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Cicatrizes de Seda e Segredos de Veludo
A luz do entardecer filtrava-se pelas cortinas de linho da cobertura, mas o clima no quarto principal não tinha nada de poético. Emanuel estava parado diante do espelho, abotoando uma camisa de algodão egípcio preto, a expressão rígida como se estivesse se preparando para uma negociação de guerra, e não para um jantar casual na casa de Henrique. Ele sentia o peso do silêncio no ambiente, um silêncio carregado de uma eletricidade residual que ainda vibrava em seus próprios músculos.
A noite anterior e a manhã de hoje haviam sido... intensas. Emanuel era um homem de apetites vorazes, e o estresse acumulado dos estúdios costumava ser canalizado em uma paixão que beirava o domínio absoluto. Ele amava suas mulheres, mas seu amor era físico, possessivo e, às vezes, impiedoso.
— Eduarda, você vai se atrasar — disse ele, a voz grave ecoando pelo quarto. — E eu não quero chegar depois do Henrique.
Do closet, um gemido baixo e quase imperceptível foi a resposta. Eduarda saiu de lá caminhando com uma lentidão que denunciava cada centímetro de seu desconforto. Ela usava um vestido de seda azul-claro, solto o suficiente para não marcar, mas, a cada passo, seu rosto se contraía em uma careta de dor que ela tentava, inutilmente, disfarçar.
— Eu já estou quase pronta, Manu — sussurrou ela, apoiando-se por um segundo no batente da porta.
Emanuel virou-se e a observou. Ele sabia exatamente o que aquela hesitação significava. Na noite anterior, ele a levara ao limite. A timidez de Eduarda sempre o instigava a ser mais assertivo, mais profundo, e o resultado era uma sensibilidade extrema que agora a fazia sentir como se cada movimento fosse um atrito insuportável. Ela estava inchada, a pele fina e delicada de sua intimidade protestando contra o simples contato do tecido da calcinha de renda.
— Você está bem? — perguntou ele, embora a resposta estivesse escrita na palidez do rosto dela.
— Só um pouco... sensível — Eduarda respondeu, desviando o olhar, as bochechas corando. — Você foi um pouco... forte demais, Manu.
Emanuel caminhou até ela, segurando seu queixo e forçando-a a olhá-lo. Havia um brilho de satisfação possessiva em seus olhos, mas também uma sombra de preocupação prática.
— Eu te disse para avisar se estivesse doendo.
— Eu não queria que você parasse — ela murmurou, a honestidade de sua carência sempre sendo sua maior fraqueza.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu com um estrondo familiar. Sara entrou, já pronta, exalando uma aura de agressividade glamourosa. Ela usava um vestido de couro sintético vermelho, tão justo que parecia uma segunda pele. No entanto, o andar de Sara, geralmente predatório e fluido, estava estranhamente rígido. Seus ombros estavam tensos e ela mantinha as pernas um pouco mais afastadas do que o normal.
— Se alguém me pedir para sentar em uma cadeira de madeira sem almofada hoje, eu juro que mato um — disparou Sara, jogando a bolsa sobre a cama.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto surgindo.
— Você também, Sara?
— Não venha com esse sorrisinho de "venci a batalha", Emanuel — ela retrucou, embora houvesse um brilho de luxúria mal disfarçado em seu olhar. — Você é um animal. Eu sinto como se tivesse passado por um moedor de carne. Está queimando, se você quer saber os detalhes sórdidos.
Sara também havia tido sua "sessão" particular naquela manhã, antes de Emanuel sair para uma reunião. Se Eduarda era a suavidade que ele queria proteger e possuir, Sara era o desafio que ele precisava subjugar. E ele o fizera com um vigor que deixara a loira siliconada sem fôlego e, agora, com uma sensação de ardência que tornava o uso daquele vestido de couro uma forma refinada de tortura.
— Ótimo — disse Emanuel, voltando-se para o espelho para ajustar o relógio. — As duas estão devidamente marcadas. Agora, recomponham-se. Temos um jantar social. Não quero ninguém mancando ou fazendo caretas entre um canapé e outro.
— Fácil para você falar — murmurou Sara, pegando um tubo de pomada anestésica da gaveta de cabeceira e desaparecendo no banheiro por um momento. — Você não é quem tem que cruzar as pernas e sorrir para a esposa fofoqueira do Henrique enquanto sente que tem brasas entre as coxas.
Eduarda sentou-se na borda da cama com um suspiro sofrido, as mãos apertando o lençol.
— Manu... eu não sei se consigo fingir. Está doendo muito quando eu ando.
Emanuel ajoelhou-se entre as pernas dela, afastando o tecido do vestido com cuidado. Ele viu o tremor nas coxas de Eduarda.
— Você vai conseguir, pequena. É só um jantar. Fique sentada a maior parte do tempo. Se alguém perguntar, diga que exagerou na aula de pilates ou algo do tipo.
— Eu nem faço pilates — ela fungou, sentindo-se pequena diante daquela situação absurda.
— Então invente — disse Sara, saindo do banheiro com uma expressão um pouco mais aliviada, mas ainda tensa. — Use a cabeça, Duda. Se a gente der bandeira, o Henrique vai sacar na hora. Ele conhece o Emanuel. Vai saber exatamente o que esse bruto fez com a gente.
O trajeto até a casa de Henrique foi um exercício de resistência. A cada buraco que o carro passava, Sara soltava um palavrão entre dentes e Eduarda fechava os olhos com força, agarrando a mão de Emanuel. Ele, por sua vez, dirigia com uma calma irritante, uma mão no volante e a outra alternando entre acariciar a coxa de uma e o joelho da outra, o que apenas aumentava a sensibilidade delas.
Quando chegaram à mansão de Henrique, o ambiente era o epítome da sofisticação paulistana. Música lounge, luzes quentes e o cheiro de culinária francesa. Henrique e sua esposa, Letícia, os receberam na entrada.
— Emanuel! Finalmente! — Henrique exclamou, dando um abraço forte no amigo. — E as damas... vocês estão deslumbrantes.
— Obrigada, Henrique — Sara disse, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. Ela deu um passo curto, sentindo o atrito do couro contra sua pele irritada. Era como se mil agulhas a estivessem cutucando. — A casa está impecável, como sempre.
Eduarda apenas acenou com a cabeça, mantendo-se colada ao lado de Emanuel. Ela sentia a buceta pulsar, um inchaço que tornava até o ato de respirar profundamente um desafio.
— Eduarda, querida, você está tão quieta — Letícia comentou, aproximando-se com uma taça de vinho. — Aconteceu alguma coisa? Você parece um pouco... pálida.
— Só um pouco de cansaço, Letícia — Eduarda mentiu, a voz saindo mais fina do que o normal. — A faculdade de História da Arte está exigindo muito de mim esta semana.
— Sei bem como é — Letícia riu. — Mas venham, o jantar será servido em breve. Vamos para a sala de estar.
O caminho até o sofá pareceu uma milha para as duas. Sara tentava manter seu rebolado característico, mas cada movimento do quadril era um protesto de seus músculos e de sua mucosa machucada. Ela se sentou em uma poltrona de veludo com uma cautela que não passou despercebida por Emanuel, que a observava com um divertimento cruel.
Eduarda escolheu o sofá mais macio, afundando-se nele com um suspiro de alívio que tentou mascarar com uma tosse.
— Então, Emanuel — começou Henrique, servindo uísque —, ouvi dizer que o novo estúdio em Londres está sendo um sucesso absoluto. Como você consegue gerenciar tudo e ainda ter tempo para essas duas beldades?
Emanuel deu um gole em sua bebida, recostando-se com a confiança de um rei.
— É tudo uma questão de disciplina, Henrique. Tanto nos negócios quanto na vida pessoal. Eu gosto de manter as coisas... sob controle estrito.
Sara lançou um olhar mortal para ele por cima da taça de champanhe. "Controle estrito" era o eufemismo do século. Ela sentia a queimadura aumentar a cada minuto, o suor frio começando a brotar em sua nuca.
— E você, Sara? — Letícia perguntou. — Ainda ajudando o Emanuel na administração?
— Sempre — Sara respondeu, a voz firme apesar da dor. — Alguém precisa garantir que a equipe não se perca em devaneios artísticos. O Emanuel é o talento, eu sou a ordem.
— E a Eduarda é a paz, imagino — completou Henrique, sorrindo para a morena.
Eduarda tentou sorrir de volta, mas uma pontada aguda de dor a fez se mexer no sofá, o que apenas piorou a sensação. Ela sentia que estava em carne viva.
— Sim... eu tento trazer um pouco de calma — disse ela, a voz falhando levemente.
O jantar foi um teste de resistência psicológica e física. À mesa, sentadas em cadeiras de madeira entalhada, a tortura atingiu o ápice. Sara sentia que seu silicone estava sendo pressionado contra a estrutura do vestido, e a região íntima parecia estar em chamas. Ela bebia mais do que o habitual, tentando usar o álcool como analgésico.
Eduarda, por outro lado, mal conseguia comer. Ela estava focada em manter as pernas o mais imóveis possível. O inchaço era tanto que ela tinha a sensação de que todos na mesa podiam ver seu desconforto.
— Você não tocou no seu patê, Eduarda — observou Henrique. — Algum problema?
— Oh, não, está delicioso — ela mentiu, pegando o garfo com a mão trêmula. — Só estou sem muita fome.
Emanuel, sentado entre as duas, esticou as mãos por baixo da mesa. Ele colocou uma mão na coxa de Sara e a outra na de Eduarda. O toque, que deveria ser reconfortante, foi um lembrete agonizante do que ele havia feito com elas. Sara apertou os dentes, quase quebrando o cristal da taça, enquanto Eduarda soltou um arquejo baixo que Letícia confundiu com um suspiro de apreciação pela comida.
— Emanuel, você é um homem de sorte — disse Henrique, levantando a taça. — Ter duas mulheres que se dão tão bem e que são tão dedicadas.
— Eu sei exatamente o valor do que eu tenho, Henrique — Emanuel respondeu, apertando levemente as coxas delas por baixo da mesa.
Sara sentiu uma gota de suor escorrer entre os seios. Ela queria gritar, queria levantar e ir embora, mas seu orgulho — e sua lealdade a Emanuel — a mantinham pregada àquela cadeira. Ela olhou para Eduarda e, pela primeira vez, sentiu uma empatia profunda pela rival. A morena estava com os olhos marejados, lutando bravamente para não chorar de dor.
"Pelo menos nisso estamos juntas", pensou Sara, dando um gole longo no champanhe.
Após o jantar, o suplício continuou com o café na varanda. O vento frio da noite ajudou um pouco a aliviar a sensação térmica, mas a dor latejante permanecia.
— Emanuel, precisamos marcar aquela partida de tênis — Henrique sugeriu.
— Com certeza. Mas acho que amanhã minhas pernas estarão um pouco... pesadas — Emanuel disse, lançando um olhar cúmplice para as namoradas.
— Excesso de treino? — brincou Henrique.
— Algo assim.
Finalmente, por volta da meia-noite, Emanuel anunciou que precisavam ir. O alívio que emanou de Sara e Eduarda foi quase visível, como uma aura de luz ao redor delas.
As despedidas foram rápidas. Assim que entraram no elevador da mansão de Henrique, a máscara caiu.
— Emanuel, eu vou te matar — sibilou Sara, apoiando-se na parede de espelho do elevador, as pernas finalmente se abrindo um pouco para aliviar a pressão. — Eu nunca senti tanta dor em um evento social na minha vida. Aquele couro... aquela cadeira... eu acho que perdi uma camada de pele.
Eduarda simplesmente se encostou no ombro de Emanuel e começou a chorar baixinho, as lágrimas de exaustão e dor finalmente transbordando.
— Dói muito, Manu... dói muito.
Emanuel as abraçou, uma em cada braço, enquanto o elevador descia.
— Eu sei. Eu sei que exagerei. Mas vocês foram perfeitas. Ninguém desconfiou de nada.
— Porque somos atrizes de primeira classe — Sara retrucou, embora tenha aceitado o abraço. — Mas você vai pagar por isso, Emanuel. Eu quero aquela bolsa da Hermès que eu te mostrei, e quero que você mesmo passe a pomada em mim pelas próximas quarenta e oito horas. Sem segundas intenções.
— E eu... — Eduarda soluçou — ...eu quero que você me carregue até o carro. Eu não dou mais um passo.
Emanuel não discutiu. No estacionamento, ele pegou Eduarda no colo, ignorando os olhares curiosos de um segurança, e a colocou com cuidado no banco de trás. Sara entrou logo depois, deitando-se de lado, ocupando o restante do espaço para evitar qualquer contato direto com o assento.
O caminho de volta para a cobertura foi silencioso. A adrenalina do fingimento havia passado, deixando apenas a realidade física do que significava ser amada por um homem como Emanuel.
Ao chegarem em casa, o ritual de cuidado começou. Emanuel, agora agindo com uma delicadeza que contrastava brutalmente com sua ferocidade anterior, ajudou Eduarda a tirar o vestido e a calcinha. Ele suspirou ao ver o estado dela; a pele estava de um rosa vivo, inchada e sensível ao menor toque do ar.
— Desculpe, pequena — ele sussurrou, pegando uma bacia com água morna e compressas de camomila que ele já havia deixado preparadas.
— Tudo bem, Manu... — ela disse, deitando-se na cama com as pernas afastadas, sentindo o alívio imediato da compressa fria. — Eu só... eu amo quando você me quer desse jeito. Só não sabia que o preço era tão alto.
Sara entrou no quarto, já de robe, carregando sua própria pomada. Ela se sentou na outra ponta da cama, observando Emanuel cuidar de Eduarda.
— E eu? — perguntou ela, com uma voz que misturava carência e autoridade. — Minha vez de ser tratada como a rainha que eu sou, depois de ter sobrevivido àquela cadeira de tortura do Henrique.
Emanuel sorriu, movendo-se para o lado de Sara. Ele começou a aplicar a pomada com movimentos lentos e circulares, ouvindo o suspiro de alívio da loira.
— Vocês duas são incríveis — disse ele, olhando para as suas duas mulheres, unidas pela dor e pelo prazer que ele lhes proporcionava. — Amanhã, ninguém sai de casa. Vamos passar o dia aqui. Sem vestidos, sem couro, sem fingimentos.
— E sem sexo — Sara acrescentou, fechando os olhos enquanto a medicação começava a fazer efeito. — Pelo menos até eu parar de sentir que tenho um vulcão entre as pernas.
— Concordo — murmurou Eduarda, já começando a cochilar sob o efeito das compressas.
Emanuel sentou-se entre elas, observando o silêncio que finalmente se instalara na cobertura. Hades e Oliver, sentindo a mudança de energia, acomodaram-se aos pés da cama. Ele sabia que a dinâmica entre eles era complexa, perigosa e, para muitos, incompreensível. Mas ali, vendo o cuidado que ele dispensava a ambas e a forma como elas, apesar de tudo, buscavam seu toque, ele tinha a certeza de que seu império estava seguro.
A guerra fria de veludo e garras continuaria no dia seguinte, as disputas por atenção e as provocações de Sara voltariam, mas naquela noite, as cicatrizes de seda eram um segredo compartilhado, um vínculo de dor e lealdade que apenas os três poderiam entender. Emanuel apagou a luz, deixando apenas o brilho da cidade de São Paulo entrar pelas janelas, vigiando o sono de suas duas amantes marcadas por sua própria paixão.