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Sombras e Sedas sob o Mesmo Teto
O isolamento forçado pela chuva transformou a casa de campo em um microcosmo de tensões silenciosas e desejos latentes. Emanuel, acostumado a controlar impérios de tinta e negócios internacionais, sentia-se estranhamente em paz e, ao mesmo tempo, em guerra. No andar de cima, o som abafado de risadas femininas e o arrastar de móveis indicavam que o refúgio de Eduarda estava sendo preparado. No andar de baixo, o perfume caro de Sara e o tilintar de gelo em um copo de cristal ditavam o ritmo de sua outra realidade.
Sara não era uma mulher de se deixar abater por imprevistos climáticos. Ela havia transformado a pequena sala de estar em um escritório improvisado, mas, conforme a noite caía, o pragmatismo dava lugar à sua faceta mais sedutora. Ela conhecia Emanuel há anos; sabia que ele era um homem de apetites intensos e que a austeridade dele era apenas uma capa para uma paixão avassaladora.
— Você está muito longe, querido — disse Sara, aproximando-se dele por trás enquanto ele observava a chuva pela vidraça embaçada. — O que tanto procura nessa escuridão?
Emanuel sentiu as mãos dela, com as unhas perfeitamente esculpidas, subirem pelos seus braços, apertando os bíceps por cima do tecido fino da camisa. Ele fechou os olhos por um momento, deixando-se envolver pelo calor familiar de Sara.
— Apenas pensando no tempo que estamos perdendo — respondeu ele, a voz rouca. — O estúdio de Miami precisa de uma resposta sobre o novo sistema de agendamento.
— Esqueça Miami por uma hora — Sara sussurrou, contornando o corpo dele para ficar de frente, forçando-o a olhar para o decote profundo de seu robe de seda. — Eu já cuidei de metade dos e-mails. A administração está sob controle, Emanuel. Eu sempre cuido de tudo para você. Agora, cuide de mim.
Ela o beijou com uma urgência faminta, uma marca de posse que Emanuel retribuiu com a mesma intensidade. Ele a amava. Amava a força dela, a vulgaridade sofisticada que o desafiava e a competência que tornava sua vida mais fácil. Sara era seu porto seguro, o espelho de sua própria ambição. Ele a pegou no colo, sentindo o peso familiar de suas curvas, e a levou para o quarto, tentando abafar, por algumas horas, a imagem da garota de olhos doces que assombrava seus pensamentos.
Enquanto isso, no final do corredor, em um mundo completamente diferente, Eduarda estava sentada no chão de seu quarto, cercada por Bia e as outras primas. Elas haviam construído uma cabana improvisada com lençóis brancos e mantas de lã, sustentada por vassouras e pilhas de livros de arte. Era um ritual de infância que elas se recusavam a abandonar, um espaço sagrado onde o mundo lá fora não podia entrar.
— Duda, você está muito quieta — comentou Bia, acendendo uma lanterna e colocando-a no centro da cabana, criando sombras gigantescas nas paredes. — É por causa do tatuador bonitão?
Eduarda sentiu o coração dar um solavanco. Ela abraçou os joelhos, escondendo o rosto entre as pernas.
— Não seja boba, Bia. Ele é... ele é um convidado. E a namorada dele é assustadora.
— Assustadora nada, ela é plastificada! — riu a outra prima, arrumando os travesseiros. — Mas ele... ele olha para você como se quisesse te colocar em uma moldura. Ou em uma gaiola.
— Parem com isso — pediu Eduarda, a voz manhosa e baixa. — Vamos contar as histórias? Eu peguei o livro de lendas locais na biblioteca.
A lanterna era a única fonte de luz, e o som da chuva batendo nas telhas criava a trilha sonora perfeita. Eduarda começou a ler, sua voz suave dando um tom quase místico aos contos de mulheres que desapareciam na neblina e de moinhos que guardavam segredos de sangue. Ela se sentia segura ali, protegida pelo afeto das primas e pela simplicidade daquele momento. Eduarda amava aquilo: o cheiro de pipoca escondida, o calor dos lençóis e a sensação de que o tempo havia parado.
No entanto, a paz dela foi interrompida por uma batida suave na porta. As garotas ficaram em silêncio imediato.
— Quem é? — perguntou Bia, com um pavor fingido que logo se tornou real quando a porta se abriu.
Emanuel estava parado ali. Ele havia trocado de roupa, vestindo apenas uma calça de moletom escura e uma camiseta preta que delineava seus ombros largos. Seus olhos, no entanto, pareciam cansados, carregando o peso do encontro recente com Sara e da insônia que o perseguia.
— Desculpem interromper — disse ele, sua voz profunda preenchendo o quarto e fazendo a cabana de lençóis parecer subitamente pequena e frágil. — Eu vim buscar um pouco de água e vi a luz por baixo da porta.
— Estamos contando histórias de terror, Sr. Emanuel — disse Bia, recuperando a audácia. — Quer entrar? A Duda é a melhor narradora.
Eduarda olhou para ele, os olhos arregalados de surpresa e timidez. Ela esperava que ele recusasse, que voltasse para o luxo e para a sofisticação de Sara. Mas Emanuel, para surpresa de todas, deu um passo para dentro do quarto.
— Histórias de terror? — Ele se aproximou da cabana, agachando-se com uma graça predatória. — Eu conheço algumas que não estão nos livros.
Ele se sentou na entrada da cabana, sua presença mudando completamente a atmosfera. O ar parecia ter ficado mais denso. Eduarda sentia o cheiro dele — uma mistura de tabaco, sabonete caro e algo puramente masculino que a fazia querer se esconder e se aproximar ao mesmo tempo.
— Conte uma, então — desafiou Bia.
Emanuel fixou os olhos em Eduarda. Ele ignorava as outras garotas como se elas fossem meras sombras.
— Existe uma lenda — começou ele, a voz baixa e vibrante — sobre um homem que passou a vida inteira pintando apenas em preto e branco. Ele achava que tinha tudo sob controle, que a lógica das cores neutras era o suficiente para ele. Até que um dia, ele encontrou uma cor que não conseguia definir. Uma cor suave, que mudava conforme a luz, algo que ele não podia possuir apenas com tinta.
Eduarda ouvia hipnotizada, as mãos apertando o tecido do suéter.
— O que ele fez? — sussurrou ela.
— Ele ficou obcecado — continuou Emanuel, inclinando-se um pouco mais para dentro da cabana. — Ele tentou ignorar, tentou voltar para suas telas antigas, para as cores que já conhecia e que lhe davam segurança. Mas a cor nova estava em todo lugar. No ar que ele respirava, no silêncio da noite. Então, ele decidiu que, se não pudesse pintá-la, ele a levaria consigo. Para sempre. Mesmo que isso significasse destruir o mundo que ele mesmo construiu.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo trovão lá fora. As primas de Eduarda se entreolharam, sentindo que aquela história não era sobre fantasmas, mas sobre algo muito mais real e perigoso.
— Isso não é uma história de terror — murmurou Eduarda, o olhar fixo no dele. — É uma história triste.
— Depende do ponto de vista, Eduarda — Emanuel estendeu a mão e, com uma audácia que fez o coração dela disparar, tocou a ponta de uma mecha de seu cabelo que escapava do coque. — Para o artista, foi a única forma de se sentir vivo novamente.
— Emanuel? — A voz de Sara ecoou do corredor, desta vez carregada de uma impaciência cortante. — Onde você se meteu? Eu não vou ficar naquela cama fria esperando você brincar de acampamento.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, a máscara de controle voltando ao rosto. Ele se levantou, a transição do homem intenso para o namorado prático sendo quase instantânea.
— Já estou indo, Sara — respondeu ele, em voz alta.
Ele olhou para as garotas, mas seu último olhar foi para Eduarda, um olhar que prometia que aquela conversa estava longe de terminar.
— Boa noite, meninas. Tentem não ter pesadelos.
Ele saiu, fechando a porta atrás de si. No corredor, Sara o esperava com os braços cruzados, uma sobrancelha erguida.
— O que foi aquilo? — perguntou ela, o tom irônico escondendo uma irritação crescente. — Agora você é o contador de histórias oficial das crianças?
— Elas estavam fazendo barulho, Sara. Só fui pedir silêncio de uma forma que elas entendessem — mentiu ele, passando o braço pela cintura dela e conduzindo-a de volta para o quarto deles.
— Você é muito paciente, querido — disse Sara, encostando a cabeça no ombro dele enquanto caminhavam. — Eu já teria mandado todas dormirem há horas. Mas tudo bem, amanhã o mecânico deve conseguir chegar se a chuva parar. Mal posso esperar para voltarmos para a civilização.
Emanuel não disse nada. Ele entrou no quarto com Sara, mas sua mente permaneceu naquela cabana de lençóis, com a garota de olhos sensíveis e alma de artista. Ele amava a vida que tinha com Sara; amava o império que construíram e a paixão que os unia. Mas agora, ele sabia que havia um vazio que nem todo o sucesso do mundo ou toda a dedicação de Sara poderia preencher.
No quarto de Eduarda, a cabana de lençóis parecia ter perdido um pouco do seu encanto lúdico. As primas logo pegaram no sono, cansadas da adrenalina das histórias, mas Eduarda permaneceu acordada, observando as sombras nas paredes.
Ela sentia-se pequena e confusa. Emanuel era um homem de 25 anos, rico, poderoso e comprometido com uma mulher que parecia ter saído de uma revista de moda. E ela era apenas uma estudante de 20 anos, que gostava de museus e de dias chuvosos. Não fazia sentido. Mas o toque dele em seu cabelo ainda queimava, e a história do artista e sua "cor nova" ecoava em sua mente como um aviso.
— Ele não vai me deixar em paz — sussurrou ela para a escuridão da cabana.
Eduarda buscou o travesseiro, apoiando-se nele como sempre fazia quando se sentia insegura. Ela era manhosa por natureza, buscava proteção naqueles em quem confiava, mas Emanuel não era alguém em quem ela devesse confiar. Ele era o lobo que havia entrado no refúgio, e o pior de tudo era que, em algum lugar profundo de sua intuição, ela não queria que ele fosse embora.
Lá fora, a chuva continuava sua sinfonia monótona. No quarto principal, Emanuel ouvia a respiração de Sara enquanto ela dormia, mas seus olhos estavam fixos no teto. Ele era um homem prático, um mediador de crises, mas estava diante de um conflito que a lógica não podia resolver. Ele queria a segurança e a força de Sara. Ele queria a doçura e a fragilidade de Eduarda.
E, pela primeira vez em sua vida, Emanuel não estava disposto a mediar. Ele estava disposto a conquistar. O isolamento na casa de campo estava apenas começando, e ele usaria cada minuto daquela semana para garantir que, quando a ponte fosse consertada e a estrada aberta, ele não estivesse levando apenas Sara consigo.
Ele queria as duas. E o que Emanuel queria, ele sempre conseguia. Mesmo que tivesse que quebrar as regras, mesmo que tivesse que enfrentar a fúria de Sara ou o medo de Eduarda. Naquela noite, entre o cheiro de seda e o toque da lã, o tatuador desenhou em sua mente o plano mais complexo de sua carreira: o mapa para possuir dois mundos opostos sob o mesmo teto.