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O Silêncio de Vidro e o Som do Medo

O Rio de Janeiro sob o calor de uma terça-feira abafada parecia pulsar em uma frequência diferente. Na cobertura do Flamengo, o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido suave do ar-condicionado central. Eduarda estava sentada à mesa de jantar, cercada por livros de História da Arte e catálogos de exposições que precisava revisar para um seminário. Sem a presença de Maya, que viajara para São Paulo com Sara e Emanuel no dia anterior para uma consulta com um especialista em alergias pediátricas, o apartamento parecia vasto demais, quase vazio.

Ela sentia falta do peso morno da bebê em seu colo e do cheiro de lavanda que agora parecia impregnado em sua própria pele. Emanuel ligara duas vezes pela manhã, sua voz rouca e protetora preenchendo o vazio da sala. Ele odiava estar longe, mas Sara insistira que a logística de levar Eduarda para uma viagem de apenas vinte e quatro horas seria desnecessária, já que ela tinha provas finais.

Eduarda suspirou, apoiando o queixo na mão. Ela olhou para o celular, esperando uma foto de Maya, quando um ruído seco vindo do corredor do elevador privativo a fez congelar. Não era o som metálico de uma chave, mas um estalo abafado, como se algo tivesse sido forçado.

— Deve ser o vento no duto — sussurrou ela para si mesma, tentando acalmar o coração que já começava a martelar contra as costelas.

Ela se levantou e caminhou em direção à entrada, mas parou abruptamente. Através do vidro fosco que separava o hall interno da sala, ela viu uma sombra. Não era o porteiro, nem o motorista. Eram dois vultos escuros, movendo-se com uma precisão que não condizia com o ambiente de luxo.

O pânico subiu por sua garganta como um ácido. Eduarda recuou, seus passos silenciosos sobre o tapete persa. Ela sabia que os seguranças de Emanuel ficavam na guarita e no saguão, mas o prédio era um dos mais seguros da orla. Como eles haviam chegado ali?

Antes que pudesse processar a resposta, o vidro da porta lateral foi estilhaçado com um golpe seco.

— Não faça barulho, gracinha — disse uma voz grossa, enquanto um homem usando uma máscara tática entrava na sala. Ele segurava uma arma com silenciador. — Só queremos o que está no cofre do patrão.

Eduarda sentiu os joelhos fraquejarem. Sua natureza sensível e esquiva gritava para que ela desaparecesse, para que se tornasse invisível.

— Eu... eu não sei a senha — ela gaguejou, recuando até bater as costas na parede fria da varanda. — Eu só moro aqui.

O segundo homem entrou, revirando as gavetas do aparador de luxo com violência.

— Mentira. Você é a protegida do tatuador. Ele não deixaria o "brinquedinho" dele sem acesso. Abre a boca ou a gente resolve isso do jeito difícil.

Nesse exato momento, o celular de Eduarda, que ficara sobre a mesa de jantar, começou a vibrar. O visor brilhava com a foto de Emanuel segurando Maya.

— Ora, ora — o primeiro invasor pegou o aparelho. — O dono do império está ligando.

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Em São Paulo, no escritório envidraçado de seu estúdio principal, Emanuel sentiu um calafrio percorrer sua espinha antes mesmo de completar a ligação. Sara estava sentada à sua frente, revisando planilhas de faturamento, com Maya brincando silenciosamente em um cercadinho de luxo no canto da sala.

— Ela não atende — disse Emanuel, a voz carregada de uma tensão súbita.

— Calma, Manu. Ela deve estar no banho ou estudando — Sara respondeu sem tirar os olhos do iPad. — A Eduarda se perde naqueles livros de barroco.

Emanuel tentou novamente. Desta vez, a ligação foi atendida no terceiro toque, mas o silêncio do outro lado era pesado, sinistro.

— Duda? — Emanuel perguntou, levantando-se da cadeira. — Eduarda, responde.

— Ela está um pouco ocupada agora, patrão — uma voz desconhecida e distorcida soou pelo alto-falante.

Emanuel sentiu o mundo parar. Sara congelou, o iPad escorregando de suas mãos. Seus olhos se encontraram, e em um segundo, a máscara de administradora fria caiu, dando lugar à mãe leoa e à parceira de crimes.

— Quem é você? — perguntou Emanuel, sua voz descendo para um tom mortalmente calmo, o tipo de calma que precedia uma explosão de violência.

— Alguém que sabe que você guarda diamantes e dinheiro vivo nessa cobertura. Manda a senha do cofre ou a menina do Rio vai virar arte na parede.

Emanuel fechou os olhos por um breve segundo, tentando controlar o tremor de fúria em suas mãos.

— Se você tocar nela — disse ele, cada palavra saindo como um disparo —, não haverá lugar no mundo onde você possa se esconder. Eu tenho recursos que você nem imagina.

— Menos conversa, mais senha — o homem desligou.

Sara já estava ao telefone com a equipe de segurança tática do Rio. Seus dedos voavam pela tela, rastreando o sinal do celular de Eduarda.

— Emanuel, foca em mim — disse ela, a voz firme, embora estivesse pálida. — O grupo de intervenção está a cinco minutos de lá. Eles entraram pelo prédio vizinho, usaram o telhado. Foi um trabalho profissional.

— Eu vou para o aeroporto — Emanuel pegou a chave do carro, seus olhos fixos em Maya, que agora olhava para os pais com uma expressão de confusão, sentindo a angústia no ar.

— Não, você fica! — Sara gritou, levantando-se e segurando o braço dele. — Se você sair agora, vai bater o carro ou fazer algo estúpido. Eu estou coordenando a segurança. Eu conheço os protocolos. A Eduarda precisa de nós frios, Manu.

Emanuel socou a mesa de carvalho, a madeira estalando sob o impacto.

— Ela é sensível, Sara! Ela vai entrar em choque. Aqueles animais vão machucá-la só por prazer.

— A Eduarda é mais forte do que você pensa — Sara afirmou, embora houvesse uma dúvida em seu olhar. — Agora, liga de volta. Ganha tempo. Diz que a senha está em um arquivo criptografado que você precisa abrir.

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No Rio, Eduarda estava sentada no chão da sala, as mãos amarradas com abraçadeiras de nylon. O choro silencioso molhava seu vestido de seda pêssego, o mesmo que Sara a obrigara a usar para "se sentir poderosa".

— Por favor — ela sussurrou, olhando para o homem que vigiava a varanda. — Não precisa ser assim. O Emanuel vai dar o que vocês querem.

— Cala a boca! — o homem gritou, nervoso. Ele olhava para o relógio a cada dez segundos. — O sinal do prédio caiu. Alguma coisa está errada.

Eduarda fechou os olhos. Em sua mente, ela buscava a imagem de Maya. O cheiro de lavanda. A proteção dos braços de Emanuel. Ela percebeu que, se morresse ali, nunca diria a ele que, apesar de toda a confusão daquele relacionamento triplo, ela nunca se sentira tão amada.

Subitamente, um som de vidro quebrando veio da cozinha.

— O que foi isso? — o invasor se virou, apontando a arma.

O que se seguiu foi um borrão de movimento. Granadas de luz e som explodiram, cegando Eduarda momentaneamente. O som de tiros abafados preencheu o ambiente. Ela se encolheu, escondendo o rosto entre os joelhos, esperando o fim.

Sentiu mãos fortes segurando seus ombros.

— Senhorita Eduarda? Sou da equipe de segurança do senhor Emanuel. A senhora está segura.

Eduarda levantou o rosto, a visão ainda turva. Os homens de preto estavam por toda parte. Os invasores estavam no chão, imobilizados. Um dos seguranças cortou as abraçadeiras em seus pulsos.

— O Emanuel... — ela conseguiu dizer, a voz falhando.

O segurança entregou a ela o celular. A chamada de vídeo ainda estava ativa.

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Emanuel apareceu na tela. Ele estava suado, o rosto marcado pela agonia dos últimos dez minutos. Ao lado dele, Sara segurava Maya, que começara a chorar ao ouvir o barulho pelo telefone.

— Duda! — Emanuel gritou, sua voz quebrando. — Meu Deus, Eduarda, olha para mim. Você está ferida?

Eduarda pegou o celular com as mãos trêmulas. Ela viu o rosto de Emanuel, viu a preocupação feroz de Sara e, finalmente, viu o rosto de Maya.

— Eu estou bem — ela soluçou, as lágrimas caindo sem controle. — Eu estou bem, Manu.

— Eu estou indo para aí — disse ele, a determinação em seus olhos sendo substituída por um alívio avassalador. — Eu pego um jato agora. Sara vai ficar com a Maya e a Ágata em segurança, mas eu estou indo buscar você.

Sara aproximou-se da câmera, seu rosto sério, mas com um brilho de respeito.

— Você foi bem, Duda. Manteve a calma. Eu vi tudo pelas câmeras internas antes de eles as cortarem. Você não cedeu.

— Eu tive medo, Sara — confessou Eduarda, olhando para a sala destruída.

— O medo é para os vivos, querida — Sara respondeu, dando um beijo na bochecha de Maya e mostrando-a para a câmera. — Veja, a pequena sentiu que você estava em perigo. Ela não parou de chamar por você.

Maya esticou a mãozinha para a tela, balbuciando algo que soava como o nome de Eduarda.

— Eu te amo — Emanuel disse, ignorando a presença dos seguranças e de Sara. — Eu nunca mais vou deixar você sozinha, Eduarda. Nunca.

— Eu também te amo — ela respondeu, sentindo que, apesar da violência daquela noite, algo havia se solidificado entre eles.

Ela não era mais apenas a "favorita" ou a "doce menina do interior". Ela era a mulher que sobrevivera ao mundo de Emanuel.

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Três horas depois, o som do helicóptero pousando no heliponto do prédio anunciou a chegada do rei ao seu castelo ferido. Emanuel entrou na cobertura como um furacão, ignorando os peritos da polícia e os seguranças.

Ele encontrou Eduarda sentada no sofá, envolta em um cobertor de lã, bebendo o chá que Sara insistira para que os seguranças preparassem. Quando ela o viu, deixou a caneca cair e correu para seus braços.

Emanuel a levantou do chão, prendendo-a contra o peito com uma força que quase tirava seu fôlego. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, respirando o cheiro de lavanda que lutava contra o cheiro de pólvora no ar.

— Acabou — ele sussurrou, as lágrimas finalmente escapando de seus olhos. — Eu estou aqui.

Eduarda se afastou um pouco para olhar o rosto dele.

— A Sara e a Maya?

— Estão seguras em São Paulo, cercadas por um exército — ele disse, acariciando o rosto dela. — Mas a Sara me disse uma coisa antes de eu sair.

— O que ela disse?

— Que a cobertura não é mais segura para você. Que ela já comprou uma mansão no Jardim Botânico, com muros de três metros e segurança de embaixada. E que ela quer que você escolha a decoração, porque "você entende de arte".

Eduarda soltou uma risada fraca, uma mistura de alívio e incredulidade.

— Ela não perde tempo, não é?

— Ela sabe que eu não vou te deixar voltar para aquela república em Santa Teresa. E ela sabe que, depois de hoje, nós três somos um só. Quer ela queira, quer o mundo aceite ou não.

Emanuel a beijou com uma paixão desesperada, um beijo que selava o novo capítulo de suas vidas. Eles não eram uma família tradicional, e o mundo deles era marcado por perigos que Eduarda mal começava a entender. Mas, enquanto ela se aninhava no peito tatuado de Emanuel, ouvindo o coração dele bater forte por ela, Eduarda soube que estava exatamente onde deveria estar.

Ela era a doçura que equilibrava o império, a paz que Emanuel buscava e a alma que Sara protegia. E, no Rio de Janeiro, entre as sombras do medo e o brilho do luxo, o amor deles, complexo e inquebrável, finalmente encontrou seu lar definitivo.