D
O Ritmo Descompassado do Coração
Seis meses. A vida de Eduarda agora era medida em ciclos de tempo que antes não existiam. Havia o antes e o depois da bala. E agora, havia a vida dentro das paredes de vidro e concreto da cobertura que pairava sobre São Paulo como um ninho de águia.
Era uma vida de seda e silêncio. As manhãs começavam com o zumbido suave da máquina de café de design italiano e a visão de Sara, já impecável em um robe de cetim, lendo relatórios financeiros em seu tablet na ilha de mármore da cozinha. A relação delas, nos últimos seis meses, havia se solidificado em uma forma bizarra de civilidade. Era um pacto de não agressão, um tratado silencioso entre duas nações que compartilhavam um território vital: Emanuel.
Elas não eram amigas. Amizade implicava calor, confiança. O que elas tinham era uma aliança fria, forjada pela necessidade. Sara era a administradora do reino, e Eduarda, a joia da coroa, o tesouro que precisava ser guardado. Sara entendia que a felicidade de Eduarda — ou, mais precisamente, a ausência de sua infelicidade explícita — era crucial para a estabilidade do imperador. E Eduarda aprendera que a aprovação tácita de Sara era a chave para uma existência minimamente pacífica.
Emanuel, por sua vez, havia se transformado. O predador que a caçara na casa de campo dera lugar a um guardião. Um guardião obsessivo e aterrorizante em sua devoção. Ele a salvara. E agora, ele a possuía de uma forma que o acordo de “namorado normal” jamais permitiria. Ele não a prendia com correntes, mas com cuidados. Com os melhores médicos, as roupas mais caras, a comida mais saudável preparada por um chef particular, os seguranças que a seguiam discretamente sempre que ela saía do prédio. Ele a envolvera em um casulo de luxo e proteção tão espesso que, às vezes, ela sentia que não conseguia respirar.
E então, havia a dor.
Começara como um fantasma. Uma pontada ocasional, uma lembrança do trauma aninhada sob a cicatriz perfeitamente curada logo abaixo de sua clavícula. O Dr. Bastos, em seus check-ups mensais, garantia que era normal. “Memória do tecido”, ele chamava. Mas, nas últimas semanas, o fantasma ganhara corpo. A dor não era mais uma pontada. Era uma pressão surda, um peso constante, como se uma mão invisível estivesse apertando seu coração.
Ela estava na varanda, a mesma varanda onde, meses antes, vira a cidade se estender como um oceano de luzes, sentindo-se vitoriosa. Agora, a cidade parecia uma ameaça, um monstro adormecido que a havia ferido quase mortalmente. Ela levou a mão ao peito, massageando o local da dor.
— Se continuar esfregando, vai irritar a pele. E a seda é um tecido que não perdoa imperfeições.
A voz de Sara, vinda da porta de vidro, era suave como o tecido que mencionara, e igualmente fria. Ela segurava duas taças de champanhe.
Eduarda baixou a mão rapidamente, como uma criança pega em flagrante.
— Não é nada. Só um comichão.
Sara aproximou-se, entregando-lhe uma das taças. Seus olhos azuis, analíticos, percorreram o rosto de Eduarda.
— Comichão. Certo. — Ela se apoiou no parapeito de vidro, o horizonte da cidade refletido em seus óculos de sol de grife. — Você tem tudo o que uma garota poderia sonhar, Eduarda. Um homem que, como descobrimos, literalmente incendeia o mundo por você, e um acesso irrestrito ao meu closet. A dor no peito é o preço do frete.
Eduarda não respondeu. Apenas olhou para as bolhas subindo na taça. A crueldade de Sara era tão direta que quase soava como um conselho prático.
— Ele chega em uma hora — continuou Sara, mudando de assunto com a mesma facilidade com que mudava de sapatos. — O jantar com os investidores japoneses foi um sucesso. Ele vai estar de bom humor. Sugiro que você use o vestido preto da Chanel que chegou ontem. Mostra a cicatriz de um jeito poético. Ele gosta disso. Lembra a ele que você é a sua maior vitória.
Sara bebeu um gole de seu champanhe e se virou para entrar.
— E, querida — acrescentou ela, parando na porta —, pare de se preocupar. A ansiedade causa rugas. E, ao contrário de cicatrizes de batalha, elas não são nada poéticas.
Eduarda ficou sozinha na varanda, a taça gelada em sua mão. A dor em seu peito se intensificou. Não era apenas física. Era a dor de ser um símbolo. A vitória de Emanuel. O investimento de Sara. Uma boneca de porcelana quebrada e consertada com ouro, mais valiosa, porém infinitamente mais frágil.
Quando Emanuel chegou, encontrou-a vestindo o tal vestido preto. Ele sorriu, o sorriso cansado de um rei retornando ao seu castelo. Deixou a pasta de couro no chão e a envolveu em seus braços, o rosto se enterrando em seu cabelo.
— Senti sua falta — sussurrou ele, a voz um trovão baixo contra sua orelha.
Ela se aninhou em seu peito, o cheiro dele — uma mistura de perfume caro, cidade e poder — a envolvendo. Por um momento, a dor se dissipou. Ali, em seus braços, ela estava segura. Mas o momento passou, e a pressão em seu peito retornou, mais forte, como se protestasse contra a proximidade dele.
Ela se afastou um pouco, tentando disfarçar o desconforto.
— Como foi a reunião?
— Um massacre. Fechamos o negócio. — Ele a segurou pelos ombros, os olhos intensos percorrendo seu rosto. — Mas isso não importa. Como você está? Comeu direito? Saiu hoje? Onde está o Ricardo?
Ricardo era o chefe de sua equipe de segurança, um homem com o pescoço mais grosso que a coxa de Eduarda, cuja sombra a acompanhava para todo lado.
— Estou bem, Emanuel. Comi a salada que o chef preparou. Fui até a livraria no térreo. Ricardo estava na porta, lendo um livro sobre jardinagem. — Ela tentou fazer uma piada, mas sua voz saiu fraca.
Ele não sorriu. Seus olhos se estreitaram.
— Você está pálida.
— É a luz.
Ele colocou a mão em sua testa.
— E está fria. Você não está com febre?
— Emanuel, eu estou bem — disse ela, a paciência começando a se esvair.
Mas então, uma pontada mais aguda, mais violenta, a atingiu. Ela ofegou, a mão voando para o peito, o corpo se curvando para a frente. A taça de champanhe que ela ainda segurava escorregou de seus dedos e se espatifou no chão de mármore.
O som do vidro quebrando foi como um tiro de largada.
A calma de Emanuel se evaporou. O guardião deu lugar à fera.
— O que foi? O que você sentiu? — Ele a segurava, os olhos selvagens de pânico.
— Nada… foi só… uma cãibra…
— NÃO MINTA PARA MIM! — ele rugiu, e o poder em sua voz fez o ar vibrar. — É a dor de novo, não é? Há quanto tempo você está sentindo isso?
Ela o encarou, apavorada pela fúria em seu rosto. Era a mesma fúria que ele mostrara no hospital, a fúria que dobrava o mundo à sua vontade.
— Algumas semanas — sussurrou ela, derrotada.
Ele a pegou no colo, ignorando seus protestos, e a carregou para o sofá, deitando-a como se ela fosse feita de vidro.
— SARA! — gritou ele.
Sara apareceu na porta do escritório, o celular na orelha. Ela ergueu uma sobrancelha.
— Sim?
— Ligue para o Bastos. Agora. Diga a ele para encontrar a gente na clínica em trinta minutos. E mande prepararem a suíte presidencial. Ela vai passar a noite lá.
Sara olhou para a cena — Eduarda encolhida no sofá, Emanuel pairando sobre ela como um dragão, os cacos de vidro e o champanhe no chão — e seu rosto permaneceu impassível.
— Algum sintoma específico que eu deva relatar ou apenas um colapso dramático geral? — perguntou ela, a voz seca.
— Ela está com dor no peito. Há semanas. E não me disse nada!
Sara olhou para Eduarda, e por uma fração de segundo, Eduarda viu algo em seus olhos. Não era pena. Era uma espécie de reconhecimento sombrio. Ela desligou o celular e discou outro número.
— Dr. Bastos? É a Sara. Sim, do lado do Emanuel. Temos uma situação.
Enquanto Sara orquestrava a logística com a eficiência de um general, Emanuel se ajoelhou ao lado de Eduarda. Sua fúria se transformara em um desespero controlado.
— Por que você não me disse, Duda? — A voz dele era rouca, cheia de uma dor que espelhava a dela. — Eu teria feito qualquer coisa.
— Porque eu não queria isso — sussurrou ela, gesticulando para o caos que ele criara em menos de um minuto. — Eu não queria os médicos, a clínica, o pânico. Eu só queria que passasse.
— Eu sou o homem que faz as coisas passarem! — disse ele, a voz subindo novamente. — É para isso que eu sirvo! Para consertar as coisas!
— Mas talvez eu não esteja quebrada, Emanuel! — ela retrucou, a frustração lhe dando coragem.
— A gente vai descobrir isso agora.
A clínica particular do Dr. Bastos parecia um hotel de luxo. Não havia cheiro de desinfetante, apenas de lírios frescos e dinheiro. Eduarda foi levada para uma suíte e, em minutos, uma equipe de enfermeiras e técnicos a cercou. Fizeram exames de sangue, eletrocardiogramas, tomografias. Emanuel ficou do lado de fora da sala durante a maior parte do tempo, andando de um lado para o outro como um tigre enjaulado, o celular colado na orelha, dando ordens que faziam homens importantes tremerem do outro lado do mundo.
Sara chegou uma hora depois, trazendo uma pequena mala de couro com uma troca de roupas para Eduarda e um tablet para si mesma. Sentou-se em uma poltrona de design no canto da sala de espera da suíte e começou a trabalhar, completamente alheia à tensão.
Finalmente, Dr. Bastos entrou, segurando uma pilha de exames. Ele era um homem calmo, cuja tranquilidade parecia ser a única força no universo capaz de neutralizar a energia caótica de Emanuel.
— Então? — perguntou Emanuel, avançando sobre ele.
Dr. Bastos ergueu uma mão.
— Calma, meu filho. Sente-se. Vocês dois.
Relutantemente, Emanuel sentou-se. Sara ergueu os olhos de seu tablet, o interesse aguçado.
— Eu revisei todos os exames. Duas vezes. — Dr. Bastos olhou para Eduarda, que estava sentada na cama do hospital, parecendo pequena e perdida em meio aos lençóis de mil fios. — Fisicamente, Eduarda, você está perfeita. O coração está forte. Os pulmões estão limpos. A cicatrização da cirurgia é exemplar. Não há coágulos, não há inflamação, não há absolutamente nada de errado com você.
Um silêncio pesado caiu sobre o quarto.
— Nada? — A voz de Eduarda era um fio. — Mas a dor… eu sinto…
— Eu sei que você sente, querida. A dor é real. Mas a causa dela… — Ele hesitou, escolhendo as palavras com cuidado. — A causa dela não está aqui. — Ele apontou para os exames. — Está aqui. — Ele tocou a própria cabeça.
Emanuel se levantou.
— O que você está dizendo? Que é psicológico? Que ela está inventando?
— Eu não disse que ela está inventando! — O tom do médico ficou mais firme. — Estou dizendo que a dor é um sintoma. O corpo, às vezes, grita o que a mente não consegue sussurrar. O nome técnico é transtorno de dor somática. É uma resposta física a um estresse emocional extremo, a um trauma.
— Trauma… — repetiu Emanuel, a palavra amarga em sua boca.
— Ela quase morreu, Emanuel. Foi baleada em frente aos pais. Passou por uma cirurgia de altíssimo risco. E depois, sua vida mudou completamente. — Os olhos do médico passaram de Emanuel para Sara, e depois de volta para Eduarda, com uma compreensão que ia além da medicina. — O corpo tem uma memória. E o seu corpo, Eduarda, está lhe dizendo que algo não está bem. Que você está sob uma pressão que não consegue mais suportar.
A validação e a condenação vieram na mesma frase. A dor era real. Mas a culpa era dela. De sua fraqueza. De sua incapacidade de lidar com a vida que lhe fora dada. Lágrimas silenciosas começaram a escorrer pelo rosto de Eduarda. Ela se sentia humilhada, exposta. Louca.
Emanuel, por outro lado, parecia prestes a explodir.
— Estresse? Pressão? Ela tem a vida que qualquer um sonharia! Ela não tem que trabalhar, não tem que se preocupar com nada! Eu dei a ela tudo!
— Talvez — disse o médico, com uma coragem que poucos tinham com Emanuel —, você tenha dado a ela tudo, menos o que ela realmente precisava. — Ele se levantou. — Minha recomendação é terapia. Um bom analista. Alguém com quem ela possa conversar. Eu posso indicar alguns nomes. Fisicamente, ela pode ir para casa.
Ele deixou o quarto, deixando os três sozinhos com o diagnóstico devastador.
O silêncio era uma bomba-relógio.
Emanuel foi o primeiro a se mover. Ele caminhou até a janela, as costas tensas, as mãos nos quadris. Ele olhava para a cidade, mas não a via. Estava encurralado por um inimigo que não podia intimidar, comprar ou destruir: os sentimentos de Eduarda.
Sara, pela primeira vez naquela noite, fechou seu tablet. Ela se levantou e caminhou até a cama de Eduarda. Sentou-se na beirada, um gesto surpreendentemente íntimo.
— Bem-vinda ao clube, querida — disse ela, a voz desprovida de sarcasmo. Era quase… gentil. — O clube das mulheres que amam Emanuel. A primeira regra é que você vai sentir dor no peito. A segunda regra é que ele nunca vai entender o porquê.
Eduarda olhou para ela através das lágrimas, confusa.
Sara continuou, a voz baixa, como se compartilhasse um segredo de estado.
— Ele é uma força da natureza. Um furacão. E você pode admirá-lo de longe ou pode tentar dançar com ele. Mas se você dançar com ele, não pode reclamar quando for jogada contra a parede. Ele não faz por mal. Ele simplesmente não sabe operar em outra velocidade. Ele protege quebrando. Ele ama possuindo.
Ela pegou a mão de Eduarda. A mão dela era fria e firme.
— Você tem duas escolhas. Você aprende a surfar na onda, a encontrar sua força no meio do caos dele. Ou você se deixa afogar. O que você não pode fazer é pedir ao furacão para se tornar uma brisa de verão. Isso ele não consegue. E tentar forçá-lo só vai te destruir.
Emanuel se virou, tendo ouvido a última parte.
— O que você está dizendo, Sara?
— Estou dizendo que você precisa parar de tentar consertá-la como se ela fosse um de seus negócios — disse Sara, levantando-se e enfrentando-o. — Ela não é um contrato que deu errado. Ela é uma pessoa. E ela está quebrada. Não fisicamente. Mas aqui. — Ela tocou o próprio coração. — E a sua solução de jogar mais dinheiro e mais médicos no problema só está piorando as coisas.
— Então o que você sugere que eu faça?! — ele gritou, a frustração transbordando. — Devo deixá-la sozinha? Devo mandá-la de volta para a vida “normal” que quase a matou?
Foi Eduarda quem respondeu, a voz trêmula, mas clara.
— Não.
Ambos olharam para ela. Ela se sentou na cama, enxugando as lágrimas com uma determinação recém-descoberta. O diagnóstico, por mais humilhante que fosse, também era libertador. Se a luta era interna, então o poder também era.
— Sara está certa. Você não pode me consertar, Emanuel. Só eu posso. E eu não quero terapia. Eu não quero falar com um estranho sobre os meus sentimentos. — Ela olhou para ele, os olhos castanhos suplicantes, mas firmes. — Eu quero falar com você.
Ele deu um passo em direção a ela.
— Eu estou aqui.
— Não. Você não está. O seu corpo está aqui, mas a sua mente está em Xangai, no seu celular, no próximo desastre que você precisa evitar. Você me pergunta se eu comi, mas não me pergunta sobre o que eu sonhei. Você se preocupa com a minha segurança, mas não com a minha solidão.
Ela respirou fundo, a dor em seu peito agora uma chama fria de clareza.
— Eu não quero voltar para a vida de antes. Eu sei que não posso. Mas eu não posso viver nesta redoma de vidro também. Eu preciso… eu preciso de ar. Eu preciso de um propósito. Eu não posso ser apenas a sua vitória. Eu preciso ser… eu.
— Diga-me o que fazer — disse ele, a voz um sussurro de rendição. Ele estava perdido.
— Eu não sei! — admitiu ela, e a honestidade daquela admissão era mais poderosa do que qualquer demanda. — Mas eu quero descobrir. Com você. Não com o seu dinheiro ou seus médicos. Com você. O homem que eu conheci na casa de campo. O homem que me contou uma parábola sobre cores. Eu sinto falta daquele homem.
A menção da casa de campo, da parábola, foi um golpe baixo, e ela sabia disso. Foi um lembrete do que eles haviam perdido, ou do que ele havia destruído em sua tentativa de protegê-la.
Emanuel olhou para ela, e em seus olhos, pela primeira vez em meses, a fúria e o controle deram lugar a uma vulnerabilidade crua. Ele estava vendo não apenas a mulher que ele possuía, mas a mulher que ele havia quebrado.
Sara observava a cena, uma espectadora silenciosa no teatro do coração humano. Ela havia dado seu conselho, plantado sua semente. Agora, ela se retirava para as sombras para ver o que cresceria. Seja o que for, ela se adaptaria. Ela sempre se adaptava.
— Vamos para casa — disse Emanuel, finalmente. Não era uma ordem. Era um pedido.
Ele ajudou Eduarda a sair da cama. Ela se apoiou nele, não como uma inválida, mas como uma parceira. O ritmo de seu coração ainda estava descompassado, a dor ainda era uma presença constante. Mas, pela primeira vez, ela sentia que não estava lutando contra ela sozinha. E também não estava se rendendo. Estava aprendendo a dançar com ela.
Enquanto saíam da clínica e entravam na noite de São Paulo, Eduarda sabia que nada estava resolvido. A gaiola ainda era uma gaiola, mesmo que a porta estivesse ligeiramente entreaberta. Emanuel ainda era um furacão. Mas agora, a brisa de verão se lembrava de que também era feita de vento. E ventos podiam mudar de direção. Ou, às vezes, podiam aprender a soprar juntos. A dor em seu peito era o barômetro de sua alma. E, naquela noite, a pressão havia diminuído. Apenas um pouco. E, por enquanto, isso era o suficiente.