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Herdeiros de Pelo e Garras
A luz da manhã entrava pelas janelas do chão ao teto da cobertura, iluminando a poeira que dançava no ar e o cenário de caos doméstico que Emanuel tentava ignorar. Ele estava sentado à mesa de jantar com um tablet à sua frente, revisando os esboços de uma nova série de tatuagens realistas para a convenção de Tóquio. No entanto, a concentração era um luxo que ele não possuía naquele momento.
Aos seus pés, Hades, um imponente Pastor Belga Groenendael de pelagem negra como o carvão e olhos alertas, soltou um ganido baixo, quase um pedido. Antes que Emanuel pudesse dar o comando de "fica", uma figura delicada deslizou pela cozinha.
— Bom dia, meu príncipe negro! — exclamou Eduarda, ignorando completamente Emanuel. Ela se ajoelhou no chão de mármore, as mãos pequenas mergulhando na pelagem densa de Hades. — Quem é o filho mais lindo da mamãe? Quem é?
Hades, que era treinado para ser um cão de guarda rústico e obediente, transformou-se instantaneamente em uma massa de pelos dengosa, tombando de lado para que Eduarda coçasse sua barriga.
— Eduarda, por favor — Emanuel suspirou, largando a caneta digital. — Eu já te pedi mil vezes. O Hades é um cão de trabalho, não um bicho de pelúcia. Se você continuar mimando ele desse jeito, ele vai perder o instinto de proteção. Ele precisa de disciplina, não de "fofura".
— Ah, Manu, deixa de ser ranzinza — Eduarda respondeu, fazendo biquinho enquanto recebia uma lambida entusiasmada no rosto. — Ele é só um bebê. E veja, o Oliver está com ciúmes!
Oliver, um gato persa cinza e extremamente peludo, saltou da bancada da cozinha diretamente para o colo de Eduarda, infiltrando-se entre ela e o cachorro. Eduarda prontamente o acolheu, equilibrando o gato em um braço enquanto continuava a acariciar o cão com a outra mão.
— São nossos filhos, Manu. Nossos meninos — ela disse, com aquela voz manhosa que costumava desarmar Emanuel. — O Hades protege a casa e o Oliver protege a nossa alma. Não é, meus amores?
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a irritação borbulhar.
— Eles não são nossos filhos, Duda. Um é um predador de elite e o outro é um felino que acha que é o dono do meu apartamento. E eu já te disse: não dê petiscos da mesa para o Hades. Ele tem uma dieta rigorosa.
— Só foi um pedacinho de queijo brie... — ela murmurou, desviando o olhar de forma culpada.
— Queijo brie?! — Emanuel quase gritou. — Eduarda, eu pago uma fortuna em ração importada para ele manter o tônus muscular!
Nesse momento, o som rítmico de saltos altos ecoou pelo corredor. Sara apareceu, impecável em um robe de seda preta que deixava pouco para a imaginação, carregando nos braços a pequena Chanel, uma Lulu da Pomerânia branca que parecia uma nuvem de algodão com olhos de jabuticaba.
— Que gritaria é essa logo cedo? — Sara perguntou, caminhando em direção à cafeteira. Ela colocou Chanel cuidadosamente em um cercadinho acolchoado no canto da sala, forrado com tapetes higiênicos de grife. — Emanuel, querido, você está com a veia da testa saltada de novo. Vai acabar tendo um derrame antes dos trinta.
— A Eduarda está transformando o meu cão de guarda em um tapete de sala — Emanuel reclamou, apontando para a cena no chão.
Sara olhou para Eduarda com uma mistura de divertimento e desdém.
— Duda, querida, você realmente tem essa necessidade de transformar tudo em um comercial de margarina, não é? O cachorro do Emanuel é um monstro de quarenta quilos de puro músculo. Tratar ele como um bebê é, no mínimo, ridículo.
Eduarda se levantou, segurando Oliver com força, o rosto ficando levemente corado.
— Eu só dou amor, Sara. Coisa que você parece ter medo de dar até para a sua cachorrinha. A Chanel vive naquele cercadinho, você mal deixa ela encostar no chão para não sujar as patas.
Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— A Chanel é um acessório vivo e uma companheira de luxo, não um animal de fazenda. Ela tem pedigree, faz hidratação de pelos toda semana e não se mistura com essa... — ela apontou para Hades — ...fera indomada que solta pelos por toda a minha mobília. E não, ninguém mima a Chanel. Ela tem regras. Ela sabe que o lugar dela é no colo ou na bolsa, nunca destruindo meus sapatos de mil dólares.
— Ela parece triste — alfinetou Eduarda, aproximando-se do cercadinho com a intenção de tocar na pequena cadela.
— Nem pense nisso! — Sara se atravessou no caminho, a voz subindo um oitavo. — Não ouse "estragar" a minha cachorra com esses seus carinhos melosos e essa energia de "mãe de pet" carente. A Chanel é educada. Ela não pula nas pessoas e não pede queijo brie.
— Chega! As duas! — Emanuel se levantou, a estatura imponente silenciando o ambiente por um segundo. — Eu não aguento mais. Eu saio para trabalhar, gerencio estúdios em três continentes, lido com artistas difíceis e clientes complicados para chegar em casa e encontrar uma disputa de quem mima mais ou menos os animais.
Ele caminhou até Hades e deu um comando seco em alemão. O cão, instantaneamente, sentou-se em posição de atenção, as orelhas erguidas, os olhos fixos no dono.
— Viu? — Emanuel disse para Eduarda. — Isso é um cachorro. Ele precisa de liderança, não de colo vinte e quatro horas por dia.
— Mas Manu... — Eduarda começou, os olhos já ficando úmidos. — Ele gosta... ele se sente seguro comigo.
— Ele se sente confuso com você, Duda! — Emanuel rebateu, a frustração transbordando. — Uma hora eu dou uma ordem e na outra você aparece oferecendo queijo e chamando ele de "bebê da mamãe". Você está minando a minha autoridade com o meu próprio cão!
Eduarda baixou a cabeça, uma lágrima solitária escorrendo. Ela se sentia injustiçada. Para ela, a casa de Emanuel era um lugar frio e profissional demais, e os animais eram a ponte para trazer calor humano àquela cobertura luxuosa.
Sara, vendo a vulnerabilidade de Eduarda, sentiu aquela pontada familiar de impaciência misturada com uma proteção estranha. Ela não suportava ver Eduarda chorando, principalmente porque isso sempre fazia Emanuel amolecer e, consequentemente, perder o controle da situação.
— Ai, Emanuel, não precisa ser um ogro — Sara disse, servindo-se de café e encostando-se na bancada. — A menina é sensível, você sabe disso. Mas Duda, entenda uma coisa: se esse cachorro morder alguém porque você o deixou mal-acostumado, quem vai responder é o Emanuel. O amor não paga processo judicial.
— Ele nunca morderia ninguém! — Eduarda exclamou, defendendo Hades como se fosse um filho legítimo. — Ele é puro e bom.
Emanuel suspirou pesadamente. Ele caminhou até Eduarda e, como sempre fazia quando percebia que tinha sido duro demais, envolveu-a em um abraço. Ele sentiu o corpo dela relaxar contra o seu, o cheiro de baunilha acalmando seus nervos.
— Eu só quero que você entenda que há limites, pequena — ele sussurrou no ouvido dela. — Eu amo que você seja carinhosa, mas o Hades é uma responsabilidade grande.
— Eu só quero que sejamos uma família, Manu — ela murmurou contra o peito dele. — Eu, você, a Sara, o Hades, o Oliver e a Chanel.
Sara soltou uma risada sarcástica do outro lado da cozinha.
— Uma família? Com esse zoológico? Eu mal consigo manter meu tapete persa livre de pelos de gato, e você quer falar em família?
— Você também faz parte disso, Sara — Eduarda disse, olhando por cima do ombro de Emanuel. — Mesmo que finja que não se importa, eu vi você dando um pedacinho de presunto para o Oliver ontem à noite quando achou que ninguém estava olhando.
O rosto de Sara ficou subitamente rígido. Ela desviou o olhar, focando intensamente em sua xícara de café.
— Você deve estar delirando. Eu jamais faria algo tão higienicamente questionável.
Emanuel olhou de uma para a outra. Ele sabia que Eduarda estava falando a verdade. Sara tinha essa fachada de mulher de negócios implacável e fria, mas no fundo, ela também estava sendo tragada pela atmosfera doméstica que Eduarda criava.
— Bem — Emanuel disse, tentando retomar o controle —, já que somos uma "família", vamos estabelecer regras. Duda, nada de comida humana para o Hades. E nada de deixar o Oliver dormir em cima dos meus equipamentos de desenho. Sara, você precisa deixar a Chanel interagir um pouco mais, ela parece um enfeite de estante naquele cercadinho.
— Ela é um enfeite caro, Emanuel — Sara retrucou, mas seu tom não era tão ácido quanto antes.
— E hoje à noite — continuou Emanuel —, eu vou levar o Hades para um treinamento de reforço. Eduarda, você pode vir junto para aprender os comandos. Assim você entende como se comunicar com ele sem ser apenas através de carícias.
— Eu posso levar o Oliver? — perguntou Eduarda, com uma esperança ingênua nos olhos.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, contando até dez.
— Não, Eduarda. Gatos não vão a treinamentos de pastores belgas.
— Viu só? — Sara provocou. — Nem tudo pode ser resolvido com beijos e abraços, "mamãe".
O restante da manhã passou em uma trégua relativa. Emanuel voltou aos seus desenhos, Hades deitou-se obedientemente aos seus pés (embora lançando olhares furtivos para Eduarda sempre que ela passava), e Sara começou a organizar a agenda dos estúdios pelo laptop, com Chanel finalmente sentada em seu colo enquanto recebia escovadas rítmicas.
Eduarda, no entanto, não conseguia ficar quieta. Ela aproveitou que Emanuel estava imerso no trabalho e Sara estava em uma chamada de vídeo com um fornecedor de Berlim para se aproximar de Hades. Ela se sentou no chão, bem devagar, e sussurrou:
— Não conta para o papai, mas eu comprei um brinquedo novo para você. Um que faz barulho de pato.
Hades abanou a cauda levemente, batendo no chão com um som surdo. Emanuel, sem tirar os olhos do tablet, deu um sorriso de canto. Ele ouvia tudo. Ele sabia que a batalha pela disciplina estava perdida no momento em que Eduarda se mudasse definitivamente para a cobertura, o que ele esperava que acontecesse em breve.
— Eu estou ouvindo, Eduarda — Emanuel disse, a voz calma mas firme.
— É só um brinquedo, Manu! Não é queijo brie! — ela respondeu rapidamente, abraçando o pescoço do cachorro.
— Deixa ela, Emanuel — Sara gritou da outra sala, interrompendo sua chamada por um segundo. — Se o cachorro destruir o pato e engolir o apito, a conta do veterinário sai do cartão dela!
Emanuel balançou a cabeça. Seu apartamento, que antes era um santuário de minimalismo e silêncio monumental, agora era um campo de batalha de personalidades, pelos, latidos e miados. Havia a timidez manhosa de Eduarda que transformava feras em gatinhos; havia a arrogância vulgar e competente de Sara que tentava manter a ordem com mãos de seda e unhas de gel; e havia ele, tentando ser o mestre de um cerimonial que nunca seguia o roteiro.
Ele olhou para a tatuagem em seu próprio antebraço, um desenho complexo de correntes quebradas. Sorriu para si mesmo. Ele nunca esteve tão preso a uma situação, e, paradoxalmente, nunca se sentiu tão em casa.
— Manu? — Eduarda chamou de novo.
— O que foi agora, Duda?
— O Oliver fez xixi no scarpin da Sara. No que ela deixou perto da porta.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Emanuel congelou. Ele ouviu o som da cadeira de Sara sendo empurrada para trás com violência.
— EDUARDA! EU VOU MATAR ESSE GATO! — o grito de Sara ecoou por todo o andar.
Emanuel largou a caneta e encostou a cabeça no encosto da cadeira, fechando os olhos.
— Hades, busca — ele comandou baixinho, sem nem saber o que queria que o cão buscasse, apenas querendo que alguém fizesse alguma coisa enquanto o caos recomeçava.
Hades latiu, Oliver correu para debaixo do sofá, Chanel começou a ganir agudamente em seu cercadinho e Sara apareceu na sala segurando o sapato de grife com as pontas dos dedos, o rosto vermelho de fúria. Eduarda se encolheu atrás de Emanuel, usando-o como escudo humano.
— É... — Emanuel murmurou para ninguém em especial — ...definitivamente, a paz é um conceito superestimado.
Ele se levantou, pronto para mediar mais uma crise diplomática entre o luxo e a fofura, entre o silicone e a sensibilidade. E no fundo, enquanto via Sara esbravejar sobre o preço do couro italiano e Eduarda prometer que lavaria o sapato com sabão neutro, Emanuel percebeu que não trocaria aquele hospício por nenhum estúdio silencioso no mundo. Afinal, ele era o dono daquele império, e todo rei precisava aprender a lidar com seus herdeiros — mesmo aqueles que tinham quatro patas e uma insistência irritante em ignorar as regras.