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Raízes e Sussurros

Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias de um acordo precário, uma guerra fria travada com sorrisos polidos e territórios demarcados. A “noite de normalidade” de Eduarda, conquistada com lágrimas e uma teimosia de aço envolta em veludo, havia se tornado a âncora de um navio fantasma. Era a única noite da semana em que Emanuel desligava o telefone, ignorava os e-mails de Sara e se permitia afundar na simplicidade de um cinema de shopping ou de uma pizza comida na caixa.

Para Sara, essas noites eram uma concessão estratégica, uma válvula de escape que mantinha seu imperador funcional. Em troca, ela exercia seu poder nos outros seis dias com uma eficiência gélida, administrando o império e a vida pública de Emanuel, lembrando-o constantemente de que a fundação do castelo era mais importante que a flor no jardim.

Emanuel vivia em um estado de cisão permanente. Era um rei com dois reinos, falando duas línguas, respirando dois ares. O ar rarefeito e sofisticado do mundo de Sara, feito de poder, ambição e sexo performático. E o ar denso e adocicado do mundo de Eduarda, feito de passeios no parque, conversas sussurradas e uma entrega emocional que era, ao mesmo tempo, seu refúgio e sua maior vulnerabilidade. Ele não era feliz. A felicidade era um luxo para homens com uma só alma. Mas ele era completo. E para ele, isso bastava.

A prova de fogo daquela estrutura bizarra veio na forma de um convite irrecusável: o aniversário de sessenta anos de sua mãe, na casa onde ele crescera, nos arredores de São Paulo. Uma casa com um grande quintal, que sua família insistia em chamar de terreiro, e com memórias impregnadas em cada parede. Sua mãe, uma matriarca de pulso firme e coração mole, fora clara: queria conhecer as duas mulheres de sua vida. Não para julgar, mas para entender.

E assim, ali estavam eles. Três universos colidindo sob o céu estrelado do interior paulista.

A casa de Dona Lúcia era o oposto do apartamento de Emanuel e Sara. Era quente, um pouco caótica, cheia de móveis de madeira escura, porta-retratos em cada superfície e o cheiro de bolo de fubá vindo da cozinha. Sara, impecável em um conjunto de calça e blusa de seda cor de marfim que provavelmente custava mais que todos os móveis da sala, movia-se pelo ambiente com a cautela de uma diplomata em território hostil. Ela sorria, elogiava a comida, contava anedotas polidas sobre suas viagens e mantinha uma taça de vinho branco na mão como um escudo. Era a Rainha em visita oficial a uma província rústica.

Eduarda, por outro lado, parecia ter nascido ali. Com um vestido florido simples e sandálias rasteirinhas, ela foi instantaneamente adotada pelas tias e primas de Emanuel. Ajudou a pôr a mesa, riu das piadas do tio mais velho e ouviu com atenção genuína as histórias de Dona Lúcia sobre a infância de Emanuel. Ela não estava atuando; estava absorvendo, pertencendo. Era a camponesa que encontrava seu campo.

Emanuel observava a cena, o coração um pêndulo oscilando entre o orgulho e o pânico. Sentia um orgulho imenso de Sara, de sua capacidade de se adaptar, de seu brilho inegável que impressionava até seus parentes mais céticos. E sentia um orgulho terno de Eduarda, de sua doçura que desarmava, de sua facilidade em se conectar. Mas o pânico vinha da justaposição. Vê-las juntas, no coração de sua família, tornava a sua vida dupla uma realidade inegável e monstruosa.

Após o jantar, a tradição começou. Seu tio, Roberto, um homem com uma barriga proeminente e uma voz de trovão, acendeu uma pequena fogueira no centro do terreiro. Cadeiras de plástico e de vime foram arrastadas para perto do fogo, e a família se acomodou, as sombras dançando em seus rostos.

— Hora da história! — bradou Roberto, esfregando as mãos com uma alegria maligna.

Um gemido coletivo e animado percorreu o grupo de primos mais novos. Eduarda, sentada em um banquinho baixo perto de Emanuel, inclinou-se para frente, os olhos brilhando com a luz do fogo e a expectativa.

— Eu amo histórias de assombração — sussurrou ela para Emanuel, a voz cheia de uma alegria infantil que o fez sorrir.

Sara, sentada do outro lado de Emanuel em uma cadeira mais confortável que ela mesma arranjara, bufou discretamente.

— Que primitivo — murmurou ela, pegando o celular. A luz fria da tela em seu rosto era uma barreira contra a atmosfera crepitante da fogueira.

Emanuel sentou-se entre elas, um istmo de carne e osso separando dois continentes. Colocou uma mão na coxa de Sara, um gesto de reconhecimento, de “eu estou aqui”. E com a outra, encontrou a mão de Eduarda, entrelaçando seus dedos, um gesto de cumplicidade, de “estamos juntos nisso”. O ato de tocar as duas ao mesmo tempo, de sentir a seda fria da calça de Sara e a pele macia e quente da mão de Eduarda, era a síntese de sua existência.

Tio Roberto começou com uma lenda local, a história de uma noiva abandonada no altar que assombrava a velha estação de trem da cidade. Sua voz era um instrumento, subindo para picos de suspense e caindo para sussurros fantasmagóricos. Os primos mais novos se encolhiam, as tias riam nervosamente.

Eduarda estava hipnotizada. A boca entreaberta, os olhos fixos no contador de histórias, ela apertava a mão de Emanuel a cada reviravolta assustadora. Ele sentia a eletricidade da imaginação dela, o prazer genuíno que ela encontrava naquele medo fabricado. Era a sua normalidade em sua forma mais pura.

Sara, por outro lado, estava se tornando uma estátua de gelo. A fachada de tédio sofisticado começava a rachar. Ela parou de rolar o feed do Instagram. Sua postura estava rígida, os ombros tensos. Quando o tio descreveu o som das unhas da noiva arranhando o vagão de trem, Sara deu um pulo quase imperceptível e sua mão livre agarrou o braço de Emanuel com uma força surpreendente.

Ele olhou para ela. Sob a luz da fogueira, o rosto dela, sempre tão controlado, estava pálido. Os olhos, normalmente afiados e analíticos, estavam arregalados, fixos na escuridão além do círculo de fogo. Ela estava com medo. Medo de verdade.

Uma mistura complexa de sentimentos o invadiu. Havia uma ponta de desprezo. Sara, a mulher que enfrentava conselhos de administração e destruía concorrentes com um e-mail, estava apavorada por uma história de fantasma para boi dormir. Era uma fraqueza que ele não esperava. Mas por baixo do desprezo, havia algo mais. Um instinto protetor. Ela era sua. Sua rainha. E rainhas não deveriam sentir medo.

Ele apertou a mão dela em seu braço, um gesto para acalmá-la. Ela não relaxou.

A história do tio Roberto terminou, e logo uma prima mais velha começou outra, sobre uma casa mal-assombrada na vizinhança. A atmosfera ficou mais pesada, os sussurros mais reais.

Eduarda, alheia à crise silenciosa que se desenrolava ao seu lado, virou-se para Emanuel, o rosto iluminado de felicidade.

— Não é incrível? Eu me sinto como se estivesse em um acampamento.

Ele forçou um sorriso, a mente dividida.

— É sim, meu bem.

Ele sentiu as unhas de Sara cravarem em seu braço. Ela se inclinou, o hálito cheirando a vinho branco e pânico.

— Emanuel, eu quero entrar — sibilou ela, a voz baixa e tensa. — Agora.

— Calma, Sara. É só uma história.

— Eu não me importo! É ridículo e eu estou com frio. Vamos entrar.

A ordem era clara. A rainha exigia uma retirada estratégica. Ele olhou para Eduarda, que agora ouvia atentamente a nova história, sobre um espelho antigo que roubava o rosto de quem olhasse para ele. Tirar Eduarda dali agora seria como arrancar uma criança do carrossel no meio da volta. Seria quebrar a magia, quebrar a promessa de normalidade.

Ele estava preso. O diplomata entre duas nações em guerra.

Ele tomou uma decisão. A decisão do controle.

— Está bem — disse ele, a voz um pouco mais alta do que o necessário, projetada para todo o grupo. — Acho que já está ficando tarde. Amanhã temos que pegar a estrada cedo.

Ele se levantou, puxando gentilmente as mãos de Sara e Eduarda, o mestre de cerimônias encerrando a festa.

— Vamos dormir, meninas.

Sara levantou-se imediatamente, o alívio inundando seu rosto. Ela soltou o braço dele e se recompôs, a máscara de sofisticação voltando ao lugar, embora um pouco torta.

— Finalmente. Estava começando a pensar que vocês iam querer caçar fantasmas com lençóis brancos.

A piada saiu ácida, um ataque velado à infantilidade do evento.

Emanuel ignorou. Seus olhos estavam em Eduarda.

Ela não se moveu. Continuou sentada no banquinho, olhando para ele de baixo, a cabeça inclinada. A expressão em seu rosto era a arma que ela aprendera a manejar com perfeição ao longo daquele ano. Uma mistura de manha, súplica e uma teimosia inabalável. Era o olhar que o havia derrotado um ano antes, o olhar que o forçara a aceitar seus termos.

— Ah, não, Manu… — A voz dela era um lamento suave, quase um ronronar. — Agora não. A prima Ana estava chegando na parte boa do espelho.

Ele sentiu um espasmo de irritação. Ela estava fazendo isso de propósito. Desafiando-o na frente de sua família.

— Duda, está tarde. E a Sara está cansada.

Ele tentou usar Sara como desculpa, um erro tático que ele percebeu no momento em que as palavras saíram de sua boca.

O olhar de Eduarda endureceu sutilmente.

— A Sara pode ir. Ninguém está a impedindo. — Ela se virou para a prima. — E aí, Ana? O que aconteceu quando a menina olhou no espelho?

O desafio foi lançado. Não a ele, mas à sua autoridade. Ela não estava apenas se recusando a ir; estava ignorando-o e continuando a atividade.

Sara, que já estava a caminho da casa, parou e se virou. Seus olhos faiscaram.

— O que você disse? — perguntou ela, a voz perigosamente calma.

Eduarda a olhou, a inocência em seu rosto agora parecendo uma provocação deliberada.

— Eu disse que você pode ir na frente. Nós vamos ficar só mais um pouquinho.

— “Nós”? — repetiu Sara, o sarcasmo pingando. — Que eu saiba, o Emanuel também está cansado. Não é, querido?

Ela jogou a pergunta para ele, exigindo que ele tomasse um lado. Exigindo que ele reforçasse a hierarquia.

Todo o terreiro ficou em silêncio. A contadora de histórias parou. As tias pararam de cochichar. Todos os olhos estavam no triângulo amoroso iluminado pela fogueira.

Emanuel sentiu o suor frio em sua nuca. Estava em uma armadilha. Se ordenasse que Eduarda entrasse, estaria quebrando o espírito do acordo deles, tratando-a como uma criança desobediente e provando que, no fim, as necessidades de Sara sempre viriam primeiro. Se cedesse a Eduarda, estaria minando publicamente a posição de Sara, humilhando sua rainha na frente de toda a sua corte familiar.

Ele olhou para Eduarda, sentada no chão, parecendo uma fada teimosa, a personificação de tudo o que era simples e emocional e complicado em sua vida. E olhou para Sara, de pé, uma silhueta de poder e fúria contida, a personificação de sua ambição, de seu mundo, de sua estrutura.

A armadura ou a pele.

Ele respirou fundo. A diplomacia havia falhado. A autocracia havia falhado. Restava a divisão.

Primeiro, ele se virou para Sara. Caminhou até ela, diminuindo a distância, tirando-a do centro do palco. Ele pegou as mãos dela, que estavam geladas.

— Você está certa. Vá na frente. O quarto já está arrumado. — Ele baixou a voz para que só ela pudesse ouvir. — Eu vou levar um chá de camomila para você. E a gente tranca a porta.

A oferta era clara. Atenção, serviço, intimidade e, o mais importante, exclusividade. A promessa de que, no final da noite, o território principal — o quarto, a cama — seria dela.

Sara hesitou, os olhos perscrutando os dele, avaliando a sinceridade da oferta. Ela viu a seriedade ali. Viu que ele estava lhe dando uma vitória, mesmo que fosse uma vitória privada. Ela assentiu, um movimento curto e brusco.

— Não demore — disse ela, não como um pedido, mas como uma ordem.

Ela se virou e caminhou para dentro da casa, a cabeça erguida, sem olhar para trás. A rainha havia se retirado do campo de batalha, mas não como uma fugitiva. Como alguém que fora chamada a aposentos mais importantes.

Emanuel a observou ir, sentindo o peso daquela pequena vitória. Agora, a outra frente de batalha.

Ele se virou e voltou para a fogueira. O murmúrio de conversas recomeçou, a tensão se dissipando. Ele se sentou no chão, ao lado de Eduarda, no espaço vazio deixado por sua cadeira. O gesto foi uma declaração. Ele não estava mais no meio. Ele havia escolhido um lado, pelo menos por agora.

Ele passou um braço em volta dos ombros dela, puxando-a para si. Ela se aninhou contra ele instantaneamente, a cabeça repousando em seu ombro, um suspiro de contentamento escapando de seus lábios. Ela havia vencido.

— Onde paramos? — perguntou ele ao grupo, a voz casual, como se nada tivesse acontecido. — A menina olhou no espelho…

A prima Ana, aliviada, retomou a história.

Eduarda ergueu o rosto para olhar para Emanuel, os olhos brilhando com gratidão e um amor que o desarmava.

— Obrigada — sussurrou ela, a voz manhosa e vitoriosa.

— Você é uma pestinha teimosa, sabia? — murmurou ele em seu cabelo, o tom de repreensão desmentido pelo aperto de seu abraço.

— Eu sei. — Ela sorriu contra o ombro dele. — Mas você gosta.

Ele não respondeu. Apenas a apertou mais forte, inalando o cheiro de flores e fumaça de seus cabelos. Sim, ele gostava. Odiava e gostava. Odiava o fato de ela desafiá-lo, de forçá-lo a fazer escolhas impossíveis. E amava a força que ela encontrara, a dignidade com que ela lutava por seus pequenos pedaços de normalidade.

Ele ouviu o resto da história, mas sua mente estava longe. Estava no andar de cima, no quarto onde Sara o esperava. Pensava no chá que teria que preparar, na conversa que teria que ter, na performance que teria que executar para reequilibrar a balança.

A história terminou, seguida por outra, e mais outra. Eduarda adormeceu em seus braços, exausta pela emoção e pelo dia. Ele a observou dormir, o rosto sereno sob a luz bruxuleante da fogueira, e sentiu uma onda de ternura tão avassaladora que quase doeu. Ela era a sua paz. Uma paz pela qual ele tinha que lutar uma guerra constante.

Com cuidado, ele a pegou no colo. Ela resmungou, aninhando-se em seu peito, sem acordar. Ele se despediu de sua família, que sorria com cumplicidade para a cena doméstica. Para eles, aquilo era normal. Um homem levando sua namorada adormecida para a cama. Eles não viam a outra rainha esperando no castelo.

Ele subiu as escadas, o peso de Eduarda em seus braços era leve, mas o peso de sua vida era esmagador. Ele a levou para o quarto de hóspedes que sua mãe havia preparado para ela, do outro lado do corredor do seu. Deitou-a na cama e a cobriu. Ela nem se mexeu. Ele ficou olhando para ela por um momento, a marca de sua posse dormindo tranquilamente. Resistiu ao impulso de se deitar ao lado dela, de se render àquela paz e esquecer o resto do mundo.

Ele beijou a testa dela e saiu, fechando a porta suavemente.

Atravessou o corredor. A porta de seu antigo quarto, agora o quarto dele e de Sara, estava fechada. Ele respirou fundo, trocando de pele, mudando de reino. Abriu a porta.

Sara estava sentada na cama, vestindo um de seus caros robes de seda. Lia um livro de capa dura, mas ele sabia que ela não estava lendo. Ela o esperava. A lâmpada do abajur lançava uma luz dourada sobre ela, fazendo-a parecer uma deusa em seu templo.

— O passarinho finalmente dormiu? — perguntou ela, sem erguer os olhos do livro.

— Sim.

— Que bom. A babá pode finalmente descansar. — Ela fechou o livro com um estalo. — E o meu chá?

Ele se sentiu como um servo. Um servo de dois mestres.

— Vou buscar.

Ele desceu até a cozinha silenciosa, ferveu a água, preparou o chá de camomila exatamente como ela gostava, com uma rodela de limão. Enquanto esperava a infusão, encostou-se na bancada e fechou os olhos.

Sentia-se esgotado. Dividido ao meio. Cada vitória de um lado era uma dívida do outro. Cada momento de paz com Eduarda era pago com horas de negociação e performance com Sara. E cada momento de poder e parceria com Sara era assombrado pela memória da simplicidade que ele só encontrava com Eduarda.

Ele pegou a xícara e voltou para o quarto. Entregou-a a Sara. Ela aceitou, bebericando o líquido quente.

— A sua família é… pitoresca — disse ela, a palavra soando como um eufemismo para “primitiva”.

— Eles são a minha raiz, Sara.

— Eu sei. E raízes são importantes. Desde que não nos impeçam de crescer. — Ela o olhou por cima da borda da xícara, os olhos azuis calculistas. — Você a deixou vencer hoje, na frente de todos.

— Eu evitei uma cena.

— Não. Você a deixou marcar território. Você mostrou a todos que a vontade dela pode se sobrepor à minha. Foi um erro. Hierarquia, Emanuel. Lembre-se da hierarquia.

Ele se sentou na beirada da cama, cansado demais para discutir.

— Foi só uma história de fantasma, Sara.

— Nunca é só uma história de fantasma. — Ela colocou a xícara na mesa de cabeceira. — É sempre sobre poder. E hoje você deu a ela um pouco demais.

Ela deslizou pela cama, o corpo sinuoso se movendo sob a seda. Suas mãos subiram pelo peito dele, desabotoando sua camisa.

— Mas tudo bem. Agora você está aqui. No meu território. E aqui… — Suas unhas arranharam levemente a pele dele. — …as regras são minhas. E a primeira regra é que você tem uma dívida a pagar.

Seus lábios encontraram os dele, um beijo faminto, possessivo, que não pedia, mas tomava. Era um beijo de reafirmação de poder, um ato de reconquista.

Emanuel se rendeu, deixando-se levar pela força dela, pela familiaridade daquele jogo. Seu corpo respondia, mas sua mente estava fragmentada. Enquanto beijava sua rainha, sentindo o gosto de vinho e poder, ele ainda sentia o fantasma do peso de Eduarda em seus braços, o cheiro de fumaça e flores em sua camisa.

Ele fechou os olhos e se viu novamente no terreiro, sentado entre as duas. Uma era o fogo, crepitante, perigoso, que o aquecia e ameaçava consumi-lo. A outra era a bruma, suave, etérea, que o envolvia e o fazia perder o rumo.

E ele, no meio, não era o mestre do fogo nem o senhor da bruma. Era apenas um homem tentando não ser queimado vivo enquanto se perdia irremediavelmente na névoa. Ele havia pensado que poderia ter tudo. E talvez tivesse. Mas naquela noite, no silêncio da casa de suas raízes, sob o olhar atento de seus fantasmas pessoais, ele começou a entender o verdadeiro custo de sua ambição. Ter tudo significava não pertencer verdadeiramente a lugar nenhum. Era ser um rei exilado em seus próprios reinos.