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Marcas de uma Entrega Profunda

A cobertura de Emanuel na capital era um santuário de vidro, aço e luxo minimalista, um contraste absoluto com o calor rústico e sufocante da fazenda dos Albuquerque. Ali, o som constante da cidade lá embaixo servia apenas como ruído de fundo para a vida que os três haviam consolidado. O escândalo da fazenda ainda ecoava em jantares de família tensos e telefonemas monossilábicos, mas dentro daquelas paredes, a tríade havia encontrado seu ritmo.

Sara administrava o império de tatuagens com uma mão de ferro e unhas impecavelmente pintadas de neon, enquanto Eduarda, agora no último ano de História da Arte, trazia uma suavidade que ancorava o estresse de Emanuel. Mas algo estava mudando no equilíbrio delicado de Eduarda. A proximidade com a força avassaladora de Sara e a intensidade bruta de Emanuel começava a despertar nela uma sede que a doçura não conseguia mais saciar.

Naquela noite de sexta-feira, o ar no quarto principal estava carregado. Emanuel havia chegado exausto de uma convenção internacional, os ombros pesados pela responsabilidade de gerir dezenas de estúdios. Sara estava em uma videochamada com o setor financeiro de Madri no escritório ao lado, sua voz firme e autoritária filtrando-se pela porta entreaberta.

Eduarda esperava por ele na cama, vestindo uma camisola de seda branca que parecia flutuar sobre sua pele pálida. Quando Emanuel entrou, desabotoando a camisa preta e revelando as tatuagens que subiam pelo seu peito como trepadeiras de tinta, ele viu a prima — sua pequena Duda — observando-o com um olhar que ele nunca tinha visto antes. Não era apenas carinho; era uma expectativa faminta.

Ele se aproximou, sentando-se na borda do colchão. Suas mãos grandes, marcadas pelo trabalho e pela arte, envolveram o rosto dela com a cautela de quem segura um cristal raro.

— Você está tão quieta hoje, pequena — sussurrou ele, roçando os lábios na testa dela. — Aconteceu alguma coisa na faculdade?

— Não — respondeu Eduarda, a voz saindo mais firme do que o habitual. Ela segurou os pulsos dele, sentindo a força dos tendões por baixo da pele. — Eu só cansei de ser tratada como se fosse quebrar, Manu.

Emanuel franziu o cenho, o instinto protetor falando mais alto.

— Eu te trato com cuidado porque eu te amo. Porque você é o meu lugar seguro.

Eduarda sorriu, um sorriso pequeno que não chegou aos olhos sensíveis. Ela se ajoelhou na cama, ficando na altura dele, e começou a desabotoar o restante da camisa dele com movimentos lentos.

— Às vezes, o lugar seguro é um tédio, Emanuel — ela murmurou, aproximando o rosto do dele. — Às vezes, eu quero que você me mostre o homem que o mundo vê. O homem que comanda, o homem que marca a pele das pessoas com agulhas e dor.

Emanuel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele tentou manter o controle racional, a postura de mediador que sempre assumia entre as duas mulheres de sua vida.

— Duda, você não sabe o que está pedindo. Eu sou um trator, lembra? A Sara vive me dizendo isso. Eu não quero te machucar.

— Então me descontrole — provocou ela.

O que se seguiu foi uma dança de descoberta e quebra de limites. Emanuel começou a beijá-la com a ternura de sempre, mas Eduarda o repeliu suavemente, empurrando-o para trás. Ela se posicionou sobre ele, as mãos pequenas batendo levemente no peito dele, um desafio silencioso.

— Mais forte, Manu — ela pediu, a voz manhosa, mas carregada de uma urgência sombria.

— Pequena, não...

— Me bate — ela interrompeu, os olhos fixos nos dele. — Eu quero sentir o peso da sua mão. Eu quero que você deixe de ser o meu primo cuidadoso por um minuto e seja apenas o meu dono.

Emanuel sentiu o estresse acumulado de semanas, a irritação com os negócios e a tensão reprimida desde o episódio na fazenda convergirem para um único ponto de pressão. Ele tentou resistir, mas Eduarda deu um tapa fraco no rosto dele, um golpe que não doeu fisicamente, mas que estraçalhou sua última barreira de autocontrole.

Ele a inverteu na cama com uma rapidez que a fez soltar um arquejo de surpresa. Suas mãos prenderam os pulsos dela acima da cabeça, e o olhar de Emanuel mudou. O brilho cansado deu lugar a uma intensidade animal, quase predatória.

— Você tem certeza disso, Eduarda? — ele rosnou, a voz vibrando de uma forma que a fez estremecer de prazer. — Porque se eu começar, eu não vou conseguir parar para te perguntar se você está bem a cada segundo.

— Eu nunca tive tanta certeza de nada — ela respondeu, arqueando o corpo em direção ao dele.

O quarto tornou-se um campo de batalha de sentidos. Emanuel não era mais o protetor; ele era a força da natureza que Sara sempre descrevia. Seus tapas eram ritmados, pesados contra a pele macia das coxas e das nádegas de Eduarda, deixando marcas avermelhadas que contrastavam com a alvura dela.

— Mais forte! — ela implorava, as unhas cravadas nos braços tatuados dele. — Não para, Manu. Mais forte!

Ele se descontrolou. A racionalidade foi varrida pelo êxtase de ver Eduarda, a menina tímida e sensível, florescer sob a sua agressividade controlada. Cada golpe dele era respondido com um gemido de puro deleite por parte dela. Ela provocava, chamando-o de nomes que nunca ousaria dizer fora daquele quarto, instigando o lado mais primitivo de Emanuel.

Naquele momento, eles não eram primos, não eram herdeiros de um escândalo familiar. Eram apenas carne, desejo e a necessidade mútua de uma entrega que transcendia o carinho. Emanuel a possuía com uma ferocidade que a deixava sem fôlego, marcando-a não com tinta, mas com a pressão de seus dedos e o impacto de suas mãos.

A porta do quarto se abriu silenciosamente. Sara estava parada ali, ainda com a roupa de trabalho, mas com o cabelo loiro levemente desarrumado. Ela observou a cena por alguns instantes. Não havia choque em seu rosto, apenas uma observação clínica e um brilho de aprovação nos olhos. Ela conhecia aquele lado de Emanuel; era o lado que ela mesma frequentemente invocava. Ver Eduarda se render àquela escuridão apenas confirmava o que Sara sempre soube: a santinha tinha um abismo dentro de si.

Sara não interrompeu. Ela apenas encostou-se no batente da porta, cruzando os braços, assistindo ao clímax daquela entrega. Quando o silêncio finalmente voltou, interrompido apenas pela respiração pesada e descompassada de Emanuel e pelos soluços baixos de prazer de Eduarda, Sara entrou no quarto.

— Finalmente — comentou Sara, sua voz irônica cortando o ar carregado. — Achei que vocês iam passar a vida inteira brincando de casinha de bonecas.

Emanuel se afastou de Eduarda, desabando ao lado dela, o corpo suado e exausto. Ele olhou para as próprias mãos, sentindo uma ponta de culpa que a adrenalina ainda tentava mascarar. Eduarda, porém, estava radiante. Ela se encolheu no peito de Emanuel, um sorriso de satisfação absoluta nos lábios.

— Você viu, Sara? — Eduarda perguntou, a voz fraca, mas feliz.

— Eu vi, pequena — Sara aproximou-se da cama, sentando-se do outro lado e passando a mão pelos cabelos suados de Eduarda. — Você está um desastre. E amanhã vai estar pior.

— Eu não me importo — murmurou Eduarda, fechando os olhos.

Na manhã seguinte, a luz do sol de sábado inundou o quarto. Emanuel acordou primeiro, sentindo o peso habitual da responsabilidade. Quando ele se virou e viu Eduarda dormindo profundamente, o coração dele deu um salto doloroso.

A pele dela, antes impecável, estava coberta de hematomas. Marcas roxas e avermelhadas adornavam suas coxas, seus braços e a curva de seu quadril. Onde ele a havia segurado com força, agora havia sombras escuras. Ela parecia ter sobrevivido a um acidente, mas a expressão em seu rosto era de uma paz angelical.

Emanuel sentou-se na cama, passando as mãos pelo rosto. A culpa que ele reprimira na noite anterior voltou com força total. Ele era o protetor dela, o homem que jurou à tia Helena que nunca a magoaria. E ali estava ela, marcada por ele.

— O que eu fiz? — sussurrou ele para o quarto vazio.

Sara entrou no quarto, segurando duas xícaras de café forte. Ela usava um robe de seda transparente, a vulgaridade elegante de sempre. Ela olhou para Eduarda e depois para a expressão de agonia de Emanuel.

— Pare com isso, Emanuel — disse ela, entregando-lhe uma xícara. — Essa cara de enterro não combina com você.

— Olhe para ela, Sara! — ele apontou para os hematomas. — Eu perdi a mão. Eu a machuquei de verdade. Se a mãe dela vir isso... se a faculdade vir...

— Ela pediu, Emanuel — Sara tomou um gole de café, imperturbável. — E ela amou. Você não viu o rosto dela ontem? Ela não é uma vítima. Ela é uma mulher que descobriu o que gosta. Aquelas marcas ali? Para ela, são troféus.

— São manchas, Sara. Eu sinto que sujei algo que era puro — Emanuel levantou-se, andando de um lado para o outro.

— Puro é chato — Sara rebateu, levantando-se e parando na frente dele. — Você é um tatuador, Manu. Você vive de marcar as pessoas. Por que é tão difícil aceitar que você marcou a alma dela ontem também? Ela precisava disso para se sentir real, para deixar de ser a "Dudinha" e ser a mulher do Emanuel.

Nesse momento, Eduarda começou a se mexer. Ela abriu os olhos devagar, sentindo o corpo dolorido. Cada movimento trazia um lembrete da noite anterior, e ela soltou um gemido que não era de dor, mas de lembrança.

— Manu? — ela chamou, a voz rouca.

Emanuel correu para o lado dela, sentando-se na cama com os olhos cheios de preocupação.

— Duda, me desculpa. Eu... eu não devia ter ido tão longe. Olha o seu corpo, pequena. Eu sinto muito.

Eduarda olhou para os próprios braços, observando os hematomas que começavam a escurecer. Ela passou os dedos sobre uma marca roxa em sua coxa e, para a surpresa de Emanuel, ela sorriu. Um sorriso largo e genuíno.

— Não peça desculpas — ela disse, puxando a mão dele e beijando as juntas dos dedos que a haviam golpeado. — Eu nunca me senti tão viva. É como se... como se agora eu fizesse parte de você de verdade. Como se eu tivesse uma das suas tatuagens, mas por dentro.

Emanuel olhou de Eduarda para Sara. A loira deu de ombros, com um olhar de "eu te avisei".

— Viu só? — Sara comentou. — Agora, levante-se, santinha. Temos um brunch com uns colecionadores de arte às onze e você vai ter que usar mangas compridas e uma gola alta se não quiser que chamem a polícia para o nosso rei das agulhas.

Eduarda riu, levantando-se com dificuldade, sentindo cada músculo protestar. Ela caminhou até o espelho de corpo inteiro, observando sua imagem. O contraste entre seu rosto doce e os hematomas brutais em seu corpo era chocante, mas para ela, era a prova de que ela podia suportar a intensidade de Emanuel.

— Eu vou usar aquele vestido de lã bege — decidiu Eduarda. — Ele esconde tudo.

Emanuel se aproximou dela, abraçando-a por trás diante do espelho. Ele beijou o topo da cabeça dela, mas seus olhos ainda carregavam uma sombra de preocupação.

— Eu ainda vou cuidar de você, Duda — ele prometeu ao reflexo. — Mesmo quando você me pedir para não cuidar.

— Eu sei que vai — ela respondeu, recostando-se nele. — Mas agora eu sei que você também pode me libertar.

A dinâmica entre os três havia subido um degrau perigoso e inebriante. Sara administrava o mundo exterior, Emanuel construía o império e protegia o núcleo, e Eduarda, em sua nova descoberta, tornava-se o solo fértil onde as sombras de ambos podiam descansar.

Enquanto se preparavam para o dia, o segredo dos hematomas sob o vestido de lã bege tornou-se mais um elo na corrente que os prendia. Para o mundo, eles eram um tatuador de sucesso, sua namorada exuberante e sua prima protegida. Mas entre quatro paredes, as marcas na pele de Eduarda eram o testemunho silencioso de que a pureza havia sido trocada por algo muito mais real, visceral e, para eles, infinitamente mais belo.