D
A Queda do Cisne
A música era uma entidade viva. Enchia o veludo vermelho e o ouro envelhecido do Theatro Municipal, subindo pelas colunas ornamentadas, aninhando-se nos balcões e derramando-se sobre a plateia em uma cascata de som e emoção. Para Eduarda, sentada entre o pai e a mãe, a música não era apenas ouvida; era sentida, uma vibração que começava na sola dos pés e subia até fazer seu coração bater no ritmo da orquestra.
Era uma das suas noites “normais”. Uma noite que não pertencia a Emanuel. Pertencia à sua família.
Seu pai, Marcos, um homem cuja apreciação por arte se limitava a um bom churrasco, estava surpreendentemente absorto, a testa franzida em concentração enquanto tentava seguir a narrativa de *O Lago dos Cisnes*. Sua mãe, Helena, tinha os olhos marejados, perdida na beleza trágica da dança. Eduarda segurava a mão dela, sentindo na pele o elo simples e inquebrável que as unia.
No palco, Odette, o cisne branco, dançava sua dor e seu anseio. Cada movimento era uma sílaba de uma poesia corporal, uma expressão de vulnerabilidade e força. Eduarda assistia, fascinada. Naquele ano, ela aprendera a lutar por seu próprio espaço, a ser teimosa, a negociar. Mas, no fundo, ela ainda se sentia como Odette: uma criatura de duas naturezas, presa entre a luz do dia de sua vida normal e a noite encantada e perigosa de seu amor por Emanuel.
As sextas-feiras eram dele. As noites em que ela se permitia ser a sua princesa, em que ele se rendia à sua normalidade forçada. Mas as outras noites, como esta, eram dela. Eram a prova de que ela ainda tinha um reino próprio, um que não era governado por ele.
Quando as luzes se acenderam e os aplausos explodiram, Eduarda sentiu uma onda de felicidade pura e descomplicada. Levantou-se com a multidão, aplaudindo com fervor, o rosto iluminado por um sorriso genuíno.
— Foi a coisa mais linda que eu já vi — disse ela, virando-se para os pais.
— Realmente, filha. Mágico — concordou Helena, enxugando uma lágrima discreta.
— Não entendi por que a de preto era má, ela dançava melhor — resmungou Marcos, o que fez Eduarda e a mãe rirem.
A multidão começou a se mover lentamente em direção à saída, um rio de pessoas bem-vestidas e animadas. Eduarda sentia-se flutuando, ainda sob o feitiço do espetáculo. Do lado de fora, a noite de São Paulo os recebeu com sua cacofonia habitual: buzinas, sirenes distantes, o zumbido de conversas. O ar era pesado e úmido.
— Que tal um sorvete? — sugeriu Marcos, já de olho em uma sorveteria do outro lado da praça.
— Pai! Está frio! — protestou Eduarda, rindo.
— Nunca está frio demais para sorvete. É a lei.
Eles caminhavam pela calçada lotada, Helena segurando o braço do marido, Eduarda um passo atrás, olhando para a fachada iluminada do teatro, tentando guardar cada detalhe daquela noite perfeita.
Foi quando o som rasgou o ar.
Não foi como nos filmes. Não foi um tiro limpo e distinto. Foi um estouro seco, abafado, seguido por outro. Um som que poderia ser um pneu estourando, um rojão atrasado. Por uma fração de segundo, ninguém reagiu. A multidão apenas hesitou, um corpo coletivo franzindo a testa em confusão.
Então veio o grito.
E depois, o caos.
Pessoas começaram a correr, a se empurrar. A confusão se transformou em pânico. Um assalto, alguém gritou. Um arrastão. A palavra se espalhou como fogo.
Marcos agiu por instinto, puxando Helena para perto e se virando para proteger Eduarda.
— Fiquem atrás de mim!
Eduarda sentiu o empurrão de seu pai e, ao mesmo tempo, uma pancada quente e estranha no peito. Não doeu. Foi mais como um soco, um impacto surdo que a fez perder o ar. Ela tropeçou para trás, a mão subindo instintivamente para o local do impacto.
— Ai… — murmurou ela, mais surpresa do que com dor.
Olhou para a mão. Estava limpa. Olhou para o seu vestido, um modelo azul-claro que ela comprara especialmente para a ocasião. Havia uma pequena mancha escura se formando no tecido, logo abaixo da clavícula. Parecia uma gota de vinho tinto.
— Duda? Você está bem? — A voz de Helena era aguda de pânico.
Eduarda abriu a boca para responder, para dizer que sim, que estava bem, que só tinha levado um encontrão. Mas as palavras não vieram. Em vez disso, uma sensação de calor começou a se espalhar por seu peito, e o ar que ela tentava puxar parecia não chegar aos pulmões. Suas pernas fraquejaram.
— Mãe… — sussurrou ela, e o mundo começou a girar.
Ela viu o rosto de seu pai se contorcer em horror quando ele olhou para o seu peito. A mancha escura não era mais uma gota. Estava crescendo, florescendo no tecido azul como uma flor macabra.
— Pelo amor de Deus! — gritou Marcos.
O grito dele se misturou ao caos da rua. Eduarda sentiu os braços do pai a amparando enquanto ela desabava. A dor chegou de repente, uma queimação lancinante que roubou todo o seu fôlego. O som da cidade se tornou um zumbido distante. A última coisa que ela viu antes de a escuridão a engolir foi o rosto de sua mãe, uma máscara de terror e incredulidade, os lábios se movendo, formando seu nome sem som.
O cisne branco havia caído.
***
Emanuel estava em guerra. Sentado na cabeceira da mesa de reuniões de vinte lugares em seu escritório, ele era um general comandando suas tropas. À sua frente, advogados, contadores e executivos se encolhiam sob o peso de seu descontentamento.
— Inaceitável — disse ele, a voz um barítono baixo e perigoso. Ele jogou uma pasta sobre a mesa polida. — O contrato com o grupo de Xangai tem uma cláusula de exclusividade que o nosso departamento jurídico aparentemente usou como papel de rascunho. Isso nos custou oito milhões. E custou a alguém o seu emprego.
Sara, sentada à sua direita, observava com uma admiração fria. Este era o Emanuel que ela amava. O predador. O imperador. Impiedoso, brilhante e totalmente no controle. Ela interveio, a voz suave e cortante.
— O que Emanuel quer dizer é que precisamos de uma solução até o amanhecer, ou cabeças vão rolar. E as minhas unhas estão afiadas hoje.
Foi nesse momento que o celular privado de Emanuel, o que ficava sempre no silencioso, começou a vibrar sobre a mesa. Era uma vibração insistente, violenta. Todos na sala olharam para o aparelho. Apenas duas pessoas no mundo tinham aquele número. Sara e Eduarda.
Emanuel franziu a testa. Eduarda nunca ligava quando ele estava trabalhando. Era uma regra implícita. Eram quase dez da noite. Ela deveria estar em casa, depois do balé com os pais.
Um arrepio de mau pressentimento percorreu sua espinha. Ele fez um gesto de dispensa para os executivos.
— Fora. Todos vocês. Dez minutos.
A sala se esvaziou em segundos. Sara permaneceu, os olhos fixos nele, curiosos.
Emanuel atendeu, a voz ríspida.
— Eduarda, estou em uma reunião.
Mas não era a voz dela. Era um som quebrado, um soluço gutural.
— Emanuel… sou eu, o Marcos.
A postura de Emanuel mudou instantaneamente. A rigidez do executivo deu lugar a uma imobilidade de predador farejando perigo.
— Marcos? O que aconteceu? Cadê a Eduarda?
— Ela… oh, meu Deus… ela levou um tiro.
A frase caiu no silêncio do escritório como uma pedra em um lago congelado, estilhaçando tudo. O mundo de Emanuel parou. O contrato de Xangai, os oito milhões, a reunião… tudo se dissolveu em uma névoa sem sentido. A única realidade era aquela frase. *Ela levou um tiro.*
— Onde? — A voz de Emanuel era um rosnado, desumano.
— No peito. Estamos a caminho do Hospital das Clínicas. A ambulância… Emanuel, tem tanto sangue…
— Estou a caminho. — Emanuel desligou.
Ele se levantou, o movimento tão rápido que a cadeira de couro de duzentos mil reais quase tombou para trás.
— O que foi? — perguntou Sara, a expressão mudando de curiosa para alerta.
— A Eduarda. Ela foi baleada.
Sara piscou. A informação não parecia se encaixar em nenhuma de suas planilhas mentais.
— Baleada? Como? Onde?
— Não importa. — Emanuel já estava pegando as chaves do carro e a jaqueta. Sua mente, treinada para a crise, operava em alta velocidade. — Cancele tudo. Minha agenda está limpa por tempo indeterminado. Ligue para o Dr. Bastos, o chefe de cirurgia cardíaca do Sírio-Libanês. Diga que estou a caminho do HC e quero ele lá em vinte minutos. Se ele estiver em casa, mande o helicóptero buscá-lo. Eu quero a melhor equipe do país. E ligue para a minha segurança. Quero o hospital fechado. Ninguém entra, ninguém sai sem a minha autorização. Nenhuma informação para a imprensa. Entendeu?
Sara o encarava, chocada. Não pela eficiência das ordens, mas pela fúria crua e o pânico animal nos olhos dele. O imperador havia desaparecido. Em seu lugar, havia uma fera ferida, pronta para destruir o mundo para proteger o que era seu.
— Emanuel, calma…
— CALMA? — ele gritou, e a força de sua voz fez as vidraças do escritório tremerem. — A MINHA GAROTA ESTÁ NUMA AMBULÂNCIA COM UM BURACO NO PEITO E VOCÊ ME PEDE CALMA?
Ele nunca havia gritado com ela daquela maneira. Nunca.
— Faça o que eu mandei, Sara! — rosnou ele, já se dirigindo para a porta.
— E a reunião? O contrato? — A pergunta dela era um reflexo, a tentativa de trazer a lógica de volta para uma situação que havia mergulhado no caos.
Emanuel parou na porta e se virou. O olhar que ele lhe deu era o de um estranho. Frio, mortal e completamente alienado de tudo o que eles haviam construído juntos.
— Que se foda o contrato. Que se foda Xangai. Que se foda o império. Se ela morrer… — Ele não terminou a frase. Não precisava. A promessa de aniquilação total estava em seus olhos. — Apenas faça as ligações.
Ele saiu, batendo a porta com uma força que fez um dos quadros abstratos na parede cair e se espatifar no chão.
Sara ficou sozinha no silêncio da sala de guerra, o som do vidro quebrado ecoando. Ela olhou para a porta fechada, para o quadro destruído no chão. A hierarquia havia sido pulverizada. A fundação do castelo estava sendo sacrificada pela flor no jardim.
Um sorriso lento, frio e perigoso se formou em seus lábios. Ele havia cometido um erro. Um erro fatal. Ele havia mostrado a ela, sem sombra de dúvida, que a camponesa não era um luxo. Era o coração dele.
E Sara, uma mulher de negócios, sabia exatamente o que fazer quando o coração de seu parceiro se tornava uma vulnerabilidade.
Ela pegou o celular. Mas não ligou para o Dr. Bastos. Ligou para seu investigador particular.
— Ricardo? Sou eu. Preciso de tudo o que você puder encontrar sobre um tiroteio perto do Theatro Municipal esta noite. Vítimas, testemunhas, câmeras de segurança. Quero saber quem puxou o gatilho. E quero saber antes da polícia. Pague o que for preciso.
Ela desligou e então, com uma calma assustadora, ligou para o cirurgião. Ela faria o que Emanuel pediu. Manteria o império funcionando. Mas, ao mesmo tempo, começaria a tecer sua própria teia. Porque a queda de um cisne poderia muito bem ser a ascensão de uma rainha. Uma rainha solitária.
***
O Hospital das Clínicas era um microcosmo do inferno. Corredores apinhados, o cheiro de desinfetante e desespero, o som constante de bipes e choros abafados. Emanuel atravessou tudo como um furacão, seus seguranças abrindo caminho. Ele encontrou Marcos e Helena em uma sala de espera estéril, encolhidos em cadeiras de plástico laranja.
Helena estava catatônica, o olhar perdido, o vestido de festa manchado com o sangue da filha. Marcos estava de pé, andando de um lado para o outro, as mãos manchadas de vermelho, o rosto uma máscara de agonia.
Quando viu Emanuel, ele correu em sua direção, agarrando seus braços.
— Emanuel! Graças a Deus! Eles a levaram… ela não estava respirando direito…
Emanuel olhou para o estado dos pais de Eduarda, para o sangue nas roupas deles, e uma raiva tão pura e branca o consumiu que ele quase perdeu a visão. A normalidade. A vida simples e protegida que ela tanto queria. Havia sido violada da forma mais brutal possível.
— Onde ela está?
— Sala de cirurgia. Eles disseram… disseram que a bala está perto do coração.
O coração. A palavra o atingiu. O coração que ele havia reivindicado como seu.
Nesse momento, um médico jovem, com cara de exausto, aproximou-se do grupo.
— Parentes de Eduarda Ferraz?
— Eu sou o namorado dela — disse Emanuel, a voz não admitindo contestação. Ele se colocou entre o médico e os pais, tomando o controle. — Qual é a situação?
O médico, intimidado pela presença de Emanuel e seus seguranças, gaguejou.
— Ela perdeu muito sangue. O projétil está alojado em uma área muito delicada, perto da artéria pulmonar. Estamos fazendo o nosso melhor, mas…
— O seu melhor não é bom o suficiente. — A voz de Emanuel era gelo puro. — O Dr. Alberto Bastos está a caminho. Ele vai assumir a cirurgia. Preparem a sua melhor sala de operação. Agora.
O médico piscou, confuso.
— O Dr. Bastos? Do Sírio? Mas isso é…
— Uma ordem — completou Emanuel. — E se a minha namorada não tiver o melhor cirurgião do país enfiando as mãos nela nos próximos dez minutos, eu juro por Deus que vou comprar este hospital decrépito e transformá-lo em um estacionamento. Agora, mexa-se.
O médico, pálido, correu para longe.
Emanuel se virou para os pais de Eduarda. Sua fúria se transformou em uma calma controladora.
— Helena. Marcos. Vocês precisam ir para casa, se limpar, descansar.
— Não! — soluçou Helena. — Eu não saio daqui sem a minha filha!
— Vocês não vão ajudar em nada neste estado. Meus homens vão levá-los para o meu apartamento. É seguro, é quieto. Vocês podem tomar um banho, comer alguma coisa. Eu fico aqui. Eu ligo assim que tiver notícias.
Ele não estava pedindo. Estava organizando. Estava limpando o campo de batalha de civis para que pudesse lutar sua guerra.
Marcos, esgotado demais para discutir, apenas assentiu. Ele ajudou a esposa a se levantar. Antes de sair, ele olhou para Emanuel, os olhos cheios de uma gratidão desesperada.
— Salve ela, Emanuel. Por favor.
Emanuel apenas assentiu, o maxilar travado. A ironia era brutal. O homem que representava o perigo, a complexidade, o mundo do qual eles queriam proteger sua filha, era agora a única esperança deles.
Ele ficou sozinho no corredor. O rei em seu castelo de poder, esperando do lado de fora da única porta que ele não podia arrombar. Ele podia comprar médicos, helicópteros e hospitais. Mas não podia parar uma hemorragia interna com a força de sua vontade. Não podia desfazer o que uma pequena peça de metal, disparada ao acaso, havia feito.
A espera foi a pior tortura que ele já conhecera. O tempo se desintegrou. Os minutos se arrastavam como horas. Cada bipe de uma máquina no corredor era uma facada em seus nervos. Ele andava de um lado para o outro, um animal enjaulado, a mente repassando a última conversa deles. A briga na casa de sua mãe, a teimosia dela, a vitória dela. O sorriso dela quando ele cedeu. O cheiro dela em seus braços.
Ele pensou na normalidade que ela pedia. Cinema, pizza, sorvete. Coisas tão frágeis, tão banais. E ele, em sua arrogância, havia barganhado com elas, concedendo-as como um rei concede favores. Agora, ele daria seu império inteiro, sua alma, por mais uma sexta-feira normal com ela. Por mais um passeio no parque.
A raiva voltou, mais forte do que antes. Raiva do assaltante anônimo, da cidade violenta, do destino aleatório. Mas, principalmente, raiva de si mesmo. Ele a havia trazido para o seu mundo, mesmo que tentasse manter as aparências. Sua presença na vida dela, por mais compartimentalizada que fosse, a havia marcado, a havia exposto. Ele não sabia como, mas sentia em seus ossos que aquilo não fora um acidente. O caos tinha uma ordem. E ele estava no centro dela.
Três horas depois, a porta da área cirúrgica se abriu. Dr. Bastos saiu, o rosto cansado por trás da máscara cirúrgica. Ele era um homem mais velho, com olhos que já tinham visto de tudo. Eram os olhos de um deus cansado.
Emanuel parou de andar. Seu corpo inteiro ficou rígido. O mundo se resumiu àquele corredor, àquele homem e à notícia que ele trazia.
— Doutor?
Bastos suspirou, puxando a máscara para baixo.
— Foi por muito pouco, Emanuel. Muito, muito pouco. A bala atravessou o pulmão e se alojou a milímetros da aorta. Qualquer movimento a mais na ambulância…
— Mas? — A palavra de Emanuel foi um sussurro desesperado.
— Mas conseguimos. Removemos o projétil. Estancamos a hemorragia. Ela é forte. Muito forte. — O médico colocou uma mão no ombro de Emanuel, um gesto raro de familiaridade. — Ela está estável. Induzimos o coma para ajudar na recuperação. As próximas quarenta e oito horas são críticas, mas… eu acredito que ela vai conseguir.
O alívio foi tão violento que as pernas de Emanuel cederam. Ele se apoiou na parede, a cabeça caindo para frente, o ar saindo de seus pulmões em um soluço seco e áspero. Ele não chorou. Apenas tremeu, o corpo finalmente liberando a tensão insuportável.
Ela estava viva.
A base do seu mundo, que havia se transformado em areia movediça, solidificou-se novamente.
— Posso vê-la?
— Cinco minutos. Ela está na UTI.
Ele seguiu o médico por um labirinto de corredores silenciosos. A UTI era um santuário de tecnologia e fragilidade. E lá estava ela, em uma cama no centro de uma teia de tubos e fios.
A visão o destruiu.
O rosto dela estava pálido, quase translúcido. Os lábios, que ele beijara tantas vezes, estavam sem cor. Um tubo saía de sua boca, ligado a uma máquina que respirava por ela, o som rítmico e sibilante enchendo o quarto. Monitores piscavam com os sinais vitais que eram a única prova de que ela ainda estava ali.
Ela parecia tão pequena. A Odette adormecida, a princesa encantada, esperando um beijo que não a acordaria.
Ele se aproximou da cama, o coração se partindo a cada passo. Com a mão trêmula, tocou o braço dela, evitando os fios e os acessos intravenosos. A pele dela estava fria.
— Duda… — sussurrou ele, a voz rouca. — Sou eu. Estou aqui.
Ele olhou para o peito dela, onde um curativo imaculado cobria o local da ferida. O local onde a violência do mundo havia invadido seu santuário.
Naquele momento, olhando para o corpo frágil e quebrado da mulher que era a sua paz, Emanuel sentiu algo mudar dentro de si. A cisão, a vida dupla, o jogo de equilíbrio… tudo isso pareceu uma indulgência estúpida de um tempo de paz que não existia mais.
A normalidade que ela queria, a vida simples e segura, havia se provado uma ilusão. O mundo real, o mundo dele, era feito de violência e poder. E a única maneira de protegê-la não era se rendendo à normalidade dela, mas envolvendo-a completamente na força da sua escuridão.
Ele não seria mais seu namorado de meio período. Ele não negociaria mais noites de cinema.
Quando ela acordasse, ela não acordaria mais em seu mundo. Acordaria no dele. Seria sua, não por acordo, mas por necessidade. Ele a trancaria em uma torre de ouro e marfim, com guardas nos portões e dragões no fosso. Ele se tornaria seu protetor, seu carcereiro, seu deus. A normalidade havia falhado em protegê-la. Agora, a sua obsessão o faria.
Ele se inclinou e beijou a testa fria dela.
— Eu vou encontrar quem fez isso, meu amor — sussurrou ele, a promessa um voto sombrio no silêncio da UTI. — E eu vou fazê-lo pagar. Não com a justiça. Mas com a minha. Você nunca mais vai se machucar. Eu juro.
Ele se afastou da cama, o coração não mais partido, mas forjado em gelo e fúria. A dor havia se transformado em propósito. A queda do cisne não seria o fim da história. Seria o início de um novo ato. Um ato escrito em sangue e vingança. E dirigido por um rei que havia redescoberto a sua coroa no inferno.