Voltar ao resumo

D

O Machado e a Seda

A quarta-feira chegou com uma trégua. A chuva cessara durante a madrugada, deixando para trás um mundo lavado, gotejante e silencioso. O ar estava denso e frio, carregado com o cheiro de terra molhada e folhas em decomposição. Dentro da casa de campo, o clima era igualmente pesado. O confronto da noite anterior deixara um resíduo de medo e ressentimento que nem o café forte de Helena conseguia dissipar.

Eduarda estava encolhida em uma poltrona na sala, um livro de arte esquecido no colo, fingindo ler. Seu corpo inteiro era uma antena sintonizada em um único sinal: Emanuel. Ela sentia a presença dele antes mesmo de vê-lo. Sentia o peso de seus passos no andar de cima, o som abafado de sua voz conversando com Sara, a energia que ele emanava e que parecia preencher cada fresta da casa.

Ela se sentia péssima. A culpa era uma criatura fria e pegajosa que se aninhava em seu estômago. Ela gostava de Emanuel. Não, era pior que isso. Ela o desejava com uma intensidade que a assustava, uma necessidade física e emocional que contradizia tudo o que ela era. Ele era comprometido. A namorada dele, apesar de irônica e intimidadora, estava ali, sob o mesmo teto, dividindo a cama e a vida com ele. E Eduarda, a garota tímida que amava a paz e os momentos simples, havia se tornado o epicentro de uma traição silenciosa.

— Duda, querida, você mal tocou no seu café da manhã. — Helena se aproximou, a mão carinhosa em seu ombro. — O tornozelo ainda dói muito?

Eduarda apoiou a cabeça no braço da mãe, em um gesto manhoso e infantil que era sua defesa natural contra o mundo.

— Um pouco. E estou cansada. Acho que não dormi direito.

— Foi a aventura noturna de vocês. Já dei um sermão na Bia. Vocês não têm mais idade para sair caçando fantasmas no meio da neblina. O Sr. Emanuel estava certo em ficar bravo. Foi perigoso.

Eduarda sentiu uma pontada de irritação. Até sua mãe estava do lado dele. O controle de Emanuel era sutil e eficiente; ele se posicionara como o protetor, o adulto responsável, e todos haviam comprado a narrativa. Ninguém via a fúria possessiva em seus olhos, a ameaça velada em suas palavras. Só ela.

— Desculpe, mãe. Não vai acontecer de novo.

Emanuel e Sara desceram as escadas naquele momento. Sara, como sempre, parecia ter saído de uma produção de moda, vestindo um conjunto de caxemira creme que abraçava suas curvas. Emanuel estava mais contido, com uma calça de sarja escura e uma camisa de flanela de um tom de cinza que fazia seus olhos parecerem ainda mais profundos e indecifráveis.

Ele não olhou diretamente para Eduarda, mas ela sentiu o roçar de seu olhar, um toque rápido e quente que a fez encolher-se ainda mais na poltrona.

— Bom dia a todos — disse Marcos, entrando pela porta dos fundos, as botas sujas de barro. — A lenha seca para a lareira está acabando. O depósito externo está úmido, mas o galpão de ferramentas tem alguns troncos grandes que precisam ser rachados. Lucas, Pedro, estão prontos para um pouco de trabalho braçal?

Os dois primos de Eduarda, rapazes de dezessete e dezoito anos, resmungaram em concordância, mais interessados em seus celulares do que em machados.

— Eu posso ajudar. — A voz de Emanuel cortou o ar, calma e firme. — Não tenho problema com trabalho físico. Na verdade, vai ser bom para espairecer.

Marcos olhou para o convidado, surpreso e um pouco impressionado.

— Tem certeza, Emanuel? Não é o tipo de atividade que imagino para um artista internacional.

— Um tatuador precisa de mãos firmes e força nos braços, Marcos. — Emanuel deu um meio sorriso, que não alcançou seus olhos. — Cortar lenha é só um tipo diferente de precisão.

Sara revirou os olhos, mas havia um brilho de admiração em seu rosto.

— Deixe ele ir, Marcos. Meu namorado gosta de brincar de homem das cavernas de vez em quando. Ajuda a aliviar o estresse de ser tão civilizado o tempo todo.

A decisão foi tomada. Enquanto os rapazes calçavam as botas e procuravam por luvas, Helena se virou para a filha.

— Duda, quando eles estiverem lá há algum tempo, você poderia levar uma garrafa de café e uns biscoitos? Com esse frio, eles vão agradecer.

O coração de Eduarda deu um salto de pânico e… antecipação. Era a desculpa perfeita para se afastar, mas também a armadilha perfeita para se aproximar.

— Mãe, meu pé...

— O galpão não é longe, querida. E o caminho é plano. Vá devagar. Um pouco de ar fresco vai te fazer bem.

Não havia como recusar. Ela apenas assentiu, sentindo-se um cordeiro sendo levado voluntariamente para o matadouro.

Uma hora depois, com uma cesta de vime na mão, Eduarda caminhava lentamente em direção ao galpão de ferramentas. O som rítmico e poderoso de um machado batendo na madeira ecoava pela propriedade, um som primitivo que parecia sincronizar com as batidas descontroladas de seu coração.

Ao se aproximar, ela parou atrás de uma velha macieira, usando o tronco como escudo para observar a cena.

Lucas e Pedro estavam empilhando a lenha já cortada, mas o centro de toda a energia, de toda a ação, era Emanuel.

Ele havia tirado a camisa de flanela. Estava apenas com a calça de sarja escura, o tronco nu exposto ao ar frio da manhã. O suor brilhava em suas costas largas e nos ombros, delineando cada músculo que se contraía a cada golpe. As tatuagens que cobriam seus braços e subiam pelo pescoço pareciam vivas, ondulações de tinta preta sobre a pele tensa. Ele não era mais o empresário sofisticado ou o artista calculista. Ali, ele era pura força bruta, uma força da natureza.

Ele erguia o machado com uma facilidade impressionante, a lâmina brilhando por um segundo contra o céu leitoso antes de descer com um *crack* surdo e satisfatório, partindo um tronco grosso em dois. A expressão em seu rosto era de concentração total, a mandíbula cerrada, os olhos focados na madeira como se estivesse descontando nela toda a fúria e a frustração que o consumiam. Ele era a personificação da masculinidade em seu estado mais cru e selvagem. Um lenhador saído de um conto de fadas sombrio.

Eduarda sentiu o ar faltar em seus pulmões. Era a visão mais atraente e aterrorizante que já tivera. Aquele homem, aquela força, a reivindicara na escuridão de seu quarto. E ela, em vez de sentir repulsa, sentia uma onda de calor percorrer seu corpo, uma atração visceral que a enchia de vergonha.

— Ei, Duda! Trouxe o café? Estamos congelando aqui! — gritou Lucas, finalmente notando-a.

Não havia mais como se esconder. Com o rosto corado, ela saiu de trás da árvore e caminhou até eles.

Emanuel parou no meio de um golpe. Ele cravou o machado em um toco de madeira e se virou lentamente. Seus olhos encontraram os dela, e o mundo pareceu parar. Ele estava ofegante, o peito subindo e descendo, o suor escorrendo por seu rosto e pescoço. Ele a olhava com uma intensidade que a despia ali mesmo, na frente de seus primos.

— Chegou em boa hora — disse ele, a voz rouca pelo esforço. — O frio aqui entra nos ossos.

Ele caminhou até ela, pegando um pano que estava jogado em um banco para secar o rosto e o peito, um gesto casual que só serviu para acentuar ainda mais a visão de seus músculos. Ele parou a centímetros dela, tão perto que ela podia sentir o calor que irradiava de sua pele e o cheiro de suor, madeira e almíscar.

— Obrigado — disse ele, pegando a caneca de metal que ela lhe oferecia. Seus dedos roçaram os dela, e um choque elétrico percorreu o braço de Eduarda, fazendo-a quase derrubar a cesta.

— De... de nada — gaguejou ela, incapaz de desviar o olhar do dele.

— Você não devia estar de pé com esse tornozelo — ele disse, a voz baixando para um tom íntimo que apenas ela podia ouvir, enquanto seus primos já atacavam os biscoitos. — Você é teimosa.

— Eu estou bem. Minha mãe pediu.

Sentindo-se sobrecarregada, Eduarda deu um passo para trás, e seu tornozelo, como se obedecesse a um comando de seu subconsciente, falseou de verdade. Ela soltou um pequeno gemido de dor e desequilíbrio.

Em um piscar de olhos, a caneca de Emanuel estava no chão e as mãos dele estavam em sua cintura, firmes e possessivas, impedindo sua queda.

— Eu avisei — ele rosnou, o rosto a centímetros do dela. A preocupação em sua expressão era genuína, mas estava misturada com uma fúria controlada. — O que eu tenho que fazer para você me obedecer, Eduarda?

— Me solta, Emanuel. Meus primos estão olhando.

— Que olhem — ele rebateu, apertando-a ainda mais contra seu corpo quente e suado. Ela sentiu a dureza de seu peito nu contra o tecido de seu suéter, o cheiro dele a envolvendo, intoxicando-a. — Talvez assim eles entendam que você precisa de alguém que cuide de você. Alguém que não vai deixar você se machucar.

Ele a estava punindo e protegendo ao mesmo tempo. Estava reafirmando seu domínio na frente de todos, de uma forma que poderia ser interpretada como mera preocupação. Ela era dele, e ele estava deixando isso claro.

— Por favor... — ela sussurrou, a voz manhosa e suplicante, uma mistura de medo e entrega.

— Eu te levo de volta para a casa — ele disse, sua voz um comando.

— Não precisa, eu consigo andar. Eu só...

— Você vai fazer o que eu digo. — Ele a puxou para mais perto, o hálito quente em sua bochecha. — Eu disse que cuidaria de você. Isso inclui não te deixar andar por aí quando deveria estar descansando. Você entende?

Era uma pergunta, mas soava como uma sentença. Eduarda apenas assentiu, incapaz de formar palavras. O poder que ele exercia sobre ela era absoluto.

— Emanuel! O que está acontecendo aí?

A voz de Sara, cortante e divertida, veio da direção da casa. Ela estava na varanda, observando a cena com os braços cruzados.

O feitiço se quebrou. Emanuel soltou Eduarda abruptamente, mas não sem antes deslizar a mão por seu braço em um último toque possessivo. Ele se virou para Sara, a irritação visível em seu rosto.

— O tornozelo dela cedeu. Eu estava apenas ajudando.

— Claro que estava — disse Sara, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Você é sempre tão prestativo. Termine logo com isso e venha para dentro. Você vai pegar uma pneumonia, e eu não estou com humor para ser sua enfermeira.

Emanuel pegou a camisa de flanela e a vestiu, sem se dar ao trabalho de abotoar. Ele olhou uma última vez para Eduarda, um olhar que prometia que a conversa não havia terminado.

— Volte para casa, Eduarda. E fique lá.

Trêmula, Eduarda deixou a cesta no banco e praticamente correu de volta para a segurança da casa, mancando mais do que o necessário. Ela não olhou para trás, mas sentia os olhos de Emanuel queimando em suas costas.

Ela entrou na cozinha e se apoiou na pia, o coração batendo descontroladamente. Sentia-se humilhada, excitada, culpada e, de alguma forma, incrivelmente segura. Odiava-se por isso. Odiava-o por fazê-la sentir-se assim. Como ela podia desejar um homem que era tão abertamente cruel em sua posse, um homem que pertencia a outra?

Ela foi até a janela da sala, que dava uma visão parcial do galpão. De lá, ela viu Emanuel pegar o machado novamente. Mas agora, os golpes eram diferentes. Eram mais rápidos, mais violentos. Cada golpe que rachava a madeira parecia um grito de frustração. Ele estava descontando na lenha a raiva de ter sido interrompido, a tensão de seu desejo contido.

Eduarda tocou o lugar em sua cintura onde as mãos dele a haviam segurado. A pele ainda formigava. Ela se sentia como a madeira sendo partida: frágil, cedendo sob a força dele, sendo moldada por sua vontade.

Ela sabia que estava perdida. A estrada podia estar fechada, mas mesmo que se abrisse, ela não via como poderia escapar do labirinto emocional em que Emanuel a havia aprisionado. Ele era o tatuador, o mestre das marcas permanentes, e ele a havia marcado de uma forma que nenhuma tinta jamais poderia.

Lá fora, o som do machado continuava, um eco poderoso de seus desejos ocultos. E Eduarda, encolhida na segurança fria da casa, choramingou baixo, não de dor no tornozelo, mas de dor na alma. Ela não conseguia se afastar. E a parte mais aterrorizante era que, no fundo, ela não tinha mais certeza se queria. Ela queria o calor daquela lenha, mesmo sabendo que o fogo a consumiria.