Voltar ao resumo

D

O Véu da Noiva e o Beijo de Tinta

A noite de terça-feira trouxe consigo uma névoa tão espessa que as luzes da varanda da casa de campo pareciam apenas manchas amareladas e distantes, incapazes de vencer a opacidade do ar. Dentro da casa, o silêncio era tenso, apenas quebrado pelo estalar da lenha na lareira e pelo som rítmico da chuva que, embora mais fraca, ainda caía com uma persistência melancólica.

Eduarda estava em seu quarto, sentada no parapeito da janela. Seu tornozelo, devidamente enfaixado por Emanuel horas antes, ainda pulsava levemente, mas a dor física era pequena comparada à inquietude que lhe apertava o peito. Ela usava uma camisola de algodão branco com um cardigã de lã por cima, uma imagem de fragilidade que contrastava com a força da tempestade lá fora.

Seus olhos vagavam pela escuridão do pomar, tentando encontrar algum ponto de referência na bruma. Foi então que ela viu.

Um vulto branco, etéreo e flutuante, moveu-se entre as macieiras retorcidas. Não era o movimento de um galho ao vento, nem o reflexo da luz nas gotas de chuva. Era uma silhueta alta, envolta em algo que parecia seda esfarrapada, movendo-se com uma graça sobrenatural em direção à ruína do moinho.

— A Noiva... — sussurrou ela, sentindo um arrepio gélido percorrer sua espinha.

Eduarda era sensível, emocionalmente intuitiva, e aquela visão não a preencheu de terror, mas de uma curiosidade magnética, quase hipnótica. Ela se lembrou das histórias de sua avó, sobre a mulher que esperava eternamente pelo seu amado. Sem pensar nas consequências, sem pensar no pé machucado ou no perigo da noite, ela calçou suas sapatilhas macias e pegou uma manta escura.

Ela desceu as escadas como uma sombra, evitando as tábuas que sabia que rangiam. A casa parecia dormir, mas no escritório improvisado, Emanuel estava desperto.

Ele estava sentado em uma poltrona de couro, com um caderno de desenhos no colo e um copo de uísque intocado ao lado. Sara finalmente havia pegado no sono após uma discussão acalorada sobre a logística de retorno, mas Emanuel não conseguia desligar a mente. Ele estava em um estado de alerta constante, seus sentidos sintonizados na presença de Eduarda dois lances de escada acima.

Quando ele ouviu o clique suave da porta lateral da cozinha se abrindo, seus instintos de proteção e controle dispararam como uma mola. Ele se levantou em um movimento fluido, deixando o caderno cair no chão.

— Eduarda? — murmurou ele para a sala vazia, já sabendo a resposta.

Ele caminhou até a janela e viu a pequena figura de capa escura desaparecendo na neblina, caminhando com uma leve claudicação em direção ao mato.

— O que você está fazendo, sua pequena louca? — Emanuel rosnou para si mesmo, pegando sua jaqueta e saindo logo atrás.

Lá fora, o mundo era um labirinto de sombras e umidade. Eduarda caminhava como se estivesse em transe. Ela não sentia o frio que penetrava seu cardigã, nem a umidade que encharcava suas sapatilhas. Seus olhos estavam fixos naquele rastro de branco que parecia chamá-la.

— Espere! — ela chamou em voz baixa, sua voz sendo engolida pelo som da mata. — Quem é você?

Ela chegou à clareira do moinho. A estrutura de pedra parecia um esqueleto sob a luz pálida da lua escondida. O vulto branco parou junto à entrada da ruína e depois, com um movimento fluido, pareceu dissolver-se no ar, transformando-se em nada mais do que um banco de neblina mais denso.

Eduarda parou, ofegante, o coração batendo contra as costelas. A realidade começou a retornar, e com ela, o medo. O silêncio da clareira era absoluto, opressor.

— Duda!

O grito rouco e autoritário a fez dar um pulo. Ela se virou e viu Emanuel emergindo da bruma. Ele parecia uma divindade sombria, o rosto endurecido pela fúria e pela preocupação, os cabelos negros gotejando água.

— Emanuel... eu a vi — disse ela, a voz trêmula, apontando para a ruína. — Eu vi a Noiva. Ela estava bem ali.

Emanuel chegou até ela em três passos largos, segurando-a pelos ombros com uma força que beirava a dor.

— Você perdeu o juízo? — ele rugiu, sacudindo-a levemente. — Você está machucada, está chovendo, e você sai no meio da noite atrás de uma alucinação? Você tem ideia do que poderia ter acontecido?

— Eu não estou alucinando! — Eduarda exclamou, as lágrimas começando a brotar. — Eu vi, Emanuel. Era real. Ela parecia tão triste...

Emanuel olhou para a ruína vazia e depois voltou para a garota em seus braços. A raiva dele começou a se transformar em algo mais profundo e perigoso. Eduarda estava ali, ensopada, com os olhos grandes e úmidos, tremendo de frio e de emoção. Ela parecia tão pequena, tão necessitada de um abrigo que o mundo não podia dar.

— Você é uma criança teimosa — ele murmurou, sua voz suavizando, mas ainda carregada de uma intensidade possessiva. — Uma criança que eu deveria trancar naquele quarto para garantir que nunca mais fizesse algo assim.

— Eu não sou uma criança — ela disse, buscando proximidade física, apoiando as mãos no peito dele, sentindo o calor que emanava através da jaqueta de couro. — Eu só... eu sinto as coisas, Emanuel. Coisas que você e a Sara não conseguem ver.

— Eu vejo você, Eduarda — ele rebateu, inclinando o rosto para perto do dela, até que suas respirações se misturassem no ar gelado. — Eu vejo você o tempo todo. Cada gesto seu, cada olhar de medo que você lança para a Sara, cada vez que você se encolhe quando eu entro na sala. Você acha que eu sou cego?

Eduarda engoliu em seco. A proximidade dele era paralisante. Ela conseguia ver as tatuagens que subiam pelo pescoço dele, desenhos escuros que pareciam ganhar vida sob a luz da lua.

— Você tem a Sara — ela sussurrou, a voz manhosa, quase um apelo. — Ela é perfeita. Ela cuida de tudo. Por que você está aqui atrás de mim?

Emanuel soltou um riso curto e amargo.

— Sara é a minha estrutura. Ela é a administração, o império, a mulher que sabe como o mundo funciona. Eu a amo por isso. Mas você... — ele passou a mão pelo rosto de Eduarda, o polegar traçando o contorno de seu lábio inferior. — Você é o que eu não consigo administrar. Você é a falha no meu sistema, a cor que eu não sei misturar. Você me deixa fora de controle, e eu odeio perder o controle.

— Então me deixe ir — pediu ela, embora suas mãos estivessem agarrando a jaqueta dele com força.

— Eu não posso — disse ele, a voz agora um sussurro sombrio. — Eu quero o que a Sara me dá, mas eu preciso do que você é. Eu quero a sua fragilidade, a sua doçura, esse seu jeito de se apoiar em mim como se eu fosse a única coisa sólida no mundo.

Emanuel não esperou por uma resposta. Ele selou a distância entre eles em um beijo que foi tudo menos gentil. Foi um beijo de posse, de fome acumulada e de uma verdade que ambos tentavam esconder. Eduarda soltou um pequeno gemido de surpresa, mas não recuou. Pelo contrário, ela se entregou com a intensidade de quem buscava proteção no próprio perigo.

O sabor de Emanuel era de uísque e chuva, e o toque de suas mãos em sua cintura era firme, reivindicando cada centímetro de sua pele através do cardigã úmido. Eduarda sentiu-se flutuar, como se a neblina tivesse finalmente a levado, mas o peso do corpo de Emanuel contra o seu a mantinha ancorada à terra.

Ele a beijava como se estivesse tatuando sua alma, com uma precisão e uma paixão que a deixavam sem fôlego. Para Emanuel, aquele beijo era a confirmação de sua ganância. Ele não escolheria. Ele não abriria mão da segurança administrativa e do fogo de Sara, mas ele jamais permitiria que Eduarda pertencesse a outro homem. Ela seria sua musa, sua paz, sua prisioneira voluntária.

Quando ele finalmente se afastou, apenas alguns milímetros, suas testas permaneceram coladas.

— Agora você entende? — ele perguntou, a respiração pesada. — Você não vai fugir de mim, Eduarda. Nem para os seus livros, nem para as suas lendas.

Eduarda olhou para ele, os olhos nublados de desejo e confusão. Ela era sensível o suficiente para saber que aquilo era o começo de algo que poderia destruí-la, mas era manhosa demais para recusar o abrigo daqueles braços fortes.

— A Sara vai saber — ela murmurou.

— Sara é inteligente — Emanuel disse, recompondo sua máscara de frieza, embora seus olhos ainda queimassem. — Ela vai entender que há espaços na minha vida que só ela pode preencher, e espaços que agora pertencem a você. E ela vai aceitar, porque ela sabe que, no final das contas, eu sempre consigo o que eu quero.

Ele a pegou no colo, ignorando os protestos fracos dela sobre conseguir caminhar.

— Vamos voltar. Você está gelada.

Enquanto caminhavam de volta para a casa, a neblina parecia recuar diante da presença dominante de Emanuel. Eduarda aninhou-se em seu pescoço, fechando os olhos. Ela não sabia o que o futuro reservava, nem como enfrentaria o olhar observador e irônico de Sara na manhã seguinte. Ela só sabia que, naquele momento, o calor de Emanuel era a única coisa que importava.

Ao chegarem à porta lateral, Emanuel a colocou no chão, mas manteve uma mão firme em sua cintura.

— Vá para o seu quarto. Troque essa roupa e tente dormir. Eu vou cuidar para que ninguém saiba que você saiu.

— E você? — perguntou ela, parando no primeiro degrau da escada.

Emanuel olhou para a porta do escritório, onde Sara provavelmente o esperaria com perguntas e exigências.

— Eu vou fazer o que eu faço de melhor, Eduarda — ele deu um sorriso de lado, sombrio e atraente. — Vou administrar o meu caos.

Eduarda subiu as escadas, sentindo o peso do beijo ainda em seus lábios. Ela entrou em seu quarto e correu para a janela. A neblina lá fora parecia mais calma, e a figura da Noiva havia desaparecido completamente. Talvez, pensou ela, a lenda fosse apenas um reflexo dos nossos próprios desejos escondidos.

Lá embaixo, Emanuel entrou no quarto principal. Sara estava sentada na cama, lendo alguns papéis sob a luz do abajur. Ela levantou os olhos, notando a jaqueta encharcada e o olhar intenso do namorado.

— Onde você estava? — perguntou ela, a voz carregada de uma suspeita inteligente. — Você cheira a mato e chuva.

Emanuel caminhou até ela, tirando a jaqueta e jogando-a em uma cadeira. Ele sentou-se na beira da cama e puxou Sara para um beijo possessivo, um beijo que carregava a culpa e a afirmação de seu amor por ela.

— Fui checar o perímetro — disse ele, mentindo com uma facilidade assustadora. — A chuva está parando, mas a lama ainda é um problema. Precisamos estar prontos para sair assim que a ponte abrir.

Sara o abraçou, sentindo a força dos músculos dele. Ela era observadora, competitiva, e sentiu que algo havia mudado no ar. Ela simpatizava com Eduarda, via a garota como uma criatura doce e inofensiva, mas sua intuição administrativa dizia que Emanuel estava guardando um segredo.

— Você está estranho, Emanuel — ela murmurou contra o pescoço dele. — Mais intenso que o normal.

— É o isolamento, Sara — ele respondeu, deitando-a no colchão. — Isso faz um homem perceber o que ele realmente não pode perder.

Sara sorriu, satisfeita com a resposta, achando que ele se referia a ela e ao império que construíram juntos. Ela não via Eduarda como uma ameaça real; na sua cabeça, ela era a namorada principal, a única que falava a língua de Emanuel.

Mas, enquanto Emanuel envolvia Sara em seus braços, sua mente estava no andar de cima. Ele sentia o gosto de Eduarda, a fragilidade dela ainda ecoando em suas mãos. Ele era um homem prático, racional e controlador. E sua lógica agora era simples: ele tinha a rainha em sua cama, e a princesa em seus pensamentos.

A estrada continuava fechada, mas para Emanuel, todos os caminhos haviam se cruzado. Ele teria a competência de Sara para governar seu mundo, e a doçura de Eduarda para salvar sua alma. O jogo de sombras na casa de campo estava apenas começando, e o tatuador não pretendia deixar ninguém sair ileso de sua vontade.