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Guerra Fria de Veludo e Garras
O silêncio na cobertura de Emanuel era uma ilusão perigosa, um intervalo curto entre uma crise administrativa gerada por Sara e um drama emocional protagonizado por Eduarda. Mas, naquela tarde de quarta-feira, o conflito tinha um novo rosto — ou melhor, um novo focinho. Emanuel estava sentado em sua poltrona de leitura, tentando se concentrar em um livro técnico sobre pigmentação dérmica, mas sentia um par de olhos amarelos e semicerrados fixos nele.
Oliver, o gato persa cinza que parecia uma nuvem de tempestade flutuante, estava sentado no topo do encosto do sofá, exatamente na altura da cabeça de Emanuel. O felino não se movia, apenas o encarava com uma arrogância ancestral, como se estivesse julgando cada decisão que o tatuador já tomara na vida.
— Sai daí, Oliver — resmungou Emanuel, sem desviar os olhos do livro. — Você tem três arranhadores caros e uma árvore de gato que custou o preço de uma máquina de tatuagem nova. Não precisa ficar no meu cangote.
Em resposta, Oliver soltou um miado curto e seco, algo que soou estranhamente como um insulto, e começou a lamber a pata dianteira com uma indiferença calculada.
Emanuel tentou ignorar. Ele era um homem de 25 anos, dono de um império internacional, respeitado por sua firmeza e controle. Ele não seria intimidado por um animal de estimação de cinco quilos. No entanto, assim que Emanuel fez menção de se levantar para pegar um copo de água, Oliver agiu. Com uma agilidade que desafiava sua aparência rechonchuda, o gato saltou sobre a mesa de centro, derrubando propositalmente o marcador de páginas de couro de Emanuel e, no processo, chutando o controle remoto para debaixo do móvel.
— Seu... pequeno demônio — Emanuel sibilou, abaixando-se para recuperar o objeto.
— Manu? Por que você está falando assim com o Oliver? — A voz doce de Eduarda veio do corredor.
Ela apareceu segurando um cesto de roupas limpas, usando um cardigã oversized que a deixava ainda mais delicada. No momento em que os olhos de Eduarda encontraram o gato, a transformação de Oliver foi cinematográfica. O felino, que segundos antes parecia um vilão de filme de espionagem, soltou um ganido lamurioso, murchou as orelhas e se arrastou em direção a Eduarda, esfregando a cabeça em seus tornozelos com uma carência quase teatral.
— Ah, meu bebezinho! — Eduarda largou o cesto e pegou o gato no colo, enterrando o rosto na pelagem cinza. — Ele está te incomodando, Manu? Ele só queria um pouco de atenção, não é, meu amorzinho?
— Atenção? Eduarda, ele acabou de chutar o controle remoto e derrubar minhas coisas de propósito — Emanuel disse, levantando-se e apontando para a evidência. — Ele está me desafiando. De novo.
Eduarda olhou para o gato, que agora estava com os olhos bem abertos, transmitindo uma inocência que Emanuel sabia ser falsa.
— Manu, você sempre implica com ele — ela disse, com um tom de leve reprovação. — O Oliver é tão sensível. Ele sente quando você está estressado e tenta interagir. Você é muito duro com os animais. Primeiro foi com o Hades, agora com ele.
— Ele não está interagindo, Duda, ele está competindo! — Emanuel exclamou, sentindo a veia na têmpora pulsar. — Toda vez que eu tento sentar perto de você, ele se enfia no meio. Toda vez que eu tento trabalhar, ele deita em cima do meu tablet. Ele sabe exatamente o que está fazendo.
— Ele só te ama, Manu. Do jeitinho dele — Eduarda insistiu, dando um beijo no topo da cabeça do gato e sentando-se no sofá.
Oliver, acomodado no colo de Eduarda, virou a cabeça ligeiramente para trás, apenas o suficiente para que Emanuel visse o brilho de triunfo em seus olhos amarelos. O gato estava ganhando.
A porta da frente se abriu com o barulho característico de sacolas de compras de grife batendo umas nas outras. Sara entrou, exalando o perfume caro que sempre anunciava sua chegada antes mesmo de sua voz. Ela usava um vestido justo de couro sintético e saltos agulha que faziam um som autoritário no mármore.
— Se eu ouvir mais uma reclamação sobre esse tapete de pelos cinza, eu juro que vou contratar um tosador para deixar ele parecendo um rato pelado — Sara disparou, jogando as sacolas sobre a bancada. — Emanuel, por que você ainda discute com um gato? Use sua autoridade de homem da casa.
— Eu tento, Sara, mas a Eduarda trata ele como se fosse um herdeiro exilado — Emanuel respondeu, caminhando até a cozinha para se servir de café.
— É porque ele é um bebê, Sara! — Eduarda defendeu, enquanto Hades, o Pastor Belga, se aproximava dela, também buscando carinho.
Eduarda, em um malabarismo de afeto, começou a acariciar o topo da cabeça de Hades com uma mão enquanto mantinha Oliver no colo com a outra.
— Viu só? — Sara apontou para a cena. — Isso não é uma sala de estar, é um abrigo de animais carentes. Emanuel, os relatórios da unidade de Milão chegaram e estão uma bagunça. Eu organizei tudo, mas preciso que você assine as autorizações de compra de novos equipamentos. E tire esse gato de perto dos documentos, ou eu mesma vou mostrar a ele o que acontece com quem mexe no meu trabalho.
Sara caminhou até a mesa de jantar e abriu seu laptop, espalhando papéis com uma eficiência agressiva. Ela não tinha paciência para a "maternidade pet" de Eduarda, mas tolerava os animais desde que eles não interferissem em sua estética ou em sua produtividade.
— Eu vou assinar, Sara. Só me dê cinco minutos de paz — Emanuel pediu, sentando-se à mesa ao lado dela.
Eduarda, sentindo-se um pouco excluída da conversa de negócios, levantou-se com Oliver ainda nos braços e caminhou até o lado de Emanuel.
— Manu... você não quer ver os livros que eu trouxe da faculdade? Tem uma parte sobre as gárgulas da Notre Dame que eu achei a sua cara — ela disse, tentando se inclinar sobre o ombro dele.
Antes que Emanuel pudesse responder, Oliver esticou uma pata e, com uma precisão cirúrgica, puxou o cabo do carregador do laptop de Sara, desconectando-o no meio de uma transferência de dados.
— MAS QUE INFERNO! — Sara gritou, batendo na mesa. — Emanuel, esse animal é um sabotador! Ele desligou o meu computador!
— Foi sem querer, Sara! — Eduarda exclamou, protegendo o gato com o corpo como se estivesse diante de um pelotão de fuzilamento. — Ele só se espreguiçou!
— Espreguiçou o caramba! — Sara levantou-se, os olhos faiscando. — Ele olhou para o cabo antes de puxar! Ele é vulgar e manipulador, igualzinho aos tatuadores folgados que eu tenho que demitir toda semana!
Emanuel levantou as mãos, tentando conter a explosão iminente.
— Chega! Sara, reconecta isso. Eduarda, leva o Oliver para o quarto. Agora.
— Mas Manu, ele não fez por mal... — Eduarda começou a choramingar, os olhos já ficando úmidos.
— Quarto. Agora, Eduarda — Emanuel repetiu, no tom de voz que usava quando a paciência chegava ao limite absoluto.
Eduarda saiu da sala, pisando duro, com o gato no colo. Oliver, por cima do ombro dela, lançou um último olhar de superioridade para Emanuel, como quem diz: "Eu tirei ela de perto de você, não tirei?".
— Eu odeio esse gato — Sara murmurou, voltando a se sentar. — Ele é a única coisa nesta casa que eu não consigo gerenciar. Ele é inteligente demais, Emanuel. Ele sabe que a Eduarda é o ponto fraco de todo mundo aqui.
— Eu sei, Sara. Eu sei — Emanuel suspirou, esfregando o rosto. — Mas se eu tento colocar ordem, eu viro o vilão da história. A Eduarda acha que eu persigo o bicho.
— É porque você é racional demais — Sara disse, dando um sorriso de lado, sarcástico. — Você tenta usar lógica com um gato e com uma menina que vive no mundo da História da Arte. Eu uso a força bruta da administração. Amanhã vou comprar um spray de água. Se ele chegar perto dos meus eletrônicos, vai levar um banho.
— Se você fizer isso, a Eduarda vai chorar por três dias seguidos — Emanuel lembrou.
— Então ela que chore. É melhor ela chorar do que eu perder um contrato de fornecimento de tintas orgânicas porque um persa mimado resolveu brincar de eletricista.
A noite caiu sobre a cobertura, mas a tensão não se dissipou. Emanuel, exausto após horas de reuniões por vídeo e análise de orçamentos, finalmente decidiu que era hora de se deitar. Ele entrou no quarto principal, esperando encontrar um momento de intimidade com Eduarda, mas o cenário que encontrou foi outro.
Eduarda estava deitada no meio da cama king-size, cercada por livros de arte. De um lado, Hades ocupava um espaço considerável do colchão, com a cabeça repousada sobre os pés dela. Do outro, Oliver estava esparramado exatamente no lugar onde Emanuel costumava dormir, ocupando o travesseiro dele como se fosse um trono.
— Duda... — Emanuel começou, parando na porta. — O que o cachorro e o gato estão fazendo na cama?
— Ah, Manu... a Sara foi tão grossa com o Oliver hoje — Eduarda disse, olhando para ele com olhos de cachorrinho abandonado. — Ele ficou traumatizado. E o Hades estava se sentindo sozinho porque você não levou ele para passear hoje. Eu só queria dar um pouco de conforto para eles.
Emanuel respirou fundo, tentando manter a calma.
— O Hades tem cem metros quadrados de varanda e um tapete ortopédico. O Oliver tem a casa toda. Eu quero dormir na minha cama, com a minha namorada. Sem pelos, sem garras e sem ganidos.
— Você é tão insensível às vezes — Eduarda murmurou, fazendo um biquinho manhoso. — Parece que você não gosta dos nossos filhos.
— Eles não são nossos filhos, Eduarda! — Emanuel explodiu, embora tenha mantido a voz baixa para não acordar o prédio. — Um é um cão de guarda que deveria estar no chão, e o outro é um manipulador peludo que está tentando roubar o meu lugar!
Ele caminhou até a lateral da cama e fez um gesto para Hades descer. O cão, reconhecendo a autoridade de Emanuel, desceu imediatamente, embora tenha soltado um suspiro dramático que fez Eduarda murchar. No entanto, quando Emanuel se aproximou de Oliver, o gato não se moveu. Ele apenas abriu um olho, olhou para Emanuel e soltou um bocejo longo, exibindo as presas.
— Sai, Oliver. Agora — ordenou Emanuel.
Oliver não se moveu um milímetro. Eduarda abraçou o gato, trazendo-o para mais perto dela.
— Deixa ele aqui, Manu... por favor. Ele é tão pequenininho, não ocupa espaço. Você pode dormir do outro lado.
Emanuel olhou para o espaço reduzido que lhe restava. Ele, um homem rico, poderoso e dono de estúdios ao redor do mundo, estava sendo expulso de sua própria cama por um gato persa cinza. A ironia da situação era quase insuportável.
— Tudo bem — Emanuel disse, a voz carregada de uma frieza perigosa. — Se ele fica, eu saio.
— Manu! Não faz assim! — Eduarda exclamou, sentando-se na cama.
Mas Emanuel já estava saindo do quarto. Ele caminhou até a sala, onde Sara ainda estava terminando um último drinque enquanto olhava algumas planilhas no tablet.
— Expulso pelo gato? — Sara perguntou, sem tirar os olhos da tela, um sorriso irônico brincando em seus lábios perfeitamente pintados.
— Não enche, Sara — Emanuel resmungou, jogando-se no sofá de couro.
— Eu te avisei — ela disse, levantando-se e caminhando até ele. Ela sentou-se na borda do sofá, o corpo curvilíneo e o perfume marcante prechendo o espaço de Emanuel. — Você mima demais a Eduarda, e a Eduarda mima demais aquele bicho. No fim, quem sobra no frio é você.
Sara inclinou-se, passando a mão pelo ombro de Emanuel, uma provocação clara.
— Se você quiser, o meu quarto está livre. E eu te garanto: não tem gatos, nem livros de arte, nem dramas infantis. Só administração de alta qualidade e... outros benefícios.
Emanuel olhou para Sara. Ela era o oposto de Eduarda em tudo. Onde Eduarda era suavidade e necessidade de proteção, Sara era desafio e controle. Ele amava as duas, mas naquele momento, a praticidade de Sara era tentadora.
— Eu só quero dormir sem que algo tente me morder ou me fazer sentir culpado por existir — Emanuel disse.
Antes que Sara pudesse responder, um som de choro baixo veio do corredor. Eduarda apareceu na porta da sala, segurando Oliver contra o peito, as lágrimas escorrendo pelo rosto doce.
— Manu... desculpa — ela soluçou. — Eu tirei ele da cama. Eu não quero que você durma no sofá. Eu me sinto mal quando você fica bravo comigo.
O gato, percebendo a mudança de poder, olhou para Emanuel com um ar de derrota temporária, mas ainda assim mantinha uma pata possessiva sobre o braço de Eduarda.
Emanuel olhou para as duas mulheres. Sara, ao seu lado, exalava uma confiança predatória, esperando que ele escolhesse a noite de paz e prazer que ela oferecia. Eduarda, na porta, representava o caos emocional e a doçura que o mantinham humano, apesar de toda a sua rigidez.
— Sara, termina esses relatórios — Emanuel disse, levantando-se. — Eu vou para o quarto com a Eduarda.
Sara soltou uma risada curta, nada ofendida. Ela sabia que a dinâmica entre eles era um jogo de longo prazo.
— Você é um homem fraco para lágrimas de mocinha, Emanuel. Mas tudo bem. Amanhã, quando aquele gato vomitar uma bola de pelos no seu travesseiro, não diga que eu não avisei.
Emanuel caminhou até Eduarda e pegou o gato das mãos dela, colocando-o no chão com firmeza. Ele abraçou a namorada, sentindo o corpo dela tremer levemente.
— Está tudo bem, pequena. Só... vamos estabelecer limites, ok? Eu amo você, mas eu sou o dono desta casa, não o gato.
— Eu sei, Manu... eu só queria que todo mundo se desse bem — ela murmurou, escondendo o rosto no peito dele.
Enquanto caminhavam de volta para o quarto, Emanuel sentiu o olhar de Oliver em suas costas. O gato não tinha desistido. Ele estava apenas recuando para planejar o próximo ataque.
Deitados na cama, finalmente a sós — ou quase, já que Hades estava roncando no tapete ao lado —, Emanuel sentiu Eduarda se aninhar nele. A paz parecia ter retornado, até que ele sentiu um peso familiar pulando nos seus pés por cima do edredom.
Oliver havia retornado. O gato se acomodou exatamente em cima dos pés de Emanuel, impedindo-o de se mexer confortavelmente.
— Eduarda... — Emanuel começou, a voz carregada de aviso.
— Shhh, Manu... ele já está dormindo — ela sussurrou, já pegando no sono. — Olha como ele está quietinho. Ele te ama tanto.
Emanuel olhou para o teto da cobertura luxuosa, sentindo o peso do gato nos seus pés e o peso da responsabilidade sobre seus ombros. Ele era um tatuador rico, um empresário de sucesso, um homem que controlava impérios. Mas ali, na penumbra do seu quarto, ele percebeu a verdade nua e crua: ele podia mandar no mundo, mas naquela casa, ele era apenas mais um súdito em um reino governado por uma menina manhosa, uma loira ambiciosa e um gato que sabia exatamente como ganhar uma guerra sem soltar um único miado.
— Amanhã — Emanuel sussurrou para o escuro — amanhã eu compro aquele spray de água.
Oliver apenas ronronou, um som baixo que soou, para os ouvidos atentos de Emanuel, como uma gargalhada. A disputa pela atenção de Eduarda estava longe de terminar, e o tatuador sabia que, naquela guerra de veludo e garras, ele ainda teria muitos campos de batalha para enfrentar.