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O Veredito do Sangue e do Coração

O silêncio que se seguiu à partida barulhenta da caminhonete de Emanuel era mais ensurdecedor do que os gritos de minutos atrás. No quarto de hóspedes da fazenda, o ar parecia rarefeito. Eduarda estava sentada na beirada da cama, os olhos inchados e o vestido azul — agora um símbolo de sua ruína — amarrotado contra o corpo. À sua frente, sua mãe, Helena, e sua tia Margarida, mãe de Emanuel, a observavam. A tia Odete havia sido levada para a sala por outros parentes, em meio a uma crise de nervos que envolvia sais de cheiro e exclamações sobre a "honra da família".

— Duda... — Helena começou, a voz trêmula, aproximando-se da filha. Ela estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar o ombro da jovem. — Eu... eu sinto muito pelo tapa. Eu perdi o controle. O choque foi... foi demais para mim.

Eduarda não levantou o olhar. Uma lágrima solitária pingou no tecido azul.

— Vocês me olham como se eu fosse um monstro — sussurrou a menina, a voz embargada. — Mas eu sou a mesma pessoa de ontem. Eu ainda amo a história da arte, ainda gosto de silêncio e ainda sou a filha que vocês criaram. A única diferença é que agora vocês sabem quem eu amo.

Margarida suspirou, sentando-se em uma cadeira de balanço próxima. Ela parecia ter envelhecido dez anos em uma hora. O desapontamento com o filho primogênito era uma ferida aberta, mas a visão de Eduarda, tão pequena e devastada, começava a amolecer a crosta de julgamento que a moralidade rígida da fazenda impunha.

— Nós não te achamos um monstro, querida — disse Margarida, com uma sinceridade cansada. — Mas você precisa entender o nosso lado. Emanuel é um homem feito, ele tem uma vida complexa, uma namorada que... bem, a Sara é uma força que mal compreendemos. Ver você, nossa menina doce, envolvida nisso... e daquela forma...

— Daquela forma é como as pessoas que se amam ficam, tia — Eduarda finalmente a encarou, os olhos brilhando com uma coragem nova, nascida do desespero. — O Emanuel me protege. Ele me ouve. Ele me faz sentir que eu não sou apenas uma peça de decoração da família Albuquerque. E a Sara... ela sabe. Ela aceita. Por que vocês não podem aceitar?

Helena trocou um olhar longo com Margarida. Elas eram mulheres de uma geração de transição; modernas o suficiente para aceitar divórcios e carreiras, mas ainda presas ao conceito de linhagem e à imagem pública. No entanto, o amor pelas crias era o fio mais forte.

— Eu vi como ele olhou para você no celeiro — Helena admitiu, sentando-se ao lado da filha e, finalmente, envolvendo-a em um abraço. — Não era o olhar de um predador, como a Odete está gritando na sala. Era o olhar de um homem que morreria para proteger o que é dele. Eu só... eu tenho medo por você, Duda. Como você vai viver dividindo um homem com uma mulher como a Sara? Como vai encarar seu pai?

— Eu prefiro uma vida complicada ao lado dele do que uma vida perfeita e vazia ao lado de um estranho como o Rodrigo — Eduarda respondeu, escondendo o rosto no ombro da mãe.

Enquanto isso, a quilômetros dali, Emanuel parou o carro no acostamento de uma estrada de terra deserta. Ele estava com a testa encostada no volante, as mãos ainda trêmulas. Sara, ao seu lado, retocava o batom vermelho no espelho do quebra-sol, a calma em pessoa.

— Você vai ter um infarto antes dos trinta se continuar guardando essa pressão toda, Manu — comentou ela, fechando o estojo de maquiagem com um clique seco.

— Eu deixei ela lá, Sara. Eu deixei a Duda naquele ninho de cobras — ele rosnou, olhando para o celular como se esperasse uma sentença de morte.

— Você não deixou — Sara corrigiu, virando-se para ele. — Você deu espaço para as leoas conversarem. Acredite em mim, a sua mãe e a mãe dela são muito mais perigosas que a Odete, mas elas também amam vocês. Se você tivesse ficado, a briga seria sobre "respeito". Com você longe, a briga é sobre "sentimento".

O celular de Emanuel vibrou. O nome na tela o fez prender a respiração: *Mãe*.

— Atende logo, antes que você quebre o aparelho com esse aperto — ordenou Sara.

Emanuel atendeu no viva-voz.

— Alô? Mãe?

— Emanuel — a voz de Margarida era firme, mas não havia mais o ódio de antes. — Volte para a fazenda. Agora.

— Se for para ouvir sermão ou ver a tia Odete insultar a Duda, eu não vou — ele respondeu, o tom defensivo subindo instantaneamente.

— Não é para isso — Margarida interrompeu. — Eu e Helena conversamos com a Eduarda. E conversamos entre nós. Não vou dizer que aprovamos, porque seria mentira, e seu pai e seu tio ainda estão em estado de choque na biblioteca. Mas... nós não queremos perder nossos filhos por causa de uma tradição que já está morrendo. Venha buscar a Eduarda. E traga a Sara.

Emanuel olhou para Sara, que apenas arqueou uma sobrancelha loira, vitoriosa.

— Estamos indo — disse ele, desligando o telefone e arrancando com o carro, fazendo os pneus fritarem no cascalho.

Ao chegarem na sede da fazenda, o cenário era de um funeral que foi interrompido por um milagre indesejado. O carro de Rodrigo não estava mais lá; o pretendente havia fugido assim que os gritos começaram. Na varanda, os homens da família — o pai de Emanuel, Ricardo, e o pai de Eduarda, Paulo — fumavam em silêncio, uma imagem de derrota e confusão.

Sara saltou do carro primeiro, caminhando com seus saltos altos e seu vestido chamativo como se estivesse entrando em um de seus escritórios. Emanuel vinha logo atrás, a expressão fechada, pronto para o combate físico se fosse necessário.

Eles entraram na sala de estar. A tia Odete estava sentada no sofá, com um lenço úmido na testa. Ao ver Emanuel e Sara, ela se levantou como se tivesse visto o próprio demônio.

— Como você ousa voltar aqui? — ela gritou, a voz estridente. — Ricardo, Paulo! Façam alguma coisa! Expulsem esses... esses pecadores!

— Cale-se, Odete! — Ricardo, o pai de Emanuel, disse, entrando na sala. Ele era um homem de poucas palavras, mas sua voz carregava o peso de uma bigorna. — Já chega de escândalo por hoje. Você já falou o suficiente.

— Eu falei o suficiente? Eles estavam se esfregando no feno! — Odete apontou para Emanuel. — E essa... essa mulher aí aceita ser trocada por uma menina que tem metade das curvas dela! É uma pouca vergonha!

Sara parou diante de Odete. Ela era alguns centímetros mais alta, especialmente com os saltos, e sua presença parecia preencher o cômodo, diminuindo a tia amargurada.

— Escuta aqui, "titia" — Sara disse, a voz baixa e perigosamente doce. — A única pouca vergonha aqui é a senhora tentar vender a sua sobrinha para um agrônomo qualquer só para garantir um contrato de exportação de gado. Eu sou formada em administração e conheço os números desta fazenda melhor do que a senhora conhece a Bíblia que finge ler. Se eu quisesse, destruiria o crédito desta propriedade em uma tarde. Então, abaixe o tom e sente-se. Os adultos vão conversar agora.

Odete abriu a boca, chocada, mas o olhar gélido de Sara a fez murchar. Ela se afundou no sofá, resmungando sobre o fim dos tempos.

Emanuel ignorou a tia e focou nos pais. Helena desceu as escadas trazendo Eduarda pela mão. A menina parecia terrivelmente pequena, mas quando viu Emanuel, seus passos se tornaram mais firmes. Ela correu os últimos degraus e se jogou nos braços dele. Emanuel a apertou contra si, escondendo o rosto em seus cabelos castanhos.

— Você está bem? — ele sussurrou.

— Agora eu estou — ela respondeu, a voz trêmula.

Paulo, o pai de Eduarda, aproximou-se. Ele era um homem de livros, de intelecto, e a imagem da filha naquela situação ainda o perturbava profundamente.

— Emanuel — Paulo começou, pigarreando. — Eu não entendo isso. Não entendo como você pode amar minha filha e manter essa vida com... — ele gesticulou para Sara.

— Tio Paulo — Emanuel disse, sem soltar Eduarda —, não me peça para explicar com palavras o que eu sinto. Eu cuido da Duda desde que éramos crianças. O sentimento mudou, cresceu, e se tornou algo que eu não consigo controlar. Eu sei que é um escândalo. Eu sei que somos primos. Mas eu sou um homem rico, tenho poder e tenho como garantir que ela nunca sofra com o julgamento de ninguém lá fora.

— E você, Sara? — Ricardo perguntou ao filho, mas olhando para a loira. — Você é a namorada oficial. Você mora com ele. Como permite isso?

Sara caminhou até Emanuel e Eduarda, colocando a mão no braço de ambos, formando um círculo que excluía o resto da família.

— O Emanuel é o meu parceiro — Sara explicou, a vulgaridade dando lugar a uma clareza cortante. — Ele é o único homem que consegue me acompanhar. E a Eduarda... ela é o que falta em nós dois. Ela é a suavidade que eu não tenho e a paz que o Emanuel não encontra no trabalho. Nós não somos um casal convencional, e nunca seremos. Mas nós somos leais. Eu prefiro o Emanuel com a Eduarda do que o Emanuel mentindo para mim com uma estranha.

Helena deu um passo à frente, limpando uma lágrima.

— Nós decidimos que não vamos proibir — disse a mãe de Eduarda. — Proibir só vai fazer vocês fugirem e nós nunca mais veremos nossa filha. Mas eu quero que você saiba, Emanuel, que se você a magoar, se essa "dinâmica" de vocês destruir a saúde mental dela... eu mesma te caçarei.

— Eu nunca vou magoá-la, tia Helena — Emanuel prometeu, a voz solene como um juramento.

— Isso é um absurdo! — Odete gritou do sofá, incapaz de se conter. — Vocês estão aceitando isso? Estão aceitando que eles vivam em pecado sob o mesmo teto? O que eu vou dizer para as minhas amigas do clube?

— Diga a elas que a nossa família é forte o suficiente para cuidar dos seus, Odete — Ricardo sentenciou, dando as costas para a irmã. — E se não gostar, a porta da fazenda está aberta para você também.

O silêncio que se seguiu foi de aceitação amarga, mas real. O patriarca havia falado.

Emanuel olhou para Eduarda e depois para Sara. O peso que ele carregava nos ombros há meses parecia ter diminuído, embora soubesse que o caminho à frente seria cheio de espinhos. O julgamento da sociedade seria implacável, e a convivência entre a força de Sara e a fragilidade de Eduarda exigiria dele um equilíbrio de mestre.

— Vamos para casa? — Emanuel perguntou a Eduarda.

— Por favor — ela respondeu, olhando para os pais uma última vez. Helena acenou com a cabeça, um gesto de "vá, mas volte".

Eles caminharam para a saída. Sara ia na frente, balançando os quadris com a confiança de quem havia vencido uma guerra. Emanuel levava Eduarda pela mão, protegendo-a com seu próprio corpo.

Ao chegarem no carro, Sara abriu a porta traseira para Eduarda.

— Entre, santinha. Você precisa de um banho de espuma e de um vinho que não tenha gosto de poeira de fazenda.

Eduarda sorriu, um sorriso pequeno e genuíno, e entrou no banco de trás. Emanuel sentou-se no banco do motorista e Sara ao seu lado.

Enquanto o carro se afastava da sede, Emanuel olhou pelo retrovisor e viu as figuras de seus pais e tios diminuindo na varanda. A fazenda Albuquerque ficava para trás, com seus segredos de família e suas tradições de sangue. À frente deles, a estrada levava de volta à cidade, ao império de tinta e metal que Emanuel construíra.

— Você está bem mesmo, pequena? — Emanuel perguntou, olhando para Eduarda pelo espelho.

— Estou — ela disse, encostando a cabeça no banco e fechando os olhos. — Pela primeira vez em muito tempo, eu não sinto que estou escondendo nada.

— É — Sara comentou, acendendo um cigarro eletrônico e soltando uma nuvem de fumaça perfumada. — A verdade liberta, mas faz um estrago danado na decoração. Agora, Manu, acelera essa banheira. Eu tenho uma reunião com Tóquio às oito e você tem uma noiva de mentira para consolar e uma namorada de verdade para recompensar por ter salvo sua pele.

Emanuel riu, uma risada rouca e aliviada. Ele acelerou o carro, sentindo que, apesar do caos, ele finalmente tinha tudo o que precisava sob o mesmo teto. O traço estava feito, a tinta estava fresca, e a obra de arte que era a vida deles três estava apenas começando a ganhar suas cores mais vibrantes e proibidas.