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O Rio de Janeiro sob a Lente de Vidro
A chuva que os mantivera prisioneiros na fazenda finalmente cessara, deixando para trás um rastro de terra úmida e o cheiro doce de mato lavado. O Range Rover de Emanuel, agora consertado por uma equipe trazida especialmente da cidade, deslizava suavemente pela rodovia que cortava a serra. No banco de trás, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico da respiração das gêmeas. Ágata dormia profundamente, agarrada a um urso de pelúcia caro, enquanto Maya, num contraste que já se tornara rotina, mantinha os olhinhos castanhos fixos na nuca de Eduarda, que viajava no banco do passageiro.
Sara, sentada atrás com as filhas, observava a cena pelo retrovisor interno com um sorriso enigmático. Ela sabia que a dinâmica havia mudado. Emanuel, ao volante, mantinha uma mão firme no câmbio e a outra, ocasionalmente, buscava a mão de Eduarda sobre o console central.
— Então, querida — começou Sara, a voz cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina —, seus pais moram no Morumbi, mas você insiste em viver naquela república em Santa Teresa?
Eduarda virou-se levemente, o rosto ainda carregando a timidez que tanto encantava Emanuel.
— Eu amo meus pais, Sara, de verdade. Mas a faculdade de História da Arte no Rio é... é onde eu me encontrei. Santa Teresa tem uma alma que combina com o que eu estudo. As ladeiras, os ateliês, o cheiro de tinta e maresia.
Emanuel apertou levemente a mão dela, os dedos tatuados contrastando com a pele clara e macia de Eduarda.
— É uma distância considerável — comentou ele, o tom de voz denotando uma preocupação que beirava o controle. — São Paulo é o centro de tudo. Meus estúdios principais estão lá. A administração da Sara está lá.
— Mas a minha vida está no Rio, Emanuel — disse ela, com uma nota de firmeza que o surpreendeu. — Eu tenho apenas vinte anos. Preciso terminar meu curso.
— Ninguém disse que você não vai terminar — Sara interveio, ajeitando o cabelo loiro platinado. — Mas vamos ser práticas. A Maya não para de chorar desde que você saiu do campo de visão dela por cinco minutos para arrumar a mala. Você se tornou o calmante natural da minha filha, Eduarda. E eu não sou de abrir mão do que faz bem para a minha família.
Emanuel olhou para Eduarda, os olhos escuros e intensos.
— Eu vou para o Rio com frequência — disse ele. — Tenho um estúdio em Ipanema que precisa de uma reforma na gestão. Posso passar mais tempo lá.
— E eu posso gerenciar as agendas de lá também — completou Sara, com uma naturalidade desconcertante. — O Rio é ótimo para os negócios de tatuagem no verão. O que estamos propondo, Duda, não é que você abandone sua faculdade. É que você aceite que agora faz parte do nosso círculo.
Eduarda sentiu um frio na barriga. Não era medo, era a sensação de ser envolvida por uma teia de seda, cara e inquebrável.
— Eu não sei se consigo lidar com tudo isso — sussurrou ela, olhando para a paisagem que passava rápido.
— Você não precisa lidar com nada sozinha — Emanuel respondeu, levando a mão dela aos lábios e beijando os nós de seus dedos. — Eu cuido da logística. A Sara cuida da estrutura. Você só precisa ser você. E cuidar da Maya.
O desembarque no Rio de Janeiro, dias depois, foi um choque de realidade para Eduarda. Ela estava acostumada com a vida simples de estudante: ônibus lotados, café barato na cantina e noites em claro estudando barroco brasileiro. Mas Emanuel não fazia nada de forma simples.
Ele alugara uma cobertura em frente à Praia do Flamengo, alegando que precisava de "espaço para as meninas". Na verdade, era um bunker de luxo, com vista para o Pão de Açúcar e segurança vinte e quatro horas.
— Isso é demais, Emanuel — disse Eduarda, caminhando pelo mármore branco da sala enquanto ele carregava Maya, que imediatamente esticou os braços para a jovem.
— É o mínimo para que eu fique tranquilo enquanto estou em São Paulo — ele justificou, entregando a bebê a ela. — Sara e eu voltamos para SP amanhã cedo. Ágata vai com a gente, ela sente falta da rotina da escola. Mas a Maya... o pediatra concordou que o ar do Rio e a sua companhia vão fazer bem para esse refluxo nervoso dela.
Eduarda olhou para a bebê em seu colo. Maya sorriu, uma covinha aparecendo na bochecha, um reflexo doce da seriedade do pai.
— Você está me deixando aqui com ela? — perguntou Eduarda, o coração acelerado. — Sozinha?
— Sozinha não — a voz de Sara veio da varanda. Ela usava um biquíni minúsculo sob uma saída de praia de seda, segurando uma taça de espumante. — Tem uma equipe de babás de apoio, segurança na porta e um motorista à sua disposição. Eu estarei aqui toda quarta-feira para conferir as contas e ver como as coisas estão. E o Emanuel... bom, ele provavelmente vai inventar desculpas para estar aqui de sexta a segunda.
Sara caminhou até Eduarda e tocou seu ombro. O perfume dela era forte, caro, uma mistura de baunilha e algo metálico.
— Não tenha medo, querida. Nós estamos investindo em você. Você é a peça que faltava para o Emanuel relaxar. E um Emanuel relaxado produz mais, ganha mais e me dá menos dor de cabeça na administração.
— Você fala como se fosse um negócio — disse Eduarda, sentindo-se pequena diante daquela mulher siliconada e poderosa.
— A vida é um negócio, Duda — Sara piscou, irônica. — O amor é apenas o bônus que faz a gente não querer pedir demissão.
Naquela noite, após Sara se recolher com Ágata, Emanuel e Eduarda ficaram sozinhos na varanda. O Rio de Janeiro brilhava abaixo deles, um colar de luzes refletido no mar escuro.
— Você está assustada? — perguntou ele, abraçando-a por trás, as mãos grandes espalmadas sobre o ventre de Eduarda.
— Um pouco — confessou ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Tudo aconteceu tão rápido. Na semana passada eu estava na casa dos meus avós preocupada com uma prova de História da Arte Medieval. Hoje, eu moro em uma cobertura e cuido da filha de um tatuador milionário.
Emanuel virou-a em seus braços, forçando-a a olhar para ele.
— Eu não sou um homem fácil, Eduarda. Eu sou possessivo, sou focado e meu mundo é barulhento. A Sara é a única que conseguia andar ao meu lado sem se perder. Mas você... você é o lugar para onde eu quero voltar quando o barulho fica alto demais.
— E a Sara? — perguntou ela, a voz trêmula. — Ela realmente não se importa?
— A Sara é prática — Emanuel riu baixo, um som rouco. — Ela sabe que eu a amo. Ela sabe que ela é a fundação do meu império. Mas ela também sabe que eu sou humano. E que eu encontrei em você algo que ela, com toda a sua competência, não consegue me dar. Ela te vê como uma extensão da nossa família, não como uma ameaça.
— Eu sinto que estou vivendo um sonho que pode virar pesadelo a qualquer momento — murmurou Eduarda.
— Eu não vou deixar — prometeu ele, selando a promessa com um beijo lento.
As semanas seguintes foram um borrão de adaptação. Eduarda ia para a faculdade de manhã, acompanhada pelo motorista, e voltava para a cobertura para encontrar Maya. A conexão entre a jovem e a bebê era algo quase místico. Maya parara de chorar sem motivo, ganhara peso e parecia florescer sob os cuidados carinhosos e as canções de ninar que Eduarda aprendera com sua própria avó.
No entanto, o contraste entre as duas vidas de Eduarda era gritante. Na faculdade, ela era a "Duda", a menina tímida de roupas leves e cadernos cheios de anotações. Na cobertura, ela era a protegida de Emanuel, cercada de luxos que ela não sabia como usar.
Certa tarde, enquanto estudava na varanda com Maya brincando em um tapete de atividades ao seu lado, o elevador privativo abriu. Não era Emanuel. Era Sara, carregada de sacolas de grifes famosas.
— Cheguei! — anunciou ela, jogando as sacolas no sofá de couro. — Credo, esse calor do Rio acaba com qualquer escova progressiva.
— Sara? Pensei que viria só amanhã — disse Eduarda, levantando-se.
— Mudei os planos. O Emanuel está em uma convenção em Miami, então decidi vir fazer um "check-up" em você e gastar um pouco do dinheiro dele — Sara aproximou-se e pegou Maya no colo, dando um beijo estalado na testa da filha. — Ela está linda, Duda. Você faz milagres.
— Ela é um doce, Sara. Só precisava de atenção.
Sara sentou-se na espreguiçadeira, observando Eduarda com um olhar clínico.
— Você continua usando essas roupas de camponesa, querida. O Emanuel gosta, eu sei, desperta o instinto de "tarzan" dele. Mas para o Rio? Precisamos de algo com mais... impacto.
— Eu me sinto bem assim — defendeu-se Eduarda.
— Eu sei que se sente. Mas você agora é a imagem da família também. Se alguém te fotografa com a Maya, vão achar que você é a babá, não a mulher do Emanuel.
— Mas eu não sou a mulher dele. Você é.
Sara soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.
— Querida, entenda uma coisa. Eu sou a sócia, a mãe da primogênita, a administradora e a mulher que assina os cheques. Eu sou a rainha. Mas você... você é a favorita do rei. E favoritas precisam de sedas, não de algodão cru.
Sara levantou-se e começou a tirar roupas das sacolas. Eram vestidos de seda, lingeries de renda francesa e sapatos que custavam mais do que o carro do pai de Eduarda.
— Experimente este — ordenou Sara, estendendo um vestido cor de pêssego, de um tecido tão fino que parecia água.
Eduarda, sem saber como negar, foi para o quarto e vestiu a peça. O espelho devolveu a imagem de uma mulher que ela mal conhecia. O vestido acentuava sua silhueta esguia, os seios médios e macios marcados sutilmente pelo tecido, e a cor realçava o castanho de seus olhos.
Quando voltou para a sala, Sara assobiou.
— Viu? É disso que eu estou falando. Você é uma obra de arte, Eduarda. Só precisava de uma moldura melhor.
— Eu me sinto... exposta — sussurrou a jovem.
— A exposição é o preço do poder — disse Sara, aproximando-se e ajeitando uma mecha do cabelo de Eduarda. — O Emanuel vai enlouquecer quando te vir assim. E eu vou adorar ver a cara dele.
A dinâmica entre as duas era estranha, mas funcional. Sara não sentia ciúmes porque sua autoconfiança era inabalável. Ela via Eduarda como um investimento bem-sucedido. Se Eduarda mantinha Emanuel feliz e Maya saudável, então Eduarda era um ativo valioso para a "Emanuel Tattoos Global".
Entretanto, para Eduarda, o peso era diferente. Ela amava as visitas de Emanuel, as noites em que ele chegava exausto e simplesmente se deitava com a cabeça em seu colo, deixando que ela massageasse suas têmporas enquanto ela falava sobre as pinturas de Caravaggio. Ela amava o jeito que ele a olhava, como se ela fosse a única coisa pura em seu mundo de tinta e negócios.
Mas ela também sentia a sombra de Sara. A presença da loira era constante, seja nas ligações diárias para conferir a agenda, seja nos presentes caros que chegavam sem aviso.
— Você acha que ele vai se cansar de mim? — perguntou Eduarda a Sara certa noite, enquanto as duas bebiam vinho na varanda, após Emanuel ter ligado dizendo que ficaria mais dois dias nos Estados Unidos.
Sara olhou para a taça, pensativa.
— O Emanuel não se cansa do que é essencial, Duda. Ele se cansa do que é fútil. Eu me tornei essencial para o bolso e para a mente dele. Você se tornou essencial para o coração e para a paz dele. Enquanto você mantiver essa sua essência doce e manhosa, ele nunca vai te soltar. Ele é um colecionador, lembra? Ele quer o melhor de todos os mundos.
— E se eu quiser mais? E se eu quiser ser a única?
Sara sorriu, um sorriso triste que Eduarda nunca vira antes.
— Então você não conhece o homem que ama. O Emanuel não é um homem de "uma coisa só". Ele é um império. E impérios não sobrevivem com apenas uma coluna. Eu sou a estrutura de ferro. Você é o jardim interno. Sem mim, ele desmorona. Sem você, ele seca.
Eduarda olhou para o horizonte, onde o sol começava a nascer atrás do Pão de Açúcar. Ela percebeu que sua vida no Rio de Janeiro não era apenas uma continuação de sua faculdade. Era o início de uma existência complexa, dividida entre o amor intenso e possessivo de um homem poderoso e a aceitação pragmática de uma mulher que não aceitava perder.
Quando o telefone de Eduarda vibrou, era uma mensagem de Emanuel.
"Chego em três horas. Quero você pronta. Senti falta do seu cheiro de lavanda."
Eduarda sorriu, sentindo o calor subir pelo rosto. Ela olhou para Maya, que acordava no berço eletrônico ao lado, e depois para Sara, que já estava no celular resolvendo uma crise em um estúdio de Londres.
Ela era a protegida, a amante, a babá de alma e a estudante. Ela era o equilíbrio precário de um mundo de gigantes. E, enquanto caminhava para pegar Maya no colo, Eduarda soube que, apesar da insegurança, ela não trocaria aquela cobertura de vidro e aquele amor dividido por nenhuma liberdade solitária em Santa Teresa.
O Rio de Janeiro era agora o seu palco, e o espetáculo estava apenas começando.