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O Labirinto de Barro e o Despertar dos Instintos
A manhã de segunda-feira nasceu sob um véu de cinza opaco. O som da chuva não era mais um ruído de fundo, mas uma presença física, um tamborilar incessante que parecia querer achatar o telhado da casa de campo. O rádio, entre chiados de estática, confirmava o que todos temiam: a ponte principal não seria liberada tão cedo, e a estrada vicinal que ligava a propriedade à vila estava sofrendo com pequenos deslizamentos. O isolamento era absoluto.
Emanuel estava na cozinha, tomando um café forte e amargo enquanto observava o movimento da casa. Ele não havia dormido mais do que três horas. A tensão acumulada entre o corpo escultural e exigente de Sara e a imagem persistente de Eduarda na cabana de lençóis o deixara em um estado de vigília agressiva.
— Duda, pegue suas botas de cano alto e aquela capa de chuva reforçada — disse Marcos, entrando na cozinha com um semblante preocupado, mas mantendo a agilidade juvenil. — Preciso ir até a casa grande ver como os vovôs estão. O sinal de rádio deles caiu e o caseiro não atende o telefone fixo desde as seis da manhã.
Eduarda, que estava sentada a um canto da mesa comendo um pedaço de bolo de forma distraída, levantou os olhos, claramente apreensiva.
— Pai, a trilha deve estar um rio de lama. Não é perigoso?
— Eu conheço cada pedra daquele caminho, querida. Mas preciso que você venha comigo para me ajudar com as cestas de mantimentos e para ficar com a sua avó enquanto eu checo o gerador e o telhado do galpão. Ela fica nervosa com esses temporais.
Emanuel sentiu um alerta disparar em sua mente. O instinto de proteção, que nele se manifestava como uma necessidade de controle, aflorou imediatamente.
— Deixe que eu vou com você, Marcos — interveio Emanuel, sua voz cortando o ambiente com uma autoridade natural. — Eduarda pode ficar aqui, segura. Eu ajudo com o peso e com o que for necessário na manutenção.
Marcos olhou para o convidado, medindo a altura e a largura dos ombros de Emanuel. Ele deu um sorriso amigável, mas negou com a cabeça.
— Agradeço, Emanuel, de verdade. Mas a trilha por dentro da mata é estreita e traiçoeira para quem não conhece as raízes. A Duda faz esse caminho desde os cinco anos, ela sabe onde pisar para não afundar no barro. Além disso, a presença dela acalma a dona Ester. Mas se quiser ajudar, ajude a sua namorada a não derrubar a casa com aquele mau humor.
Emanuel olhou para o lado e viu Sara descendo as escadas. Ela usava um conjunto de ginástica de grife, justo e chamativo, mas sua expressão era de puro tédio e irritação.
— Bom dia para quem? — ironizou Sara, indo direto para a garrafa de café. — Emanuel, o que é esse papo de trilha? Você não vai a lugar nenhum nesse lamaçal. Eu preciso que você me ajude a redigir o novo contrato de exclusividade dos artistas de Berlim. O sinal do meu iPad está oscilando e eu estou por um fio de ter um colapso nervoso neste fim de mundo.
Emanuel sentiu-se puxado em duas direções. Havia a responsabilidade com Sara, a mulher que era sua sócia, sua amante e o pilar de sua estrutura profissional. E havia o impulso irracional de seguir a garota de cabelos castanhos que agora calçava suas botas de borracha com movimentos lentos e manhosos.
— Eu vou ficar, Sara — disse Emanuel, a voz mais rígida do que o pretendido. — Mas Marcos, se vocês não voltarem em duas horas, eu vou atrás. Não me importa se eu conheço as raízes ou não.
Eduarda sentiu o peso do olhar de Emanuel sobre ela. Era uma pressão quase física, uma mistura de cuidado e posse que a fazia estremecer.
— Vamos logo, pai — murmurou Eduarda, querendo fugir daquela intensidade que a confundia.
Eles saíram pela porta dos fundos, desaparecendo rapidamente sob a cortina de chuva e a vegetação densa. Emanuel ficou parado à janela, observando o nada por longos minutos, ignorando as reclamações de Sara sobre a falta de luxo da propriedade.
— Você está obcecado com essa gente, Emanuel — disse Sara, aproximando-se e abraçando-o pela cintura, colando o corpo siliconado às costas dele. — É o tédio? Se for, eu posso resolver. Esqueça a garotinha e o pai aventureiro.
— É uma questão de segurança, Sara — ele respondeu, sem se virar. — Estamos isolados. Se algo acontece com eles, somos os próximos.
— Poupe-me do seu heroísmo — Sara bufou, soltando-o e sentando-se à mesa com o tablet. — Vamos trabalhar. É a única coisa que presta para fazer aqui.
As horas passaram como se fossem séculos. Emanuel tentava focar nos números e nas cláusulas que Sara lhe mostrava, mas sua mente estava na trilha. Ele imaginava Eduarda escorregando, sentindo frio, sendo engolida pela imensidão verde e úmida. A racionalidade dele, que sempre fora sua maior aliada, estava sendo corroída por uma ansiedade nova.
Enquanto isso, na mata, a situação era mais difícil do que Marcos previra. A trilha que ligava a casa de campo à sede dos avós estava parcialmente obstruída por galhos caídos.
— Cuidado aqui, Duda — disse Marcos, estendendo a mão para a filha saltar um pequeno riacho que se formara no meio do caminho. — O solo está muito instável.
— Eu estou bem, pai — ela respondeu, embora sua voz soasse pequena sob o barulho da chuva nas folhas.
Eduarda estava exausta. O esforço físico pesava em seu corpo esguio, mas o que mais a cansava era a confusão emocional. Ela não conseguia tirar Emanuel da cabeça. A forma como ele a olhava, a história que contara na noite anterior... tudo parecia um sonho febril. Ela se sentia protegida pelo pai, mas, no fundo, uma parte dela desejava que fosse a mão firme e tatuada de Emanuel que a estivesse conduzindo por aquele lamaçal.
Quando finalmente chegaram à casa dos avós, a situação era estável, mas exigia trabalho. O telhado da varanda havia cedido e a dona Ester estava, de fato, muito nervosa.
— Graças a Deus vocês chegaram! — exclamou a avó, abraçando Eduarda. — Eu achei que ficaríamos isolados para sempre.
— Calma, dona Ester — disse Marcos, já tirando a capa. — Vou subir no telhado com o caseiro para ver o estrago. Duda, ajude sua avó com o chá e tente ligar o rádio de emergência.
Eduarda trabalhou mecanicamente. Ela era intuitiva e sensível, e conseguia sentir que o tempo estava mudando para pior. O céu escureceu ainda mais, e o vento começou a uivar entre as frestas das janelas de madeira.
— Pai, temos que voltar antes que escureça — disse ela, algum tempo depois, vendo Marcos entrar na cozinha ensopado.
— Você tem razão, filha. O estrago aqui é grande, mas o caseiro dá conta. Vamos levar um pouco mais de lenha e voltar para a outra casa. Se a chuva apertar mais, a trilha vai sumir.
A volta foi um pesadelo de barro e sombras. O cansaço de Eduarda era visível; ela tropeçava com mais frequência, o corpo pedindo descanso. Em um trecho inclinado, o pé dela cedeu em uma porção de terra fofa.
— Pai! — ela gritou, sentindo o corpo deslizar para baixo, em direção a um pequeno barranco.
Marcos reagiu rápido, segurando-a pelo braço, mas o peso da cesta e a instabilidade do solo o fizeram escorregar também. Eles não caíram longe, mas o susto foi grande. Eduarda sentiu uma dor aguda no tornozelo.
— Você está bem? — perguntou Marcos, ofegante, ajudando-a a se sentar em um tronco caído.
— Meu pé... eu acho que virei o pé — ela sussurrou, as lágrimas se misturando à água da chuva.
— Droga. Estamos na metade do caminho. Tente se apoiar em mim, vamos devagar.
Na casa de campo, Emanuel não aguentava mais. Ele olhou para o relógio pela centésima vez. Fazia três horas que eles haviam saído.
— Eu vou atrás deles — declarou Emanuel, levantando-se bruscamente.
— Você enlouqueceu? — Sara gritou da sala. — Olha lá fora, Emanuel! Você vai se perder e eu vou ficar aqui sozinha com esse bando de primos barulhentos.
— Fique com eles, Sara. Eu não vou ficar aqui sentado enquanto ela pode estar machucada.
— Ela? — Sara levantou-se, a voz carregada de um sarcasmo ácido. — A "ela" tem nome, Emanuel. E tem um pai para cuidar dela. Por que você está agindo como se fosse o cavaleiro branco dessa garota sem sal?
Emanuel parou na porta, vestindo sua jaqueta de couro e pegando uma lanterna potente. Ele olhou para Sara com uma frieza que a fez recuar um passo.
— Porque eu decidi que ela está sob minha responsabilidade. E se você não entende isso, talvez não conheça o homem com quem divide a vida tanto quanto pensa.
Ele saiu sem esperar resposta, deixando Sara fervendo de raiva e uma ponta de insegurança que ela jamais admitiria.
Emanuel entrou na mata como uma força da natureza. Ele não se importava com o barro que manchava suas roupas caras ou com os galhos que batiam em seu rosto. Ele seguia o rastro que Marcos e Eduarda haviam deixado, sua mente focada apenas em uma imagem: Eduarda, vulnerável e precisando dele.
Ele os encontrou a cerca de um quilômetro da casa. Marcos estava tentando carregar Eduarda, mas o terreno dificultava cada passo.
— Emanuel! — exclamou Marcos, o alívio visível em seu rosto. — Que bom que você veio. A Duda machucou o pé, não consegue apoiar no chão.
Emanuel não disse nada. Ele apenas se aproximou e, com uma facilidade que demonstrava sua força física, pegou Eduarda nos braços.
— Eu levo ela — disse Emanuel, sua voz soando como um comando inabalável.
Eduarda soltou um suspiro de alívio e se encolheu contra o peito dele. O calor que emanava de Emanuel era como um bálsamo contra o frio da chuva. Ela passou os braços pelo pescoço dele, buscando proximidade, apoiando a cabeça em seu ombro de forma manhosa e exausta.
— Você veio... — ela murmurou, quase inaudível.
— Eu disse que viria — ele respondeu, apertando-a contra si, sentindo a fragilidade dela em seus braços.
A caminhada de volta foi feita em silêncio, apenas com o som da respiração pesada de Emanuel e os passos de Marcos logo atrás. Para Emanuel, aquele era um momento de clareza absoluta. Ele sentia a delicadeza de Eduarda, a maciez do corpo dela contra o seu, e a necessidade automática de protegê-la de tudo. Ao mesmo tempo, ele sabia que Sara o esperava na casa, e que aquela situação criaria um abismo entre eles.
Mas, enquanto sentia o coração de Eduarda batendo contra o seu peito, ele percebeu que não se importava. Ele queria o controle que Sara lhe dava, mas desejava a entrega que Eduarda despertava.
Ao chegarem na casa, a recepção foi um caos de vozes preocupadas. Helena correu para pegar toalhas, enquanto as primas cercavam Eduarda. Emanuel, no entanto, não a soltou até chegar ao sofá da sala.
— Tragam gelo e uma manta — ordenou Emanuel, sua voz não deixando espaço para discussões.
Sara observava tudo da escada, os braços cruzados, os lábios apertados em uma linha fina de desaprovação. Ela viu o cuidado quase obsessivo com que Emanuel acomodou Eduarda, como ele mesmo tirou as botas sujas dela e examinou o tornozelo inchado com mãos que, apesar de grandes, eram incrivelmente gentis.
— Ela está bem, Emanuel — disse Sara, descendo os degraus com um andar predatório. — O pai dela já está aqui. Deixe que a família cuide dela. Vamos para o quarto, você está encharcado e vai pegar um resfriado.
Emanuel levantou os olhos para Sara. Havia uma disputa de controle silenciosa entre os dois.
— Vá na frente, Sara. Eu vou ajudar a Helena a imobilizar o pé dela primeiro.
— Emanuel... — Sara começou, o tom de voz subindo.
— Agora não, Sara — ele a cortou, voltando sua atenção para Eduarda, que o olhava com uma gratidão tímida e um medo latente da reação de Sara.
Emanuel pegou a mão de Eduarda por um segundo, um toque rápido que disse mais do que qualquer palavra.
— Você está segura agora — ele sussurrou para ela.
Eduarda assentiu, fechando os olhos e deixando-se envolver pela manta que a mãe lhe trouxera. Ela sentia a tensão no ar, sentia o olhar venenoso de Sara, mas, acima de tudo, sentia a presença protetora de Emanuel.
Naquela noite, enquanto a chuva continuava a fustigar a casa de campo, as linhas de batalha foram traçadas. Sara percebeu que Eduarda, com toda a sua fragilidade e silêncio, era uma ameaça muito maior do que sua aparência sugeria. E Emanuel, sentado ao pé da lareira enquanto observava Eduarda dormir no sofá sob os cuidados da mãe, soube que a semana de isolamento seria o campo de provas para o que ele realmente queria.
Ele queria as duas. A força administrativa e a paixão voraz de Sara. A doçura artística e a necessidade de proteção de Eduarda. E, naquele labirinto de barro e desejo, o tatuador rico e poderoso decidiu que não aceitaria nada menos do que a posse total de ambos os mundos. A estrada podia estar fechada, mas para Emanuel, todos os caminhos agora levavam a um único destino: ter tudo o que desejava, custasse o que custasse.