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D

O Peso do Controle e a Doçura do Caos

O som dos pneus do jato particular de Emanuel tocando a pista do aeroporto de Congonhas foi seco, assim como o humor dele. Durante as doze horas de voo sobre o Atlântico, ele não pregou o olho. A imagem de Eduarda, com sua inocência quase infantil, caminhando por um antro de perdição como o L’Éden, martelava em sua mente como uma britadeira. Emanuel era um homem de posses, de negócios e de controle, mas o que ele sentia por aquelas duas mulheres fugia de qualquer planilha de riscos.

Ao cruzar a porta da mansão, o silêncio era tenso. Ele jogou a maleta de couro sobre o aparador de mármore e soltou o nó da gravata com um puxão brusco.

— Eduarda! Sara! — O grito dele ecoou pelo pé-direito duplo da sala, carregado de uma autoridade que faria seus gerentes em Londres tremerem.

Sara surgiu no topo da escada, deslizando os dedos pelo corrimão com uma calma irritante. Ela usava um robe de seda preta, curto o suficiente para ser uma afronta, e segurava uma taça de vinho.

— Nossa, o dono do império chegou latindo — Sara comentou, descendo os degraus com um sorriso irônico nos lábios perfeitamente pintados. — Relaxa, Emanuel. A casa não caiu, e a sua joia rara continua sem nenhum arranhão.

— Onde ela está, Sara? — Emanuel perguntou, ignorando a provocação. Seus olhos estavam injetados, o rosto marcado pelo cansaço e pela fúria contida.

— Está no quarto, chorando um oceano e folheando um livro de gravuras religiosas, provavelmente tentando purificar a alma — Sara riu, aproximando-se dele e soprando o hálito de vinho em seu rosto. — Sinceramente, você devia me agradecer. Eu tirei ela de lá antes que o "Lobo" ensinasse para ela que o corpo humano tem utilidades bem mais interessantes que a estética renascentista.

Emanuel segurou o braço de Sara, não com força para machucar, mas com a firmeza de quem exigia respeito.

— Isso não tem graça, Sara. Ela poderia ter sido drogada, abusada ou coisa pior. Você sabe que tipo de gente frequenta aquele lugar.

— Eu sei, eu frequento, lembra? — Ela arqueou uma sobrancelha, desafiadora. — Mas a Duda é uma tonta. Ela realmente achou que as amarras eram uma instalação artística. Foi a coisa mais engraçada que eu já vi na vida.

Emanuel a soltou com um gesto de impaciência e subiu as escadas em direção ao quarto principal. Quando abriu a porta, encontrou a cena que já esperava. Eduarda estava encolhida no meio da cama imensa, vestindo um pijama de flanela com desenhos de nuvens, parecendo muito menor do que seus vinte anos sugeriam. Ao ouvir a porta, ela levantou o rosto banhado em lágrimas.

— Manu... — Ela soluçou, estendendo os braços como uma criança que busca proteção após um pesadelo.

Emanuel caminhou até ela, mas não a abraçou de imediato. Ele parou aos pés da cama, os braços cruzados, a mandíbula tão travada que os músculos de seu pescoço saltavam sob as tatuagens.

— Eu quero uma explicação, Eduarda. E quero agora. Como você foi parar naquele lugar?

— Eu juro que não sabia, Manu! — Ela disse, a voz manhosa e trêmula, aproximando-se dele de joelhos sobre o colchão até conseguir segurar a barra da camisa dele. — Deixaram o convite na mesa da biblioteca da faculdade... tinha o símbolo da máscara que a gente estuda em iconografia. Eu achei que era uma análise sobre a carne na arte contemporânea. Eu queria ser uma boa aluna, queria ter o que contar para você...

— Você queria ter o que contar? — Emanuel explodiu, afastando-se um passo. — Você quase se tornou a atração principal de uma festa de fetiche! Você tem noção do perigo que correu? Se o GPS não estivesse ligado, se a Sara não estivesse na cidade...

— Mas você sempre diz que eu preciso sair mais, que eu preciso conhecer o mundo! — Ela protestou, as lágrimas voltando a cair com força. — Eu só queria ver a arte, Manu. Eu não vi nada de mal até a Sara chegar e dizer aquelas coisas horríveis.

Emanuel passou a mão pelo cabelo, frustrado. A lógica dele batia de frente com a pureza quase patológica de Eduarda.

— Arte, Eduarda? Homens mascarados e mulheres seminuas se esfregando em você é arte agora?

Nesse momento, Sara entrou no quarto, encostando-se no batente da porta com um ar de entretenimento puro.

— Ah, deixa ela, Emanuel. A menina é autêntica na burrice. É o charme dela — Sara deu um gole no vinho, observando a cena. — Mas você também exagera. No fundo, você está é com ódio porque percebeu que não consegue trancar ela numa redoma de vidro pra sempre. O mundo lá fora é sujo, querido. E a sua santinha quase foi batizada na lama.

— Cala a boca, Sara! — Emanuel gritou, virando-se para ela. — Você não está ajudando.

— Eu já ajudei ontem, tirando ela da boca do lobo — Sara rebateu, entrando no quarto e sentando-se na poltrona de veludo. — Agora eu quero ver como você vai resolver isso. Vai colocar um cinto de castidade nela? Ou vai contratar dez seguranças para seguir ela até no banheiro da faculdade?

Eduarda, sentindo a tensão entre os dois, rastejou até a beira da cama e abraçou a cintura de Emanuel, escondendo o rosto em seu abdômen.

— Não briga com ela, Manu... a Sara foi boa comigo. Ela me deu milk-shake e não deixou ninguém me tocar depois que ela chegou. Não fica puto, por favor... eu estou com medo de você assim.

Emanuel sentiu o coração amolecer contra a própria vontade. O contato físico de Eduarda, aquele jeito carente e dependente, era sua maior fraqueza. Ele suspirou, colocando a mão sobre a cabeça dela, mas seu olhar permanecia fixo em Sara, que assistia a tudo com um sorriso de escárnio.

— Eu não estou bravo com você porque você é má, Duda. Estou bravo porque você é imprudente. Você vive nas nuvens e eu vivo aqui embaixo, limpando a sujeira que você nem vê.

— Então me protege, Manu... — ela sussurrou, olhando para cima com aqueles olhos grandes e úmidos. — Eu prometo que nunca mais vou a lugar nenhum sem te perguntar antes. Eu moro aqui com você se você quiser, eu faço o que você pedir, mas não olha pra mim desse jeito.

Sara soltou uma risada ruidosa.

— Viu só? O mestre do controle conseguiu o que queria. O susto foi tão grande que agora ela aceita até morar na sua masmorra particular. Parabéns, Emanuel. Você é um gênio da manipulação emocional, mesmo sem querer.

— Sara, eu estou no meu limite — Emanuel disse, a voz perigosamente baixa. — Eu passei doze horas num avião imaginando o pior. Se você não tem nada de útil para dizer, saia daqui.

— Ah, eu tenho algo muito útil — Sara se levantou, caminhando até eles com passos lentos e predatórios. Ela parou atrás de Emanuel, deslizando as mãos pelos ombros dele até encontrar as de Eduarda, que ainda o abraçava. — Eu acho que a Duda precisa aprender o que é o mundo real de um jeito seguro. E você, Emanuel, precisa descarregar esse estresse todo antes que tenha um infarto.

Ela se inclinou, sussurrando entre os dois.

— Por que não paramos com o drama? A Duda quer perdão, você quer controle e eu... bem, eu quero um pouco de diversão depois de ter passado a noite fazendo papel de babá.

Emanuel sentiu a pressão subir, mas desta vez era um tipo diferente de tensão. Ele olhou para Eduarda, que parecia confusa, mas submissa, e depois para Sara, que exalava uma confiança vulgar e magnética.

— Vocês duas vão me enlouquecer — Emanuel murmurou, fechando os olhos por um segundo.

— Já enlouquecemos — Sara mordeu o lóbulo da orelha dele. — Agora, por que você não mostra para a sua historiadora o que é "corpo como obra" aqui, no seu território?

Eduarda corou violentamente, mas não se afastou. Ela se sentia segura ali, no meio da tempestade que era a relação daqueles três. Emanuel, finalmente, soltou os ombros. A raiva ainda estava lá, um resíduo amargo de preocupação, mas o desejo de reafirmar sua posse sobre ambas era maior.

— Eduarda, vá para o banho — Emanuel ordenou, o tom de comando voltando, mas agora com uma nota de rouquidão. — E Sara... prepare o que você quiser. Eu não vou sair deste quarto até ter certeza de que vocês entenderam quem é que manda nesta casa.

— Sim, senhor — Sara sorriu, vitoriosa, puxando Eduarda pela mão. — Vamos, santinha. Vou te ajudar a tirar esse pijama de criança. Temos muito o que estudar hoje, e não tem nada a ver com livros velhos.

Eduarda olhou para Emanuel uma última vez, buscando aprovação. Ele apenas assentiu, observando as duas caminharem em direção ao banheiro principal. Ele se sentou na poltrona que Sara acabara de deixar, sentindo o peso do mundo diminuir um pouco.

Ele sabia que a paz era temporária. Sabia que a inocência de Eduarda voltaria a ser um problema e que a vulgaridade de Sara voltaria a testar sua paciência. Mas, naquele momento, enquanto ouvia o som da água correndo e as risadas provocantes de Sara misturadas aos protestos tímidos de Eduarda, Emanuel percebeu que, embora o controle fosse sua obsessão, era naquele caos compartilhado que ele realmente se sentia em casa.

Ele era o tatuador, o mestre das linhas permanentes, e aquelas duas eram as telas mais complexas que ele já ousara marcar. E ele não permitiria que ninguém, nem o Lobo, nem a faculdade, nem o mundo, tocasse em sua arte.

A noite em São Paulo estava apenas começando, e as luzes da mansão permaneceriam acesas por muito tempo, protegendo o segredo de um homem que possuía tudo, mas que só se sentia completo quando estava entre o céu e o inferno de suas duas mulheres.