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O Contrato das Almas
O ar no escritório improvisado era rarefeito, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos da nuca se arrepiarem. A chamada de vídeo com Berlim havia sido encerrada abruptamente por Sara, que citara “problemas técnicos” com uma voz tão doce quanto cianeto. Agora, ela estava de pé, de costas para a janela, a silhueta esguia emoldurada pela luz cinzenta da tarde. Emanuel permanecia perto da porta, o corpo tenso como uma corda de aço prestes a arrebentar.
— Problemas técnicos — repetiu Sara, a voz perigosamente calma. Ela se virou lentamente, os braços cruzados sob os seios. Um sorriso que não alcançava os olhos brincava em seus lábios pintados de vermelho. — Acredita que o nosso principal “problema técnico” neste momento é você, Emanuel?
— Sara, não comece. A conexão estava falhando.
— A conexão que está falhando é a sua com a realidade! — ela rebateu, o tom de brincadeira evaporando para dar lugar a um aço frio e cortante. — Você acha que eu não vejo? Acha que eu sou alguma idiota que você pegou na rua? Eu administro um império multinacional que você desenhou, Emanuel. Eu lido com mentirosos, trapaceiros e tubarões todos os dias. E você, meu caro, está agindo como o pior deles.
Ele passou a mão ferida pelos cabelos, um gesto de impaciência. A dor física era um contraponto bem-vindo à pressão que se acumulava em seu peito.
— Estou estressado. Estamos presos neste fim de mundo há dias. Minha rotina foi para o inferno, a sua também. É normal que estejamos no limite.
— Não. — Ela deu um passo à frente, o som de seus saltos no assoalho de madeira como a contagem regressiva de uma bomba. — Não me venha com essa psicologia de autoajuda barata. Não é o isolamento. É *ela*.
O nome não precisou ser dito. Pairou entre eles, pesado e palpável como a umidade lá fora.
— Você está obcecado — continuou Sara, a voz agora um bisturi, dissecando-o sem anestesia. — Você a segue com os olhos como um lobo faminto. Você rosna para qualquer um que chega perto dela. Você sai no meio da noite na neblina, volta cheirando a mato e fúria. Você explode com a garota e as primas dela por causa de uma brincadeira de adolescente. E hoje… hoje na cozinha… a forma como você a olhava enquanto ela cuidava da sua mão…
Ela riu, um som curto e sem alegria.
— Foi patético, Emanuel. Você, o homem que comanda salas de reunião com um único olhar, parecia um cachorrinho esperando um afago. E ela, a ratinha assustada, de repente parece ter encontrado uma espinha dorsal. Uma que só funciona quando você está por perto. Então, diga-me. O que diabos está acontecendo nesta casa?
Emanuel caminhou até a mesa de carvalho, apoiando as mãos nela e inclinando o peso do corpo para a frente. Ele encarou a madeira escura, os nós e as veias do material, como se pudesse encontrar neles uma lógica para o caos em sua cabeça. Mentir seria inútil. Sara era um detector de mentiras humano, calibrado por anos de convivência com ele. Tentar enganá-la seria um insulto à inteligência dela e, pior, uma perda de controle da narrativa. E se havia algo que Emanuel não suportava, era perder o controle.
Ele se endireitou, virando-se para encará-la. Sua expressão era a de um homem que tomara uma decisão irrevogável.
— Você está certa.
A admissão simples e direta pareceu surpreender Sara mais do que qualquer mentira elaborada. Ela ergueu uma sobrancelha perfeitamente arqueada.
— Certa sobre o quê, exatamente?
— Sobre tudo. — A voz dele era fria, pragmática, como se estivesse discutindo os termos de um contrato. — Eu não vou mentir para você, Sara. Você é inteligente demais para isso. Sim, eu quero a Eduarda.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Por um instante, Sara não reagiu. Seu rosto permaneceu uma máscara de neutralidade calculada. Então, seus lábios se curvaram em um sorriso lento, um sorriso que era ao mesmo tempo fascinado e aterrorizado.
— Você… quer a Eduarda? — ela repetiu, saboreando as palavras como se fossem um veneno exótico. — E o que exatamente você pretende fazer com ela? Colecioná-la? Colocá-la em uma redoma de vidro ao lado das suas outras… peças de arte?
— Não diminua o que estou dizendo — ele a cortou, a voz firme. — E não finja que não entende. Eu não estou falando de uma paixonite de verão. Estou falando de uma necessidade.
Ele deu um passo em sua direção, fechando a distância entre eles.
— Olhe para mim, Sara. Nada mudou entre nós. Eu te amo. Amo a sua força, a sua ambição, a forma como sua mente funciona. Você é meu pilar. Você é a mulher que construiu este império comigo, que entende a linguagem da minha alma, que é feita de tinta, aço e ambição. Você é a minha rainha. Isso é inegociável.
Seus olhos eram sinceros, e essa sinceridade era a parte mais cruel. Ele não estava terminando com ela. Estava pedindo que ela aceitasse uma expansão de seu reinado.
— Mas ela… — ele hesitou, pela primeira vez, procurando as palavras. — Ela é outra coisa. Ela não é um pilar, é um refúgio. Ela não é ambição, é paz. Ela é a fragilidade que me lembra da minha própria força. A submissão dela alimenta o meu controle de uma forma que você, sendo minha igual, nunca poderia. Quando estou perto dela, o ruído do mundo desaparece. É como encontrar uma cor que eu não sabia que existia, uma cor que eu preciso ter na minha paleta.
— Uma cor? — Sara soltou uma gargalhada, desta vez alta e genuína, mas tingida de histeria. — Você está comparando sua traição a uma aula de artes? Que porra é essa, Emanuel? Você enlouqueceu? Você acha que eu vou aceitar isso? Dividir você com uma garotinha sem graça, uma camponesa que mal sabe se vestir?
A raiva finalmente quebrou sua compostura. Seu rosto se contorceu em uma máscara de fúria e orgulho ferido.
— Você tem ideia de com quem está falando? Eu sou Sara! Eu destruo homens como você no café da manhã se eles se atravessam no meu caminho! E você quer que eu aceite ser parte de um harém com uma virgem assustada?
— Eu não quero que você aceite. Eu estou dizendo como as coisas são. — A calma dele era enlouquecedora. — Eu não vou abrir mão de você. Mas eu também não vou abrir mão dela. Eu quero as duas.
Ele disse a frase final com a mesma naturalidade com que diria “eu quero café e um uísque”. Era um fato, não um pedido.
Sara andou de um lado para o outro na sala, a energia crepitando ao seu redor. Ela parecia um animal enjaulado, uma pantera procurando o ponto mais fraco da grade para atacar. Ela parou, os olhos faiscando.
— Então o grande Emanuel, o mestre do autocontrole, o tatuador que transforma dor em arte, precisa de uma garotinha submissa para se sentir homem? Que patético. Você não é um lobo, Emanuel. Você é apenas um homem inseguro com uma crise de meia-idade precoce.
O insulto não o atingiu. Ele esperava por isso.
— Chame do que quiser. A necessidade ainda existe. — Ele se aproximou mais, a voz baixando para um tom conspiratório, transformando a briga em uma negociação. — Pense nisso de forma lógica, Sara. Como você sempre faz. Qual é a sua posição? Você é a administradora, a CEO do nosso mundo. O seu nome está em cada contrato, em cada propriedade. O seu rosto está ao meu lado em cada evento. Você tem poder, status, acesso ilimitado a tudo o que eu possuo. Acha que ela vai ter isso?
Ele riu, um som seco.
— Ela nunca vai sentar em uma reunião do conselho. Ela não vai negociar com os japoneses. Ela não vai escolher a decoração do nosso novo estúdio em Dubai. Ela vai ser… um segredo. Um refúgio. A minha musa particular, trancada na torre do castelo. Você continuará a ser a rainha que governa o reino. Ela será apenas a camponesa que o rei visita quando está cansado da corte. A existência dela não diminui o seu poder. Em nada.
Sara parou de andar. Ela o encarou, a mente trabalhando furiosamente, processando a proposta indecente que ele acabara de colocar na mesa. A administradora dentro dela estava analisando os ativos, os passivos, os riscos e os benefícios.
A raiva ainda estava lá, um fogo branco e quente em seu peito. O orgulho ferido gritava para que ela o mandasse para o inferno, para que arrumasse suas malas e o deixasse afundar com sua nova “musa”. Mas a lógica… a lógica era uma vadia fria e calculista.
Ir embora significava perder tudo. O império que ela ajudou a construir. O status. O estilo de vida. E, sim, significava perder Emanuel. Porque ela o amava, à sua maneira possessiva e competitiva. Amava o poder que eles tinham juntos, a forma como o mundo se curvava diante deles. Abrir mão disso por causa de uma garota insignificante… era uma péssima jogada de negócios.
E ela conhecia Emanuel. Se ela dissesse não, ele não desistiria de Eduarda. Ele apenas mentiria. Ele a teria pelas costas, e isso era pior. Isso era uma verdadeira perda de controle. Se ela aceitasse, ela pelo menos saberia. Ela teria poder sobre a situação. Ela poderia ditar as regras.
— Você está me oferecendo um acordo, Emanuel? — ela perguntou, a voz voltando ao seu tom frio e controlado.
— Estou. — Ele assentiu. — Estou oferecendo a você a chance de manter tudo o que é seu, sem abrir mão de nada, exceto de uma fantasia de exclusividade monogâmica que, sejamos honestos, nunca foi o nosso forte.
Isso era verdade. O relacionamento deles sempre fora mais uma parceria de poder do que um romance tradicional.
Sara caminhou até a poltrona de couro e se sentou, cruzando as pernas. Ela parecia uma juíza prestes a dar uma sentença. O silêncio se estendeu por quase um minuto inteiro. Emanuel não a apressou. Ele sabia que ela estava pesando cada variável.
Finalmente, ela olhou para ele.
— Tudo bem.
A palavra caiu na sala com o peso de uma bigorna.
— Eu aceito os seus… termos — continuou ela, a palavra “termos” carregada de desprezo. — Você pode ter o seu bibelô. O seu animal de estimação. A sua “cor nova”. Mas não pense nem por um segundo que isso é um cheque em branco. Este é o *meu* acordo agora. E ele vem com as *minhas* regras.
Emanuel sentiu uma onda de alívio e uma pontada de admiração. Ela era magnífica em sua fúria calculada.
— Estou ouvindo.
— Regra número um. — Ela levantou um dedo com a unha vermelha e afiada. — Eu não quero ver. Não quero saber. Não quero ouvir os detalhes sórdidos de como você brinca com a sua boneca. Ela é o seu segredo, então mantenha-a como tal. Ela fica na sombra. Se eu tiver que ver vocês dois de mãos dadas, se o nome dela aparecer em alguma coluna de fofoca, se a existência dela de alguma forma manchar a minha imagem pública ou atrapalhar os nossos negócios, o acordo acaba. E quando eu digo que acaba, Emanuel, eu quero dizer que eu vou usar cada cláusula de cada contrato que eu redigi para te transformar em um pobre coitado que tatua bêbados em uma garagem de subúrbio. Você me entendeu?
— Cristalino — disse ele, sem piscar.
— Regra número dois. — O segundo dedo se juntou ao primeiro. — Ela nunca, em hipótese alguma, pode pensar que tem uma chance de tomar o meu lugar. Você vai deixar isso tão claro para ela que ela vai sonhar com isso à noite. Eu sou a prioridade. Eu sou a namorada principal. Eu sou a mulher da sua vida pública. Ela é um acessório. Um passatempo. E se ela ousar me olhar com qualquer coisa que não seja o mais absoluto terror e reverência, eu mesma vou me certificar de que ela entenda o seu lugar. E não vai ser bonito.
— Ela já entende — disse Emanuel, lembrando-se do medo e da submissão nos olhos de Eduarda.
— Ótimo. Mantenha assim. — Sara sorriu, um brilho perigoso nos olhos. — E agora, a regra mais importante. Regra número três.
Ela se inclinou para a frente, a voz baixando para um sussurro sedutor e ameaçador.
— O que é bom para o rei, é bom para a rainha. Se você pode ter seus “refúgios”, eu também posso. Se eu sentir vontade de encontrar minha própria… “inspiração”, seja com o instrutor de ioga em Bali ou com um banqueiro suíço, você não tem o direito de dizer uma única palavra. Sem ciúmes, sem possessividade. O nosso acordo de exclusividade acabou de ser renegociado. Para os dois lados.
Emanuel sentiu uma pontada de fúria. A ideia de Sara com outro homem era como um ácido em suas veias. Era uma jogada de mestre, a forma perfeita de ela reequilibrar a balança de poder e ferir o ego dele. Ele a odiou por isso. E a amou ainda mais.
Ele caminhou até ela e se ajoelhou na sua frente, pegando a mão dela e beijando os nós de seus dedos.
— Acordo fechado, minha rainha.
Sara puxou a mão de volta, o rosto impassível.
— Não me chame assim agora. Estou com nojo de você. Mas sou uma mulher de negócios. E este negócio, por mais repulsivo que seja, ainda é lucrativo. Por enquanto.
Ela se levantou, alisando o conjunto de caxemira.
— Agora, se me dá licença, vou tomar o banho mais longo e quente da minha vida para tentar lavar a sujeira desta conversa. E depois, vamos voltar a trabalhar. A ponte deve abrir amanhã, e eu quero sair deste lugar o mais rápido possível.
Ela se dirigiu à porta, mas parou com a mão na maçaneta.
— Ah, e Emanuel?
— Sim?
— Sobre a garota. Eduarda. — Ela se virou, e pela primeira vez, havia algo que não era raiva ou cálculo em seu rosto. Era uma espécie de curiosidade clínica, quase divertida. — Eu simpatizo com ela, sabe? Ela não tem a menor chance. Ela acha que encontrou um príncipe encantado que a protege. Mal sabe ela que acabou de entrar na jaula de dois monstros. E que a leoa, às vezes, é muito mais perigosa que o leão.
Com isso, ela saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
Emanuel ficou sozinho no escritório, o silêncio pesando sobre ele. Ele havia conseguido. Havia navegado a tempestade e saído do outro lado com tudo o que queria. Ele tinha a sua rainha, com seu poder e sua mente afiada. E tinha a permissão dela para manter sua princesa, com sua doçura e sua entrega.
Ele caminhou até a janela e olhou para fora. A chuva havia parado completamente, e um raio de sol pálido tentava romper as nuvens. Lá embaixo, perto do pomar, ele viu uma pequena figura sentada em um banco. Eduarda. Ela estava com a manga do suéter puxada para cima, olhando para o próprio pulso. Olhando para a marca que ele havia feito.
Um sorriso sombrio e possessivo curvou os lábios de Emanuel. Sara estava errada em um ponto. Eduarda não estava na jaula de dois monstros. Ela estava na jaula *dele*. E Sara, com seu novo contrato e suas regras, era apenas a administradora do zoológico.
Ele havia renegociado sua vida, transformando um triângulo amoroso em uma estrutura de poder corporativo. Ele tinha a estrutura, o império, a parceira. E tinha o seu segredo, a sua arte, a sua alma. O contrato estava assinado. Um contrato de almas, onde ele era o único acionista majoritário. E o preço, ele sabia, seria pago por todos. Mas, naquele momento, olhando para a garota que ele havia marcado como sua, ele decidiu que valia cada centavo.