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O Labirinto de Máscaras e Inocência

A luz da tarde filtrava-se pelas janelas do casarão antigo no bairro nobre de São Paulo, iluminando as pilhas de livros e catálogos que Eduarda espalhava pelo tapete da sala. Emanuel estava em Londres, resolvendo a abertura de mais dois estúdios, e Sara havia saído para um "dia de spa" com as amigas, o que significava que Eduarda tinha a casa — e o silêncio — só para ela.

Eduarda deslizou o dedo pelo convite de papel texturizado que recebera na faculdade. O design era minimalista: uma máscara veneziana estilizada em relevo prateado sobre um fundo preto fosco. "Exposição: O Corpo como Obra – Uma Perspectiva Carnal e Oculta". O endereço era uma vila isolada no Jardim Europa.

— "Uma perspectiva carnal"... — murmurou ela para si mesma, ajeitando os óculos de leitura. — Deve ser algo focado no Renascimento tardio ou talvez algo contemporâneo sobre a transitoriedade da carne. Que interessante.

Sua inocência era uma redoma de vidro. Para Eduarda, o mundo era um vasto museu; ela via arte onde outros viam perigo, e beleza onde outros viam malícia. Emanuel sempre dizia que ela precisava de um "choque de realidade", mas ao mesmo tempo, ele era o primeiro a polir aquela redoma para que nada a tocasse.

Ela escolheu um vestido de seda azul-marinho, fechado até o pescoço, com mangas bufantes e uma saia que ia até os joelhos. Prendeu o cabelo em um coque frouxo, deixando algumas mechas caírem sobre o rosto delicado. Não usou maquiagem, apenas um hidratante labial. Ela queria ser apenas uma observadora, uma estudante de História da Arte absorvendo cultura.

O táxi a deixou diante de um portão de ferro batido, onde dois homens corpulentos vestindo ternos impecáveis e máscaras de couro pretas guardavam a entrada. Eduarda sentiu um leve frio na barriga, mas sorriu gentilmente.

— Boa noite — disse ela, a voz mansa e educada. — Eu vim para a exposição da faculdade. Aqui está o convite.

Um dos homens analisou o papel e depois olhou para Eduarda. Seus olhos brilharam por trás da máscara, percorrendo o rosto angelical e o vestido recatado da jovem. Ele trocou um olhar rápido com o parceiro.

— Seja bem-vinda, senhorita — disse o segurança, a voz grave. — A "exposição" é nos salões principais. Por favor, coloque isto antes de entrar. É parte da experiência imersiva.

Ele estendeu uma máscara de seda branca, simples e elegante. Eduarda a aceitou, achando o conceito fascinante.

— Imersão... como no teatro de vanguarda — comentou ela, encantada, enquanto prendia a máscara atrás da cabeça.

Ao entrar, o som de um violoncelo melancólico preenchia o ar, misturado a um perfume intenso de sândalo e algo que ela não soube identificar, mas que era quente e inebriante. As luzes eram baixas, focadas em tons de vermelho e âmbar. O casarão era imenso, com tapeçarias pesadas e estátuas de mármore que pareciam observar os convidados.

Eduarda começou a caminhar pelos corredores. Ela via pessoas circulando, todas mascaradas. Os homens em trajes de gala, as mulheres em vestidos que desafiavam a gravidade ou apenas em lingeries de renda cobertas por capas transparentes.

— Puxa — sussurrou ela, parando diante de um nicho onde um homem e duas mulheres estavam muito próximos, os corpos entrelaçados em uma pose escultural. — Que performance realista. Eles mal se movem. Representam a luxúria de forma quase estática, como nas pinturas de Caravaggio.

Ela continuou andando, subindo as escadas para o segundo andar, onde as "obras" pareciam ficar mais intensas. Em uma sala lateral, a porta estava entreaberta. Eduarda espiou e viu um grupo de pessoas ao redor de uma cama circular. Os sons que vinham de lá eram gemidos baixos e o estalar de couro.

— Simbolismo puro — pensou Eduarda, o coração batendo um pouco mais rápido. — O sofrimento humano transformado em expressão corporal. É uma crítica à opressão, certamente.

Enquanto isso, a milhares de quilômetros dali, o celular de Emanuel vibrou sobre a mesa de mogno em um escritório envidraçado de Londres. Ele estava exausto, a pressão de gerenciar três estúdios simultaneamente o deixava no limite. Ele pegou o aparelho e viu a notificação do rastreador de segurança que ele, de forma possessiva e silenciosa, havia instalado no celular de Eduarda.

O ponto vermelho não estava na faculdade. Não estava em casa. Estava em um endereço que Emanuel conhecia muito bem. Um clube privado de elite, famoso por suas festas de altíssima voltagem sexual e trocas de casais.

— Mas que porra é essa? — Emanuel rosnou, levantando-se tão rápido que a cadeira giratória quase tombou.

Ele ligou para Eduarda imediatamente. O celular dela tocou dentro da bolsa de lona, mas o som do violoncelo e o burburinho das pessoas ao redor abafaram o toque. Ela não atendeu.

Emanuel sentiu o sangue ferver. O ciúme e o instinto protetor colidiram em seu peito. Ele ligou para Sara.

— Sara! Onde você está? — ele disparou assim que ela atendeu.

— No spa, querido. Por que os gritos? Estão fazendo minha unha e...

— Esquece a merda da unha! — Emanuel gritou, saindo do escritório e sinalizando para seu assistente cancelar a próxima reunião. — A Eduarda está no "L'Éden".

Houve um silêncio do outro lado da linha. Sara, que conhecia cada canto obscuro da noite de São Paulo, soltou um assobio longo.

— O clube de swing? A santinha? — Sara soltou uma gargalhada alta, genuína. — Emanuel, você deve estar vendo o mapa errado. A Duda não sabe nem o que é uma camisinha com sabor, como ela vai parar num lugar daqueles?

— Eu não estou brincando, Sara! — Emanuel estava entrando no elevador, a voz gélida. — O GPS não mente. Eu quero que você vá até lá agora. Tire ela de lá antes que alguém encoste um dedo nela. Se eu chegar no Brasil e descobrir que algum daqueles degenerados tocou nela, eu queimo aquele lugar com todo mundo dentro!

— Calma, "Papai Urso" — Sara disse, já se levantando da cadeira de massagem, a mente administrativa e prática assumindo o controle. — Eu vou lá. Mas se ela estiver se divertindo, eu vou ficar muito puta por ela não ter me convidado.

— SARA!

— Já estou indo, Emanuel! Credo, que estresse.

De volta ao casarão, Eduarda estava em transe artístico. Ela havia chegado ao salão principal, onde um balcão de bebidas servia coquetéis exóticos. Ela aceitou uma taça de algo borbulhante e rosado, achando que era apenas um suco sofisticado.

— Olá, pequena — disse um homem alto, vestindo uma máscara de lobo e nada além de uma calça de couro apertada. — Você parece perdida. Ou talvez esteja apenas esperando o convite certo?

Eduarda olhou para ele com seus olhos grandes e curiosos.

— Eu estou admirando a curadoria — respondeu ela, sincera. — A forma como vocês integram o corpo humano ao ambiente é audaciosa. É uma exposição itinerante ou fixa?

O homem-lobo inclinou a cabeça, confuso. Ele olhou para o vestido casto de Eduarda e para a expressão de absoluta inocência em seu rosto.

— Curadoria? — Ele riu, uma risada gutural. — Sim, podemos chamar assim. Eu sou o "Lobo". E você, qual é o seu papel nesta peça?

— Eu sou estudante de História da Arte — disse ela, estendendo a mão delicada para um aperto de mão formal. — Meu nome é Eduarda.

O homem pegou a mão dela, mas em vez de apertá-la, levou-a aos lábios, beijando a palma de forma lenta e sugestiva. Eduarda sentiu um arrepio, mas interpretou como "provocação estética".

— Você é uma joia rara, Eduarda — sussurrou o Lobo. — Quer ver a instalação nos quartos privativos? Temos uma performance de "shibari" que você vai achar... culturalmente enriquecedora.

— Shibari? A arte japonesa das amarras? — Os olhos de Eduarda brilharam. — Eu li sobre isso! É fascinante como eles usam a tensão das cordas para representar o equilíbrio entre força e entrega. Eu adoraria ver!

O homem sorriu, guiando-a pela cintura. Eduarda nem percebeu a mão dele descendo perigosamente para a curva do seu quadril.

Nesse exato momento, a porta principal do clube foi aberta com um estrondo. Sara entrou como um furacão loiro, usando um vestido de látex preto que ela mantinha no carro para "emergências" e sua melhor expressão de "eu sou a dona deste lugar".

— Saiam da frente, seus amadores! — ela gritou, empurrando um homem que tentou lhe oferecer uma máscara. — Eu não preciso de máscara, todo mundo aqui conhece meu rosto e o tamanho da minha conta bancária!

Ela percorreu o salão com o olhar treinado. Viu o Lobo guiando uma figura de azul-marinho em direção aos quartos.

— Mas não é possível... — Sara murmurou, incrédula. — Ela realmente está aqui. E está conversando com o Lobo como se estivessem num chá das cinco.

Sara caminhou decidida, saltos agulha estalando no mármore. Ela interceptou o casal na base da escada.

— Pode soltar a mercadoria, Lobo — Sara disse, cruzando os braços e fazendo os seios saltarem no decote. — Essa aí não sabe nem brincar de médico, quanto mais de alcateia.

O homem reconheceu Sara e recuou um passo, erguendo as mãos em sinal de rendição.

— Sara? Amiga sua? Ela disse que era historiadora.

— E ela é — Sara revirou os olhos. — Agora vaza antes que o dono da "peça" chegue e decida transformar sua cabeça num troféu de parede.

Eduarda olhou para Sara, surpresa e radiante.

— Sara! Você também veio para a exposição? Não é incrível? Eu não sabia que você se interessava por arte performática contemporânea!

Sara olhou para Eduarda, depois para o ambiente ao redor — um homem estava sendo chicoteado levemente por duas mulheres a poucos metros dali — e depois voltou para Eduarda.

— Duda... meu docinho de coco — Sara suspirou, pegando a jovem pelos ombros. — Isso aqui não é uma exposição da faculdade.

— Claro que é! — Eduarda pegou o convite na bolsa. — Olha aqui o símbolo da máscara. "O Corpo como Obra".

Sara pegou o papel, olhou e começou a rir.

— Duda, isso aqui é o convite do "L'Éden". É um clube de swing, troca de casais e fetiches. O "Corpo como Obra" é o tema da orgia de hoje, sua tonta!

Eduarda piscou, processando a informação. Ela olhou ao redor novamente. Viu o homem sendo chicoteado. Viu as mulheres se beijando no sofá. Viu o "Lobo" secando uma novata. O sangue subiu para suas bochechas em uma velocidade alarmante, tingindo seu rosto de um vermelho carmim.

— Swing? — sussurrou ela, a voz falhando. — Orgia? Mas... as amarras japonesas...

— É para amarrar e transar, Eduarda! Não é para fazer tese de doutorado! — Sara a puxou em direção à saída. — Vamos embora antes que o Emanuel tenha um aneurisma em Londres. Ele está monitorando seu celular e já deve ter contratado um exército de mercenários para invadir o bairro.

— O Manu sabe? — O pânico finalmente se instalou no rosto de Eduarda. — Ai, meu Deus... ele vai ficar furioso. Ele vai achar que eu... que eu queria...

— Ele sabe que você é uma tonta, Duda. O problema é que ele é um tonto possessivo — Sara parou perto da porta e pegou o próprio celular, atendendo a vigésima chamada de Emanuel. — Pronto, Papai Noel. Recuperei o presente. Ela está intacta, sem nenhum arranhão na lataria.

— Passa para ela — a voz de Emanuel do outro lado da linha era um trovão contido. — Agora.

Sara revirou os olhos e entregou o aparelho para Eduarda.

— É o seu dono. Boa sorte.

Eduarda pegou o celular com as mãos tremendo.

— M-Manu?

— Eduarda. O que você tem na cabeça? — A voz dele era baixa, o que era sempre pior do que quando ele gritava. — Você tem noção de onde você se meteu? Você tem noção do que poderia ter acontecido se a Sara não chegasse a tempo?

— Eu achei que era arte, Manu... — ela começou a chorar, a voz manhosa e quebradiça. — Tinha um convite na faculdade... eu queria aprender sobre o corpo... eu não sabia que as pessoas faziam essas coisas em grupo...

— Você não sai mais de casa sozinha, Eduarda. Entendeu? — Emanuel sentenciou. — Eu estou pegando o jato agora. Em doze horas eu estarei aí. E você vai me explicar, detalhe por detalhe, quem te deu esse convite.

— Mas Manu, foi um engano...

— Doze horas, Eduarda. Esteja na nossa cama. E Sara? — Ele esperou que a loira pegasse o telefone de volta. — Leva ela para casa. Se ela sumir da sua vista por um segundo, você também vai estar em apuros.

— Sim, senhor, capitão — Sara desligou, guardando o celular no decote. — Bom, Duda, parece que o seu castigo vai ser longo. Mas olha pelo lado positivo: você descobriu que o "Lobo" tem mãos macias, né?

— Sara! — Eduarda escondeu o rosto nas mãos, mortificada.

— Vamos logo. Vou passar no drive-thru e comprar um milk-shake gigante para você parar de tremer. E depois, querida, você vai ter que se preparar, porque o Emanuel irritado é um homem muito, muito difícil de satisfazer.

Enquanto caminhavam para o carro de Sara, Eduarda olhou uma última vez para o casarão. Sua visão de mundo havia mudado ligeiramente. A arte, afinal, era muito mais... suada do que os livros de História da Arte sugeriam. E Emanuel, a quilômetros de distância, socava a parede do escritório em Londres, dividido entre a fúria de querer trancá-la em uma torre e o desejo ardente de ser ele o único a mostrar para ela todas as "performances" que ela agora sabia que existiam.

A noite estava apenas começando, e o silêncio que se seguiria na mansão de Emanuel seria carregado de uma tensão que nenhuma máscara seria capaz de ocultar.