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O Espectro na Bruma e a Fúria do Tatuador
A manhã de terça-feira nasceu sob um céu que não era azul nem cinza, mas uma mistura leitosa de névoa e umidade que parecia abafar até os pensamentos. Dentro da casa de campo, o cheiro de café fresco e pão de queijo tentava, sem sucesso, dissipar a tensão que pairava entre os hóspedes. Eduarda estava sentada à mesa da cozinha, as mãos em volta de uma caneca quente, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede de madeira.
Seu corpo ainda guardava a memória do toque de Emanuel. A noite anterior fora um divisor de águas; a invasão dele em seu quarto, a submissão de sua vontade e o prazer avassalador que ele lhe proporcionara haviam deixado marcas muito mais profundas do que qualquer tatuagem. Ela se sentia vulnerável, exposta e, acima de tudo, confusa.
— Você está com aquela cara de novo, Duda — sussurrou Bia, sentando-se ao lado da prima e pegando um pedaço de bolo. — A cara de quem viu um fantasma. Ou algo melhor.
Eduarda despertou de seus devaneios, sentindo as bochechas esquentarem. Ela olhou para os lados, certificando-se de que Emanuel e Sara ainda estavam na sala de jantar com os adultos.
— Eu vi, Bia — disse Eduarda, a voz saindo em um fio. — Ontem à noite. Eu vi a Noiva.
As outras duas primas, que estavam por perto, aproximaram-se imediatamente, os olhos brilhando de excitação.
— O quê? Onde? — perguntou Clara, a mais nova. — Você foi até o moinho sozinha?
— Não cheguei a entrar — mentiu Eduarda, ocultando a parte em que Emanuel a encontrara. — Mas ela estava lá, perto da ponte de pedra que atravessa o riacho seco. Ela parecia... flutuar. Era um branco tão puro que brilhava na névoa.
— Temos que ir lá! — Bia exclamou, batendo as mãos na mesa. — Hoje à noite. Se ela apareceu para a Duda, que é toda sensível, talvez apareça para nós também.
— É perigoso — hesitou Eduarda, lembrando-se da fúria nos olhos de Emanuel. — A lama está escorregadia e... e ele disse que não era para sairmos.
— "Ele" quem? O tatuador bonitão? — Bia deu uma risadinha maliciosa. — Ele não manda na gente, Duda. Ele é só um hóspede rico que quebrou o carro. Vamos, vai ser a nossa aventura. Se ficarmos presas nesta casa por causa da chuva, eu vou morrer de tédio ouvindo a loira reclamar do sinal de celular.
Eduarda olhou para a sala de jantar. Emanuel estava de pé, de costas para elas, conversando com Marcos. Ele usava uma camiseta preta que deixava à mostra os músculos das costas e o início das tatuagens em seu pescoço. Parecia uma estátua de granito, sólida e imperturbável. Sara estava ao lado dele, gesticulando com suas unhas longas e impecáveis, rindo de algo que o avô de Eduarda dissera.
A dualidade de Emanuel a assustava. Como ele podia agir com tanta naturalidade após o que acontecera no quarto? A necessidade de escapar daquele olhar observador, que ela sabia que a encontraria em breve, falou mais alto que seu medo.
— Tudo bem — concordou Eduarda. — Mas vamos depois que todos forem dormir. E sem lanternas fortes, para não chamarmos atenção.
O dia arrastou-se em uma lentidão agoniante. Emanuel parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Cada vez que Eduarda passava por ele, sentia a pressão de seu olhar. Ele não dizia nada, mas a forma como seus olhos percorriam o corpo dela, detendo-se em seus lábios e depois descendo para o seu pescoço, era um aviso silencioso de que ela lhe pertencia.
Sara, por outro lado, parecia ter decidido que Eduarda era sua nova "protegida".
— Você é tão fofa, Duda — disse Sara no meio da tarde, enquanto lixava as unhas na varanda. — Emanuel me contou que te ajudou com o tornozelo. Ele é um bruto, eu sei, mas tem um coração de ouro quando quer. Você devia sair mais desse casulo, sabia? Um pouco de maquiagem e umas roupas mais... marcantes, e você seria um arraso.
Eduarda apenas sorriu, sentindo-se uma hipócrita. Se Sara soubesse o que o "bruto" fizera na calada da noite, provavelmente não estaria sendo tão amigável.
Quando a meia-noite finalmente chegou, a casa mergulhou em um silêncio profundo, interrompido apenas pelo coaxar dos sapos e pelo gotejar constante das árvores. As quatro garotas se encontraram no corredor, vestidas com capas de chuva e botas. Eduarda liderava o grupo, o coração martelando contra as costelas.
Elas saíram pela janela da lavanderia, deslizando silenciosamente pelo jardim encharcado. A névoa estava ainda mais densa que na noite anterior, transformando as árvores em silhuetas fantasmagóricas.
— Por aqui — sussurrou Eduarda, guiando-as pela trilha que levava à ponte de pedra.
A ponte era uma construção antiga, coberta de musgo, que cruzava uma ravina onde, em tempos de seca, o riacho desaparecia. O ar ali era mais frio, carregado de um cheiro de terra úmida e decomposição vegetal.
— Ali! — Clara apontou, a voz tremendo.
No final da ponte, envolta em uma luz que parecia emanar de seu próprio corpo, estava a figura. Era uma mulher alta, vestindo um traje que lembrava um vestido de noiva de outra época, com rendas esfarrapadas que se moviam como se estivessem sob a água. O rosto estava coberto por um véu translúcido, mas seus olhos... seus olhos pareciam duas chamas pálidas observando o vazio.
As garotas congelaram. O medo era real, gélido, mas havia também um encantamento inexplicável. Era como se estivessem diante de uma obra de arte viva, trágica e bela. A Noiva não se moveu em direção a elas; ela apenas permaneceu ali, um espectro de dor e espera.
— Ela é linda... — murmurou Bia, fascinada.
De repente, a figura inclinou a cabeça, como se ouvisse algo que as garotas não podiam ouvir. Com um movimento etéreo, ela se dissolveu na bruma, deixando para trás apenas o som do vento soprando entre as pedras.
O encanto quebrou-se. O medo assumiu o controle, mas um medo eufórico, cheio de adrenalina.
— Corram! — gritou Clara, rindo de nervoso.
Elas dispararam de volta pela trilha, tropeçando no barro, rindo e gritando em sussurros. A sensação de terem visto o impossível as unia em uma cumplicidade vibrante. Eduarda corria na frente, sentindo-se viva, sentindo que, por um momento, havia escapado da teia de Emanuel.
Elas entraram na casa pela mesma janela, ofegantes, os rostos sujos de lama e os cabelos desgrenhados. Estavam no meio da cozinha, tentando conter as gargalhadas e o barulho das botas pesadas, quando a luz principal foi acesa bruscamente.
Emanuel estava parado junto ao interruptor.
Ele não usava camisa, apenas uma calça de moletom cinza. Seu peito estava coberto de suor frio, e as tatuagens pareciam vibrar sob a luz fluorescente. Mas era o seu rosto que causava terror: as mandíbulas estavam tão cerradas que os músculos de seu pescoço saltavam, e seus olhos eram duas brasas de fúria pura.
Ao lado dele, Sara observava a cena com uma mistura de choque e diversão cínica. Ela estava envolta em um robe de seda, segurando uma taça de vinho.
— Mas o que é isso? — perguntou Sara, soltando uma risadinha. — Uma festa do pijama na lama? Vocês estão deploráveis, meninas.
Emanuel não riu. Ele deu um passo à frente, e o ar na cozinha pareceu esfriar dez graus.
— Onde vocês estavam? — A voz dele era um trovão contido, baixa e perigosa.
— Nós fomos ver a Noiva, Sr. Emanuel! — disse Bia, ainda sob o efeito da adrenalina, sem perceber o perigo. — E nós vimos! Foi incrível! Ela estava na ponte e...
— Calada! — Emanuel rugiu, fazendo todas as garotas recuarem, exceto Eduarda, que ficou paralisada sob o olhar dele. — Eu dei uma ordem. Eu disse que não era para saírem desta casa à noite.
— Emanuel, querido, não seja tão dramático — interveio Sara, aproximando-se dele e tocando seu braço. — Elas são jovens, queriam uma aventura. Olhe para elas, estão se divertindo.
Emanuel sacudiu o braço de Sara com uma rispidez que a deixou boquiaberta. Ele não tirava os olhos de Eduarda.
— Diversão? — ele perguntou, a voz agora carregada de um veneno mortal. — O terreno está deslizando. Há estranhos rondando essas propriedades. Vocês poderiam ter morrido ou desaparecido naquela mata, e ninguém as encontraria até o amanhecer.
— Nós conhecemos o caminho, Emanuel — disse Eduarda, tentando manter a voz firme, embora suas pernas estivessem tremendo. — Não aconteceu nada.
— Não aconteceu nada porque vocês tiveram sorte! — Ele caminhou até Eduarda, ignorando as outras primas, que começaram a recuar em direção ao corredor. — Você, principalmente. Com o pé machucado, saindo no escuro... você não tem um pingo de juízo nessa cabeça?
— Deixe ela em paz — murmurou Bia, mas um olhar gélido de Emanuel a fez calar-se imediatamente.
— Vão para o quarto. Todas vocês. Agora! — ordenou Emanuel.
As primas de Eduarda não esperaram por uma segunda ordem. Elas fugiram pelo corredor, deixando Eduarda sozinha diante do gigante furioso e de uma Sara cada vez mais intrigada.
— Você está passando dos limites, Emanuel — disse Sara, sua voz perdendo o tom de brincadeira. — Por que essa reação toda por causa de uma escapada de adolescente? Você está agindo como se fosse o pai dela, ou algo pior.
Emanuel respirou fundo, tentando retomar o controle. Ele olhou para Sara por um breve segundo, seu rosto voltando à máscara de frieza pragmática.
— Eu sou o responsável pela nossa segurança aqui, Sara. Se algo acontece com a família que nos acolheu, a culpa recai sobre nós. Eu não tolero irresponsabilidade.
— Sei... — Sara semicerrou os olhos, observando a forma como Emanuel ainda mantinha o foco em Eduarda. — Bom, o sermão já foi dado. Duda, vá tomar um banho, querida. Você está cheirando a pântano. Emanuel, vamos voltar para a cama. Você está tenso demais.
Sara subiu as escadas, esperando que ele a seguisse. Emanuel esperou até que os passos dela desaparecessem no andar de cima. Ele então se aproximou de Eduarda, encurralando-a contra o balcão da cozinha.
— Você me desafiou — sussurrou ele, a voz vibrando de uma possessividade doentia. — Depois de tudo o que eu te disse, depois do que fizemos... você achou que podia simplesmente sair por aquela porta?
— Eu queria ver a Noiva — disse ela, as lágrimas finalmente caindo. — Eu queria um momento que não fosse sobre você.
Emanuel segurou o queixo dela com força, forçando-a a olhá-lo.
— Não existe mais nenhum momento que não seja sobre mim, Eduarda. Você é minha. Cada passo que você dá, cada respiração... eu sou o dono disso agora. Se você sair de novo sem a minha permissão, eu juro que não vou ser tão paciente.
— Você vai contar para a Sara? — perguntou ela, soluçando.
— Sara não precisa saber de nada que não diga respeito aos meus negócios — ele soltou o queixo dela, mas sua mão desceu para o pescoço de Eduarda, sentindo o pulso acelerado. — Mas você vai aprender a obedecer. Amanhã, você não sai deste perímetro. Você vai ficar onde eu possa te ver.
— Meus pais não vão deixar você me controlar assim — tentou ela.
— Seus pais acham que eu sou o convidado perfeito e protetor. Eles vão agradecer por eu estar cuidando da "filhinha aventureira" deles — ele deu um sorriso cruel. — Agora vá. Antes que eu perca o resto do meu autocontrole e te leve para o meu quarto na frente de todo mundo.
Eduarda fugiu para o andar de cima, o corpo tremendo não mais de adrenalina, mas de um medo profundo e de uma atração que ela odiava sentir. Ela entrou no quarto e encontrou as primas ainda rindo baixo sobre a Noiva, alheias à tempestade que acabara de desabar na cozinha.
— Foi demais, não foi? — perguntou Bia, trocando de roupa. — O tatuador ficou possesso, mas valeu a pena. Aquela visão da ponte... foi mágica.
Eduarda não respondeu. Ela foi para o banheiro e deixou a água quente lavar a lama de seu corpo. Mas nenhuma água poderia lavar a sensação de que ela estava sendo cercada. Emanuel não era apenas um homem apaixonado; ele era um predador que havia encontrado sua presa mais preciosa.
No quarto de hóspedes, Sara estava deitada, observando Emanuel entrar. Ele se deitou ao lado dela, o corpo ainda rígido.
— Você está muito focado naquela menina, Emanuel — disse Sara, a voz calma, mas carregada de uma inteligência perigosa. — Eu não sou cega. Eu sei que você gosta de coisas delicadas e fáceis de quebrar. Mas lembre-se: eu sou a única que sabe como consertar você quando você se estilhaça.
Emanuel fechou os olhos, puxando Sara para perto de si em um gesto mecânico de posse.
— Você é a minha namorada, Sara. A administração da minha vida está nas suas mãos. Não confunda as coisas.
— Espero que sim — murmurou Sara, aninhando-se nele. — Porque se eu descobrir que você está investindo em "outros negócios" sem a minha autorização, eu posso ser muito mais perigosa do que qualquer fantasma de noiva.
O silêncio voltou a reinar na casa de campo, mas era um silêncio falso. Lá fora, a névoa continuava a esconder a ponte de pedra e o espectro da Noiva. Lá dentro, Eduarda chorava em silêncio, percebendo que sua pequena aventura noturna havia apenas apertado as correntes que a prendiam ao tatuador.
Emanuel, na escuridão, sorriu. Ele odiava ser desafiado, mas o desafio de Eduarda apenas tornava a conquista mais saborosa. Ele a teria. Ele teria as duas. A loira siliconada e vulgar que comandava seus estúdios e a morena sensível e manhosa que agora comandava seus instintos mais sombrios. A chuva podia parar, a ponte podia abrir, mas para aquelas duas mulheres, não havia mais saída do labirinto que ele havia construído.