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O Altar das Verdades Esquecidas

A estrada para o interior de Minas Gerais parecia mais curta do que da última vez, talvez porque, agora, o peso do segredo não estivesse mais esmagando o peito de Emanuel. No banco do carona, Sara retocava o batom em um tom de vinho profundo, usando o espelho do quebra-sol como se estivesse se preparando para uma batalha. Atrás, Eduarda observava as montanhas passarem, os dedos entrelaçados sobre o vestido de seda verde-esmeralda que Emanuel insistira em comprar para ela.

— Manu, se a sua tia Odete começar com aquele olhar de quem está vendo o apocalipse, eu juro que derrubo o chapéu dela com um "acidente" de champanhe — comentou Sara, fechando o estojo de maquiagem com um estalo seco.

— Ela não vai fazer nada, Sara — Emanuel respondeu, embora apertasse o volante com um pouco mais de força. — Meu pai já deu o ultimato. Hoje é o casamento da Marcela. Ninguém vai querer estragar a festa da filha favorita da família.

— Eu não me importo com a Odete — Eduarda disse, sua voz doce mas com uma nota de firmeza que não possuía meses atrás. — Eu só não quero que olhem para você como se você tivesse feito algo errado, Manu.

Emanuel olhou pelo retrovisor, encontrando os olhos sensíveis da prima.

— O que eles pensam não muda o que eu sinto, Duda. E hoje, nós entramos juntos. Os três.

Quando a caminhonete preta estacionou diante da pequena igreja de pedra, o burburinho já era alto. O casamento de Marcela, prima de Emanuel e Eduarda, era o evento do ano na cidade. Carros de luxo dividiam espaço com picapes empoeiradas. Emanuel saltou, ajustando o paletó cinza-chumbo que moldava seus ombros largos. Ele abriu a porta para Sara, que desceu exibindo pernas bronzeadas e um decote que desafiava a gravidade e os bons costumes da paróquia. Em seguida, estendeu a mão para Eduarda.

A jovem hesitou por um segundo, sentindo o frio na barriga, mas o toque firme de Emanuel a ancorou.

— Pronta? — perguntou ele.

— Pronta — sussurrou ela.

Eles caminharam em direção à entrada. Emanuel no centro, Sara à sua direita, com o braço entrelaçado ao dele em um gesto de posse absoluta, e Eduarda à esquerda, segurando a mão dele de forma mais discreta, buscando a proteção que sempre fora dela.

O silêncio não veio. O que veio foi um murmúrio de reconhecimento.

— Olha só — disse um dos amigos de infância de Emanuel, que bebia cerveja perto da escadaria. — Não é que o lobo finalmente trouxe a ovelha para o bando?

Emanuel franziu o cenho, esperando um insulto, mas o rapaz apenas riu e levantou o copo.

— Já era tempo, Manu! A gente apostava na escola quando é que você ia parar de fingir que a Duda era só "a priminha".

Eduarda piscou, surpresa. Eles continuaram caminhando, e a cada passo, a reação era a mesma. Primos distantes, vizinhos de fazenda e velhos amigos da família acenavam com sorrisos cúmplices. Não havia o horror que Dona Odete previra. Havia, na verdade, uma sensação de "finalmente".

— Eu não entendo — murmurou Eduarda, enquanto entravam na recepção, um salão decorado com flores do campo e luzes quentes. — Eles não estão chocados?

— Duda, querida — Sara disse, pegando uma taça de espumante de uma bandeja que passava —, o mundo não é o quarto da sua mãe. Todo mundo que tem olhos via o jeito que o Emanuel rosnava se qualquer garoto chegasse a menos de dois metros de você desde que você tinha doze anos.

— É verdade — concordou uma voz masculina atrás deles. Era Rodrigo, o agrônomo que a família tentara empurrar para Eduarda meses antes.

Emanuel ficou rígido instantaneamente, colocando o braço ao redor da cintura de Eduarda. Rodrigo, porém, levantou as mãos em sinal de paz, um sorriso honesto no rosto.

— Calma, Emanuel. Eu não estou aqui para brigar por território. Na verdade, eu vim pedir desculpas.

— Desculpas pelo quê? — Emanuel perguntou, a voz rouca e desconfiada.

— Por ter aceitado aquela ideia absurda das nossas tias — Rodrigo suspirou, olhando para Eduarda. — Duda, você é linda e incrível, mas no primeiro jantar, eu percebi que não havia espaço para mim. Onde quer que você estivesse, seus olhos procuravam o Emanuel. E o jeito que ele te olhava... bom, eu não queria ser o cara que morre em um duelo com um tatuador rico.

Eduarda corou, mas sorriu.

— Obrigada por dizer isso, Rodrigo.

— De nada. E Sara — Rodrigo acenou para a loira —, você é uma mulher de sorte. Ou de muita coragem. Provavelmente os dois.

Sara deu uma risada alta, aquela risada vulgar e vibrante que Emanuel tanto amava.

— Eu sou o motor desse navio, Rodrigo. Alguém tem que manter esses dois românticos com os pés no chão.

A festa seguiu, e o que Emanuel temia que fosse um campo de batalha provou ser uma celebração de aceitação. Os amigos da família, homens e mulheres que viram os dois crescerem grudados, viam a relação como algo natural. "Eles sempre foram um só", ouviu Emanuel de uma antiga babá da família. "O sangue só confirmou o que o coração já tinha desenhado".

No entanto, o verdadeiro teste ainda estava por vir. No centro do salão, Dona Odete e as outras matriarcas observavam a cena com lábios apertados. Margarida e Helena, as mães, estavam em um canto, conversando em voz baixa.

Emanuel conduziu as duas mulheres até elas.

— Mãe. Tia Helena — disse ele, mantendo a postura firme.

Helena olhou para a filha. Viu o vestido esmeralda, viu a maquiagem leve que não escondia a nova confiança no olhar de Eduarda. Viu como ela se apoiava em Emanuel, mas também como ela e Sara trocavam olhares de cumplicidade feminina.

— As pessoas estão falando, Emanuel — disse Helena, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma resignação cansada.

— Estão falando que já era hora, tia — Emanuel rebateu suavemente. — Ninguém aqui parece achar que estamos cometendo um crime. Só vocês.

Margarida deu um passo à frente, ajustando a gravata do filho.

— Talvez porque nós vivemos em uma bolha de medo, meu filho. O mundo mudou mais rápido do que a nossa capacidade de entender que o amor nem sempre segue as linhas que a gente traça no papel.

— Então vocês não estão mais bravas? — Eduarda perguntou, aproximando-se da mãe.

Helena suspirou e puxou a filha para um abraço.

— Eu ainda acho que você é nova demais, e ainda acho que essa configuração de vocês vai dar um nó na cabeça de muita gente. Mas olhar para você agora... você não parece mais aquela menina que estava sempre prestes a desabar. Você parece inteira.

— Eu estou inteira, mãe. Porque eu não preciso mais esconder as partes de mim que pertencem a ele.

Sara, que observava tudo com uma distância respeitosa, aproximou-se e tocou o braço de Helena.

— Eu cuido dela, Helena. Do meu jeito torto e vulgar, mas cuido. E o Emanuel... bom, ele é o que é. Mas ele nunca vai deixar nada faltar a ela. Nem a mim.

Helena olhou para a loira siliconada, para a mulher que representava tudo o que ela fora ensinada a desaprovar. E, pela primeira vez, viu a lealdade feroz que brilhava nos olhos de Sara.

— Eu sei que cuida, Sara. Eu vi o que você fez no celeiro. Você protegeu a nossa família de um escândalo maior do que o que estamos vivendo agora.

A música mudou para uma valsa lenta. Emanuel olhou para as duas.

— Eu quero dançar. Com as duas.

— Aqui? — Eduarda hesitou. — Manu, todos estão olhando.

— Que olhem — disse ele.

Emanuel conduziu Eduarda para a pista de dança primeiro. Ele a segurou com delicadeza, girando-a pelo salão. Os olhares estavam neles, mas não eram olhares de pedra; eram olhares de curiosidade e, em muitos casos, de admiração pela coragem. Eduarda encostou a cabeça no peito dele, sentindo as batidas do coração que batia por ela.

— Eu te amo — ela sussurrou.

— Eu te amo, pequena.

Depois de alguns minutos, Emanuel estendeu a mão para Sara, que estava na borda da pista, vigiando-os como uma rainha em seu trono. Ela aceitou a mão dele e, em um movimento fluido, os três se uniram na dança. Emanuel no meio, segurando a mão de Eduarda com a direita e a cintura de Sara com a esquerda.

Era uma imagem poderosa: o homem alto e sério, a loira exuberante e a morena delicada. Eles não eram um casal; eram um sistema. Um império construído sobre a verdade, a dor e a aceitação de que o amor não precisava ser simples para ser real.

— Olhe para a Odete — Sara sussurrou no ouvido de Emanuel, enquanto giravam. — Ela parece que engoliu um limão inteiro.

Emanuel olhou para o canto do salão e viu a tia, isolada em seu julgamento, enquanto o resto da família ria, dançava e aceitava a nova realidade dos Albuquerque.

— Deixe ela — Emanuel disse. — O tempo dela passou. O nosso está apenas começando.

A noite avançou entre brindes e risadas. Amigos de infância de Emanuel vinham dar tapas em suas costas, parabenizando-o não apenas pelo sucesso dos estúdios, mas pela "sorte de ter as duas mulheres mais bonitas da festa". A tensão que existia entre Eduarda e Sara parecia ter se dissolvido em uma parceria silenciosa. Sara ensinava Eduarda a lidar com a atenção, e Eduarda trazia a Sara uma humanidade que o mundo dos negócios muitas vezes tentava apagar.

Perto do fim da festa, os três se retiraram para a varanda do salão, fugindo do calor e do barulho. O ar da noite estava fresco, cheirando a jasmim e sereno.

— Sabe de uma coisa? — Eduarda disse, olhando para as estrelas. — Eu achei que hoje seria o pior dia da minha vida. Achei que seríamos expulsos, humilhados.

— As pessoas nos surpreendem, Duda — Emanuel comentou, puxando-as para perto de si. — Às vezes, o medo que a gente sente é apenas o reflexo do que a gente projeta. A maioria das pessoas só quer ser feliz, e elas reconhecem quando alguém tem a coragem de ser também.

— E quem não reconhece — Sara completou, acendendo um cigarro e soprando a fumaça para o céu —, que se morda de inveja. Porque, vamos ser sinceras, Manu, nós somos o assunto mais interessante que essa cidade já teve em cem anos.

Emanuel riu, sentindo o peso da exaustão, mas também uma paz profunda. Ele olhou para as tatuagens em suas mãos e depois para as duas mulheres ao seu lado. Ele era um homem prático, um homem de traços firmes e decisões lógicas, mas ali, no silêncio do interior, ele entendeu que a maior obra de arte que já criara não estava na pele de ninguém, mas na vida que eles três estavam construindo.

— Amanhã voltamos para a cidade — disse Emanuel. — Temos estúdios para gerir, faculdade para terminar e uma vida para viver.

— Mas hoje — Eduarda disse, pegando a mão de Sara e a de Emanuel —, hoje nós somos apenas nós.

Eles ficaram ali por um longo tempo, observando as luzes da festa diminuírem e o silêncio do campo retomar seu espaço. O escândalo da família Albuquerque não era mais um segredo sujo; era uma nova fundação. E enquanto caminhavam de volta para o carro, sob o olhar agora menos severo das matriarcas que observavam da janela, Emanuel soube que, não importava o que o mundo dissesse, ele nunca mais precisaria escolher.

Ele tinha a força e a suavidade. Tinha o controle e a entrega. Tinha Sara e tinha Eduarda. E, acima de tudo, ele tinha a liberdade de ser o homem que amava as duas, sem as amarras de um passado que não lhe servia mais. A tinta estava seca, o desenho estava pronto, e a moldura era o futuro que eles agora abraçavam, juntos e indomáveis.