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D

A Cor que Exige a Luz

A casa de campo mergulhou num silêncio expectante após a saída de Sara. Era um silêncio diferente do habitual, não era pacífico. Era o vácuo deixado por uma detonação, o momento em que se prende a respiração antes de avaliar os estragos. Emanuel permaneceu no escritório, sentindo o eco das palavras de Sara reverberar nas paredes. Ela havia aceitado. A rainha havia permitido que o rei mantivesse um pássaro cativo, contanto que a gaiola ficasse longe de seus aposentos. Ele vencera. Tinha conseguido o impossível: a permissão para possuir dois mundos.

Um sorriso lento, sombrio e triunfante, curvou seus lábios. Ele se sentia invencível, um deus manipulando os mortais em seu tabuleiro particular. O contrato estava selado. Agora, faltava apenas comunicar os termos à outra parte do acordo. A parte que não tinha tido direito a negociação.

Ele saiu do escritório, os passos firmes e decididos no assoalho de madeira. Seus olhos varreram a sala de estar vazia e se fixaram na pequena figura sentada no banco do jardim, visível através da porta de vidro da varanda. Eduarda. Sua musa, seu refúgio, sua propriedade.

Ela ainda olhava para o pulso, para a marca de caneta que ele desenhara. A imagem o atingiu com a força de um soco. A visão dela, tão pequena e absorta em sua marca, era a personificação da posse. Era a prova de que ela já era sua, muito antes de qualquer acordo com Sara.

Ele deslizou a porta de vidro para o lado, o som quase inaudível. O ar frio da tarde o envolveu, trazendo consigo o cheiro de terra úmida e de flores noturnas que começavam a despertar. Eduarda não o ouviu se aproximar. Ele parou atrás dela, uma sombra imponente, e observou por um instante a forma como a luz pálida do sol poente se derramava sobre seus cabelos castanhos.

— Gosta do desenho? — perguntou ele, a voz baixa e rouca, fazendo-a dar um pulo de susto.

Eduarda se virou bruscamente, o rosto uma mistura de pânico e culpa. Ela instintivamente tentou cobrir o pulso com a outra mão, como uma criança pega em flagrante.

— Emanuel! Você me assustou.

— Eu não queria. — Ele se sentou ao lado dela no banco de pedra fria, o espaço entre eles desaparecendo. Ele pegou a mão dela e afastou os dedos que cobriam a marca. — Não esconda. Eu quero ver.

Ele passou o polegar sobre o pequeno “E” estilizado. A tinta já estava um pouco borrada.

— É a sua marca — sussurrou ela, mais para si mesma do que para ele.

— Sim. É a minha marca. — Ele a encarou, os olhos de um cinza profundo e tempestuoso. Havia uma nova camada de segurança em seu olhar, uma certeza que não estava lá antes. — Tivemos uma conversa. Eu e a Sara.

O coração de Eduarda despencou. O ar pareceu ficar rarefeito. Ela prendeu a respiração, esperando o veredito.

— Ela sabe? — perguntou, a voz um fio.

— Ela sabe. — A simplicidade da resposta era brutal. — Sara é uma mulher pragmática. Ela entende que há certas… necessidades que não podem ser ignoradas. Chegamos a um acordo.

Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha, um frio que nada tinha a ver com a temperatura do ar. Um acordo. A palavra soava comercial, impessoal. Como se ela fosse um ativo sendo negociado entre duas potências.

— Que tipo de acordo?

Emanuel soltou a mão dela e se recostou, adotando uma postura de quem está no controle total da situação. Ele queria ser claro, estabelecer as regras do jogo desde o início.

— Um acordo que nos permite ficar juntos. Eu e você. — Ele fez uma pausa, deixando a implicação daquelas palavras assentar. — Eu deixei claro para ela que eu não vou abrir mão de você. E ela… aceitou. Nos termos dela.

Um lampejo de esperança, frágil e ingênuo, brilhou nos olhos de Eduarda.

— Então… ela não se importa? Nós podemos…

— Não. — Ele a interrompeu, a voz firme, cortando a fantasia antes que ela pudesse criar raízes. — Não é tão simples, Eduarda. Você precisa entender a dinâmica. Sara continua sendo a minha namorada. A mulher que o mundo vê ao meu lado. A nossa relação… a sua e a minha… será o nosso segredo.

A palavra “segredo” caiu sobre Eduarda como uma laje de concreto. A esperança frágil se estilhaçou, transformando-se em cacos de gelo em seu peito.

— Um segredo? — repetiu ela, a voz embargada. — Eu vou ser o seu segredo?

— Você será o meu refúgio — corrigiu ele, tentando romantizar a gaiola. — O meu santuário. O lugar onde eu posso ser eu mesmo, longe da pressão do mundo. Sara não vai interferir, desde que mantenhamos a discrição. Desde que você entenda o seu lugar.

“Entenda o seu lugar”. A frase ecoou as palavras de Sara, a condescendência, o desprezo. De repente, a imagem se tornou clara. Ela não era um refúgio. Ela era um hobby. Um caso extraconjugal sancionado pela esposa, contanto que a amante não fizesse barulho e não pedisse joias caras.

As lágrimas que ela vinha segurando começaram a escorrer por seu rosto, silenciosas e quentes. Eram lágrimas de humilhação.

— Eu não quero ser um segredo, Emanuel.

A frase foi dita num sussurro, quase um soluço. Emanuel franziu a testa, a irritação começando a borbulhar sob sua calma superficial. Ele acabara de mover montanhas, de renegociar sua vida inteira para tê-la, e a reação dela era chorar?

— Eduarda, você não está entendendo. Isso é o melhor que podemos ter. É a única forma. Eu te quero na minha vida, e essa é a única maneira de isso acontecer sem que tudo desmorone. Eu te protegi.

— Me protegeu? — Ela se virou para ele, e pela primeira vez, havia uma faísca de desafio em seus olhos marejados. — Você não me protegeu. Você me escondeu. Você me colocou numa caixa escura e disse que era um castelo. Ser um segredo me faz sentir suja. Como se eu fosse algo errado, algo que precisa ser varrido para debaixo do tapete.

A reação dela o pegou de surpresa. Ele esperava gratidão, ou talvez um medo submisso. Não aquela… dignidade ferida.

— Não seja dramática. Não é sobre ser suja. É sobre ser inteligente. Sobre proteger o que temos.

— O que nós temos? — ela perguntou, a voz subindo um tom, ainda que embargada pelo choro. — Encontros às escondidas? Sussurros em corredores escuros? Eu tenho que abaixar a cabeça e fingir que não existo sempre que a sua… namorada principal… estiver por perto? Eu tenho que viver sob as regras dela?

Ela se levantou, abraçando o próprio corpo como se sentisse frio. Seu jeito era manhoso, quebrado, mas as palavras eram firmes como rocha.

— Eu sou uma pessoa simples, Emanuel. Eu gosto de luz. Gosto de coisas claras. Gosto de poder andar de mãos dadas com quem eu gosto sem ter que olhar por cima do ombro. Eu não nasci para viver nas sombras.

Ele se levantou também, a paciência se esgotando rapidamente. A fúria que ele sentira no galpão estava voltando, uma onda quente de frustração.

— E o que você esperava? Que eu largasse Sara, abandonasse meu negócio, minha vida, e fugisse com você para uma cabana no meio do nada? A vida real não é um dos seus livros de arte, Eduarda! É um jogo de poder, e eu acabei de garantir que você estivesse do lado vencedor!

— Eu não quero estar no seu jogo! — ela gritou, a voz finalmente se quebrando em um soluço alto.

Ele a agarrou pelos braços, a força de seu aperto fazendo-a estremecer.

— Você já está no meu jogo desde o momento em que eu te vi naquela cozinha! Não há como sair. A única questão era qual seria a sua posição no tabuleiro. E eu te dei a melhor posição possível.

— Não! — Ela tentou se soltar, mas era inútil. Ela parou de lutar e o encarou, as lágrimas escorrendo livremente, o rosto vermelho e manchado. Sua rendição física era uma contradição com a força de sua próxima declaração. — A melhor posição possível seria ao seu lado. Na luz. E se eu não posso ter isso, então eu não quero nada.

Ele a sacudiu levemente, a raiva o cegando.

— Você não tem o direito de não querer! Eu decido o que você quer! Eu te marquei. Você é minha!

— Não, eu não sou. — A voz dela voltou a ser um sussurro, mas um sussurro carregado de uma finalidade que o gelou. — Essa marca — ela olhou para o pulso com desprezo —, sai com água e sabão. Não é permanente.

Aquelas palavras foram como um soco em seu estômago. A negação da permanência, da sua posse, o desarmou completamente.

— O que você está dizendo? — ele perguntou, a fúria dando lugar a uma confusão perigosa.

Ela se apoiou nele, o corpo tremendo, em um gesto que era ao mesmo tempo de fraqueza e de ataque. Ela agarrou a frente da camisa dele, o rosto erguido para o dele, os olhos grandes e suplicantes, mas a boca proferindo a mais dura das sentenças. Era a sua forma manhosa e devastadora de lutar.

— Eu estou dizendo, Emanuel… — ela começou, a voz trêmula e chorosa, mas cada palavra era uma adaga. — Que eu gosto de você. Gosto tanto que dói. E eu quero você. Mas eu não vou ser o segredo de ninguém. Eu não vou viver com medo da sua namorada, aceitando as migalhas que ela me permite ter. Eu não sou um animal de estimação que você esconde da sua dona.

Ela respirou fundo, reunindo toda a coragem que possuía.

— Se para estar com você, eu preciso aceitar as imposições da Sara… se o preço para ter o seu toque é viver na escuridão e na vergonha… — ela balançou a cabeça lentamente, as lágrimas caindo sobre as mãos dele que ainda a seguravam. — Então o preço é alto demais. Então eu não posso.

Ele a encarava, atônito. O mundo dele, tão cuidadosamente reestruturado, estava rachando. Ele havia enfrentado a leoa e a domado, apenas para ser desafiado por um cordeiro.

— Então… — ela concluiu, a voz quebrando na última palavra, o golpe final. — Você pode me esquecer.

Ela se soltou dele, um movimento fraco que ele permitiu, e deu um passo para trás. Ela se virou e começou a andar de volta para a casa, os ombros curvados, a imagem da derrota. Mas ela havia vencido.

Emanuel ficou paralisado. “Você pode me esquecer.” A frase ecoava em sua mente, absurda, impossível. Esquecê-la? Ela era a porra da cor que ele não sabia que existia. Como se esquece uma cor? Como se volta a ver o mundo em preto e branco depois de vislumbrar o impossível?

A lógica dele entrou em curto-circuito. Ele não podia forçá-la. A essência do que ele queria dela era a sua entrega voluntária, a sua doçura, a sua paz. Se ele a quebrasse, se a transformasse em uma prisioneira aterrorizada, ela se tornaria apenas mais uma posse vazia. O refúgio se tornaria uma cela de prisão, e a paz que ele buscava se tornaria um tormento.

Ele a havia subestimado. Havia subestimado a força que existe na fragilidade, a teimosia que se esconde na mansidão.

— Eduarda! — ele chamou, a voz carregada de uma urgência que o assustou.

Ela parou na porta da varanda, mas não se virou.

Em três passos largos, ele a alcançou, virando-a para si. Ele não a segurou com fúria, mas com desespero. Ele a puxou para si, envolvendo-a em um abraço esmagador, enterrando o rosto em seu pescoço, inalando o cheiro dela como um homem que se afoga buscando ar.

— Não. — A palavra saiu abafada contra a pele dela. — Não repita isso. Nunca mais.

Ela ficou rígida em seus braços por um momento, e então, seu corpo cedeu. Ela começou a soluçar contra o peito dele, batendo fracamente em suas costas com os punhos cerrados.

— Não é justo… não é justo…

— Eu sei. — ele a segurou com mais força, protegendo-a de sua própria dor, da dor que ele mesmo causara. — Shh… eu sei.

Ele a afastou o suficiente para olhar em seus olhos. Ele enxugou as lágrimas dela com os polegares, o toque surpreendentemente gentil. A arrogância havia desaparecido de seu rosto, substituída por uma vulnerabilidade crua que ela nunca tinha visto. Ele parecia perdido.

— Você venceu — sussurrou ele, e a admissão pareceu lhe custar tudo. — Você venceu, está bem?

Ela o olhou, confusa, fungando.

— O quê?

— Você não será um segredo. Não da forma como você está pensando. Você não é suja. Você não é algo errado. — Ele procurava as palavras, montando uma nova realidade enquanto falava. — Você é a melhor parte de mim, Eduarda. A parte que ninguém mais pode ver, não porque é vergonhosa, mas porque é sagrada.

A mudança de narrativa foi instantânea e brilhante. Ele não estava mais a escondendo por vergonha; estava a protegendo por reverência.

— E as regras da Sara? — perguntou ela, a voz ainda desconfiada.

O rosto de Emanuel endureceu.

— Sara tem regras para o mundo dela. Para o nosso império, para a nossa vida pública. Ela não dita as regras entre mim e você. — Ele se inclinou, a testa colada na dela. — Ninguém dita as regras aqui, a não ser eu. E a minha regra é que você é minha. E eu cuido do que é meu. Se isso significa enfrentar Sara de novo, que seja. Se significa queimar o mundo para te manter segura e… feliz… então eu queimo.

Eram as palavras que ela precisava ouvir. Não a promessa de um final feliz, mas a promessa de que ela era a prioridade no universo deles, mesmo que aquele universo fosse do tamanho de um abraço.

— Eu não quero que você queime o mundo — choramingou ela, apoiando a cabeça em seu ombro, a personalidade manhosa voltando com força total agora que sentia que tinha algum poder. — Eu só quero… não me sentir como a outra.

— Você nunca será a outra. — Ele beijou o topo da cabeça dela. — Você e Sara são dois lados diferentes da minha alma. Uma é a armadura que eu uso para a guerra. A outra… — ele a apertou contra si — …é a pele que está por baixo. A que sente tudo.

Ele a beijou. Um beijo diferente de todos os outros. Não era de posse, nem de fúria, nem de afirmação. Era um beijo de rendição. Ele estava se rendendo à necessidade que tinha dela, à complexidade que ela trazia para sua vida. E ela, sentindo a mudança, sentindo o poder que havia conquistado com sua rebelião suave, respondeu com uma paixão que o surpreendeu. Ela não era mais apenas a vítima passiva de seu desejo; ela era uma participante ativa, exigindo seu lugar, seu valor.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Emanuel olhou para o rosto dela, agora iluminado por uma nova força, e soube que seu problema havia se tornado infinitamente mais complicado. E infinitamente mais viciante.

Ele havia pensado que o contrato com Sara resolveria tudo. Mas agora ele tinha dois contratos, um escrito e um emocional, e seus termos eram mutuamente exclusivos. Sara exigia que Eduarda fosse uma sombra. Eduarda exigia luz.

E ele, Emanuel, o mestre do controle, estava preso no meio, um funâmbulo caminhando sobre um arame farpado, com um abismo de cada lado. De um lado, a perda de seu império. Do outro, a perda de sua alma.

Ele olhou para a marca de caneta no pulso dela. Ela estava certa. Sairia com água e sabão. A marca que ele precisava fazer nela tinha que ser mais profunda. Não na pele, mas na alma. Uma marca que a fizesse *querer* ficar, independentemente das regras, da luz ou da escuridão.

— A ponte vai abrir amanhã — sussurrou ele, a voz novamente firme, o controle se restabelecendo sobre a base instável que ela criara. — Nós vamos embora.

O pânico voltou aos olhos dela.

— E eu?

— Eu volto para te buscar. Ou eu te levo comigo. Eu ainda não sei. — Ele deu um sorriso sombrio. — Mas o nosso jogo está apenas começando, Eduarda. E no próximo capítulo, não haverá mais acordos com ninguém. Haverá apenas a minha vontade.

Ele a beijou uma última vez, um beijo rápido e possessivo, e a soltou.

— Agora entre. Está ficando frio. E não lave essa marca. Ainda não.

Ele a observou entrar em casa, a silhueta frágil desaparecendo na penumbra. Ele ficou sozinho no jardim, o ar frio enchendo seus pulmões. Ele havia mentido. Havia dito a ela o que ela precisava ouvir para mantê-la na linha, para acalmar sua rebelião. Mas a verdade era que ele não tinha a menor ideia de como resolveria aquele impasse.

A cor que ele descobrira não se contentava em ficar na paleta. Ela queria ser a tela inteira.

Emanuel olhou para o céu, onde as últimas cores do dia morriam no horizonte. Ele havia conseguido o que queria. Tinha as duas. Mas agora, pela primeira vez, ele sentia o peso esmagador de seu próprio desejo. Manter os dois mundos seria uma guerra. Uma guerra travada em duas frentes, contra uma rainha calculista e uma princesa teimosa.

E ele, no meio, começava a suspeitar que, no final, poderia ser o único a sair completamente destruído.