Voltar ao resumo

D

O Resgate nas Profundezas da Lama

A tarde de sábado em São Paulo estava carregada com aquele cheiro de chuva iminente que abafa a cidade, mas para Emanuel, o plano era simples e glorioso: o clássico contra o maior rival estava prestes a começar, a cerveja estava no ponto exato de congelamento e o sofá de couro da cobertura parecia o trono de um rei. Ele só queria noventa minutos de paz, longe de agulhas de tatuagem, planilhas de custos ou dramas domésticos.

No entanto, o destino — e Eduarda — tinham outros planos.

Tudo começou com um passeio rápido de Hades. Eduarda insistira em levar o pastor belga para uma volta no quarteirão antes do jogo, alegando que o cachorro estava "inquieto". Emanuel cedeu, desde que ela voltasse antes do apito inicial. Mas quando o relógio marcou dez minutos para o jogo e a porta da cobertura se abriu com um estrondo, Emanuel soube que sua paz tinha sido assassinada.

Eduarda entrou pálida, com os olhos castanhos transbordando lágrimas e o vestido romântico manchado de fuligem.

— Manu! Manu, você precisa vir agora! — ela soluçou, correndo até ele e agarrando sua camiseta de time, amassando-a sem dó. — Ele vai morrer! Ele está gritando e eu não consigo alcançar!

Emanuel sentiu um frio na espinha, o instinto protetor falando mais alto que o futebol.

— O que houve? Alguém te machucou? Cadê o Hades? — Ele já estava de pé, os músculos tensos, procurando por uma ameaça física.

— O Hades está lá embaixo com o porteiro! — ela explicou, a voz falhando. — É um gatinho, Manu! Um filhote! Ele caiu no bueiro da esquina e começou a chover, a água está subindo! Ele vai se afogar, eu ouvi o choro dele!

Emanuel soltou um suspiro que foi metade alívio, metade irritação pura.

— Duda, é um gato de rua. Eles entram e saem dessas coisas o tempo todo. Liga para os bombeiros ou para a prefeitura. O jogo vai começar em cinco minutos.

Nesse momento, Sara saiu do closet, terminando de abotoar uma blusa de seda que realçava seu busto siliconado. Ela olhou para a cena com um desdém magistral, ajeitando o cabelo loiro platinado.

— Emanuel, você não vai mesmo dar ouvidos a esse drama, vai? — Sara disse, caminhando até o bar para servir-se de uma dose de uísque. — É um bueiro, Eduarda. Tem ratos, baratas e sabe-se lá que tipo de doença. Você quer que o Emanuel vire um tartaruga ninja por causa de um bicho de esgoto?

Eduarda se virou para Sara, os olhos faiscando com uma coragem que raramente mostrava.

— Ele é um ser vivo, Sara! Ele está com medo! Manu, se você não for, eu vou descer lá sozinha! Eu vou tirar aquela grade e pular!

Emanuel olhou para o relógio. Quatro minutos. Ele olhou para Eduarda, que tremia de soluçar, parecendo uma criança desamparada, e depois para Sara, que exalava uma vulgaridade sofisticada e uma indiferença gélida.

— Droga... — Emanuel resmungou, jogando o controle remoto no sofá. — Se você pular naquele bueiro, eu vou ter que te levar para o hospital e tomar vinte vacinas. Vamos logo.

— Emanuel, você está brincando! — Sara exclamou, quase engasgando com o uísque. — Você vai se sujar todo! Temos reserva naquele restaurante tailandês às nove!

— Se eu não for, ela não vai parar de chorar por um mês — disse Emanuel, já calçando as botas e pegando uma lanterna potente e um par de luvas de couro no armário de ferramentas. — Sara, se quiser ajudar, pega uma caixa de transporte e umas toalhas velhas. Se não, fica aí assistindo o jogo.

— Eu não vou perder esse mico por nada — Sara retrucou, pegando a bolsa de grife. — Quero só ver como você vai explicar o cheiro de esgoto na sua pele de milionário depois.

O cenário na esquina era pior do que Emanuel imaginara. A chuva começara a cair, fina e insistente, transformando a poeira da rua em uma lama cinzenta. Eduarda o levou até uma grade de ferro pesada, rente à calçada.

— Escuta! — ela pediu, ajoelhando-se na calçada suja, sem se importar com o vestido caro.

Emanuel se inclinou. Vindo das profundezas escuras, um "miau" agudo, rouco e desesperado ecoou contra as paredes de concreto. O som de água correndo lá embaixo estava ficando mais alto.

— É um recém-nascido — Emanuel diagnosticou, a voz séria. — Ele não vai conseguir escalar.

— Tira a grade, Manu! Por favor! — Eduarda implorou, segurando o braço dele.

Emanuel testou o peso do ferro. Estava encravado por anos de sujeira e asfalto. Ele forçou, os tendões do pescoço saltando, as tatuagens nos braços esticando-se com o esforço. Com um esturro de frustração, ele conseguiu deslocar a peça, arrastando-a para o lado com um som metálico estridente.

O cheiro que subiu era uma mistura de mofo, detritos e umidade fétida.

— Credo! — Sara exclamou, cobrindo o nariz com a mão perfeitamente manicurada, mantendo uma distância segura de três metros. — Emanuel, você não vai entrar aí. Você tem funcionários para isso. Liga para um dos seus seguranças!

— Não dá tempo, Sara — Emanuel disse, iluminando o buraco com a lanterna.

A queda era de cerca de dois metros até um patamar de concreto, onde a água da chuva começava a formar uma correnteza em direção às galerias maiores. O filhote, uma coisinha preta e branca encharcada, estava encolhido em um pequeno ressalto, a centímetros de ser levado.

— Segura a lanterna, Duda — Emanuel ordenou.

Ele se sentou na borda, apoiou as mãos e se deixou escorregar para dentro do bueiro.

— Manu, cuidado! — Eduarda gritou lá de cima, a voz ecoando no túnel.

— Meu Deus, que decadência — Sara comentou, olhando para baixo com uma mistura de nojo e uma curiosidade mórbida. — O tatuador mais caro da América Latina enterrado na lama por um gato de rua. Se o pessoal do estúdio visse isso...

Lá embaixo, Emanuel sentiu a umidade gelada penetrar em suas calças jeans. O espaço era apertado para um homem do seu porte. Ele avançou agachado, sentindo algo viscoso sob as botas.

— Vem cá, bichinho... — ele murmurou, tentando manter a voz calma para não assustar o animal.

O gato, porém, estava em pânico. Quando Emanuel estendeu a mão enluvada, o pequeno soltou um chiado e tentou recuar, quase caindo na água corrente.

— Calma... eu não vou te machucar.

— Ele pegou? — Eduarda perguntava lá em cima, sua cabeça aparecendo na abertura do bueiro, bloqueando parte da luz. — Manu, a água está subindo rápido!

— Eu estou tentando! — Emanuel gritou de volta, a irritação começando a superar a paciência. — Dá para calar a boca um segundo?

Ele fez um movimento rápido, ignorando o fato de que seu ombro roçava na parede coberta de limo. Suas mãos grandes envolveram o corpinho frágil. O gato cravou as unhas minúsculas na luva de couro e tentou morder, mas Emanuel o segurou com firmeza contra o peito.

— Peguei! — ele anunciou.

— Graças a Deus! — Eduarda exclamou, começando a pular de alegria na calçada, respingando lama em Sara.

— Ei! Cuidado com o meu scarpin, sua louca! — Sara protestou, limpando o sapato com um lenço de papel, furiosa. — Emanuel, sai logo desse buraco! Você está parecendo um mendigo!

Emanuel levantou o gato acima da cabeça, entregando-o nas mãos trêmulas e ansiosas de Eduarda. Assim que o animal foi içado, ele apoiou as mãos na borda e se impulsionou para fora, saindo do bueiro com um salto pesado.

Ele estava um desastre. Sua camiseta branca estava manchada de marrom e verde, suas calças estavam encharcadas até os joelhos e havia uma teia de aranha pendurada em sua orelha.

Eduarda não se importou. Ela se jogou nos braços dele, ainda segurando o gatinho contra o pescoço.

— Você é meu herói, Manu! Meu herói!

Emanuel a abraçou por um segundo, mas logo a afastou, sentindo-se desconfortável com a própria sujeira.

— É, um herói que perdeu o primeiro tempo do jogo e provavelmente pegou leptospirose — ele resmungou, mas o brilho de gratidão nos olhos de Eduarda suavizou seu humor.

Sara se aproximou, analisando-o de cima a baixo com uma expressão de puro julgamento.

— Você está deplorável, Emanuel. Realmente vulgar. Esse cheiro... — Ela fez uma careta, mas então, de forma inesperada, estendeu a mão e tirou a teia de aranha do cabelo dele. — Mas tenho que admitir, você fica bem fazendo o papel de salvador. Só não espere que eu encoste em você antes de três banhos de desinfetante.

— Vamos para casa — Emanuel sentenciou. — Duda, leva esse bicho para a lavanderia. Sara, liga para o veterinário de plantão.

— Eu? — Sara arqueou a sobrancelha. — Eu não sou secretária de felinos.

— Sara — Emanuel disse, num tom que não aceitava discussões —, liga agora.

— Tá, tá... — ela resmungou, pegando o iPhone. — Mas eu vou cobrar esse favor em dobro. Aquela viagem para as Maldivas acaba de ganhar mais três dias de bônus.

De volta à cobertura, o caos se transferiu da rua para a área de serviço. Eduarda, com uma paciência infinita, usava toalhas mornas para secar o gatinho, que agora ronronava baixinho, exausto. Hades observava tudo de longe, com uma expressão de profunda confusão por ver um novo intruso no seu território.

Emanuel saiu do banho vestindo apenas uma calça de moletom, o cabelo ainda úmido. Ele caminhou até a cozinha, onde Sara estava terminando de pedir comida por um aplicativo, já que o jantar no restaurante fora cancelado.

— O gato vai sobreviver? — Emanuel perguntou, servindo-se de um uísque puro.

— Segundo a "Doutora Eduarda", ele é um guerreiro — Sara respondeu, guardando o celular. — Ela já deu nome para ele. "Sorte". Original, não?

Emanuel soltou uma risada curta, sentando-se no banco da bancada.

— Pelo menos ela parou de chorar.

— Ela parou, mas agora você tem um problema maior — Sara disse, aproximando-se dele e deslizando as mãos pelos seus ombros largos, ignorando o fato de que ele ainda cheirava levemente a sabonete antisséptico. — Ela vai querer ficar com ele. E você sabe que o Oliver não vai gostar nada de dividir o trono com um plebeu de bueiro.

— Eu não vou ter três animais nesta casa, Sara. Já basta o Hades e o Oliver.

— Manu! — Eduarda apareceu na porta da cozinha, os olhos brilhando. — O veterinário disse que ele só está com frio e fome! Ele é tão fofo... a gente não pode deixar ele voltar para a rua, pode?

Emanuel olhou para Sara, que apenas deu de ombros, um sorriso irônico nos lábios.

— Viu? Eu te avisei.

— Eduarda, a gente conversa sobre isso amanhã — Emanuel tentou desconversar.

— Por favor, Manu... — Ela se aproximou, abraçando a cintura dele e olhando-o de baixo para cima, com aquele jeito manhoso que sempre o desarmava. — Ele salvou a sua vida hoje, de certa forma. Ele te tirou daquela poltrona rabugenta.

— Ele quase me deu uma infecção generalizada, isso sim — Emanuel corrigiu, mas acabou passando a mão pelo cabelo dela. — Tá bom. O gato fica até a gente achar um lar.

— Que vai ser aqui, para sempre — Sara completou, servindo-se de vinho. — Aceita, Emanuel. Você perdeu o controle desta casa no momento em que deixou a Eduarda entrar com aquele olhar de cachorrinho caído da mudança.

Emanuel suspirou, olhando para as duas. Eduarda, a personificação da sensibilidade e do carinho, e Sara, a força prática e provocadora. Elas eram como o dia e a noite, e ele estava preso no crepúsculo eterno entre as duas.

— O jogo acabou? — ele perguntou.

— Seu time perdeu de dois a zero — Sara informou, com uma satisfação maldosa. — Enquanto você estava chafurdando na lama, eles estavam levando gols.

Emanuel fechou os olhos e encostou a cabeça no balcão.

— Eu devia ter ficado na cama.

— Ah, não reclama — Eduarda disse, beijando-lhe a bochecha. — Você foi incrível hoje. E olha, eu fiz chocolate quente para a gente.

— Chocolate quente? — Sara perguntou, fazendo uma careta. — Eu quero algo com álcool e que não tenha sido feito em uma panela que a Eduarda provavelmente usou para esquentar leite para o gato.

— Eu lavei a panela, Sara! — Eduarda protestou, rindo.

Emanuel observou-as começarem a discutir sobre a higiene da cozinha, uma discussão que em breve evoluiria para quem ocuparia qual lado do sofá. Ele sentia o cansaço nos ossos, o estresse do resgate e a frustração da derrota do seu time, mas ao olhar para o pequeno "Sorte" dormindo em um cesto improvisado na lavanderia, e para suas duas mulheres seguras e vibrantes em sua sala, ele sentiu uma estranha satisfação.

Ele era o mestre de um império de estúdios, um homem rico e poderoso, mas sua verdadeira fortuna — e seu maior desafio — estava ali. Entre o esgoto e o luxo, entre a timidez e a vulgaridade, Emanuel percebeu que sua vida nunca seria pacífica enquanto tivesse Eduarda e Sara ao seu lado.

E, no fundo, ele não queria que fosse de outro jeito.

— Emanuel? — Sara chamou, sentada no sofá com as pernas cruzadas, exibindo as coxas torneadas. — Vem logo. A Eduarda quer assistir um documentário sobre gatos renascentistas e eu preciso de você aqui para me ajudar a convencê-la a ver um filme de ação com muita explosão.

— Eu não vou ver documentário de gato hoje — Emanuel decretou, caminhando até elas.

— Viu, Duda? O rei falou — Sara celebrou.

— Mas Manu... — Eduarda começou, preparando o biquinho.

Emanuel sentou-se entre as duas, puxando uma para cada lado, sentindo o calor de seus corpos e a complexidade de seus amores.

— Hoje, a gente vai ver o que eu quiser — ele disse, com a voz carregada de autoridade. — E se alguém reclamar, o próximo gato que cair no bueiro vai ter que ser resgatado pela Sara.

Sara empalideceu e Eduarda soltou uma risadinha. O silêncio finalmente reinou na cobertura, quebrado apenas pelo som da chuva batendo nas janelas de vidro e pelo ronrom distante de um gatinho que, contra todas as probabilidades, encontrara o lar mais caótico e luxuoso de São Paulo. Emanuel finalmente relaxou, percebendo que, às vezes, para encontrar a paz, era preciso primeiro mergulhar na lama.