, procurando por algo. Eles pararam em um pequeno bloco de notas e uma caneta que estavam perto do telefone.

— Dê-me seu braço — ele ordenou.

— O quê? Por quê?

— Apenas faça.

Trêmula, ela estendeu o braço esquerdo. Ele o segurou com firmeza, virando a parte interna de seu pulso para cima, onde a pele era fina e as veias azuis eram visíveis. A pele macia e pálida, um contraste gritante com o dorso de sua mão áspera e tatuada.

Com a outra mão, ele pegou a caneta. Ele destampou-a com os dentes e a jogou longe. Então, com uma precisão de cirurgião, ele começou a desenhar em sua pele.

A ponta da caneta era fria e fazia cócegas, mas o peso da mão dele e a seriedade de sua expressão transformavam o ato em um ritual solene. Eduarda observava, fascinada e aterrorizada, enquanto a tinta preta manchava sua pele. Ele não estava escrevendo uma palavra. Ele estava desenhando um símbolo.

Era pequeno, discreto, quase imperceptível para um olhar desatento. Uma única letra "E", mas estilizada de uma forma que lembrava uma coroa ou um sigilo antigo. Era a marca dele.

— Aí está — disse ele, admirando seu trabalho. — Para que, mesmo quando eu não estiver olhando, você se lembre de quem é o dono.

Ele se inclinou e beijou o desenho, a boca quente sobre a pele fria e a tinta fresca. Depois, seus lábios subiram pelo braço dela até encontrarem os dela. O beijo foi diferente dos outros. Não era de fúria ou fome, mas de afirmação. Era um selo em um contrato que ela acabara de assinar com sua submissão.

Eduarda se entregou ao beijo, os braços envolvendo o pescoço dele, as mãos se perdendo em seu cabelo. Naquele momento, não havia Sara, não havia culpa, não havia mundo exterior. Havia apenas ele, o controle dele, a proteção dele. A jaula era quente e confortável, e ela não queria sair.

— Emanuel? A sua chamada está caindo! Você vai me fazer perder um contrato de seis dígitos por causa de um arranhão?

A voz de Sara, vinda do corredor, quebrou o feitiço.

Eles se separaram instantaneamente. O pânico estampou-se no rosto de Eduarda.

— Ela vai ver!

— Não vai — disse Emanuel, sua calma retornando como uma onda de gelo. Ele pegou a manga do suéter dela e a puxou para baixo, cobrindo o desenho. — Fique quieta. Deixe que eu falo.

Sara entrou na cozinha, os braços cruzados, o rosto uma máscara de impaciência. Seus olhos afiados varreram a cena: Emanuel perto demais de Eduarda, o rosto corado da garota, a caixa de primeiros socorros aberta.

— O que está acontecendo aqui? Estão brincando de médico? — ela perguntou, o sarcasmo pingando de cada palavra.

— A Eduarda estava cuidando da minha mão — disse Emanuel, mostrando o curativo. — Ela tem um toque surpreendentemente bom.

— Que fofo. Uma enfermeira particular. — Sara se aproximou, passando por Eduarda como se ela fosse um móvel, e agarrou o braço de Emanuel. — A brincadeira acabou. Temos trabalho a fazer. E você, querida — ela se virou para Eduarda, um sorriso condescendente nos lábios —, obrigada por cuidar do meu homem. Ele pode ser um pouco estabanado às vezes.

Sara o arrastou de volta para o escritório, deixando Eduarda sozinha na cozinha, o coração batendo na garganta. Ela esperou até que a porta se fechasse e então, com as mãos trêmulas, levantou a manga do suéter.

A marca estava lá. Um pequeno "E" preto em seu pulso. Era apenas tinta de caneta. Sairia com água e sabão. Mas, para Eduarda, parecia tão permanente quanto as tatuagens que cobriam o corpo dele.

Ela passou o dedo sobre o desenho, sentindo o contorno da tinta em sua pele. Não sentiu repulsa. Não sentiu raiva. Sentiu uma estranha e perturbadora sensação de pertencimento.

Sara não via Eduarda como uma ameaça porque, na cabeça de Sara, a competição era por poder, dinheiro e status. Ela não entendia que a verdadeira batalha, a que Emanuel estava travando consigo mesmo, era por algo que ela não podia oferecer: entrega total, submissão inocente.

Eduarda voltou para o seu quarto e se deitou na cama, o braço estendido, observando a marca. Ela era o segredo dele. O refúgio dele. Sua propriedade. A ideia deveria aterrorizá-la. Mas, enquanto a chuva recomeçava a tamborilar suavemente na janela, um pensamento perigoso se formou em sua mente: talvez ser propriedade de alguém tão poderoso fosse a forma mais segura de liberdade que ela jamais conheceria.

Ela gostava da proteção dele. Ela gostava de ser submissa. E a marca em seu pulso não era uma corrente, mas uma promessa. A promessa de que, não importava o que acontecesse, o leão a protegeria de todos os outros predadores. Inclusive de si mesma.